12/07/2009

O Vestido Novo

Maria Eduarda e as irmãs escoltaram-na, numa excitação inocente, enquanto ela transportava para a mesa de jantar o bolo de aniversário, ao centro do qual se erguiam, muito empertigadas, as onze velas pequeninas.
Para as garotas, o cúmulo da festa seria o jantar à mesa, com os pais e os avós. Habitualmente tomavam as refeições na copa, muito ampla e fria, com a Mademoiselle. Uma vez por outra Maria Eduarda comia com os pais na sala de jantar – uma transigência de D. Maria Francisca – à pieguice do marido – mas a Mademoiselle permanecia na copa com as mais pequenas.
– Que bom, jantar hoje com os avós. E a Mademoiselle também janta connosco.
E as crianças cirandavam em volta da mesa, a querer ajudar a Joana na sua faina, para afinal só atrapalharem a rapariga.
– Joana, ponha oito lugares na mesa. Ponha os talheres de prata e os copos bons.
– Mas somos nove – observou Maria Eduarda para a mãe, com a sua voz infantil mas já pausada, de menina precocemente séria.
– Nove, como, não me dirás?
– Então a mãe e o pai, os avós e o tio, cinco, a Mademoiselle e nós três, nove.
– A Mademoiselle não janta connosco – disse D. Maria Francisca com secura.
E voltando-se para Maria Lucinda: – Não tem que levar a mal. É um jantar de família. Os meus pais quase que não a conhecem. E nem a mesa ficaria certa com nove pessoas.
Maria Lucinda sentiu que a vermelhidão lhe cobrira as faces. Tartamudeou: – Oh, minha Senhora, nunca pensei em incomodá-los!
Ainda ouviu a pequenita dizer para a mãe: – Mas eu gostava tanto, no dia dos meus anos, de jantar com a Mademoiselle...
Ela já se escapulira da sala de jantar, mas a voz cortante de D. Maria Francisca ainda a perseguiu no corredor: – Não diga disparates, cada um no seu lugar. Se tem muito gosto nisso, jante na copa com ela.
Maria Eduarda não insistiu com a mãe. Esta não se ensaiaria para lhe ferrar um sopapo e, acima de tudo, ela não queria por coisa alguma, no dia dos seus anos, ter de jantar na copa. Ficou calada, a olhar o bolo e as velas empertigadas e a pensar na Mademoiselle. A mãe devia ter razão. As mestras não podem comer com as pessoas crescidas à mesa. Maria Lucinda fechou à chave a porta do seu quarto, não fossem as pequenas vir interrompê-la. Queria-lhes muito, mas naquele momento não lhes poderia dar atenção. Não que tivesse alguma coisa para fazer.
Não tinha nada para fazer. Só tinha que voltar a pendurar o vestido, o vestido azul que tencionara estrear no jantar dos anos da Maria Eduarda. Tirou-o de cima da cama, onde o estendera com cuidado, e voltou a pendurá-lo no cabide e a guardá-lo no armário. Fechou a porta deste com extrema lentidão e enxugou duas lágrimas, com o lencinho amarrotado, na face que ainda lhe ardia. – Que disparate o seu: jantar com os donos da casa, com os srs. Condes, com o D. Miguel! Ela, a mestra das pequenas...
Para afastar do espírito as ideias disparatadas que a magoavam, encostou a testa ao vidro da janela do quarto, como se da vista lá de fora lhe pudesse vir distracção ou lenitivo para aquela sensação escaldante de vexame, para a dor absurda de não ser uma princesa vestida de azul, mas uma simples mestra de meninas.
Dos plátanos grandes, de folhagem espessa, caía sobre o pátio uma sombra muito fresca. Mas o dia quente ainda não morrera. O Sol inclinava-se para o biombo verde dos outeiros ondulados, mas resistia ainda, em espasmos de sangue, à queda que o sepultaria. Ela ficou por muito tempo naquela posição, sem saber bem no que pensava. Uma dorzinha fina verrumava-lhe a alma, por mais que ela teimasse em sacudi-la. Já não sentia o ardor nas faces. Talvez as lágrimas o tivessem mitigado.
O ruído dum automóvel que se aproximava quebrou, de repente, o silêncio bucólico em que nenhuma voz se erguia, em que ela só escutava, no segredo do seu coração, vozes indefinidas. O automóvel entrou o portão e por instantes ela viu-o rodar no pátio, até desaparecer sob o arco da frontaria. Percebeu que as crianças corriam ao encontro dos avós e do tio. Pudera relancear, num segundo, o vulto de Miguel ao volante do carro. – Até daqui a três semanas. – Não, ela não tinha nada que ir à sala cumprimentar as visitas. Talvez nem jantasse, para não ter que sair do quarto.
O verde dos outeiros adquirira, no cair da tarde, cambiantes azulados. O céu coloria-se de vermelho, como se o Sol, ao avizinhar-se da terra, pegasse fogo ao mundo. Um fogo que devorasse tudo: os pinheirais e o milho, os plátanos e a casa grande, o automóvel e as mobílias, o seu vestido azul, a sua vida inteira...

Joaquim Paço D’arcos, in Carnaval e Outros Contos