19/07/2009

O Senhor Milhões

O Senhor Milhões herdara seu nome e seus milhões de outro Senhor Milhões, filho de um Senhor Milhões, neto de outro Milhões.
Tinha dinheiro como milho. Cofres de moedas de ouro, baús de moedas de prata, caixotes de moedas de cobre.
Os seus lençóis eram feitos de notas de conto, muito bem cosidas umas às outras; seus guardanapos eram notas de quinhentos; e em vez de papel da retrete usava notas de cem.
Redondo como uma moeda, o Senhor Milhões tinha umas perninhas curtas, que nunca andaram mais do que o espaço que ia da cama ao salão, da casa de jantar à entrada do jardim. Tinha uns bracitos delgados, que nunca haviam pegado em nada mais pesado do que um talher de prata.
A casa era forrada de espelhos. Neles se via, belo, reluzente, de careca muito polida como uma bola envernizada, óculos de aros de ouro, dentes de ouro, alfinete de ouro na gravata, botões de punho de ouro e moedas de libras de cavalinho a fazer de botões. Da algibeira pendia-lhe um relógio de ouro, a que nunca dava corda, pois as horas para si eram todas iguais, e na ponta de uma corrente enorme tilintava um molho imenso de chaves de todos os tamanhos e formatos.
Possuía o Senhor Milhões um exército de criados: porteiros, motoristas, engraxadores, cozinheiros, limpadores de pó, enxotadores de moscas, jardineiros, carregadores, alfaiates, cultivadores do campo. Não faltavam sequer os capatazes, de chicote na mão, para os obrigar a trabalhar.
Em redor das suas terras, cercando as suas gentes, erguiam-se muros enormes, que ninguém podia transpor.
Mas certo dia, velho de centenas de anos, um dos portões enferrujou de todo. Foi preciso tirá-lo para o substituir.
Então os homens de fora espreitaram as imensas quintas, as searas curvadas ao peso do trigo, os trabalhadores curvados ao peso do trabalho desmedido. Viram as flores vermelhas e as caras pálidas de abatimento. O palácio de mármore e as cabanas de palha. O Senhor Milhões, à janela, coberto de ouro e os seus homens esfarrapados e descalços.
Também os criados do grande ricaço se espantavam com o mundo que lhes foi dado a ver: as casas com seus quintais, as caras com seus sorrisos, as lojas com suas compras e o dinheiro nas mãos daqueles que trabalhavam.
De repente, como se uma força os puxasse, os criados do Senhor Milhões começaram a sair para a rua. Primeiro, a medo, um a um, hesitantes; depois, aos pares, aos grupos, aos bandos, em aluviões. Largavam enxadas, mata-moscas, tesouras, martelos; abandonavam rebanhos, manadas de touros, coelheiras e capoeiras.
Cantavam e riam.
Habituado ao silêncio que nenhuma voz podia cortar, o Senhor Milhões surgiu à varanda. Atarantado, dava ordens e contra-ordens. Ninguém o ouvia.
Mandava chicotear, ordenava que prendessem.
Ninguém o ouvia.
Quando a noite desceu, estava sozinho com seus caixotes de moedas de cobre, baús de moedas de prata, cofres de moedas de ouro. Sentou-se à mesa - ninguém o serviu. Deitou-se - ninguém lhe apagou a luz.
Enrolou-se nos lençóis de notas de mil, assoou-se a uma nota de cinquenta e toda a noite esperou que os criados voltassem.
Mas quando o dia raiou, nem um passo rangia nas salas, nem um vulto ao longe se vislumbrava.
Então o Senhor Milhões, redondo, redondo como uma moeda, luzente, luzente como o seu ouro, sentou-se na poltrona dourada, cobriu-se de notas e deixou-se morrer de fome.


Luísa Ducla Soares, in O Meio Galo