11/07/2009

Inês


Uma história da América Central

A cidade chama-se Marcala. Mar-ca-la, um nome tão bonito como os gladíolos que aqui nascem espontaneamente nos prados.
Mas a casa onde me encontro sentada é cinzenta por fora e cinzenta por dentro porque é feita de adobe que não foi rebocado. Tem uma porta de tábuas e taipais de madeira. Quando se fecham, fica tudo completamente às escuras. Inclino a cabeça para trás e vejo brilhar o céu, através do telhado, em tiras azuis claras.
Quando chover, vai pingar aqui dentro! — penso eu. — O chão de terra vai ficar enlameado e a cama e a mobília molhadas.
A mobília: uma cama para toda a família, uma cadeira, dois escabelos, um banco, e uns pregos na parede onde estão penduradas algumas peças de roupa.
Hoje o sol está a brilhar. Estamos em meados de Agosto, altura em que, nas Honduras, a estação das chuvas faz uma pausa.
— É o Verão pequenino! — costumam dizer as pessoas.
Como há duas semanas que não chove, já torna a haver muito pó, mas também flores entre os tufos de erva. Juntamente com o céu azul e as galinhas brancas, formam um quadro muito bonito que vejo pela porta aberta.
Só que a casa cinzenta deprime-me. Cinzento não é uma cor. Cinzento é como estar triste. Tenho a impressão de que olho para isto tudo com um olhar de repreensão. Porque sou rica e nem penso nisso.
Na Áustria tenho uma casa sem buracos no telhado, uma banheira, uma máquina de lavar roupa, comprimidos para a dor de cabeça no armário dos medicamentos, férias todos os anos…
À minha volta estão sentadas uma dezena de mulheres e de raparigas que não possuem nada disto. Têm preocupações com os filhos doentes, não têm dinheiro para medicamentos nem para roupas e sapatos. Muitas delas há muito que não recebem notícias dos maridos, que moram noutras cidades, porque em Marcala há pouco trabalho.
Nesta tarde, reuniram-se para falarem dos seus problemas e para lerem, em conjunto, a Sagrada Escritura. Tive autorização para vir também. Trouxe-me uma amiga que trabalha numa organização de ajuda ao desenvolvimento.
O que as mulheres contam quase me parece impossível: acordar todos os dias às quatro da manhã, comer unicamente tortilhas de milho e moê-lo à mão; apanhar lenha para o fogão e cortá-la em pedaços pequenos; trabalhar arduamente no campo, ir buscar água para a família toda. À noite, remendar a roupa junto ao fogão de lenha, porque não há outra luz. Em seguida, cair morta de cansaço na cama — ou em cima de uma pele de vaca, pois nem todos têm cama.
— Os meus filhos não podem ir todos à escola — diz uma mulher. — Não têm roupa para se vestirem todos ao mesmo tempo.
— A minha filha tem doze anos e já trabalha numa plantação, se não, não podíamos viver — diz uma outra, já só com um dente na boca.
Uma menina que parece ainda ir à escola, conta:
— Eu fico sentada das seis da manhã às seis da tarde diante da máquina de costura. Trabalho em casa. Faço oito vestidos por dia e tenho de os entregar pontualmente. Até como sentada à máquina.
À minha frente está sentada a filha da dona da casa. Deve ter uns oito anos.
— Inês! — diz a mãe, esticando o queixo na direcção das galinhas que andam pelo quarto. Inês corre atrás das galinhas batendo palmas, e enxota-as para fora de casa. O irmãozinho, sempre agarrado ao seu vestido, deixou-o encostado ao banco, como um guarda-chuva. Parece ser um pouco parado. Enfiou a mão na boca e fica imóvel a chuchar nos dedos.
Inês senta-se novamente. Põe os braços à volta do irmão e, com o dedo grande do pé, espalma um monte de dejectos de galinha.
Sorrio-lhe. Inês retribui-me o sorriso. Levanta-se e vem sentar-se ao meu lado. O banquito é suficientemente largo para as duas.
Inês põe o irmão ao colo. Sinto-me lisonjeada, porque Inês é muito meiga. A sua cabeça fica à altura do meu ombro. Vejo os piolhos passearem-lhe na cabeça uns atrás uns dos outros. Deixei de sentir-me lisonjeada e começo a pensar como afastar-me de Inês.
A alguns metros de mim há uma cadeira vazia. Sento-me nela e fico contente por ninguém poder chegar-se agora à minha beira. Mas, ao mesmo tempo, envergonho-me. Então como é?! Falo de “amor ao próximo” e tenho medo de piolhos?
Talvez tenha magoado Inês. Ao lado dela, está agora sentado o irmão, ainda com a mão na boca.
Uma das mulheres lê em voz alta uma passagem da Bíblia, o Sermão da Montanha: Bem aventurados os que são pobres ao olhos de Deus... Reflecti muitas vezes nesta frase. Como compreendê-la para que também eu possa ser “bem-aventurada”? De cada vez que ouço o Sermão da Montanha, também tenho vontade de ser pobre, mas pobre de uma forma que não doa. Parece-me agora que Jesus, ao proferir esta frase, quis dizer exactamente o que ela diz: “… os que são pobres aos olhos de Deus.” Tal como estas mulheres são pobres, mas não se esquecem de Deus. Acreditam que o Seu reino há-de vir e que elas hão-de poder trabalhar nele.
E é disso que estão a falar.
— Mesmo quando estou cansada, levanto-me de noite, se alguém precisar de mim — está a dizer uma delas. — Não queremos usar de violência, principalmente porque sabemos a dor que causa.
— Devemos lutar pelos nossos direitos com meios pacíficos, mesmo que seja perigoso. Como os líderes dos agricultores de Orlanjo.
— Não devo desviar os olhos quando alguém é tratado com injustiça. Apesar disso, eu faço que, ignoro porque tenho medo.
As mulheres lembram-se de muitos exemplos das suas vidas. Nas suas vozes não há fingimento.
— A nossa horta comum também faz parte do reino de Deus, e também o sustentarmos os nossos filhos quando uma de nós adoece.
Enquanto isso, Inês fizera três tranças ao irmão. Remexe-se no escabelo para cá e para lá e por fim diz também:
— Eu fico a tomar conta do António, mas gostava mais de ir brincar…
Em cima da mesa está um gladíolo dentro de uma lata. Uma alegre mancha de cor, e só agora é que eu reparo nele. Será que foi Inês que o pôs lá?
Para terminar, as mulheres cantam uma canção “Yo tengo fé…” (Eu tenho fé)
Inês deita um olhar admirado à mãe. Talvez raramente a ouça cantar. Depois, Inês também canta. Não soa lá muito bem, mais parece uma galinha a cacarejar, mas canta entusiasmada.
As mulheres despedem-se.
— Anda comigo! — diz-me Inês. — Vou mostrar-te as nossas mangas!
Atrás da casa, há uma ladeira íngreme. A terra está fendida e esboroa-se sob os nossos pés. No cimo, está uma árvore cheia de frutos.
Inês abana um ramo. Segura na minha camisola, de forma a fazer uma bolsa, e põe as mangas lá dentro.
— Toma, são para ti!
Perdoa, Inês, por ter tido medo dos teus piolhos. E por, durante tanto tempo, não ter reparado no teu gladíolo.


Hannelore Bürstmayr
Lene Mayer-Skumanz (org.)
Hoffentlich bald
Wien, Herder Verlag, 1986