07/06/2009

O nome gordo de Isidorangela


Isidorangela era o nome da obesa moça. Nome gordo, ao travar da pena. Na rua, na escola, ela era motivo de riso. E havia razão para chacotear: a miúda sobravade si mesma, pernas rasas arrastando-se em passitos redondos e estofados. Para mais, um sorriso tolo lhe circunflectia o rosto. Ela e o planeta: dois círculos concêntricos. O “Monumento”, assim lhe chamávamos, nós os rapazes, era homenagem ao seu tamanho vasto e demorado.
Como pedra no charco, Isidorangela fazia espraiar uma onda de zombaria. Mas rir declarado e aberto ninguém podia, a moça era filha do presidente da câmara, Dr. Osório Caldas. Como meu pai dizia, o homem era a autoridade. “O nosso chefe”, assim era mencionado lá em casa. Meu pai reverenciava o presidente Osório como se dele dependessem os destinos do mundo. A minha mãe muito se apoquentava com tanta deferência, o presidente Osório isto, o chefe Osório aquilo.
- Poça, homem, até parece devoção estranha, coisa de amores homosensuais...
- Tenho pena dele, Marta. Pobre homem, deve sofrer com aquela filha.
Todo o fim do mês, o presidente levava Isidorangela ao baile do Ferroviário, mas ninguém nunca a convidara para dançar. Os outros bailavam, rodopiavam corpos, entonteciam corações. As moças passavam de mão em mão, todas bailadas, estontecidas. Só Isidorangela ficava sentada, chupando um interminável algodão-doce. Ela mesma parecia um algodão-de-açúcar, com seu vasto vestido de roda, toda em pregas rosáceas.
À medida do tempo, meu pai crescia em seus submissos modos, todo manteigoso e sempre arquitectando cumprimentos e favores. Minha mãe perdia paciência:
- Um dia ainda se casa com esse seu presidente!
E rematava: nunca pensei ter ciúme de um homem! Meu velhote devolvia sempre a mesma resposta. Nós, sendo mulatos, tínhamos sorte em receber as simpatias do chefe. Até uma promoção lhe havia sido prometida. Os pequenos esperam olhando para cima. Nem eu sonhava a quanto levaria meu pai esse desejo de agradar ao chefe.
Naquela tarde, de inesperado, ele me deu ordem que me penteasse, podendo até usar a sua brilhantina.
- Mas vou aonde, pai?
Não obtive esclarecimento. Meteu-me em roupa de estreia, escovou-me o casaco e me conduziu por entre as magras ruelas de nossa pequena cidade. À porta da residência - os pobres têm casa, os ricos têm residência, explicou-me meu pai - ele me mandou descalçar os sapatos.
- Vou entrar descalço, pai?
- Qual descalço? Vai é calçar estes.
Numa bolsa, ele trazia uns sapatos novos, sem vestígio de poeira. Nem eu nunca havia calçado sapatinhos tão pretos. Mal os coloquei me queixei, sofrido, que apertavam.
- Pois encolha os pés, você tem muita mania de se esticar- advertiu meu pai.
No seguimento, tocou à campainha com respeitos tais que seu dedo mal roçou o botão.
- Não chegou a tocar, pai - avisei.
Tocara, sim, eu é que não ouvira. E explicou, pronunciando um português que eu nunca escutara: aqui, nas residências finas, todo o mínimo é logo um barulho. E que eu nunca ruidasse enquanto em visita aos Caldas. E puxasse lustro ao meu melhor lusitano idioma.
Esperámos um infinito. Meu pai recusava-se a insistir. Os sapatos apuravam apertos sobre meus dedos. Eis que, enfim, uma cortina se move lá dentro e Dona Angelina espreita à porta. Entrámos, cheios de vénias, meu pai falando tão baixo que ninguém o conseguia entender. Angelina, a distinta esposa, nos fez entrar pelos salões recheados de mobílias e bugigangas. Instalado numa poltrona, o presidente pouco nos anfitriou. Um displicente aceno para meu pai e, de novo, o olhar recaiu sobre um jornal. A dona de casa explicou: o Dr. Osório estava acabando umas palavras cruzadas, havia que terminar antes que a energia eléctrica fosse. Sim, daí a pouco a tarde se adensaria e a luzinha fosca do petromax não seria suficiente para terminar o passatempo favorito do presidente. E que havia o excelentíssimo encalhado em original palavra: “cabala”. Com seis letras, exactamente.
- Cabala?! - perguntou meu pai, todo atrapalhaço. E dirigindo-se para mim: - Ainda ontem não vimos essa palavra na revisão dos seus trabalhos?
E eu, de mim para ninguém: com certeza, a fêmea do cavalo. Reando que meu pai não me forçasse a dar o explicado do vocábulo.
- Passemos ao salão para aproveitar o tempo - disse Dona Angelina.
No salão estava o “Monumento”: Isidorangela, envolta em seu vestido rosa. O que mais me surpreendeu: em sua mão continuava, hasteado, o pauzinho envolto em açúcar em rama. Aquilo me deu uma volta: algodão açucarado era a minha perdição. Come conseguia Isidorangela ter aquela guloseima em sua casa? Não era coisa exclusiva das feiras e quermesses;
- Então, lã vou animando a música - anunciou a esposa do presidente.
Uma espécie de valsa preencheu o vasto silêncio da sala.
- Vá, convide Isirodangela para voltear.
A palavra soou-me como obscena: voltear? A minha cara devia ser o lastimoso retrato da parvoíce brilhantina escorrendo sobre a testa, sobrolho denunciando o aperto nos pés e uma constrição do lábio superior em cobiça do algodãozinho. Um ma disfarçado empurrão de meu velho me colocou no caminho da gorducha. Nos braços do “Monumento a melhor dizer. Então era isso, meu pai queria passar uma graxa no chefe e me usava nesses psiquiátricos desígnios de descomplexar a gordona?
Me deu uma raiva tal que, quando enlacei Isidorangela, ela até vacilou, em desequilíbrio. Quase caiu sobre mim e o pauzinho de algodão ficou como bandeira arriada entre os nossos rostos. A tentação contrastava com as minhas penas e dei por mim dizendo:
- Vou-lhe dar uma dentada.
- A mim? - a gorducha aflautou um riso nervoso.
A gula venceu-me e, língua em riste, desmanchei aquele castelo de doçura enquanto arrastava a volumosa criatura pelo soalho encerado. Acreditando que a queria a ela, Isadorangela fechou os olhos e se inclinou disposta e disponível. Meu pavor era ela escorregar e desabar, em desamparo, sobre mim. Fui rodando pelo salão, entre a agonia dos pés e o deleite dos açúcares desfazendo-se-me na boca.
Num desses passos, reparei com surpresa que meu velhote e Angelina também dançavam. No cadeirão afastado, o presidente cabeceava ensonado. E, de repente, o que descobri? Coração apertando-me mais que os sapatos, vi as mãos de Angelina se entrelaçarem, em ternura esquiva, nos dedos de meu pai. O disco girando no gramofone, as luminações desmaiadas do petromax, a rodopiação da gorda, tudo isso me embalou em tontura. E já não havia algodão-doce a não ser no rosto de Isidorangela. Um impulso irresistível me fez linguar aquela réstia de doce. A moça entendeu mal a lambidela. E eu senti nela, estranhamente, um odor suado que era, afinal, o meu próprio e natural perfume. Senti o cabelo dela, encarapinhado, por baixo da lisura aparente. E olhando, quase a medo, revi sob o seu redondo rosto a ruga de família, o sinal que eu acreditava ser obra exclusiva da minha genética.
Quis ofuscar-me do mundo, em desvalência. Mas já os dedos de Isidorangela entrançaram os meus, com igual volúpia com que sua mãe ia apertando meu velho pai. Num sofá obscurecido Osório Caldas ia descruzando palavra enquanto cabeceava, pesado, sobre um velho jornal.


Mia Couto, In O Fio das Missangas