20/06/2009

Girassol



Não sabiam já quanto tempo havia que ambos caminhavam calados, no descampado imenso e sob o castigo imerecido de um céu abrasador. A terra, na sua queimada secura, dir-se-ia o rescaldo de um grande incêndio. Arrastavam-se num passo de fadiga e abandono, as cabeças pendidas sobre o peito, como se aquela estrada os levasse a um destino que de todo lhes era indiferente, sem por isso deixar de ser amargo e sofrido. Durante a maior parte do percurso, nem sequer haviam encontrado a sombra de um ramo seco, e o mundo parecia-lhes um grande ermo, um lugar de injusta maldição. Tudo o sol abrasava, e a estrada – infindável rio de alcatrão – negra e quente, corria através dos campos desertos, até se perder na linha distante e incendiada do horizonte. A terra exalava um hálito de inferno e por toda a superfície estendia-se uma irradiação trémula, em que se reflectiam, como numa inquieta miragem, os recortes longínquos das coisas.
A respiração fazia-se a custo, penosamente, e o ar queimava na boca como se fosse o próprio fogo. No entanto, eles caminhavam sempre, apesar do andar cada vez mais arrastado, da atitude de profundo e inconsolável desânimo, tão caídos e exaustos se mostravam.
Eram ambos velhos, alquebrados, e tudo, pelo aspecto desprezível, nos falava da história destas criaturas a quem a vida maltratou e acaba por abandonar. Um trazia o corpo magro coberto de andrajos e por entre os rasgões da roupa suja viam-se-lhe as carnes secas, mirradas por mil mortificações sofridas. A barba e o cabelo já ruços faziam em torno da cabeça um volume desconforme e hirsuta, que lembrava a rama emaranhada das vassouras velhas. Amparava-se a um cajadito alto, semelhente ao bordão dos peregrinos, e enfiado no braço trazia à dependura do ombro uma espécie de alforge imundo, onde por certo arrecadava os seus tesouros, quanto na vida possuía. As mãos eram finas, de dedos longos, mãos de quem nunca houvesse trabalhado. O outro, o companheiro, tinha as ancas surradas, o pêlo ralo, baço, crivado de chagas e crostas, como o Lázaro de todas as histórias sagradas. Para sumo martírio claudicava de uma das patas traseiras, que a custo e de leve pousava no chão, para logo a encolher num movimento repentino, de dor súbita, tal como se fosse de espinhos a terra que pisava. E assim, aquelas duas criaturas, irmanadas na mesma desventura, levadas pela mesma miséria, iam estrada em fora, à torreira ardente do Sol, sem talvez se darem verdadeiramente conta da grandeza de tanta mortificação. Caminhavam como sonâmbulos, um amparando-se ao cajado, o outro a tropeçar a cada passo na própria infelicidade, como se a todo o instante ameaçasse cair de gasto e consumido.
Umas vezes era o cão que se adiantava um tudo nada no caminho, para logo parar, resfolegando, de língua caída para fora da boca, à espera do dono; outras o homem que inesperadamente lhe tomava a dianteira, e o bicho, com a perna encolhida e bamba, via-se forçado a apressar o passo para alcançar o companheiro, numa corrida desajeitada e grotesca. Só nisto se sentia neles uma leve diferença de condição. No resto eram iguais, solidários e irmãos, apodrecidos pelas mesmas chagas e associados na mesma miséria. Estavam perfeitamente um para o outro, como duas coisas que se igualam e completam. Apenas em sociedade existem diferenças e preconceitos absurdos, que ignoram os que vivem à margem dos códigos e do mundo. Já a fábula consagrou algumas destas histórias.
Se alguém, abruptamente, lhes perguntasse para onde iam, que fito os levava por aquele caminho, a perturbação seria enorme. Não encontrariam com facilidade razões nem palavras para responder.
Ao sabor de um puro acaso, haviam tomado aquela estrada, aquela senda de inferno, sem que isso representasse qualquer decisão pensada. Vagabundos por natureza, o seu fadário era andar, correr mundo. Apetecera-lhes, sem motivo determinado, seguir aquela rota, e era tudo. De seu, na vida, só tinham as estradas para palmilhar. Fora sempre assim: se topavam com uma encruzilhada, ou o dono, sem pensar, seguia pela estrada que o cão escolhesse, ou o cão aceitava de boamente a direcção por onde o dono metesse pés ao caminho. Tudo era o mesmo, pois qualquer destino lhes servia. Às vezes, porém, ficavam os dois pasmados, sem saberem por onde aventurar os passos – ao que no mundo se resumia, no final de contas, todo o seu trabalho, toda a responsabilidade. Eram, então, momentos inexplicavelmente difíceis, em que se apossava deles uma leve angústia, e se sentiam incapazes de qualquer resolução, em que lhes apetecia desistir e esperar para ali que chegasse a derradeira hora. Sentavam-se um ao pé do outro, um encostado ao outro, inquietos, assustados, com a sensação de que os ameaçava um perigo desconhecido, e, por fim, como os marinheiros, resolviam aguardar melhor maré.
Haviam metido por aquela estrada como poderia ter sido por outra... Tudo ou quase tudo lhes era indiferente, e o próprio cão já ganhara também o jeito de encolher os ombros à vida e à desventura. Que querem?!... Agora, por exemplo, não ambicionavam mais do que uma poça de água, onde refrescar a goela escaldada e amaciar as duas côdeas de pão ressequido que guardavam na sacola – que até aí chegara a previdência. Desejavam também uma nesga de sombra para estender e repousar as carcassas doridas, sem lhes importar como nem onde. Se por milagre a noite caísse de repente, também isso seria de grande apaziguamento, naquela hora de verdadeiro inferno. Mas para quê confiar em milagres?! ... Não tinham toda a vida a atestar que era isso impossível! O resto nada valia. Nascidos para a liberdade, só conheciam a prisão da natureza: a fome, a sede e o cansaço, o frio e o calor, o que não há desprezo nem ânimo que seja capaz de esquecer.
Mas, pela charneca fora, o rio negro da estrada continuava a estender-se até para além de onde a vista alcançava, sem se lobrigar a toda a volta, já não digo vivalma, mas a copa verde de uma árvore, a cor alva de um muro ou de uma casa. O que lhes importava, pois, era não pensar, não atender ao desespero que os chamava, e caminhar, caminhar sempre, até que ao longe luzisse a esperança dalguma miragem. Sede e fome, isso era o prato de cada dia – um dos duros ossos daquele ofício. Resignação e paciência, que o caminho por onde seguiam havia de ter um fim, acabar em algum sítio.
O cão, porém, a certa altura estacou. Como se em vez de uma tivesse as duas patas doentes, deixou-se tombar sobre os quartos traseiros, descaiu mais a cabeça, depois de um suspiro de profundo desânimo. Uma luz de súplica brilhou-lhe nos olhos doces, e ficou amargamente a contemplar o dono. Este ainda se lhe adiantou um pedaço no caminho, mas depois parou. Parou e ficou a olhá-lo também, com uma vaga desconfiança, assim como admirado. Sobre eles, o sol parecia uma brasa.
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– Girassol!
Mas o bicho já não o podia ouvir.
Num instante, o velho compreendeu que tudo acabara. As moscas precipitaram-se com voracidade, como um enxame de demónios. Furioso, com gestos de louco, o vagabundo sacudiu-as, mas elas tornavam, numa teima desesperante. Cobriu então o corpo inanimado com um trapo que tirou do alforge, e por muito tempo ficou ainda a afagar o focinho do bicho, sem se dar conta da violência cada vez mais terrível do sol, como já não dava conta da dor aguda que o trespassava.
No céu fosforescente pareceu-lhe que voava um milhafre. O tempo dir-se-ia haver parado e por um instante sofreu a sensação da infindável eternidade que o esperava. O coração dizia-lhe que alguma coisa para sempre se acabara, sem reparação possível. Levantou-se a custo, atravessou o bordão nos braços e sobre ele depôs o corpo inerte do cão. Com os olhos embaciados de lágrimas, pareceu-lhe que a estrada acabava já ali, a dois palmos da morte do amigo. Não seria grande a distância que tinha a percorrer. Ergueu a cabeça com altivez e firmeza, a encarar o que o destino quisesse dele. Não lhe voltaria o rosto. A dor tem destes arranques de orgulho... Hesitou ainda um momento, apertando cada vez mais o bicho contra o peito, e depois caminhou sem arrastar os passos, na certeza de que já não seria longa a jornada.

Manuel Mendes, Estrada