11/05/2009

Xicandarinha na lenha do mundo

Primeiro foi a carapinha branca que despontou ali atrás do portão de zinco. Relâmpago de emoção nos nossos olhos. Corremos.
— Mamã! E o tio Dinasse! É o tio Dinasse, mamã.
A mamã, lá atrás da casa, certamente nem ouvia. Corpo curvado para duas pranchas de madeira, rebentava as mãos e o panarício na água e sabão, esfregando. Para brilhar, como ela sempre dizia, quando nos mandava repetir uma selha cheia de roupa e que só pelo tempo que demorávamos sabia se estava bem ou mal lavada.
— Tio Dinasse chegou, mamã! Tio Dinasse chegou! Agora, eu, Mário e Carlitos, os mais novos dos cinco, já cercávamos e baralhávamos o caminhar um tanto lento e cansado do tio Dinasse. Mamã apareceu na esquina da casa, sorriso feito e mãos gotejando sobre o vestido molhado.
— Hoyo Hoyo Makwêju (1) — virando-se depois para nós
— vão buscar uma cadeira para o tio, depressa!
Zaragata. Todos queríamos transportar a cadeira. Mamã ameaçou-nos lá de longe debaixo da sombra da abacateira para onde encaminhara o tio Dinasse. Mesmo ao lado, o barril de água dava mais frescura ao lugar.
Era manhã de Dezembro, sábado e estava quente. Tio Dinasse tirou um lenço branco, imaculado, limpou o rosto e sentou-se. Ao seu lado pusemos também a maleta e um grande embrulho envolto em papel de caqui que ajudáramos a carregar logo ele entrara. O embrulho era grande, só agora é que reparávamos bem no tamanho. Que seria?
À volta do tio e da mamã a curiosidade explodia-nos na boca. Porém, começara o cumprimento tradicional, bem à maneira de Salamanga.
O tio tinha chegado há uma semana das minas. A doença do peito estava a piorar. Tinha até baixado ao hospital uma vez lá no Transvaal. Ele agora já não tinha forças para continuar a trabalhar.
Também os brancos disseram que estava acabado e que era melhor ficar na terra. A machamba, perto do rio Maputo, dava bem, problemas só com cheias e às vezes gafanhotos. Os filhos estavam crescidos e o mais velho fora trabalhar para Durban. Rebeca, a mais nova, já estava uma mulher, ajudava a mãe em casa e no campo e qualquer dia ia casar.
— Está aí, mana! E vocês aqui como estão?
Agora era a vez de a mamã cumprimentar — contando a sua história.
O Silva, o papá, andava muito doente, mesmo nesta hora não estava ali porque fora ao hospital tirar análises. A vida estava difícil.
Cinco filhos e o mais velho só tinha doze anos. Mas tinha sorte, gostavam de estudar. O dinheiro da reforma do Silva é que era muito pouco e ainda por cima tinha de mandar uma parte para Portugal. O que valia era a banca de peixe e camarão no bazar da Baixa, que sempre dava alguma coisa. Começara também a vender ximatana (2) e xicalabiça (3). Era uma grande ajuda, mas o Silva andava muito preocupado com complicações que isso podia trazer com a polícia. Eram proibidas as nossas bebidas. Mas os fregueses bebiam lá atrás da casa, no quintal. O pior, mesmo, era o barulho que faziam, pois do outro lado do caniço era o muro da casa de D. Lucinda, muito bisbilhoteira e capaz de alertar a polícia. Mas o problema principal era realmente a doença do velho.
— Se ele morrer, que vai ser de mim e das crianças?
Irrequietos, não aguentávamos mais a curiosidade. Que é que o tio tinha trazido desta vez da África do Sul? No ano passado fora um corte de fazenda. Tínhamos feito calças para o Natal, e desta vez?
Mamã e o tio já dialogavam normalmente. Terminara o cumprimento. O tio dizia qualquer coisa sobre casar com brancos e ainda por cima velhos e a mamã argumentava: "Se tivesse sido lobolada por aquele Jorge que está preso, que seria de mim?"
Finalmente as mãos do tio Dinasse dirigiram-se para o grande embrulho forrado de caqui.
— Mana, desta vez trouxe uma lembrança para toda a família. Era a minha última viagem e quis comprar uma coisa para durar muito e que fosse bastante útil a vocês todos.
Primeiro começou a aparecer uma pega enorme de cor preta, baça. Como aquilo era grande! Que seria? Depois um corpo bojudo de metal brilhante começou a emergir daquele papel castanho.
— Mamã! É uma xicandari...iiinha! — gritou o Carlitos, o benjamim da casa e aquele que mais tinha assimilado o nosso luso-ronga suburbano.
Era de facto uma chaleira enorme, de alumínio pesado. Nunca tínhamos visto nada igual A mamã não se continha de contente.
— Para quê gastar tanto dinheiro, mano?!
O tio explicava que a chaleira era de mais de 10 litros. Agora não faltaria água quente para todos em casa. Até o papá que gostava de mergulhar os pés numa bacia nunca mais pediria para aquecer mais água. A chaleira era enorme, dava para tudo
— Esta xícandarinha não vou conseguir levantar, mamã! — dizia o Carilitos.
— Xícandarinha, não! Chaleira, meu burro! — ripostava a mamã que, falando com o tio Dinasse em ronga, só nos autorizava o diálogo em português e correcto!
IA sombra da abacateira já tinha mudado c o papá não vinha Tio Dinasse almoçou con-nosco tainha frita com arroz "fogado". Ele não bebia, só ucanhi, uma vez por ano, para patlhar (4) com a família a fertilidade da terra c as próximas colheitas.
A xicandarinha estava ali, grande, brilhante e convidativa. íamos inaugurar? O fogareiro a carvão era muito pequeno para ela. Melhor seria arrumar três tijolos para um fogão de lenha improvisado no chão. A lenha suja muito, mas que fazer?
A mamã concordou. O papá havia de perder aquele espectáculo do lume lambendo pela primeira vez o corpo da chaleira gigante.
Rápido, o fumo brotou forte e espesso antes da chama. Mamã tinha os olhos húmidos.
— Se calhar o Silva baixou, Dinasse!
O lume rompeu a fumarada. Gritámos de alegria. Neste momento, a Guida e o Eduardo, que tinham estado em casa da tia Cecília, chegaram. Mudos de emoção contemplavam, também o espectáculo. "É nossa?" "É nossa?" — suas vozes em simultâneo bebiam o bri-lho e as chamas.
— Não viram o pai? — era a mamã com fumo nos olhos.
'fio Dinasse alvitrou que era muito cedo. De qualquer maneira, se baixasse, havia de avisar. Ele, aliás, tinha de ir andando. Havia um gasolina para a Catembe às cinco e queria chegar a casa ainda naquele dia. O último machimbombo para Bela Vista, partia às 18 do Guachene.
Bocados de negro de fumo começaram a pincelar fortemente o corpo brilhante e gordo da xicandarinha. Havia certamente um pouco de madeira xilati (5) no meio da lenha para fazer aquele fumo danado.
— Fica para tomar chá, mano! A água vai ferver já, não enchemos a chaleira. Guida!! Vai pôr a mesa do chá. Tira as chávenas novas do armário da sala, ouviste?! Raul! Vai comprar bolos ali na pastelaria do Alto-Maé, depressa!
Tio Dinasse elogiou a nossa rapidez. Em pouco tempo chá e bolos estavam na mesa. Mas bonito, bonito de verdade, foi quando a água da xicandarinha começou a encher o bule. A mamã agarrava a chaleira com força. Parecia a água a sair da torneira da casa da D. Lucinda. O bule ficou cheio num instante. Água para toda a vida, não havia dúvida. Tomámos chá, orgulhosos e felizes. Tio Dinasse esquivava-se bondoso, aos nossos agradecimentos.
O papá chegou depois de o tio Dinasse já ter saído.
— Queriam que eu baixasse hoje. Neguei. Disseram para baixar na segunda-feira. Mas segunda é dia 22 e eu quero passar as festas convosco. Sempre passei o Natal e Ano Novo em casa com a família. Este ano vou passar também. O quê! Chaleira nova? Mas destas não há cá!
— Foi o tio Dinasse que trouxe, papá! Foi o tio Dinasse!
Nossa cortina espessa de vozes escondeu a angústia da mamã sacudida pelas palavras do velho. Uma xicandarinha imensa de dor fervia dentro dela.
— Que será de mim, se este homem me morre?!
De novo cheia, a xicandarinha prestava-se ao segundo baptismo de água e fogo.
Os olhos do papá e da mamã lacrimejavam por dentro o lume da vida.
— Puxa! Esta xicandarinha não fica limpa! Este fumo sujo pegou e não sai.
Era a semana do Mário na lavagem da louça. A mamã, que chegara há pouco do bazar, comandou:
— Tira cinza aí do fogareiro, junta com areia e esfrega! Quero ver essa chaleira limpa e brilhante como veio!
Mário mordeu um olhar cinzento sobre a mamã, já agarrada às panelas do almoço. Segunda-feira era um dia horrível! Sobretudo para o Mário, que entrava às 13 a ainda não tinha feito os deveres. A cinza à mistura com areia escorria pêlos seus dedos frenéticos.
Junto à escada de três lanços, seu lugar preferido, o grande Boby, fiel da casa há muitos anos, assistia bonacheirão ao fervilhar doméstico. Ultimamente o Boby andava triste à medida que a doença do papá piorava. Pressentia tudo e tinha um afecto especial pelo dono. Já uma vez salvara o velho de um ataque dos mabandido (6), não muito longe de casa.
Mário acabou de lavar. Na base é que o negro-de-fumo não cedia, nem mesmo esfregando com palha de coco. A xicandarinha do tio Dinasse era verdadeiramente espectacular. O problema era lavá-la todos os dias, que, aí, a mamã não transigia.
No Natal e Ano Novo ela não parou de trabalhar. Foram as festas mais felizes que tive-mos, estas de 53 para 54. O papá até parecia que tinha melhorado. Dera-nos mesmo dinheiro para comprarmos foguetes — ma'pachão — como nós dizíamos. À meia-noite foi o próprio velho que iniciou o foguetório, aliás como fazia todos os anos, rebentando a bomba de um escudo. Ribombava que nem um canhão. Mas, deste lado da cidade inflamável, para lá dos foguetes, eram sobretudo as latas e tambores que davam som à viragem do ano.
Cedo descobrimos que a pólvora tinha a mesma cor da cinza.
Naquela noite o papá brindou de uma maneira esquisita: "Tenham juízo, este é o último ano que estou convosco, não sei se chegarei a Fevereiro".
O rosto da mamã pareceu repentinamente golpeado. Lágrimas, a que o reflexo da luz na cortina vermelha dava cor de sangue, começaram a lavar sua face negra.
Papá aligeirou logo o ambiente contando uma anedota. Contudo, nos nossos peitos aflitos começaram a explodir corações de pólvora, cinza e areia.
(...)
Já era a segunda vez que enchíamos a xicandarínha para o chá. Umas cinquenta pessoas espalhavam-se pelo quintal. As mulheres em esteiras e os homens em bancos compridos arranjados à pressa com tijolos e enormes pranchas de madeira. Servíamos chá e bolachas. Conversava-se em voz baixa, lamentando a mamã e o nosso destino.
Era a cerimónia do sétimo dia do papá Tal como ele previa, não chegara a Fevereiro. No dia 30 de madrugada mergulhou na grande água do silêncio. Dois dias antes da morte ainda falou, mas zangado. D. Lucinda, a vizinha, entrara na enfermaria perguntando se ele queria um padre para se confessar. O velho maçónico pô-la aos berros fora da sala, para espanto de outros doentes.
Naquela madrugada de luto e quando os gritos lancinantes da mamã se transformavam cm dolorido lamento, o velho Boby, companheiro fiel, escavou um pequeno buraco junto à escada e deitou-se de um modo estranho. Quando ao meio da manhã queríamos sacudi-lo do lugar vimos, com espanto, que ele não se mexia. Estava morto.
Fumo nas mangas curtas das nossas camisas. Luto rigoroso para a mamã. Tal como a xicandarínha, fumo e fogo lambia-nos a vida.
Poucos, muito poucos ajudaram a mamã neste transe, nem mesmo seus parentes mais próximos e bem providos. Algumas honrosas excepções como sempre. Ana Barnabé, quase tísica e muito pobre, é que trouxe qualquer coisa para ajudar nas despesas dos primeiros dias. Tia Gumende, essa, foi inexcedível. Também viúva e com muitos filhos, não hesitou: "Vais com as tuas crianças para minha casa. Eu tenho de estar em Ressano Garcia e assim tomas também conta da minha família".
Estávamos acostumados à antiga casa.
— Mamã! É preciso irmos morar mais lá para baixo? Nós ajudamos a mamã a trabalhar para pagar a renda! — nossas vozes interrogavam ansiosas e inocentes.
Macerada mas vigorosa, mamã respondeu: "É lá onde vamos vencer a vida". Nada mais disse.
A mudança para Minkhokweni foi rápida. Júlia, a bonita Júlia, corpo para muitos amores à noite e de dia esforçada ajudante no pilão de milho e meixoeira para a xicalabiça, foi incansável no vaivém da mudança.
No último carregamento e sobre a enorme xidjumba (7) que Júlia transportava à cabeça lá ia a nossa xicandarinha a caminho do sul das nossas vidas. Erecta, asa e bico agressi-vos, qual pássaro metálico, a chaleira, já mais curtida pelo fogo e fumo, ia desafiar novas lenhas sem medo dos caçadores da vida.
Com mão de ferro, a mamã guiar-nos-ia serena e irredutivelmente contra os pântanos traiçoeiros de Minkhokweni.
(...)
Rodopio grande nas areias de Minkhokweni. Nós e a vida. Ladeira enorme coberta de pamas (8) e piteiras (9) onde, depois das chuvas de Novembro, também despontavam malmequeres. Rodopio nosso e da mamã. Madrugada nas bancas do bazar, em casa venda de xicalabiça e ximantana até altas horas.
Naquele dia dois dos mabandido mais famosos em todo o Minkhokweni bebiam. N'Wa-manarro e Julião. O primeiro, grande e musculoso, recém-saído do calabouço, ganhara a alcunha pêlos costumados e certeiros três socos que derrubavam qualquer gigante. O segundo, Julião de seu nome próprio, mais baixo e magro, era esguio e rapidíssimo no contra-ataque. Músculos de aço, cabeçada demoníaca.
Chuvisca. No arejado barracão construído ao fundo do quintal, os bebedores intrépidos provocam directa e indirectamente os dois inevitáveis contendores. O ceptro de maior brigão e a quem as mulheres temiam e se entregavam continuava nas mãos de NTWa-manarro.
Rodopiou um desejo de violência nas mãos nervosas dos dois mabandido. Mamã advertiu que não queria confusão dentro de casa. Pancadaria só lá fora. Em vão. O álcool não res-peita palavras. Entretanto, no meio do barracão, em lume brando, a xicandarinha. Agora, o seu corpo enorme e enegrecido, apesar da cinza e areia da lavagem quotidiana, ostenta já uma asa desengonçada pelo uso. Arquejante naquela madrugada fria de Junho, a xicandarinha ferve a sua água indiferente ao fogo humano mais forte que a circunda.
— Ha I Kine Júlio (10) — disse N'Wamanarro, quando Dindinde, viola querido em todo o bairro, desafiava uma marrabenta, ritmo recente e alucinante a dardejar caniços acesos de desejo nas ancas voluptuosas das mulheres.
Foi o pretexto para Julião, nervoso e espectante. Júlia era bonita. Seu corpo ainda jovem devia ser mais saboroso que massala (11) madura. Rodopiou um impulso irresistível no peito do Julião. "Quem dança com ela sou eu!". Com o seu braço de aço afasta a reboliça anca de Júlia que ondulava provocantemente em N'Wamanarro.
Violento, o grande combate começava.
A mamã, força e coragem memoráveis, antevê o perigo de uma morte violenta acontecida em casa. Empurra demolidora os dois brigões, exigindo aos berros que larguem os sinistros canivetes de ponta-e-mola. Consegue, ninguém sabe como.
Mas o combate a soco e cabeçada continua para durar. Duas joelhadas tremendas de Julião derrubam o gigante que cai estrepitosamente sobre a nossa xicandarinha. Mas água quente não queima corpo a ferver.
Gritámos e incitámos os nossos fregueses a ajudarem-nos a empurrar os dois belicosos para fora do quintal. Sacudidos pelo recente exemplo da mamã, xibalos e djimizanas (12) uniram-se no esforço para os tirar.
Quando a claridade começou a despontar por detrás dos eucaliptos do "compound" de magaízas "Mann Jorge" e já quase a 100 metros da nossa casa, N'Wamanarro caiu desfalecido junto a uma enorme pama. Julião, bem esmurrado mas feliz, olha vitorioso para a pequena multidão que o admira. A partir daquele momento os mabandido tinham outro chefe.
No quintal da nossa casa, no meio do barracão, a xicandarinha não ficou incólume desta noite de rodopio. Mais amolgada, tinha a asa solta. O funileiro ficava longe e era caro. Arames grossos, bem virados a alicate, recolocaram a asa partida. Muleta feia, mas funcional.
Ósculos de fogo em nós. Viajámos sonâmbulos entre o trabalho e os livros. Eduardo, o mais velho, aleijado de uma perna por uma injecção mal dada em criança, é atacado pela zona, nome estranho a rotular uma doença provocada por sono a menos e "stress" (13), conforme afirmavam alguns médicos da época. Pouco depois é a mamã que cai de cama com a mesma doença.
Agora são os nossos olhos que ardem mesmo sem o fumo subindo do fogão da xicandarinha. Coitada da nossa chaleira! Corpo marcado, sofrido, mas sempre imprescindível. Ah! Grande tio Dinasse, pouco durou para saborear de novo o chá da sua oferta.
Morávamos em nova casa. Desta vez nossa, nossa mesmo, construída em frente à da maravilhosa tia Gumende. Para a erguer, tivemos de abrir à catanada um terreno então impenetrável de piteiras e micaias. Piores foram as cobras, bem venenosas, a disputar o espaço. Uma até mordeu a mamã. Apavorados e estupefactos vimos a nossa velha apenas a espremer a mão mordida e ir lavá-la com sabão. Nada lhe aconteceu. Estava vacinada contra os ofídios. Poderosos e milenares antídotos, estas vacinas fabricadas pêlos nossos nhangas (14)!
Infalíveis contra cobras, doenças várias e até espíritos malignos da nossa ancestralidade ronga.
Depois da zona veio o tifo. Só a mamã é que apanhou e sobreviveu. Em casa a vida não parou neste intervalo de corpos doentes. Apenas uma vez abrandámos, remoídos de angústia. Tinham-nos roubado a xicandarinha!
Desengonçada, já velha mas sempre operacional, ela ainda causava inveja pelo seu tamanho e resistência. Quem nos roubara?
Metade de Minkhokweni conhecia a xicandarinha. O alerta foi geral. Fregueses habituais, vizinhos, prostitutas e mabandido prometeram averiguar. Nossos amigos das futeboladas de fím-de-tarde, desde o Babá, mulherengo mas sempre prestável, até aos Leong, filhos do cantineiro chinês do bairro, foram devidamente avisados.
Ao fim do terceiro dia a boa nova chegou. A xicandarinha fora finalmente descoberta. Júlia, a incansável Júlia, rosto já a enrugar prematuramente, boca queimada a álcool e mulala, descobriu a xicandarinha em casa de Ximatana. Assim chamado por preferir esta bebida mais reservada a mulheres, Ximatana era estivador-carregador nas horas vagas, pois em tempo inteiro ocupava-se especialmente da visita às "barras" (15), copo na mão, sempre sequioso, roubando amiúde para sustentar o vício.
O pessoal queria castigá-lo severamente. Não deixámos. Dois meses sem poder beber em nossa casa era um bom castigo. Castigo grande para Ximatana que deixaria de saborear uma bebida melhor fabricada e, sobretudo, a possibilidade de beber fiado quando na bolsa lhe escasseassem as quinhentas.
(...)
Tal como a xicandarinha, resistente mas envelhecida, a mamã buscava mais forças no próprio trabalho depois de cada internamento no hospital ou dos últimos recursos dos nossos nhangas.
A Guida começou a namorar às escondidas. Com um maguerre, como diziam os vizinhos, referindo-se ao operário branco rondando o quintal e procurando espaço para meter a mão na mulata jeitosa.
Certo dia mamã não esteve com contemplações. Avisada das investidas do intruso, mandou encher a xícandarinha. Retirando a tampa larga quando fervia e segurando firme a chaleira pelo gargalo e base com um saco de serapilheira sincronizou bem a passagem do conquistador. A água saltou e ouviu-se um grito surpreso e dolorido do outro lado do quintal. Alvo atingido. A xicandarinha mais uma vez funcionara em pleno. Também era uma arma, estava provado.
Mas de nada valeu esta guerra particular da mamã. A água quente da xicandarinha só fez ferver mais o coração apaixonado do operário que após dois anos de muitas peripécias acabou por casar com a mana mulata dos seus olhos.
Em casa as noites continuavam agitadas. Num sábado luarento a situação explodiu a ferro e fogo. O quintal estava apinhado de gente bebendo. Num canto xibalos entoavam canções e danças de Inhambane ao compasso de um bandilhado com dedos exímios por um velho tocador. Mais próximo do zinco da casa, um gira-discos a pilha lançava para o ar o som trepidante de um novo ritmo, a madjuba.
De repente uma patrulha a cavalo irrompe pela porta derrubando parte do quintal de caniço. Gera-se, confusão, susto e ódio entre aquela centena de farristas bêbados de sábado.
Nas mãos da policia montada brilham espadas. Tentam arregimentar as pessoas num canto para depois as prender. Já passava das nove horas. Começa uma luta encarniçada pela fuga. Homens e cavalos engalfinham-se furando o caniço à cabeçada e coice. Alguns polícias caem dos cavalos mas, temerários, aventuram-se a pé em perseguição dos fugi-tivos. Azar. Vários foram atirados de repente para o meio das piteiras.
Dentro do quintal a batalha continuava. Um dos cavalos, esporeado à toa por um polícia enraivecido, derruba a cozinha. Os cascos ferrados da besta rebentam panelas de barro, quebram tachos e amolgam a nossa xicandarinha.
Stefana, pequeno gigante empurra-zorras do C. F. M., escoiceado, sevícia o cavalo que o maltratou. O polícia estatela-se. Ouvem-se dois tiros. A batalha ganha sangue. Stefana escapa de uma morte certa por milagre, aliás, por nervosismo do polícia desvairado. Mas uma das balas ainda lhe furou de raspão um dos braços.
As pessoas, mesmo espadeiradas, não se queriam deixar prender. De cerca de uma cen-tena que eram, a polícia só conseguiu arrebanhar umas quinze. Foi com elas que fomos parar à esquadra.
A situação desta vez era grave. Houvera confronto, inadmissível para os polícias. Todavia, uma boa estrela brilhou bem na altura na esquadra da polícia montada. Já de madrugada e quando os processos estavam a crescer na mesa dos guardas de serviço, apareceu um velho comissário da polícia que era um antigo amigo do papá. Noutros tempos houve qualquer favor que o pai lhe fez aquando funcionário da Alfândega, recordou-se depois a mamã. O comissário lá nos safou de apuros em memória do velho. A nós e aos restantes presos. Afinal... Todos trabalhavam e não tinham sido presos na rua depois das nove...! Quando se quer, as leis moldam-se ao sabor dos chefes...
De regresso a casa, já manhã alta, o dia revelou cruamente os estragos. Quintal e cozi-nha derrubados, animais mortos na capoeira escangalhada. Quando erguemos as chapas derrubadas da cozinha os nossos olhos pararam. No meio dos tachos destruídos, a nossa escoiceada xicandarinha mostrava bem visíveis, ao meio do seu bojo enegrecido, dois furos de bala. Um grande silêncio cresceu em nós. Agora também as balas.
A xicandarinha só poderia ferver água com menos de metade da sua capacidade. Osculada por outro fogo que não o da lenha, não a quisemos contudo pôr fora de combate. Continuaria a funcionar. Era preciso moderar, mas não parar.
Há dois dias que as chuvas não paravam. Torrenciais, pareciam uma cortina de chumbo líquido caindo devastadoras. Chuvas de fome, estas de Dezembro a Janeiro, meses que em casa sempre pressagiaram doenças e morte.
As águas, em correntes impetuosas, juntavam-se na zona alta da Malanga e galgavam medonhas até Minkhokweni. Iniciámos um dique protector à volta da casa. Suor e sangue estavam ali naquelas paredes de madeira e zinco. Não deixaríamos que fossem engolidas de qualquer maneira!
No terceiro dia a situação agravou-se. A rádio anunciou que se tratava de uma depressão denominada "Claude". Um vazio opressivo pairava em toda a casa, agora silente de fre-gueses. Aliás, desde as últimas confusões, moderámos as vendas, ao mesmo tempo que adoptámos uma táctica de vigilância de modo a despovoarmos o quintal ao primeiro alerta, refreando assim o ímpeto policial. Mas a água caindo violenta sobre o telhado, que rangia aos golpes de vento, aumentava-nos a tensão pela impotência perante a natureza.
— Nhandayeyoooô...! (16) Nhandayeyoooô...! gritavam vozes pedindo socorro no meio da noite. Também cercados, nada podíamos fazer. Já sobre o caniço do nosso quintal e do outro lado das piteiras, as águas em fúria rasgavam a terra mole, abrindo gretas de vários metros de profundidade, arrastando toneladas de lodo e areia para lá da ladeira, cobrindo a Rua das Estâncias, saltando sobre o longo muro gradeado dos C.F.M., assoreando, inundando e inutilizando as linhas férreas.
A chuva continuava a cair sobre o nosso silêncio. A rádio falava já em grandes catástrofes no campo. Os gritos de "Nhandayeyô! Nhandayeyô!" tolhiam-nos de angústia.
Finalmente no quinto dia as chuvas amainaram. Investigando cautelosamente, respirámos de alívio ao ver a sapata de cimento da casa incólume, mas à beira do abismo cavado pelas águas. Igual sorte não teve o quintal e a enorme cozinha com despensa que tínhamos construído em substituição da outra. Desapareceram engolidas pela enchurrada na noite do último dia da depressão tropical. A desgraça tocou a todos. Vizinhos nossos tiveram pior sorte, perdendo tecto e haveres.
Os velhos do lugar, abanando as cabeças de carapinha alva, afirmavam condoídos que era uma grande desgraça, para logo a seguir pressagiar convictos:
— A natureza veio avisar que muito sangue e fogo vão correr na nossa terra, muita gente vai morrer!
Solidariedade foi enorme entre os pobres e remediados de Minkhokweni na reparação dos estragos. Porém, os tractores da Câmara Municipal apenas apareceram na Rua das Estâncias para desassorear a estrada. Para os nossos lados só surgiram meses depois, mas sob a pressão e mando dos abutres das negociatas com terrenos e prédios de ren-dimento, unhas afiadas para novos espaços.
— Mas onde ficou a xicandarinha? — perguntou o Carlitos, já a tentar abrir um caminho de travessia pela enorme vala pluvial.
Guardada num canto da nova cozinha acabou também por ser devorada pelas águas em convulsão. Ninguém mais a viu. Mesmo depois de os tractores terem terraplanado toda aquela zona, ela não apareceu.
As águas sepultaram definitivamente a nossa xicandarinha no chão revolto de Minkhok-weni.
Xicandarinha de fumo e fogo, xicandarinha de água e vida, xicandarinha pássaro e arma, xicandarinha de sangue e balas, a nossa xicandarinha libertou-se da lenha do mundo oxidando-se nas mesmas areias onde apodrecem os homens.
Olhámo-nos apreensivos. A mamã, meditativa, apenas nos disse o mesmo que meses depois nos lembraria quando um senhor de fato e gravata, título de propriedade numa mão e autorização camarária noutra, nos intimava a desmantelar a nossa casa do seu terreno.
— A xicandarinha não tinha braços nem cabeça para se defender e lutar. Nós temos, meus filhos. Coragem. Amanhã começaremos nova vida.

Calane da Silva, Xicandarinha na Lenha do Mundo



Glossário:
(1) Bem vindo, irmão!
(2) bebida fermentada, tipo cerveja, que é consumida principalmente por mulheres;
(3) bebida tradicional mais alcoólica do que ximatana;
(4) invocar os mortos, pedir a benção;
(5) árvore de grande porte, cuja ma¬deira arde com dificuldade;
(6) neologismo, baseado no português bandido e no prefixo ronga ma (que indica plural);
(7) trouxa;
(8)árvore de grande porte;
(9) variedade de cacto;
(10) vamos dançar, Júlia!
(11) Fruta saborosa e bastante aro¬mática, de casca grossa e rija, e que tem dentro sementes envolvidas por uma camada cremosa sumarenta;
(12) estivadores do cais;
(13) tensão;
(14) curandeiros;
(15) balcão ou estabelecimento de venda de bebidas;
(16)Socorro!