04/05/2009

A Toca do Lobo

Acima do portão, na verga quase vestida pela hereira que já amortalhara a pedra heráldica, a valer de baetão que a amantasse nos lutos, ainda lá se lia uma data, 1654, avivada pelo caseiro, por mimo, no tempo da poda, a riscos de caco.
Embora de teimoso castanho, abanados por entalões de carretos, chicoteados e entranhados por chuvas de invernos e invernos, os batentes do portão, lassos da corrosão das cunhas cinco dos seis chumbadouros, havia muito que não jogavam nos gonzos. Franqueados como abraços, o areão e o saibro dos enxurros caldeavam-nos à terra como se houvessem botado raízes, reverdecidos.
Portão e caminho até ao terreiro, sob a latada, quisera o dono continuassem escalavrados como no tempo ido, em que só ali vinha, e nem sempre, quando era pelas vindimas e varejadas de castanhas, lá raro pela feitura do azeite.
A casa, não. Fruída nos últimos cinquenta anos a meias com o caseiro (para este a banda virada a nascente, e donde se alcançava o Penedo Grande, a cavaleiro do Monte dos Corvos; para os patrões a oposta, com serventia própria e voltada para a mata) desde que resolvido o passo de vir ali enterrar-se vivo, Diogo Coutinho destinava ao caseiro que se passasse para os Nogais. Então, buscando o menos possível mudar-lhe a fisionomia, o antigo ar interior e íntimo (Na cantoneira onde a tia Mariana guardava a marmelada, nem tocar... ), chamara um mestre-de-obras e assenhoreara-se de todo o edifício, aproveitando-o conforme a ideia que de longe lhe trabalhava no sentimento.
Ali vivera muito, muito de vida vivida, outro tanto, ou muito mais, de vida imaginada: tão violentamente imaginada que valia por ter vivido muitas vidas. Ali, na Toca do Lobo, pois passava de cem anos que assim era o nome da casa: a Toca do Lobo.
Nem mais nem menos, esse lobo, que o tio-bisavô Rodrigo Coutinho, de nomeada o Lobo, por no tempo dos Franceses ali se ter vindo encovilar, e nunca de medroso, só de feroz, que a tradição também lhe rezava de uns dentes descompassados, tão pontudos e sãos que poderiam rilhar ossos.
Sempre que algum do enxame de caseiros e compadres que trazia de esculcas, pelos cotos e cabeças, de bacamarte, ou até pelos carreiros do vale, com disfarces de pedir e arrumados a um pau; sempre que um desses, ou abufava dos altos corna de rebate, ou passava o portão, lesto e sem fazer já preciso fingir manqueira, com recado urgente; sempre que tal se dava, o tio Lobo reunia num pronto o que, passado um século, as gazetas chamariam a sua brigada de choque. Logo todos montavam em burras de passo travadinho, dessas que não tropicam em pedregulho nem regueiro, e não demorava um credo que os do esquadrão inimigo não fossem paliteiro dos clavinaços que lhes nasciam de umas bandas e outras, caindo como tordos.
Quando já iam ficando mondados, e confusos, e espavoridos, a alcateia do tio Lobo convergia e presenteava-os ao Diabo, à coronha ou à navalha, que assim poupava munições. Num rufo, o tio Lobo despojava os mortos das armas e metia-se logo na toca.
Segundo alguns velhos da freguesia dantes contavam, de o ouvirem aos avós, o tio Lobo, e talvez dai lhe proviria a alcunha, houvera de certo dia lutar com um Francês alentado, arca por arca. Os dois a rebolarem pelo chão um pouco de tempo, até que o senhor Lobo acontecia de lhe alcançar o pescoço, e daí a perdição do Francês, porque o senhor Lobo com tanta vontade lhe filara a garganta que só vinha a desaferrar os dentes quando o inimigo já nem bulia.
De como esse tio-bisavô teria acabado é que ninguém futurava, pois fora o corpo topado na serra alta, já comido, e muito, dos bichos bravos e dos corvos, possível que dos próprios lobos, e de que o era só colhida a certeza do anel de armas, ainda, e milagrosamente, no mindinho mal esburgado.
No sítio o memoraria uma cruz, A cruz do senhor Lobo, e o caco já sem olhos e despelado, o mais que do tronco, braços e pernas lhe restava, tudo vinha num baú de coiro e dado então a terra cristã.
A história do tio Lobo, e de muito menino, era a que ele, Diogo, mais gostava de ouvir. E, porque do tio Lobo se não conhecia retrato, de tanto aproximar as vidas e as mortes de Carlos o Temerário e do tio Lobo, fora a perto de sugestionar-se, quando estudava História Universal, que o retrato do duque de Borgonha figurava o tio Lobo.
Pois agora ali estava, dali não fazia conta de sair até que fechasse os olhos. Ao menos ali tinha paz.


Tomaz de Figueiredo, A Toca do Lobo