28/05/2009

A Revelação


O MOLEQUE PAROU DE MASTIGAR. Ficou suspenso, a boca cheia da jinguba surripiada na panela que estalava sobre a fogueira. A voz da mãe repetiu o chamamento:
— Candimba, vem aqui.
O miúdo levantou-se, engolindo rapidamente a massa de jinguba e saliva. Aproximou-se em passo lento, mãos nos bolsos dos calções, cabeça baixa. Mamã me viu roubar na panela e vai castigar? O semblante da mulher aquietou-o. Não tinha os olhos que fazia quando descobria uma falta. Era então para um recado, só podia ser. E ele preferia estar descansado à sombra da mandioqueira, vigiando a mãe: à espera
de uma oportunidade para encher os bolsos coma jinguba.
— Candimba, vai na loja do Só Ferreira. Compra sal até encher isto mesmo.
E a mãe entregou-lhe uma caneca pequena, de mistura com algumas moedas que tirou da dobra do pano. O miúdo recebeu as moedas, enfiou-as nos bolsos dos calções. Com a caneca na mão, perguntou, aborrecido:
— Sal cabou, mamã?
— Se te mando! Mania só de fazer perguntas! Vai depressa, hein? E volta logo. Não te quero ver com esses vadio da rua que não trabaia nada. Se t'apanho a jogar à bola chapo-te mal. Toma conta!
— Posso tirar um bocadinho? Só pra provar. ..
E o menino olhava gulosamente para a jinguba descascada, repousando num tabuleiro de folha. Em seguida, a mãe deitaria os bagos na panela de açúcar em calda, mexendo com a colher. Depois de deixar secar, dividiria em pacotinhos de papel de seda que o miúdo venderia na cidade. Cinc'ostões cada um, gritaria Miúdo Candimba pelas ruas. Quando já está distribuída pelos pacotes não há possibilidades de petiscar. Tá tudo bem contado, mamã confere o dinheiro, topa logo se falta. Agora era a última ocasião de poder saborear a jinguba. Por isso os olhos luziram quando entendeu a resposta:
— Bom, tira uma mãozada. Mas anda depressa, tás ouvir?
Candimba encheu os bolsos precipitada¬mente, saiu a correr. Passou uma tangente na cerca de Dona Joana — essa gorda que só fala mal dos outros — meteu pela rua esburacada, insensível aos chamamentos dos companheiros. Parou à frente da loja. Queria despachar-se rapidamente, ansiando meter o dente naquela jinguba toda que o esperava no tabuleiro. S'inda tenho tempo...
À entrada ouviu a voz irada de Só Ferreira. Discutia com a Mariana, rapariga que casou no ano passado com o Chico da serração. Eué, manda zanga, pensou o miúdo. Meteu a cabeça na porta, os olhos muito grandes e redondos, espiando. O branco do balcão não reparou nele. Estava vermelho, gesticulava, tudo acompanhado de muitos berros. Miúdo Candimba achou ele não era como as outras pessoas, nele a voz é que acompanhava os gestos. Mariana chorava, de costas para a porta, tapando a boca com o antebraço. O moleque ouvia-a suplicar:
— Só Ferreira, meu marido vai saber. Filho sai mulato, Chico vê logo não é dele. Ele me mata, Só Ferreira...
— Quero lá saber! Que culpa tenho eu? Agora avia-te... Ora bolas! Que provas tens que o filho é meu? Ainda nem nasceu! Gomo é que podes saber?
— Sei, sim, juro com Deus. Senti mesmo!
Miúdo Candimba esqueceu a jinguba na boca aberta, os assustados olhos tudo perscrutando. Não percebia bem a conversa. Embora já falasse aos companheiros acerca dessas coisas proibidas, ainda era muito pequeno para compreender imediatamente. Mas sentia algo de terrível nas palavras trocadas.
— Ouve lá. Julgas que me levas assim? Como podes ter sentido? Como se eu fosse parvo... O filho é do teu marido, dormiste com ele muito mais vezes do que comigo.
— Mas eu sei. Eu sei! Juro vai sair mulato.
— E depois? E se fui eu que o fiz? És casada com o teu homem, não tenho nada com isso.
O moleque já percebera tudo. Fez-se mais pequenino, encostado à porta. A mão apertava nervosamente a caneca de lata. Viu Mariana erguer decididamente a cabeça, passar os dedos pela barriga inchada, falar com raiva:
— Só Ferreira prometeu. Te dou vestidos, vais mesmo na cidade, vais pra minha casa. Te tiro da sanzala, te dou comida boa, te dou pulseiras e brincos. Só Ferreira prometeu, jurou mesmo. Teu filho vai ser meu no papel, lhe dou educação. Não vai ser menino de sanzala, não. Agora já lhe dei tudo que queria, já se deitou comigo, m'abandona. Não quer saber mais de mim!
— Então? Prometi? Alguém ouviu? Só tu mesmo. Vai dizer no teu marido, vê lá se ele acredita. Digo-lhe que é mentira, que foste tu que me pediste, que vocês todas querem é dormir com os brancos. Vai na polícia, se eles acreditam em ti ou em mim.
Mariana abateu-se novamente sobre o balcão. Os soluços voltaram a sacudir-lhe o corpo. Miúdo Gandimba, perturbado, se chegou mais para dentro da loja. Embora a sua vontade fosse fugir como um mbambi.
— Vou dizer no meu marido, sim, vou mesmo. Me mata, mas depois lhe vem matar a você... Não é homem pra se ficar.
O comerciante riu, escarninho. Desferiu uma palmada no balcão para indicar que já se fartava da discussão. Falou com voz rancorosa:
— Que venha! Tenho uma espingarda à espera dele. Dou-lhe tantos tiros que fica como um Cristo!
Miúdo Gandimba sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha ao ouvir a ameaça. E voltou-se assustado quando, repentinamente, uma mão lhe pousou no ombro. Acalmou-se ao contemplar o sorriso bondoso de Dona Marcelina.
— Que tás fazer aqui na porta? Me deixa entrar...
O moleque sentiu os olhos do comerciante fixos nele. E Mariana disfarçando o choro.
Empurrou a velha Marcelina para o lado e desatou a fugir. Percorreu a rua, passou uma tangente na cerca de Dona Joana, entrou no quintal da sua casa. Aí susteve a corrida. Respirando dificilmente, escondeu-se entre as moitas que abrigavam a capoeira. Olhou por entre os ramos e viu a mãe acocorada sobre o tabuleiro, descascando a jinguba. O ar aborrecido indicava que estranhava a demora do filho.
Mas o menino não se preocupa com isso. Pensa, sim, no semblante derrotado de Mariana. E os berros misturam-se no seu cérebro, deixam-lhe uma sensação de angústia revoltada. Nota repentinamente o coelho branquinho à sua frente. Olhos vermelhos como os de Só Ferreira. Branco como ele. Coelho, me puseram o teu nome. Pruquê? Porque fazia assim como tu quando era pequeno, mexia o nariz, depressa, assim, assim, depressa, muito depressa, como tu faz. Me chamaram Candimba. Ai ficou meu nome. Mas não sou igual na ti, não tenho os olho vermelho, não tenho o pêlo branco. Estendeu a mão para o animal. Este pulou para trás e ficou espiando, assustado, espe¬rando o próximo gesto. O miúdo não se mexeu. Via a Mariana chorando, suplicando e chorando, a barriga inchada, as mãos a tremer. E o comerciante rindo o seu riso de gengivas desdentadas, vermelhas como os olhos do coelho. Jogou com raiva o punho fechado. Mas falhou o golpe e o animal escapuliu-se para perto das galinhas.
O despeito fez as lágrimas correrem, vagarosas, na face escura do moleque. E o coelho observando-o. Miúdo Gandimba, de repente, julgou-o penalizado com sua dor. Comoveu-se. Era apenas um pobre animal sem culpas, que o estimava, afinal. O coelho não fugiu à carícia da mão infantil. Deixou-se afagar e os olhos vermelhos adoçaram-se. Miúdo Candimba estendeu-se no chão de terra batida, insensível à humidade transpirada pelo solo. Ficou assim, perdida a noção do tempo, avista fixa na bola branca que se mexia. Arrepen-deu-se, em breve, do murro que lhe enviara. Pensou em pedir-lhe desculpa, justificar a acção com o estado de espírito provocado pela cena da loja. Decidiu-se, porém, a não o fazer.
Coelho não percebe palavras, percebe os gestos e as carícias, é como as crianças.
Ouviu a mãe chamá-lo em alta grita, inquirir por ele às vizinhas, sair de casa. Foi talvez à venda procurá-lo. Mas não voltou. Miúdo Candimba não se deu ao trabalho de responder, de se mostrar. Queria estar só, contemplando o novo amigo, aquele animalzinho branco que parecia tão meigo. Queria fugir às gentes com seus dramas e rancores, fechar-se na concha dos seus sonhos infantis. E sentia o íntimo cheio de paz e ternura, esquecido já da revolta que há pouco experimentara.
Miúdo Candimba voltou a ter consciência do mundo ao escutar grande gritaria ali perto. Levantou-se com uma última carícia ao animal, afastou as moitas e deitou uma olhada para o sítio onde a mãe preparava a jinguba. Deserto. Os gritos vinham da esquerda. O moleque atravessou a cerca, entrou na rua e na luz do Sol. Dirigiu-se à casa para que concorriam as mulheres e as crianças. A casa de Mariana. Lá chegado, percebeu imediatamente o que se passara, Mariana morrera.
— Se matou. Uma facada mesmo no coração.
— Aiué, se matou.
— Pruquê?... Pruquê?
Miúdo Candimba sentiu um frio invadi-lo. Depois um calor, quente, quente, era uma fogueira que nele se instalara. Novamente o frio. Começou a tremer. Deu uma espiada para o sítio da loja, viu Só Ferreira à porta, mirando, indiferente. Se matou! Pruquê? Eu sei, eu sei, foi por causa daquilo que eu vi na venda.
O menino abriu a boca, ia gritar a razão do suicídio. Mas ninguém reparou no gesto, as mulheres e as crianças empurravam-se para observar o corpo banhado em sangue. Ouviu a voz da mãe lamentando a tragédia, sentiu uma vontade doida de se atirar nos seus braços e lhe contar tudo. Mas havia uma multidão separando-o do colo materno, não encontrou coragem de a romper. Gritou o mais alto que podia:
— Eu sei pruquê ela se matou. Eu sei, juro com Deus que sei mesmo.
As mulheres nem voltaram os pescoços esticados. Não fecharam as bocas abertas de pasmo e tristeza. Os miúdos continuaram a tentar furar a multidão, não ligaram ao aviso do companheiro. Miúdo Gandimba apertou o braço de Teresinha, falou gravemente:
— Eu sei pruquê foi... Ela olhou-o, porém, sem interesse. Imediatamente redobrou os gritos lamentosos:
— Deixa ver, deixa ver...
Miúdo Candimba sentiu-se miseravelmente esquecido. Era o único que sabia, além de Só Ferreira, e ninguém o escutava, lhe prestava atenção. Saiu da multidão, afastando as crianças com os braços magrinhos, os lábios apertados para não chorar.
— Gome qu'ela stá? De boca aberta?
Não se dignou responder à pergunta de Jucá que se afadigava para ver alguma coisa. Poderia ser um bom ouvinte, mas Miúdo Candimba já não se importava de revelar a verdade. Olhou o vulto de Só Ferreira, parado à porta da loja. Adivinhou o riso escarninho na boca do comerciante. Se não era tão grande... Sim, se não fosse tão grande e tão forte, era ele, Miúdo Candimba, que lhe faria morrer o riso de escárnio na boca. Mas viu-se pequeno e fraco, uma criança em que ninguém sequer acreditava, a que ninguém sequer prestava atenção. Viu-se miserável e inútil, um bichinho pequeno que para nada serve. Um boneco talvez, um boneco sem valor nem preço.
Virou as costas aos curiosos observadores do espectáculo mórbido, foi caminhando para casa. Devagarinho, afogando o despeito e a revolta nas pedras da rua. Atravessou a cerca, aproximou-se do tabuleiro de jinguba. Hoje não iria vender a guloseima. Nunca mais gritaria pela cidade: cinc'ostões cada pacote. Mesmo que morressem de fome. Nem que a mãe xingasse, nem que a mãe lhe chapasse. Mexeu os bagos com a mão distraída, não se tentou a tirar nenhum. Viu as moitas que limitavam a capoeira, encaminhou-se para elas. Afastou os ramos com lentidão. O coelho branco fitou-o com seus olhos vermelhos. Iguais aos de Só Ferreira. O animal deixou--o aproximar, um pouco receoso. Mas não fugiu. Talvez esperasse mais uma carícia, lembrando da anterior cena de ternura.
Miúdo Candimba sentiu-se enganado. Uma vergonha vinha desde os olhos vermelhos, desde o pêlo branco, incrustava-se no seu cérebro de menino. M'enganaste, coelho. Mariana matou-se, espetou a faca mesmo no coração. Morreu num mar de sangue. As lágrimas caíam dos olhos do moleque. Me deram teu nome, Candimba mesmo, mas não sou igual na ti. Não tenho os olho vermelho, pelo branco. Não sou como tu. Pensei a gente ia ser amigo, te fiz festa. Mariana se matou! Meteu a mão no bolso dos calções, tirou o canivete. Abriu-o e a lâmina luziu. Agarrou no pescoço do animal com o braço esquerdo. O coelho não tentou escapulir. Então, lentamente, reflectidamente, Miúdo Candimba enterrou-lhe a lâmina no peito.
Ficou vendo o pequeno corpo estremecer, o sangue esvaindo-se, manchando de vermelho o pêlo branquinho. A mancha alastrando, alastrando, correndo para as patas, para o chão de terra batida. Depois um estremeção mais violento. E os olhos ficaram rígidos, enormemente abertos, fitando-o firmemente. Miúdo Candimba não encontrou uma acusação naquele eterno olhar. Pousou delicadamente o corpo no solo. Ajoelhou-se, uniu as mãos vermelhas de sangue, uma delas ainda segurando o canivete aberto, e rezou:
— Nosso Senhor, faz que eu acertei bem no coração.



Lisboa, 1962
(in «Poetas e Contistas Africanos»,
Brasiliense, São Paulo, 1963)