11/05/2009

O Encontro


Após o jantar, andam de roda de Lisa: André, Lúcia, Celso e Dalila. Tentam persuadi-la a que os acompanhe ao cinema. – «Vão vocês. E tu, Lúcia deixa-me uma pastilha para dormir.» Mas chega o Fausto que aceita ir, já fazia tenção, dirige-se à Lisa – «Preciso muito de falar contigo» –, pelo que a Lisa cede. Dá conta de que se alinda, se pinta e se adorna com a mesma se não maior calma do que antes, como se nada se houvesse passado e nada se estivesse para passar.
Alegremente, seguem os quatro, à frente, o Fausto e a Lisa um nada distanciados, ouvem o André rabujar: cortaram-lhe o artigo todo, não falava de guerra de África, nem da greve, nem dos petardos, apenas uma referência ao negócio da droga onde a própria C. I. A. está envolvida. O Fausto ainda não disse nada. E o que tem para lhe dizer decerto se não refere ao emprego, por isso Lisa lho faz lembrar – «Preciso de arranjar trabalho. E um quarto.» – «Uma amiga da Marina, a Raquel, uma moça porreira, ofereceu-se para te enfiar no crediário. Como é amiga da chefe, começas já a vender e só depois, se te interessar, frequentas o curso de vendas a que obrigam toda a malta que entra de novo.» – «Para me dizeres isso escusavas de me arrastar ao cinema.» O Fausto pára, enfrenta-a, os olhos levemente esbugalhados, aperta-lhe o pulso. – «Façamos a experiência. Vem viver comigo. Se tens problemas, não dormimos juntos.» – «E eu resolvia a questão do quarto.» – «Preciso de ti. E tu de alguém que te ajude.» Recomeçam a andar.
O cubo luminoso, sobre a porta do cinema, com as arestas móveis mercê das lampadazinhas que se acendem e apagam umas atrás das outras faz rebentar uma grande e mais viva claridade sobre o passeio e sobre as pessoas. Sondam-se, a Lisa e o Fausto: – « Às duas por três passavas para a minha cama.» – «Acho que isso só podia acontecer se tu o quisesses.» – «E quando é que a gente faz só aquilo que quer? Diz lá como é isso da Marina. Que é que tenho a fazer, para já?» – «A Raquel e a Marina encontram-se, amanhã, no Toldo, às três horas. Aparecias também.» O azul e o vermelho dos anúncios vão colorindo os rostos, a seta piscapisca, direita à montra da salsicharia, recomenda frangos assados, e na montra amontoa-se a profusão de enchidos, queijos e frutas raras. As pessoas esbarram aqui e além, cruzam-se, mal se encaram, os moços cabeludos, de blusões, como o Hugo, as moças de mini-saia ou calças e as farripas escorridas ao longo das costas, como a Lisa; a montra de electrodomésticos, a da loja dos brinquedos, os carros que deslizam e adiante param em fila com os muitos pares de olhos vermelhos a luzir, o cenário quotidiano que enche o caminho para o cinema ou para o apartamento do André e da Lúcia. O André, de braço estendido para eles: – «Vocês aí! Vêm ou não?» Mais grupos de moças e moços cavaqueiam, os rapazes enfiando os polegares nos bolsos ou nos cós das calças, as raparigas alisando as melenas. Celso, que estava na bicha, acerca-se, levanta ao ar os bilhetes – «Já começou. Vamos.» Renques de bolos coloridos enchem a montra da pastelaria.
Entram. Pendem do tecto esferas facetadas que lançam reflexos débeis, Lisa mira-se ao espelho – bonita, bem vestida, bem realçados o busto e as pernas – e, triste e curvado, o Fausto mira-se também, alisa os cabelos. Sentam-se lado a lado. Enquanto correm as actualidades o Fausto leva o tempo todo a observá-la.
As primeiras imagens do filme começam, o genérico sobrepondo-se, e Lisa volta a cabeça, cicia: – «Vá, Fausto, dá atenção ao filme.» Das palavras e do olhar de Lisa desprende-se uma ternura que desagrada ao Fausto porque lhe parece completa ou demasiadamente maternal. As imagens incitam as pessoas a imaginar-se no princípio do século, um cais, os bares, o jovem que, vê-se logo, vai ser o herói, belo e forte, Lisa compara-o ao Hugo, depois ao Fausto, há muito percebe que é amada, seria tão fácil e cómodo mudar do apartamento para o quarto do Fausto, ser a moça do Fausto, mas chegar ao meio do mês sem dinheiro, pedi-lo emprestado ao André ou ao Celso, pagar, tornar a pedir, para tornar a pagar e tornar a pedir, isto indispõe os ânimos, predispõe ao duelo, às implicaçõezinhas domésticas.
Jeremias Johnson comprou o cavalo e a mula, sobe a montanha, grande, extensa como a vida, moço, belo e forte como o Hugo.
Hugo põe o disco. Começa a despi-la. Todas as luzes acesas.
Quando a tem nua despe-se também, colam-se um ao outro, embalam-se no ritmo lento da música, Hugo abre e fecha os olhos, Lisa mantém-nos abertos, concentrada nas sensações.
Passiva, feliz, primeiro, revolve-a de súbito o furor que lhe nasceu no útero, lhe liberta os músculos, e palpa o Hugo de alto a baixo, de alto a baixo o beija, o morde, o devora.
A cavalo, galgando passo a passo os penhascos, Jeremias Johnson ganha as alturas. Em grande plano o azul estriado das pupilas que perscrutam a vastidão dos horizontes, a montanha: branca, aqui e além manchada do escuro das rochas ou da vegetação. O ribeiro. O índio, figura feita de pedra, fixa em Jeremias o seu rosto agreste de hostilidade e Hugo roja-a sobre o sofá, morde-lhe o ombro, os seios. O disco chegou ao fim, range, pára de ranger. O tique-taque do relógio, Hugo a sorver-lhe a carne, cheio de fervor, Lisa a sorver-lhe a carne, cheia de fervor. Desfazem-se todos os ruídos, só o movimento de vaivém, o divórcio do mundo, a ausência do lugar, de si própria, o transe, o paroxismo da alegria, da ternura, do encantamento. Depois o grito como um salto sobre a vida. A paz feliz.
No gelo, o morto, sentado, de olhos fixos, espingarda assestada. Johnson arranca-lha. Lisa volta-se para o Fausto: integrou-se na história, absorto, ou pode ser que pense nela, a sonhar que a roja sobre o sofá, lhe sorve a carne impetuosamente. Johnson desvenda a montanha, vasta e densa de arvoredo, ou nua como um deserto. Na barraca do velho caçador, Johnson vê, aterrado, o urso a correr-lhe ao encontro. Ouve-se o rugido e de seguida o tiro. Johnson abateu a fera. Lisa descobre de repente que o moço belo e forte procura na montanha o que ela própria procura na vida: o encontro consigo própria na solidão.
A mamã acaba de lhe pôr o fato de banho. Lisa corre na direcção do pai. Ele espera-a de braços estendidos, toma-a e mergulha-a nas ondas. Lisa cospe a água, quase sufoca, mas ri, agarra-se muito ao pai, feliz porque o mar lhe parece medonho e hostil e sabe que o pai a defende do medo e do perigo.
Entreabrindo a porta do quarto, Lisa avança em passos leves, cheia de sobressalto. Sobressalta-a mais a postura da mãe, de angústia e ansiedade. Os braços do pai, hirtos, ao longo do corpo, os olhos abertos, fixos em Lisa, fazem-na recuar até à parede. Sem desfitar o cadáver, a mãe levanta-se, lança a mão como quem lança a bênção e cerra-lhe as pálpebras. Lisa compreende. Então o espanto e o medo amarram-na à parede.
Ficou uma estátua.
Hugo está a businar, Lisa já o viu, parou do outro lado do passeio, espera uma aberta, atravessa, senta-se, a expressão do Hugo (por certo a dela também) revela o júbilo do encontro inesperado. Dizem ambos ao mesmo tempo: – «Teve piada.»
E Hugo: «Vamos festejar!» – «Em casa?» – «Em casa.» Hugo põe o disco. Começa a despi-la.
Johnson destapa a índia, vê-se-lhe o princípio dos seios, Johnson diz «Oh! Meu Deus!», as luzes acendem-se, INTERVALO, o André, a Lúcia, a Dalila e o Celso levantam-se. – «Vocês vêm?» O Fausto: – «Nós ficamos.» Pergunta à Lisa se está a gostar. – «Sim. Engraçado: há pouco julguei-me identificada com ele. Quando afinal sou precisamente o oposto, incapaz de procurar o encontro com a vida.
Espero sempre que a vida venha ter comigo. Desde pequena, precisei sempre de muletas. O meu grande esteio foi o pai. Depois, a recordação dele. Depois, o Hugo ajudou. Agora, a recordação do pai aviva-se. Em cada um de vocês, não consigo ver mais do que a sombra do que essa recordação representa para mim.» De olhos tristes, levemente esbugalhados, o Fausto lamenta-se: – «Ainda me cheguei a convencer ou a esperançar-me que viria a significar para ti mais do que a sombra de um estímulo.» – «É justamente o estímulo que me falta. Encontrar algo que me prenda à vida sem que seja necessariamente o sentimento.» – «A nível ideológico?» – «Eu sei lá. Talvez. O marxismo começa a tomar o aspecto de receita. Tu, ao menos tens essa esperança. A vida, para ti, vale essa esperança.»
– «Estás errada, pá! Para muitos, a ansiedade política toma essa forma religiosa de realização pessoal, subjectiva. Ou objectiva. Para mim, não. O marxismo é qualquer coisa necessária, que é fundamental efectivar, e é a partir dessa efectivação que é legítimo que as pessoas busquem a realização pessoal.» As luzes apagam-se, regressam as imagens ao écran. Lisa fala baixo. – «Neste momento que é que te leva a gostar da vida?» – «Não sei se gosto da vida. Ou se gosto no sentido que lhe estás a dar. Estou pronto a renunciar a ela por qualquer coisa que constitua ou venha a constituir uma comparticipação útil para os outros.»
Alguém das filas de trás os manda calar. Lisa baixa mais a voz. – «Mas neste momento sentes-te preenchido por um desejo: o de que eu viva contigo. Isso é muito importante para ti. Falta-me essa qualquer coisa muito importante. Sinto-me fisicamente atraída para ti e é tudo.» – «Então porque te obstinas em não querer viver comigo?» – «Já te disse. Não me preenches coisa nenhuma. E a vida a dois é complicada. Principalmente quando economicamente as condições não chegam ao mínimo indispensável.» Mandam-na calar com mais veemência. Lisa cicia:
– «Sabes o que me aguenta? O instinto de conservação.» E ficam por fim calados a olhar para o ‘écran’. Johnson, a índia e o garoto arrastam grandes troncos de árvores, constroem a casa. Há momentos bons, trocam sorrisos afectuosos.
Brincam. Riem. E brincando e rindo, bulham. Com a armadilha para os peixes, a carabina para os búfalos, para as renas e para as aves, lutam, granjeiam a subsistência. Johnson encontra na montanha aquilo que porventura teria encontrado nos lugares donde fugiu: a amarra familiar. Que, volvidos dias, o massacre dos índios desfará para sempre: Johnson enterra a índia e o garoto e parte de novo.
Manhã cedo. Lisa, acordada, chora. Dia dos anos. Quando o pai era vivo, ia ele acordá-la. Arranja-se à pressa. Sai. Sensação, hoje mais acentuada, mais desencorajante: a multidão é o mundo hostil – e já não tem a mão do pai que a defenda. Há o padrasto, o ramo de flores, o beijo, «estás uma mulherzinha», a voz da mãe: – «Não agradeceste as flores, rapariga.»
Tão lesto e rápido como um lobo, Johnson salta, voa sobre cada índio, vibra-lhes golpes mortais: a destreza, a astúcia, o ardor e o prazer da vingança. A canção dolente do índio diz «O caminho que segues é o caminho que escolheste. Se parares, perdes.» Quem obrigou Lisa a escolher? Porque ela não escolheu. Quem lhe há-de dar a liberdade de não parar para não perder? O que é ganhar? Ou perde-se sempre? Terá de decidir entre estender a mão ao Fausto ou repudiando-o mergulhar na solidão onde não se encontra a si própria. A vida amarra-a a esta alternativa – e chama a isto liberdade. Johnson, perseguido e perseguindo, fixa-se na montanha. O rasto que deixa é a lenda: há na vida qualquer coisa a alcançar.
Hugo, Fausto, Lúcia, André, todos alimentam essa lenda e dela se alimentam.
A imagem de Johnson imobiliza-se no ‘écran’, a mão estendida a saudar cada um dos que acabam de ouvir a sua história. As pessoas levantam-se, regressam à sua própria realidade, aglomeram-se junto às portas de saída. No átrio, Hugo espera-os. Lisa conclui que se teriam encontrado no intervalo. Em defesa da qualidade do fi lme, o André dirige-se ao Celso – «Gostei, caramba!» – e o Celso desdoura-o – «Não traz nada de novo, pá.» – «E tu a dares-lhe com o novo!
Alguém diz alguma coisa de novo?». Interrompendo-os, Hugo dirige-se a todos, mais em particular à Dalila – «Sempre querem ir?» O Celso abeira-se – «Acho a ideia porreira» – e, trocando os olhares, o André e a Lúcia encolhem de leve os ombros e logo, num repente, o André puxa a si o Fausto e a Lisa, mantém-nos abraçados, um de cada lado, fita-os alternadamente – «Combinámos ir a uma ‘boîte’, venham daí!» Recusa de Lisa que pede a chave à Lúcia, precisa de dormir.
– «Distraías-te.» – «Distraiam-se vocês. E tu, Fausto, vai também.» Prefere não ir, o Fausto. Ninguém insiste, a Lúcia dá a chave à Lisa. O Celso: – «Tá descansada, não fazemos barulho quando entrarmos, deita-te na cama, ficas tu com a Dalila e durmo eu no colchão.» Entusiasma-os a espectativa de uma noite de farra, «Chau», ouve-se em coro – Ciao! Assim cabemos todos no bólide do Hugo!», grita o Celso já distanciado. E o Fausto e a Lisa tomam o caminho devagar:
«Certo como dois e dois quatro, ocorre a todos que, ambos sós (o Fausto e a Lisa) irão agora direitos ao apartamento fazer amor.» Talvez o Fausto tenha a mesma sensação ou pense talvez que o acaso os deixou sós para que se dêem um ao outro. E se ela se lhe entregasse? A voz do Fausto traduz a irrequietude dos que se julgam no ponto culminante, quando as palavras são decisivas para alcançar o fim em vista – «Compreende que é tudo simples e que complicas a coisa.
Sentes-te fisicamente atraída mas não te preencho coisa nenhuma. Escuta, não te preencho porque, como tu própria o disseste, a realização sentimental não representa a grande ou a única razão de viver. É apenas uma maneira de viver.»
– «Dispensável, acho eu.» – «Necessária.» – «Como experiência.» – «Como experiência, se assim quiseres.» Lisa encara-o, um tenuíssimo formigueiro sobe-lhe das coxas ao sexo, perturba-a. De perturbada que está, dobram-se-lhe os joelhos, o peito arfando, pára defronte da montra da casa de brinquedos. O Fausto tomou-lhe o braço. A mão ferve-lhe. Liberta do Hugo, liberta de qualquer preconceito, nada a impede de ceder aos impulsos. Apoia as costas ao peito do Fausto, volta para ele o rosto: Fausto compreendeu. De arregalados, os olhos parecem crescer. Cresce ele para Lisa e aperta-a no jeito de serena segurança de quem se apossa. Prosseguem o caminho. No elevador, Lisa ressente o que sentiu anos atrás quando subia para o apartamento do Hugo. Abre a porta, entra, espreita a expressão do Fausto, fitam-se olhos nos olhos, começa Lisa a despir-se. Nua, só a trusse lhe cobre o sexo e as nádegas. Ofegando, os seios sobem e descem, redondos e hirtos, coroados pelas duas rosetas muito vivas e os bicos eriçados.
Fausto esmaga-lhos com a boca avidamente. E avidamente, no desesperado delírio do prazer, se rojam um contra o outro. Num primeiro impulso de submissão. Lisa abandona-se. Mas revolve-a depois um furor que lhe nasce no útero, se expande pelo corpo, pelos peitos, pelos braços até às mãos, e afaga-lhe o sexo, palpa o Fausto de alto a baixo, de alto a baixo o beija, o morde, o devora. Inerte, prostrada, segundos após o orgasmo, pressente que lá, não se sabe onde, ou onde costumam tomar forma infernal os sentimentos infernais, dessa região profunda e indeterminável de si mesma, uma ideia envenenada começa a nascer: sem o amor cego da paixão, impelida apenas pelo desejo, veio para a cama com o Fausto. Os lábios do Fausto percorrem-lhe o pescoço, os seios, o ventre. Lisa acaricia-lhe os ombros, paralisam-se-lhe os dedos, e, cerrando muito as pálpebras: – «Apaga a luz de cima, fere-me a vista», entrega-se passiva às mãos que lhe apertam os seios, o ventre, o sexo; retrai-se. Fausto estuda-a. Acende o candeeiro da mesa de cabeceira, apaga a luz de cima, estuda-a. Lisa levanta-se, dirige-se ao ‘living’, regressa já vestida, e, enquanto o Fausto se vai vestindo vagarosamente, compõe a cama, alisa as fronhas, a colcha, pede-lhe que lhe dê um cigarro e dirige-se outra vez para o ‘living’, onde pouco depois o Fausto a encontra semi-estendida no sofá a fitá-lo, meio confusa. – «Em pequena, gostava de bonecas como de pessoas.»
Vê-o acender o cigarro, esbugalhar de leve os olhos como se tentasse desvendar-lhe os pensamentos: – «Eu passava a vida a desejar comboios eléctricos.» Lisa sorri: tem pena do Fausto. Que decerto compreendeu tudo porque está triste. – «O teu pai nunca te chegou a dar o comboio?» – «Nunca.» Lisa esmaga o cigarro.
– «E a tua infância, como foi? O desejar comboios?» – «Sim, Desejei sempre coisas que nunca obtive.» – «Odiavas os teus pais?» Baixa e levanta as pálpebras, enfrenta-a: – «Bem vês!: é difícil saber se o que imagino hoje que senti quando era criança corresponde ao que realmente sentia. Mas creio que fui sempre como sou hoje: não responsabilizo as pessoas, odeio os conceitos que levam as pessoas a maltratar-nos. O pai estava convencido que, educando-me na linha dura, faria de mim um homem à sua imagem e semelhança.» – «Bom. Dá-me um brandy e vai-te embora. Amanhã é dia de trabalho.» Fausto bebe o brandy, reenche o cálice e oferece-o a Lisa. Compõe a gola da blusa, abotoa o casaco, traça o cachecol. – «Chau, moça.» – «Chau.» Lisa sorri de novo, penalizada. Junto do elevador, fita-o:
– «Desculpa ter-te mandado embora, mas preciso de dormir.» – «Eu também. É tarde. Chau.» – «Chau.» Quando leva o dedo ao botão de comando, o suspende e a fita, Lisa teme que ele se deixe resvalar para o drama. Mas não. É só na íris escurecida que se espelha o que lhe vai dentro e o devasta. O bastante para a arrasar. O arranque do motor estrondeia o seu urro de máquina e o elevador desce.

Faure da Rosa, In Adágio