13/05/2009

O Bairro


(Senhor Calvino, Senhor Valéry, Senhor Brecht, Senhor Juarroz...)

Primeiro sonho de Calvino
Do alto de mais de trinta andares, alguém atira da janela abaixo os sapatos de Calvino e a sua gravata (quem?). Calvino não tem tempo para pensar, está atrasado, atira-se também da janela, como que em perseguição. Ainda no ar alcança os sapatos. Primeiro, o direito: calça-o; depois, o esquerdo. No ar enquanto cai, tenta encontrar a melhor posição para apertar os atacadores. Com o sapato esquerdo falha uma vez, mas volta a repetir, e consegue. Olha para baixo, já se vê o chão. Antes, porém, a gravata; Calvino está de cabeça para baixo e com um puxão brusco a sua mão direita apanha-a no ar e, depois, com os seus dedos apressados, mas certeiros, dá as voltas necessárias para o nó: a gravata está posta. Os sapatos, olha de novo
para eles: os atacadores bem apertados; dá o último jeito no nó da gravata, bem a tempo, é o momento: chega ao chão, impecável.

Como ajudar os reformados
Por inadvertência a senhora de idade avançada – contava o senhor Calvino – reformada, já sem agilidade para recuar ou avançar mais rápido, ficou entalada no portão que se fechara devido a um automatismo que, esse sim, ainda funcionava como se estivesse em plena juventude. Ali se viu, pois, a velhota, instalada de maneira invulgarmente incómoda entre o exterior e o interior da propriedade.
Exactamente no meio.
E por que razão estava ela ali? – perguntou Calvino aos seus interlocutores.
– Simples – continuou Calvino – depois de vários anos sem qual quer contacto com esse seu vizinho, de modo imprevisto, a senhora fora convidada para um chá.
“Na altura, ficou contente – toda a gente aprecia que lhe dêem um pouco de atenção – mas agora, com o portão encravado mesmo entre as omoplatas, não poderia deixar de se sentir incomodada.
“Estranhou depois os dias passarem e o dono da casa não vir saber dela.
“E ninguém entrava ou saía da extensa propriedade e por isso o portão ali continuava, imóvel, pressionando o seu corpo contra o suporte de ferro que servia de base ao portão.
“Ao fim de uma semana começou a sentir uma dor na cabeça, mais propriamente na zona da nuca.
“O portão continuava a fazer pressão sobre os seus ossos, já um pouco enfraquecidos pela idade.
“Mas por que razão a convidaram se era notório que não sentiam a sua falta?”

A colher
Para treinar os músculos da paciência o senhor Calvino colocava uma colher de café, pequenina, ao lado de uma pá gigante, pá utilizada habitualmente em obras de engenharia. A seguir, impunha a si próprio um objectivo inegociável: um monte de terra (50 quilos de
mundo) para ser transportado do ponto A para o ponto B – pontos colocados a 5 metros de distância um do outro.
A enorme pá ficava sempre no chão, parada, mas visível. E Calvino utilizava a minúscula colher de café para executar a tarefa de transportar o monte de terra de um ponto para outro, segurando-a com todos os músculos disponíveis. Com a colher pequenina cada bocado mínimo de terra era como que acariciado pela curiosidade atenta do senhor Calvino.
Paciente, cumprindo a tarefa, sem desistir ou utilizar a pá, Calvino sentia estar a aprender várias coisas grandes com uma pequenina colher.

O sol
Calvino tinha nas mãos um livro cuja capa estava já por completo desbotada pelo sol. O que antes era uma cor verde escura estava agora transformada num verde tranquilíssimo, quase transparente.
Olhou para os outros livros na prateleira. Todos estavam a perder a sua cor original, como se a luz do sol mastigasse ou roesse – sim, aquilo parecia o trabalho de um roedor subtil – a capa dos livros.
Um livro, por exemplo, que fora colocado há menos de um mês nesse local da casa onde o sol, a dadas horas do dia, incidia directamente, apresentava um aspecto curioso: apenas uma linha da parte de cima perdera a cor, para baixo o resto da capa mantinha o vigor da coloração inicial. Não se sabe por que associação de ideias, mas Calvino lembrou-se das diferenças entre as zonas do corpo tapadas ou não tapadas, durante o verão, pelo fato de banho.
Olhou de novo para a prateleira e para as capas sem cor e subitamente como que percebeu tudo: a origem primeira do fenómeno, os verdadeiros motivos daquele acontecimento que alguém poderia classificar, apenas à superfície, como um acontecimento químico. Mas não era assim tão simples. Calvino não estava perante uma mera alteração de substâncias, havia ali uma vontade, uma vontade forte que se diria munida de músculos frágeis. E essa vontade
insuficiente vinha do sol: o sol queria abrir os livros, a sua luz concentrava-se, com toda a potência, na capa de um livro porque o queria abrir, queria entrar na primeira página, ler as narrativas, reflectir a partir das grandes frases, emocionar-se com os poemas. O sol queria simplesmente ler, ambicionava-o como a criança que está prestes a entrar na escola.
Calvino meditou. De facto, não se lembrava de ter visto uma única vez um livro aberto ao sol numa das suas páginas. Bem vulgar era que alguém, ao ar livre, pousasse um livro numa mesa ou num banco de jardim (ou mesmo no chão), mas sempre, percebia agora Calvino, sempre com as duras capas fechando o seu conteúdo, tapando o acesso às principais palavras.
Era tempo pois de alguém agir. Era tempo de alguém retribuir esse toque carinhoso que em certos dias a luz do sol projecta no rosto do homem, tranquilamente, mas como que o salvando de uma grande tragédia, do desespero, por vezes mesmo do suicídio.
Calvino olhou de novo para os livros da prateleira contemplada pelo sol. Rapidamente passou os olhos pelas lombadas. Estava a escolher um livro para alguém ler. Com atenção profunda escolhia o livro mais apropriado; não estava, repare-se, a escolher de acordo com o seu gosto, mas sim, de acordo com o gosto do outro. E finalmente tirou o livro. Eis um bom primeiro livro para um leitor!, exclamou Calvino para si próprio.
Abriu-o, a seguir, na primeira página, passada a ficha técnica (quem a quer ler?) e pousou o livro, assim, aberto, no início da narrativa, virado para o ponto por onde o sol costumava descer:
(“Alice começava a ficar mais que farta de estar para ali sentada ao lado da irmã, na margem do rio, sem nada para fazer.”)
Amanhã, voltaria de novo para virar a página. E nos dias seguintes faria o mesmo até ao final do volume. E se, depois disso, a luz do sol continuasse a forçar a entrada nos livros, Calvino respeitaria esse ímpeto avaliando-o como a ansiedade de um leitor que já começou e não quer parar, não consegue: quer ler mais.
Se fosse caso disso, Calvino escolheria outro livro – colocando algo de novo debaixo do sol – depois outro e outro, e voltaria todas as manhãs, sem falta, antes de nascer o dia, para virar a página.

Gonçalo M. Tavares in O Senhor Calvino


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