10/05/2009

O albatroz





A minha avó tornou-se rainha do crime muito antes de eu nascer, muito antes de nascer a minha mãe, e só reencontrou o caminho do Bem muito mais tarde. Mas isso é outra história.
Trouxe este álbum de fotografias porque olhando para ele é mais fácil recordar o que aconteceu. Logo na primeira página podem ver a minha avó. Nesse tempo, a moda era diferente. A minha avó também era diferente. Para já, estava viva. Observem bem. Essa aí,
a loirinha sentada ao colo do pai embora tivesse já catorze anos, com um laço gigante na cabeça e um pássaro ainda mais gigante no ombro. Ninguém se lembra do pássaro, deve ser uma ave fantasma, porque no estúdio só lá estava ela, de branco, e o pai, de preto, o pássaro só apareceu quando as fotografias foram reveladas.
O grande culpado pela dita carreira no crime foi Alfredo Ezequiel, de cognome “o Albatroz”. Alfredo morreu crivadinho de balas durante um assalto a um banco onde o resto do gangue apareceu como habitualmente mascarado de animais polares, com Alfredo ataviado de albatroz.
Tinha passado a manhã ao espelho com a mulher devotadamente a espetar-lhe penas brancas-de-neve no toutiço como um chefe índio a preparar-se para a batalha. A mulher não parava de perguntar “Ó Alfredinho, mas estes desfiles não acabam nunca?”. O Alfredinho
tinha-lhe explicado que faziam desfiles de caridade na escola de samba “Os Amigos do Alheio” em prol das crianças desfavorecidas, e a mulher dizia “Ai e a que horas é o desfile, ó Alfredinho, e posso ir eu também, vestidinha de Carmen Miranda, eu juro que não incomodo, fico no passeio a ver-te desfilar, temos ali um ananás tão bom que nos trouxe a prima Juca da Madeira” e o Alfredo a meditar no que é que os outros membros do bando iam pensar se ele aparecesse no assalto de Carmen Miranda à trela com o ananás da prima Juca no toutiço.
Segundo parece, conseguiu sacudi-la com a explicação de que era um desfile restrito só para as crianças desfavorecidas, era assim uma sociedade secreta como os Maçons só que sem os aventais.
Alfredo, “o Albatroz,” atirou-se para a morte em voo planado da janela mais alta do banco. Tinha todos os polícias da esquadra no seu encalço, e a mulher no passeio com o ananás da prima Juca na cabeça à espera do desfile, e a Foca a correr atrás dele escada cima e a gritar-lhe Voa, Alfredo, Voa Alfredo, e o Alfredo trepou à janela, abriu as asas de albatroz que a mulher tinha cosido durante sete serões, e atirou-se em voo planado de boca aberta por onde o vento entrou e olhos abertos por onde a morte entrou, e se um polícia não a tivesse atirado ao chão teria esmagado a mulher que olhava para ele de queixo caído e o ananás às três pancadas, e se viu de repente no passeio com um garboso polícia por cima e um ananás desfeito por baixo.
A mulher do Alfredo levantou-se e disse: “Que pena, um ananás tão bom.” E nem uma palavra para o chui que lhe salvou a vida. O Alfredo também estava no passeio com um polícia em cima, mas sendo que estava ainda mais desfeito que o ananás já não conseguiu
agradecer a ninguém. Pelo menos conseguiu dizer umas últimas palavras, coisa que o ananás não fez, ou se fez, ninguém o ouviu. As últimas palavras do Albatroz foram “Apanhem o Pinguim.”
Depois do Dia Fatídico em que o Alfredo percebeu que as asas não estavam tão bem feitas como ele pensava, a Alfreda (chamamos-lhe assim, para não lhe encardir o nome) foi à esquadra prestar depoimento sobre o marido e jurar que sempre pensara que ele era membro de uma sociedade secreta tipo a Maçonaria mas sem os aventais e dados a desfiles de caridade onde iam todos vestidinhos de animais dos gelos.
“Ai se visse o fatinho de morsa que lhe fiz”, disse a Alfreda, de quê, disse o polícia, de morsa, disse a Alfreda, a pensar que todos os chuis tinham a desagradável mania de obrigar as pessoas a repetir tudo, e de repente viu que todos os polícias olhavam uns para os outros e depois para um retrato que estava no lugar de honra onde toda a família da Alfreda tinha a avó Perpétua e onde os polícias deviam ter o chefe dos polícias mas não tinham, tinham um, bem, pinguim, tinham um pinguim pendurado na parede, e agora estavam todos a olhar para ele como se o Pinguim tivesse dito qualquer coisa.
Quem é o chui que tem um pinguim na parede, pensou a Alfreda, na parede só se pode ter fofo gato bebé, fofo cão bebé, ou cabra loira de mamas à mostra, mas se calhar o gajo foi de lua de mel ao Pólo Sul, se calhar a mulher dele é esquimó, se calhar transforma-se em foca depois da meia-noite e faz habilidades com bolas, e de repente o polícia que lhe tinha caído em cima e a impedira de morrer assassinada pelo próprio marido disse – A senhora dá-me a
honra de jantar comigo logo à noite?
A Alfreda não conseguia deixar de olhar para o Pinguim até acabar por descobrir que era de facto um homem disfarçado de pinguim, com uns olhos de esquimó por trás do disfarce, e um anel com um P no dedo médio da mão esquerda, onde devia ter a aliança, e por baixo a legenda “Pinguim – Poderoso Malfeitor”. De repente ela percebeu que o sub-chefe lhe fizera um convite e desviou as atenções do Perigoso Malfeitor para o sub-chefe que lhe pareceu muito menos esquelético, muito menos amarelinho, muito menos sub e muito mais chefe.
Nessa noite foram jantar os dois, o sub-chefe porque desde que se deitara sobre Alfreda (no estrito cumprimento do dever, é certo, mas deitara tout-de-même) nunca mais fora a mesma pessoa, a Alfreda porque já não ia jantar fora desde que o Alfredo chegara certa vez com muito dinheiro e a levara ao Ritz lá do sítio.
Sentaram-se à mesa e o sub-chefe desatou a fazer-lhe perguntas sobre os fatinhos do Defunto Alfredo, em parte porque estava mesmo interessado e em parte para não olhar demasiado para o decote dela, e ela sem perceber muito bem aquele interesse nas farpelas do Defunto Alfredo, e de repente ele diz para o chefe de mesa, “Pierre, a senhora vai querer a sopa de espargos”, e o Pierre muito hirto no seu fatinho preto de criado inclina-se e diz oui monsieur e
estende a mão para recolher a ementa e de repente a Alfreda dá com o P, o anel do P no dedo da mão onde devia ter a aliança, P de Pierre e P de Pinguim, e vai subindo os olhos pelo fatinho escorregadio de tão preto, sabendo o que é que vai encontrar por cima da boca em
linha recta, vai encontrar os olhos de esquimó como os da fotografia cravados nos dela.
A Alfreda escusou-se com uma indigestão repentina, levantou-se e foi a correr na direcção das casas de banho só que em vez de entrar nas casas de banho entrou a correr nas cozinhas monstruosas onde o Pinguim se debruçava sobre duzentas caldeiras vomitando chamas e
vapor como se tivessem os dois morrido e tivessem ido parar ao inferno.
O Pinguim dá com a Alfreda especada no outro lado do inferno e descobre que afinal Deus existe porque sempre perguntara a si próprio o que é que tinha o xonas do Alfredo para merecer um mulherão daqueles e só não tinha enfiado o xonas do Alfredo para dentro da fritadeira de batatas porque o xonas do Alfredo era extremamente bom a abrir bancos e rodar chaves e foi uma grande e estúpida perda a forma como se atirou em voo planado, mas se calhar fora a mão de Deus pela voz da Foca que empurrara o xonas do Alfredo pela janela, de maneira a que ele, o Pinguim, pudesse ficar com o mulherão da mulher do xonas do Alfredo, a mulher que ele via rodar em todos os bailes de bombeiros a que ia todos os Domingos sem que o xonas do Alfredo o reconhecesse.
Pierre ia de luvas e lacinho aos bailes de bombeiros, ficava num canto a rodar o copo de morangueiro como o sangue do xonas do Alfredo e a pensar espetava-te a faquita aqui e aqui e aqui, e a pensar coisas ligeiramente piores sobre a mulher do Alfredo que rodava o vestido azul à frente dele como um nevoeiro daqueles dias que vão ser de sol. E aqui estava ela agora no mesmo vestido azul como se tivesse escapado do paraíso, como se tivesse dito aos anjos, desculpem lá mas isto não é para mim, já tive gajos com asas que bastassem lá em baixo.
E aqui está ela agora como se o tivesse reconhecido, ele não sabe como, afinal a Alfreda nunca o viu fora da máscara, não sabe que ele é o discreto Pierre que o chefe do Ritz trouxe da Antártica num navio de bacalhau a vomitar durante catorze dias e catorze noites.
O Pinguim largara a Antártica porque os bancos do norte já não tinham segredos para ele, que era filho de uma família de piratas todos cegos do olho esquerdo de tanto usarem o sextante apontado ao sol. Não aprendeu nada com os homens mas aprendeu tudo com as mulheres, todas as artes da pastelaria e dos beijos, das caldas e dos preliminares, dos estufados e dos durantes, dos molhos e dos finais felizes. Não se sabe com quem aprendeu a arte das fechaduras, dos códigos, dos cofres, das chaves. Nem tudo se sabe nesta vida. Mas
quando um chefe português ficou preso no gelo, o Pinguim decidiu que queria ver mais mundo que o polar, aceitou o convite e desaguou no Ritz, levando nos dedos a arte do açúcar e das fechaduras.
Assim que chegou, desatou a atacar as cozinhas e os bancos portugueses. De dia escaldava coelhos vivos que mergulhava na panela de água fervente sem um estremecimento da mão ou da alma, mandava para a sala pratos de cristal onde pulsava o coração de uma ostra apenas adormecida, fazia escorrer calda de groselha como o seu próprio sangue pela superfície polar de um cheesecake.
À noite angariava sócios para um gangue que depressa se tornou o gelo em torno das almas dos seus conterrâneos: cinco depravados, a Morsa, o Lobo do Ártico, a Foca, a Ursa e o Albatroz, que arrancara às garras do magistério, do mar, dos salões, da igreja, e da Alfreda.
Era um bocado estranho que ainda não tivessem sido apanhados sendo que eram quase todos íntimos do sub-inspector. A Morsa até era professora da filha dele, inclinava-se todas as manhãs sobre a penugem loira do pescoço da criança, e ao fim da tarde quando o pai da Alicinha se esquecia de a vir buscar, a Morsa telefonava ao Pinguim a pedir para atrasar o assalto desse mês. O Pinguim atirava uma galinha viva aos uivos para dentro do caldeirão e pensava que se não precisasse tanto daquela mulher a trocaria por outra, e entretanto na escola a Morsa cantava por trás dos vidros pintados com cenas de contos de fadas, a Cinderela nos braços do príncipe e a Bela nos braços do Monstro e o Capuchinho nos braços do lobo, e perguntava, O que é que queres ser quando fores grande, Alicinha, e a Alicinha respondia, Polícia como o papá para apanhar as pessoas más, e a Morsa passava-lhe a mão pelo pescoço branco onde começava a gola do bibe e dizia, Apanhar as pessoas más é uma nobre profissão e útil à Humanidade.
O sub-chefe chegava a arfar e dizia – Desculpe lá, isto é uma vida de loucos – e pensava para dentro, Também não interessa, esta mulher não tem nada que fazer, coitada – e às vezes também pensava, Ela até podia ser bonita se não usasse umas lentes tão grossas e soltasse o cabelo e tivesse uma cara menos totó, e a Alicinha passava lentamente dos braços de um para os braços de outro, e nesse milésimo de segundo o sub-chefe pensava, que estranho, esta mulher cheira a rosas, e por momentos tinha uma vontade estranhíssima de saber mais sobre ela, de a levar a casa, e subir e ver que tipo de mobília tinha e se podia ficar lá de noite e descobrir se os seus lençóis cheiravam assim também a rosas ou se era do seu nariz com sinusite.
Mas a Alicinha passava de mãos e a Morsa saía dali a correr para casa do Pinguim, onde ficava até que a noite batia no fundo de pedra, e vestia o fato de animal polar e partiam para acordar o segurança de um banco a trezentos quilómetros dali.
Não havia muito a dizer sobre o Lobo a não ser que andava no mar, andava no mar, andava no mar. Andava no mar desde que nascera, vira a luz que saía das fendas submarinas, mergulhara para dentro dos salões adormecidos de navios afundados e comera à mesa com o que restava dos cacos do serviço de porcelana e com o que restava dos passageiros, ossos, fivelas, botões. Deitara fora das redes mini-sereias verdes e esgazeadas, adormecia entre o cruzeiro do Sul e Cassiopeia e sentia-se enjoado em terra a não ser quando dormia com alguma mulher que não a sua, que era do signo Capricórnio e desposara aos 3 anos porque falava pouco e tinha olhos do tamanho de pires. Mas o facto é que não conseguia dormir com ela sem sentir que a estava a dessacralizar, e para se consolar dormia com as mais brutas aquisições da casa da Concha Vermelha, a Vitória, a Marlene, a Leandra, e a outra, como é que ela se chamava, a que metia sardinhas na coisa a achar que lhe agradava.
Foi aqui que ele deu um dia com o Pinguim. O Pinguim nunca dormia com nenhuma das meninas, ficava sentado na colcha de cetim a inquirir se alguma delas estava farta da Humanidade, mas parece que estavam apenas fartas dos homens e o Pinguim já estava a perder a esperança de recrutar alguém por lá quando ouviu o barulho que vinha do quarto do Lobo e pensou, ali está uma alma que só pode odiar a Humanidade e não apenas as mulheres.
A Foca era condessa, oferecia chá ao sub-chefe sempre que ele lá ia jogar bridge às quartas-feiras levando Alice que brincava lá em cima do quarto dos filhos da Foca. Um deles fazia desfalques na Suíça e o outro era um fantasma, tinha morrido há muito tempo, aos anos, de tuberculose, nos braços da mãe entre véus azuis e uma foca branca de peluche. A partir desse momento a Foca decidira vingar-se da Humanidade mas só o Pinguim descobrira esse inexplorado potencial para a destruição bíblica.
Sentadinho placidamente no lago ao pôr-do-sol, ficava a vê-la apanhar uma perca com as suas próprias brancas mãos, ou permanecia recostado na sela do cavalo enquanto ela galopava que nem uma alma do inferno entre a chinfrineira dos cães e torcia com as mesmas
brancas mãos o felpudo pescoço de uma raposa espirrando sangue para cima do seu ainda mais vermelho cabelo enquanto a matilha uivava de prazer e regressava por momentos à sua condição de lobos, (a matilha), e de loba, (ela).
O lugar de lobo já está ocupado, pensou o Pinguim, mas podes ser a Foca, e ao regressar a casa da Foca observou por instantes a loira filha do sub-chefe adormecida na maior poltrona, uma coisa de veludo branco onde a criança se afundava como se morta na tundra.
Era a Foca quem acordava Alice, e lhe retirava a foca de peluche das mãos e a devolvia ao pai deixando uma gota de sangue de raposa como uma lágrima no rosto da criança.
Úrsula tinha 35 anos quando se tornou a Ursa, e quando o Pinguim chegou à cidade acabara de perder a virgindade com Bernhardt, o seu professor de alemão. Além da virgindade, a Ursa também perdeu o anel de safiras que usava desde que a avó a quisera recompensar por ser a guardiã da pureza da família. Perdeu-o porque achou um bocado imoral estar a usá-lo no momento em que deixava de ser a guardiã do que quer que fosse, e portanto tirou-o e deixou-o no bolso do casaco, que tinha um buraco no forro por onde a safira deslizou silenciosamente até se perder nas pedras da calçada enquanto Úrsula caminhava caminhava caminhava sobre pedras prateadas como peixes.
A família ficou mais preocupada com a perda do anel do que com a perda da virgindade, até porque o anel estava na família há mais tempo do que a virgindade de Úrsula. A Ursa bem se estafou a rezar a Santo António, que é o Santo das coisas perdidas, mas não conseguiu nada, provavelmente porque estava tão desesperada que enfiou pela primeira capela que lhe apareceu e só no fim da reza reparou que não estava na igreja de Santo António, ou pelo menos o santo estava um bocado mudado: agora usava uma longa cabeleira loira e uma túnica dourada e uns olhos chispantes de vidro azul e uns ainda mais chispantes trovões de papel prateado na mão e por momentos passou pela cabeça da Ursa que o Santo António tivesse caído também ele nas garras da Imoralidade.
Perguntou ao padre, que santo é aquele, e o padre disse Santa Bárbara e ela disse ai meu Deus, como é que uma santa com uns trovões de cartolina alguma vez me vai ajudar a encontrar o meu anel, e foi nessa altura que perdeu também a fé, mas tendo já perdido tanta coisa, nem lhe sentiu a falta.
Nessa noite trovejou como se a santa quisesse destruir o mundo e a Ursa ficou deitada na sua cama do tamanho de um berço, a chorar e a pensar que no dia seguinte iria à igreja de Santo António pôr uma vela do tamanho do alemão para ver se o Santo lhe perdoava.
No dia seguinte levantou-se e nem reparou que a chuva lhe largara o anel na varanda, onde as safiras luziam como uma nave espacial, se é que sabem o que quero dizer. Se não sabem também não faz mal porque a Ursa nunca deu por isso e o anel ficou lá três dias luzindo furiosamente, piscando, chamando gritando o nome da Ursa em língua de anel e de extraterrestre, gritou e chamou três dias e depois foi levado pelo vento, que era regido por outro santo qualquer a que a Ursa nunca se lembrou de ir rezar.
A Ursa encontrou o Pinguim numa festa da igreja e não me perguntem o que é que ele lhe disse que eu também não sei, só sei que um dia depois ela estava ataviada de grande ursa ao lado do Lobo Ártico e da Foca, pronta para a luta.
Moral da história da Ursa: nunca percam um anel, se puderem. Nunca percam a virgindade, se puderem. Nunca falem com estranhos, se puderem. Não me perguntem que artes assaltatórias tão especiais tinha aquele bando de inaptos, ressabiados, recalcados e taradões recrutados pelo Pinguim. De comum tinham apenas um profundo desprezo pela vida – tirando o Albatroz, que não sei se já vos disse era alfaiate. Cortava fatinhos por medida e cortava as costas do Pinguim no preciso momento em que se olharam e perceberam que havia ali qualquer coisa entre os dois que não vos sei explicar.
O Albatroz não tinha um profundo desprezo pela vida, mas tinha um profundo jeito de mãos, tal como a mulher, e além disso precisava de dinheiro e além disso estava um pouco farto daquela cena de cortar tecido preto sobre corpo de velhinho. Raramente lhe aparecera um corpo tão possante como o do Pinguim, de músculos desenhados a punhal por todos os cristais da Antártica e os olhos amarelos como os de um lobo olhando entre fendas de gelos da estepe.
De repente o Alfredo teve muito medo, a tesoura derrapou-lhe das mãos e cravou-se mesmo junto ao pescoço do outro e o Alfredo pensou, estou feito, vou morrer, é o fim do meu negócio. Tombou de joelhos suplicando-lhe que lhe perdoasse e o outro disse-lhe – Precisamos de conversar.
Era o seu maior defeito, o maldito sentimentalismo, pensava o Pinguim. Agora, em frente às caldeiras e à Alfreda, o Pinguim não pensava que também ele estava preso do mesmo sentimentalismo do Albatroz, só pensava como é que havia de conseguir que a Alfreda entrasse na sua vida. Não podia arrecadá-la para membro do gangue, via-se logo que aqui estava uma alma que não podia estar mais longe de odiar a Humanidade. O Albatroz conseguira enganá-la esses anos todos mas o Pinguim não gostava de enganar as mulheres com quem dormia, se possível, achava que era o mínimo, já que não podia dar-lhes uma vida honesta. Quem assalta bancos não se pode dar ao luxo de ter uma mulher na sua vida, a não ser que também ela assalte bancos. Portanto o Pinguim lançou mais um olhar à Alfreda e depois desapareceu entre as dezenas de homens-pinguins que enchiam as cozinhas do Ritz.
Quanto à Alfreda, ali em frente dos geisers das batatas fritas teve uma revelação e percebeu tudo, percebeu o que é que o Pinguim fazia quando não estava a decorar bolos de casamento nem a levar o consomê à mesa do canto, percebeu para onde é que ia o Alfredo vestidinho de Albatroz, percebeu que aquele era o homem da sua vida, de uma outra vida que não esta quando ambos voltassem a nascer esquimós. Também percebeu que nunca estivera tão perto do Inferno, por isso virou costas às fumarolas e aos geisers, regressou à mesa do sub-chefe, ficou caladinha o resto do jantar sem abrir a boca sobre o Pinguim, e no dia seguinte apanhou o primeiro voo para a Madeira para casa da prima Juca e nunca mais ninguém a viu.
– Enlouqueceste, disse a Morsa ao Pinguim. – Vai denunciar-nos a todos, essa mulher, vai levar o sub-chefe a comer petit-fours e rodelinhas de ananás cristalizado na sua casinha e vai-lhe contar tudinho. Aliás, ele já deve vir a caminho com a tropa toda atrás.
O Pinguim não sabia como explicar que a Alfreda não ia denunciá-los, ele tinha a certeza absoluta de que a Alfreda não ia denunciá-los, mas permanecia uma necessidade: precisavam de um segundo Albatroz.
Bem, para não estarem aqui a assistir à reunião, façam um fastforward até à entronização do novo membro do gangue. Já passaram vários anos, primeiro porque um Albatroz não é assim tão fácil de encontrar, segundo porque a nova aquisição precisou de algum treino. De qualquer maneira, dizia o Pinguim, nunca vi ninguém com tanto talento.
Já tinha quase desistido de encontrar um segundo Albatroz quando certo dia bateu os olhos nela e teve uma revelação tão grande que ficou especado em pleno baile. Estava, como podem calcular pela palavra baile, num dos salões da Foca, e depois de ficar especado a olhar para a criatura que rodava no meio do salão vestida de branco, tão imaculadamente vestida de branco, tão de branco dos pés à cabeça, tão de branco-puro, branco-hóstia, branco-polar, que o Pinguim achou que era um sinal, mesmo não acreditando noutros sinais que não os de beleza e os de trânsito (e mesmo nesses, pouco).
Provou-se que tinha razão como sempre. O Pinguim nunca se esquecerá da primeira vez que a viu no alto de um palácio de vidro, no cimo do telhado, o cabelo loiro ao vento, o rosto virado para o céu de trovoada, as asas de albatroz abertas erguidas contra o céu negro largando penas brancas como se nevasse.
Nunca roubaram tanto e com tanto gosto como nos anos em que Alice esteve com eles. Não pediu autorização ao pai, obviamente, não se pede autorização a um sub-chefe para entrar num gangue de malfeitores, mas explicou que uma vez por semana ia ajudar as amigas em obras de caridade, e o pai pensou preocupado que tinha de fazer qualquer coisa para impedir a pequena de dar em freira.
A filha que eu nunca tive, murmurava o Pinguim, tocando ao de leve a testa da criatura que estava no meio da sala a enfiar as mangas de albatroz como os criados da cozinha enfiavam as luvas de borracha antes de escamarem o peixe. Daqui a uns anos, pensou o Pinguim, daqui a uns anos largaria o Ritz, largaria a Morsa e a Foca e o Lobo e a Ursa nas dotadas mãos de Alice, largaria mesmo os seus milhões nas mãos de Alice, largaria a sua alma nas mãos de Alice, e apanharia um barco para acabar o resto dos seus dias entre flores, rosas, cravos, antúrios, estrelícias, por onde algum dia, alguma noite, avistaria novamente o vestido azul de Alfreda e poderia então dizer-lhe, no céu, tudo o que o inferno o impedira.
Mas não ainda, pensou o Pinguim, não neste momento em que a Morsa corrigia os trabalhos de crianças malcriadas, e o Lobo recolhia uma rede cheia de sardinhas tão luarentas que pareciam de vidro, em que a Foca mudava dos braços de um general para os de um juiz e dizia que boa ideia que foi recuperar a moda da valsa, e a Ursa relia o Cântico dos Cânticos em alemão.
Ainda mais longe de todos, a fronteira com a floresta onde ressonavam as bruxas, Alice dormia de braços cruzados como um guerreiro vikingue, com uma pena de albatroz enredada no cabelo loiro e o sub-chefe ouvia Mozart muito baixo, para não a acordar,
levantando os olhos de vez em quando para a foto que acabavam de tirar os dois no fotógrafo, ele e Alice, ele e Alice e o pássaro gigante que era uma maldição ou um prenúncio ou ambas, ele não sabia, era uma sorte não acreditar em nada disso, ninguém nunca, pássaro ou humano, lhe tiraria a filha dos braços.

Catarina Fonseca, In Onde a Terra Acaba