11/05/2009

A mulher da esfrega

Há um mistério na vida de Joana, e no entanto na sua alma lê-se como através dum vidro. Tudo nela será falso excepto a dor. Não sei, ninguém sabe o que tem.
Sinto que se obstina como se fosse de pedra e dentro houvesse outra Joana a dar com a cabeça pelas paredes. Não ouço o que diz, nem sei o que sofre – mas a desgraça sua naquele monólogo sem pés nem cabeça, a que não ligo sentido.
Debalde o sonho se encarniça. O sonho, que cabe no mundo, cabe entre as quatro paredes daquele caco e revolve-a. Fecha a boca como se tivesse medo de falar.
Não quer ver – e há-de por força ver. Persiste em manter de pé o resto da ilusão em que passou a vida, obstina-se o ciclone vivo em pô-la frente a frente à desgraça. É sonho contra sonho. O que ela não quer é ver, e só ela sabe o que não quer ver. Não pode com o peso desconforme que a torna grotesca, e de todo se assemelha agora à árvore do quintal: mais sonho – mais flor. Abre uma boca enorme, fecha-a sem emitir som. Mostra as mãos, aperta os gorgomilos e o sonho arranca-lhe farrapos.
Há-de acabar por lhe extorquir a dor...
Sua vida é um monólogo que eu não sei traduzir. Nossa vida é sempre um monólogo de interesse e de sonho. Sempre o mesmo monólogo interior, de dia, de noite, quando acende o lume ou quando põe em mim os olhos turvos. Talvez os bichos monologuem assim, muito baixinho, pra dentro, só dor, sem entenderem a vida nem explicarem a vida. A desgraça está ali ao pé, cada vez mais seca, e nem o sonho nem a desgraça conseguem arrancar-lhe aquilo de vez para fora. – A minha fi lha... – Mas isso não basta! não chega! Mais dor, mais sonho. Abre a boca cada vez maior e não tira outro som dos gorgomilos: só emite um ronco. A desgraça e o doirado tingem e entranham-se na água de lavar a louça. Há-de acabar por falar...
Até agora por mais que faça sai-me das mãos ridícula.
– E vai eu disse-lhe... – E estaca, esfarrapada e atónita. Sacode-a o sonho com desespero. – Hã... – E, como naquele caco espesso só há duas ou três ideias como traves-mestras, e ternura naquela alma obscurecida, não avança mais palavra. E a desgraça sua e tressua. Grotesco, grotesco, e desespero neste grotesco, e dor neste manequim desconjuntado, com um xale a esvoaçar e a boca espremida. Anda aqui um ser imenso que luta com um ser humilde e o amolga até à caricatura. Não pode mais – e ainda aperta a boca... O que tu lhe fizeste, sonho! O que tu lhe fizeste!...
Tornaste-a disforme como a sombra dum bonifrate projectada sobre um écran.
– Criou aquilo a bafo, trouxe-o sempre consigo debaixo do xale, com os olhos aguados e tal ar de aflição que parece tonta. – A minha filha... – e tu arrastas-lhe a dor como um trapo por todos os esgotos. Debalde se debate: tem de falar...
– A minha filha casou rica, a minha filha tem uma sala de visitas (é o que a Joana mais admira no mundo) como a das outras senhoras. A minha filha... não posso! não posso!...
E, para não avançar mais, a Joana ri-se de si própria. Quem a não soubesse capaz de exagerar, diria que exagera. Ajunta pormenores embaraçosos a essa história que se parece com a mulher da esfrega pelos empurrões e pelos trapos.
Repete-se, hesita, volta ao princípio, sem termos para se exprimir. E atrás das palavras sem ligação sente-se cada vez mais dor: o pano sujo da esfrega está embebido de lágrimas.
– Tenho uma tristeza metida em mim...
A narrativa desconjunta-se: ganha em dor e em grotesco. Enche a boca, perde em naturalidade, adquire em imponência. O tom carregado é de farsa com resíduos de lágrimas. A desgraça ri-se da desgraça. Aumenta as cores de exagero, carrega o traço, e a tinta engrossa:
– A sala de visitas! a sala de visitas!... – Representa com ademanes e mesuras grotescas a sua entrada numa sala em passo medido de procissão. Avança um passo, recua um passo. E aí surgem agora as visitas da filha, umas atrás das outras com espalhafato. A Joana prolonga demasiado a cena para as velhas se rirem – e tem os olhos arrasados de lágrimas. Insiste, pára-lhe na boca o riso desdentado como se tivesse um nó no gorgomilo. Teima, e desata a chorar. – E vai eu disse-lhe... – Reage e começa logo a rir. É um quadro estranho e sem realidade.
No fundo, a tintas que ressumam desespero, agitam-se figuras com penantes desconformes e sedas amarelas. Primeira dama, segunda dama – e os chapéus têm penachos doirados, os vestidos recortes de espanto. E as mesuras repetem-se num acesso. Terceira dama de cauda a rasto, outra dama, cumprimentando para a direita e para a esquerda, e já nos longes enfumados, sempre com exagero e grotesco, outras damas de espavento – da alta roda... E o ser esfarrapado mexe o crânio, para cima e para baixo, com um sorriso à sobreposse. Postiço sobre postiço. Representa – e todas estas figuras parecem sufocadas, todas estas figuras que ela cria ridículas, mal dão dois passos, estão mortas por desatar aos gritos – todas estas damas inverosímeis, de roxo, de amarelo e de verde, pariu-as o grotesco com dor. A Joana imita as contumélias, olha em roda, e recebe-as pé atrás pé adiante. E já o absurdo aumenta, a dor aumenta e transborda, quando outras damas de farsa, outros manequins forjados pelo sonho, se agitam de cá para lá na sala de visitas, engrandecida e transformada na sua boca num salão doirado. É o ponto em que as velhas gozam, sentadas à roda da Joana, em que a D. Felicidade
exclama: – Ai que eu não posso mais:! ai que eu até fico doente! Vem-me a sufeca!
– Estão ali todas. Está a D. Hermínia, e com a D. Hermínia um mundo de inveja paciente; a D. Penarícia, e com a D. Penarícia uma alma onde repousam exaustos, como num vasto dormitório, todos os despeitos duma existência inútil; a D. Fúfia com os cabelos arrepiados, e por trás da D. Fúfi a as ruínas devastadas de Cartago.
Está a mulher da esfrega trôpega, amachucada, com olhos aguados de cão. E com isto ridículo, e sobre esta tragédia ridículo.
Já a história entra noutra fase. Tantas vezes se tem perguntado porque é que a filha a deixa andar na esfrega, que a velha acrescenta pormenores embaraçosos.
A narrativa torna-se obscura, dolorosa, hesitante, como se fosse arrancada aos pedaços duma alma espezinhada. – E vai eu disse-lhe...
– Hoje é que ela está que até parece o Taborda!
Na realidade a Joana é insuportável. Repete sempre as mesmas coisas, depara-se por todos os cantos como um trambolho. De noite, quando se pilha na enxerga, cuido que mói ainda o mesmo sonho: – A esta, hora lá está ela... a esta hora... A esta hora a minha filha... – E os olhos cerraram-se-lhe de êxtase, de dor ou de espanto no sórdido buraco.
Todas as noites a velha, quando sai da esfrega, dá uma grande volta no negrume, ossuda, molhada até aos ossos. Ninguém sabe onde a conduzem os passos trôpegos, a falar só, a remoer o sonho que a sustenta e ampara. Por vezes palpa um pilar de granito, por vezes debate, com um ser misterioso, uma questão insolúvel. Sigo a sombra esgalgada, que gesticula e reza. Pára numa ruela, senta-se à porta dum casebre. Bate, não lhe respondem. Espera, e outra vez timidamente se atreve a chamar... – De dentro sacodem-na palavras bruscas, e a velha torna por o mesmo caminho, encharcada até aos ossos... Esta casa não é como as outras casas, esta sala não é como as outras salas, nem esta rua como as outras ruas.

Raul Brandão, Húmus