31/05/2009

Estranhos Pássaros de Asas Abertas




Introdução ao Canto V de Os Lusíadas

NAMUTU VIU OS GRANDES PÁSSAROS de asas abertas passarem o cabo que abrigava a baía. Como no sonho de Manikava, o sábio, que via o futuro nas labaredas do fogo e nos intestinos do cabrito.
E Manikava tinha contado, num sonho ele viu mesmo, iam chegar grandes pássaros de asas brancas e dentro deles saia gente estranha, como filhos-formigas brotando de ave morta. Contou no chefe, depois contou no povo reunido na praça da aldeia. O chefe perguntou, isso é um bom sinal dos antepassados? Manikava disse não sabia, mas o peito estava apertado, coração a bater com força. Talvez os antepassados estavam a mandar aviso, cuidado, muito cuidado. Foi na outra lua, Namutu recordou logo.
Agora via os pássaros passarem o cabo, voando por cima da água do mar, como no sonho acordado de Manikava. Pensou em Luimbi, seu único filho, ido com Samutu, o pai, apanhar mel. Correu para junto deles, mas já não estavam no sítio onde tinham ficado. A mulher não daria importância em tempo normal, mas deixara de ser tempo normal. Os pássaros voando em cima da água, tão monstruosos, não podiam ser aves como as que conheciam, podiam trazer perigo a Luimbi, seu único filho. E desconseguia ter outros filhos depois da doença, Manikava lhe dissera ao consultar os búzios. Procurou nas pequenas matas do mel, depois voltou à aldeia, saber se Samutu já tinha voltado com Luimbi.
O gigante suspirava na sua solidão, consumindo-se de amores por Tétis, a ninfa feita deusa na sua imaginação. Tétis a outro pertencia, se as ninfas podem ter dono. Sobretudo, gostava de perturbar os machos, fingindo interesse até os pôr fora de si, para depois se subtrair aos compromissos não assumidos mas subtilmente sugeridos. Quando via o colosso perto, penteava os compridos cabelos da cor das algas com pentes de coral brilhante, virando-lhe as costas nuas. Se o sentia mais próximo, rodava ligeiramente o corpo, de modo que o halo de um seio se pronunciasse em promessas. E o gigante suspirava, cada vez mais exangue.
A criança estava lá, chupando um favo. Disseram, o marido dela voltou nas matas de mel, pouco tinha encontrado antes, veio à aldeia só mesmo para trazer Luimbi, cansado. Tranquilizada, Namutu pegou no filho ao colo. Depois contou, chegaram os pássaros do sonho de Manikava, estão passar lá na baia. As mulheres espalharam a notícia, grande confusão se estabeleceu, todos querendo ir logo ver. Mas lembraram o aviso de Manikava, cuidado, muito cuidado.
Sem cuidado estava Samutu, todo entretido a retirar um bom favo de um pau já seco. Três seres estranhos se apoderaram dele, lhe agarraram pelos braços e lhe arrastaram para a praia. Um grande medo entrou no peito de Samutu, com o cheiro pestilento deles e o seu aspecto desgrenhado de bandidos. Tremia todo e falava, me deixem, me deixem, só podiam ser espíritos injustiçados vindo se vingar. Ele não tinha feito mal nenhum, homem pacífico, como vinham agora lhe punir? Mas os seres estranhos falavam entre si com gritos e puxavam por ele, os gritos eram numa língua desconhecida. E em breve outros gritos se juntavam aos deles e ele viu, na sua confusão, um barco na praia, como um dongo mas diferente, e os pássaros no meio da água, de asas brancas. Desorientado, não lembrou a profecia de Manikava, só sentia o seu medo batendo no peito e o mau cheiro dos espíritos lhe entrando no nariz. Os que o puxavam pararam junto de outros caras de cazumbi e lhe soltaram. Samutu ficou esfregando os braços, sem perceber o que lhe diziam, a cabeça já atordoada. Então, um de barbas lhe mostrou umas coisas que tinha na mão, pedras brilhando um pouco. E depois apresentou o que parecia pequenos frutos secos e depois pó bem cheiroso, que tapava o cheiro deles.
Parecia os espíritos não gostaram do seu silêncio, mostravam as coisas, pressionavam, olhos ávidos, queriam respostas, isso adivinhava Samutu, mas que respostas e a quê, se nem a língua deles conhecia? Depois eles mostraram uma coisa vermelha e lhe puseram na cabeça. Isso Samutu compreendia, era como um barrete, mas comprido e vermelho, bom para o frio húmido da noite e para o sol quente do dia. E lhe puseram na mão umas missangas coloridas, e ele sorriu, já mais calmo. Se os espíritos lhe davam coisas, então é porque não vinham para se vingar de faltas não expiadas. Eles também riram ao sorriso dele. E todos riam agora uns para os outros, batendo nos ombros deles e nos dele também, em gestos de amizade. A roda à volta de Samutu se abriu e ele compreendeu, os espíritos lhe deixavam partir.
Não hesitou, não olhou para trás. Com o barrete na cabeça e as missangas bem apertadas na mão, andou na direcção da aldeia, esquecido o medo, mas apressado pela vontade de estar entre os seus. Os quais vinham ao encontro, com grandes gestos e gritos de aflição. Estava o dia a declinar.
Se Samutu percebesse a língua dos espíritos, teria entendido o que o chefe de barbas e que lhe mostrava as pedras brilhantes queria, saber se aqueles metais preciosos, ouro, prata, existiam ali, e saber também se ele conhecia especiarias do Oriente. Mas não entendeu também a fala final, deixem-no ir, este não sabe qual é o caminho para a índia, nem se estamos perto ou longe de o achar. Vendo as coisas trazidas por Samutu, os outros queriam ir ter com os espíritos, mas a noite caía e a prudência aconselhava distância. Com o escuro da noite, os cazumbi se transformam, ganham ferocidade, e embora não lhe tivessem feito mal, podiam mudar de atitude, agitados pelos medos nocturnos. Voltaram para o kimbo, as mulheres querendo todas usar o barrete vermelho de Samutu e correndo umas atrás das outras, em grandes risadas. Foi uma noite alegre, pois muito raramente se é visitado por espíritos aparentemente benignos. Só Manikava se mantinha afastado do rebuliço, a fronte enrugada, cismando os seus mambos de adivinho. Tentaria Manikava descobrir quais as intenções de Nzambi, Suku, Kalunga, ou qualquer outro deus, ao lhes mandar seres tão estranhos como os descritos por Samutu?
No dia seguinte, ainda o sol começava a lamber as suaves curvas das colinas sem árvores, já um grupo numeroso tinha avançado para a baía, levando mel, carne seca e cerveja de massango. Ao chegarem perto da praia, viram os pássaros parados em cima da água. E logo os espíritos estranhos lançaram um dongo à água e vieram alguns para a praia. Espantoso, aqueles pássaros até dongos tinham dentro deles e muitos espíritos. Isso comentavam as pessoas na praia. Viram como vinham vestidos os cazumbis, morrendo de calor debaixo de grossas roupagens todas empapadas de suor. Estranhos mesmo esses cazumbi, como devem afinal ser os espíritos dos defuntos, que nunca tinham antes visto assim tão claramente. Não fugiram quando o batel acostou e os espíritos saíram lá de dentro, expondo na areia panos e barretes e missangas coloridas. Cada um dos da terra apanhou qualquer coisa, com grandes gargalhadas e gestos de alegria, as mulheres chegando mesmo a ensaiar passos de dança. Os espíritos recolheram o mel, a carne seca e a cerveja de massango, embora alguns se mostrassem desconfiados em relação à bebida. Os da terra fizeram o gesto de beber e esfregavam a barriga, sorrindo.
Os espíritos do mar mostraram de novo as pedras brilhantes e as especiarias, mas os da terra não reagiram a elas, não as conheciam. Os do mar falavam na sua língua de espíritos, os da terra falavam as suas línguas de pastores de bois, mas ninguém se entendia. Pouco importava, havia sorrisos em muitas faces. Entre as nuvens, o colosso Adamastor avistou Tétis esvoaçando por cima das águas da baía, sozinha, nua como deve voar uma ninfa que sabe ser desejada. Mergulhou para ela, se não o queria a bem seria a mal, uma ninfa não pode resistir eternamente a um colosso. Mas Neptuno viu, lá do fundo dos mares. E mandou ondas de três rebentações prevenirem Tétis. Ela percebeu o aviso e mergulhou mesmo a tempo de escapar às garras cegas de paixão que o colosso para ela estendia. As vagas de três arrebentações continuaram o seu percurso e provocaram uma calema. Kianda ficou com raiva, ali, naquelas águas só Kianda podia agitar as profundezas e criar calemas. Quem era esse Neptuno para vir ali, no seu reino, provocar o caos? Fez recurso a Nzambi, o senhor de todos os deuses, o que bocejou depois de criar o mundo e os homens. Nzambi não gostou da intromissão de deuses estrangeiros no seu sítio. E saiu da sua milenar letargia, por uma vez intervindo no mundo que criara e esquecera. Assoprou as ondas para o largo do oceano, bradando contra Neptuno, o usurpador. Este respondeu com nova tripla arrebentação e fez apelo a outros deuses do seu Olimpo. Veio Marte furioso e o rude Vulcano. E Vénus, mas esta tentando com sorrisos e meneios provocantes apaziguar os deuses em desavença.
Eram tais as turbulências na água, tal agitação sem causa aparente, com os pássaros de asas brancas a baloiçarem por cima de ondas que não chegavam à praia, voltando estranhamente para trás, que os da terra disseram entre si, Kianda está com fúria, regressemos para o kimbo. Se afastaram levando as ofertas dos espíritos do mar. E um destes, o mais sorridente, avançou também, enco rajado pelos da terra. Os outros espíritos chamaram o nome dele, Velôje, Velôje, mas não ligou, fez só um gesto para trás. Se afastavam da praia, os da terra todos satisfeitos, o espírito no meio deles, camarada, rindo e gritando sons só entendidos por ele.
Vénus viu o grupo se afastando da praia e voou para ele, por curiosidade ou malandrice, roçando inadvertidamente em Veloso um gesto de saudação. Mas um contacto de deusa, proibido aos homens, embora não percebido, tem sempre consequências imprevisíveis.
O espírito Velôje, de repente, mudou de atitude. Se abraçou à mulher que caminhava a seu lado, tentou abraçar a da frente. Os da terra riram, esse cazumbi é malandro, parece gosta de mulher. As mulheres fugiram, rindo, esse espírito cheira mal, mas não pode ser um espírito porque nos abraçou com um corpo igual ao vosso, só que tem muitos pelos, sua muito e cheira como os mortos. Ninguém se ofendeu com o abuso do Velôje, mas este continuou. E a marcha virou um pandemónio, com o espírito correndo para todas as mulheres e estas fugindo. Até que ele conseguiu derrubar uma e caiu por cima dela, e começou violentamente a afastar os panos de ráfia e ela gritou, já sem rir. O marido puxou pelo espírito e tirou-o rudemente de cima da mulher. O espírito não gostou e puxou por uma faca grande que tinha presa na cintura, uma faca grande, muito grande, olhos arregalados, demente. Os da terra compreenderam então, esse espírito tinha perdido a cabeça e era perigoso. Lhe rodearam, lhe mostraram os porrinhos que traziam e as azagaias, em ameaça. Então o espírito pareceu cair em si e correu para os seus, na praia. Os da terra, no entanto, açulados pelas mulheres agora indignadas, correram atrás dele.
Tétis escapou do gigante mas mandou recado, serei tua mais tarde. O colosso acalmou. Neptuno também reflectiu que pouco adiantava a guerra provocada por Tétis e o seu apaixonado e retirou para as profundezas, mandando Mane e Vulcano para os seus ares respectivos. Nzambi encolheu os ombros, essa acalmia era mesmo o que queria para poder desinteressar-se novamente do mundo.
Só que o seu mundo estava agora agitado pelo roçar da túnica de Vénus num espírito barbudo. Os da terra corriam atrás dele e os seus companheiros no batel e num outro que saiu de outro pássaro, apontaram às caras um paus que cuspiam fogo e dois da terra caíram feridos. Os companheiros pegaram neles e abandonaram os espíritos nos dongos, voltaram para o kimbo, onde Manikava talvez pudesse curar os feridos daquela inesperada doença trazida pelos paus que cuspiam fogo e faziam estrondo. Apesar dos esforços de Manikava, um dos feridos morreu no dia seguinte.
Eu bem dizia, cuidado, muito cuidado, ralhou Manikava. A estória podia ter tido outro fim, melhor ou pior, dizia a si própria Namutu, olhando melancolicamente as contas de vidro que obtivera dos espíritos. Faria uma pequena pulseira com elas. Mas valem mesmo o que brilham?
Outro fim poderia também ter tido Adamastor, que, finalmente vendo Tétis deitada na praia em entrega, ao convite gulosamente acedeu e a ela se abraçou. E ao perceber que num rochedo ela se transfigurava, nele próprio sentiu também as carnes e os ossos virarem pedra. E passarem atrevidamente ao largo dele, imparáveis, os barcos daqueles espíritos indómitos que tiveram o valor de vergar as vontades de deuses. Mas que outros deuses e valores irremediavelmente ofenderam.


Junho de 2oo3
(in «Lusíadas», edição do semanário Expresso, Lisboa)