12/04/2009

Tinha Chegado o Circo



“Tereza! Tereza!”
Tereza rebolou para fora do abraço das pernas e ferrou os dentes na mão que se esticava, depois deu um encontrão ao rapaz e desatou a correr, cuspindo pele. Estacou e arrancou dos pés as chinelas, para não tropeçar o corpo na vontade, moldada ao ângulo da fuga.
Seguiu em pânico alvoraçado até ao Carreiro da Bruxa, contornando a mina luzidia, e avistou a mãe ao fundo, contra a luz dura do sol, os braços fincados nas ancas, um pé à frente como escora.
Saía-lhe a voz à força, cortando à volta o ar.
“Tereza! Não te disse catentasses no menino, caiu-me aqui frente à porta, tá farto de berrar por ti.”
Bem queria passar ao largo, mas a mulher não se mexia, postada a meio do caminho, recolhendo agora as mãos ao avental para as puxar acima mal a gaiata atravessou a soleira, despedindo um safanão certeiro que lhe trouxe ladainha miúda aos lábios secos. A um canto, o Luís chorava, fungão.
“Meu menino!” E chegaram-lhe as lágrimas aos olhos, no sufoco do abalo e do regresso, a mão da mãe ardendo na orelha, repetida espora. Maldita, maldita cantou mais alto a voz da surpresa contra ela, contra si por assim quebrar vendo o castigo descer sem rancor, sabendo.
“Masuqué que tu andastes a fazer, rapariga? Trazes-me a saia toda amarrotada, vai já passar isso, não te veja o teu pai. E o menino rasgou-me os calções, tem dircos castanhos!”
Tereza esgueirou-se pelo corredor, largando uma careta ao irmão.
Maldita, respirou fundo pela boca, apoiada contra a mesa da cozinha, e tirou a saia com cuidado, sem pisar a bainha. Botou o amor e suas guerras para fora da cabeça e sorriu: tinha chegado o circo.
Estava feira em Castendo e iam todos. Havia jaulas, carroças em roda, mais um cartaz com o nome: Grande Circo Irmãos Lopez, em letras faceiras por cima das nuvens, cá em baixo, o riscadinho da tenda abria uma porta e viam-se fileiras de cabeças alumiadas, ouvia-se a música que saía do papel.
A chamar à frente estava um palhaço, tão alto que chegava às bandeiras em debrum da tenda. Chamava de boca escancarada, vestido de farrapos, pareciam restos dos panos da costura, caídos aos pés da mãe. Levantava os braços, chamando todos, senhoras e cavalheiros, minhas meninas e meus meninos! Em vez de mãos tinha luvas brancas e a bocarra escancarada.
Deixou-se estar assim, a sentir a madeira gasta da mesa. O raio do palhaço que não lhe deixava a ideia, crescendo no escuro do quarto à noite, aos pinotes nos sonhos. Queria era ver leões, bailarinas nos cavalos, cobertas de escamas brilhantes… Sentindo os passos da mãe alisou a saia sobre o tampo polido, afastou as trempes e escolheu os carvões da lareira para o ferro.
“Olha-me pra ti aqui nesta figura, rapariga… so teu pai entra em casa e te vê assim nestes preparos!”
Tereza deixou o braço seguir os movimentos ensaiados, enquanto a mãe cobria os carvões de cinza, varria a pedra com giesta.
Ouviu-se então um estrondo, vidro partido, e o Luisinho voltou ao berreiro.
“Ai, que vida a minha! Tu leva-me o menino lá pra fora e vê se tomas conta dele, ouvistes?”
“Sim, senhora.”
“Tenho que fazer, avia-te. Mal empregadinha a jarra! Sai-me da frente, rapariga, tu sai-me da frente.”
Tereza pegou desajeitadamente no irmão ao colo e saiu. No terreiro estavam a Maria e o António, vinham lá ao fundo a Julieta e os primos.
“A pitinha põe o ovo e o menino… pápo todo!”, com o dedo mexendo nos papos da mãozita coceguenta, “A pitinha põe o ovo”, repenicando beijos nos olhos marejados de espanto que a miravam, até a boca lhe trepar num sorriso.
“Atão? Já sei candastes à pancada co Toino!”
Tereza encolheu os ombros e pôs o menino no chão.
“Sabes muito.”
“Olhó Luisinho! Tás de beicinho?”
“Patiu jaa… pum!”
“Tá dizer que partiu uma jarra, não é Luisinho, meu malandro?”, agachou-se para compor as golas do irmão.
“Olhi porqué ca gente não jogamos às escondidas?”
“Eu não ficápanhar!”
“Há coito?”
“Contas até quantos?”
“Prontos, oitenta. Partida, lagarta, fugida! Um, dois, três, quatro, cinco…”
Espalharam-se todos numa correria: a Maria foi para trás do muro do quintal do Zé, como era costume; o António subiu a uma árvore ramalhuda no fim do carreiro; a Julieta juntou-se à Tereza e ao Luís, que se deixava para trás, a choramingar.
Tereza baixou-se e agarrou no irmão pelos sovacos, avançando aos tropeções. A Julieta já ia em frente. Quase se desequilibrou e o Luisinho não deixava a lamúria. A Julieta já se agachava atrás dum arbusto.
“Sessenta e dois, sessenta e…”
“Ó, Luisinho, ficas aqui sentado ca Treza já vem, tá bem? Não saias daqui, ouvistes?”
E pô-lo à sombra de uma macieira baixa, sobre a erva rala. Tirou uma maçã mirrada de um galho e deu-a ao irmão.
“Toma, Luís, é pra ti, toma lá! Agora ficas aqui, vá.”
“Setenta e três, setenta e…”
Abriu a boca e começou a correr.
“Setenta e nove, oitenta. Cá vou eu.”
João largou a árvore a que se encostara e esfregou os olhos. O terreiro vazio faiscava. Quase lhe pareceu ver alguém a esconder-se lá ao fundo, mas não ia largar o coito sem mais nem menos. Deu quatro passadas largas e virou as costas, como quem está distraído a ver. A Maria saltou de trás do muro e avançou aos ziguezagues a tentar escapar-lhe. Ele já conhecia o truque e estendeu-lhe a mão, parecia uma sardinha a cachopa, escorregadia.
“Não mapanhas!”, gritou a Tereza lá do fundo.
“Tá boa”, resmungou entre dentes e raspou o ombro da Maria, que ficou parada como pedra.
O António lançou-se da árvore e passou por eles a correr. E João corria, não ia deixar o coito sem guarda. Vinha lá a Julieta, mais o Manel e a Tereza. João corria.
“Já tinha tocado no tronco”, soluçou o António.
“Só se foi doutrárvore.”
Cortou o caminho à Julieta e também ela se deixou ficar, braços pendidos. Fintou o Manel e apanhou-o.
“Quedo!”
Tereza corria a bom correr e o João quase lhe tocava. Mas a cachopa não se deixava agarrar, às voltas.
“Vê se salvas a gente, Tereza”, gritou a Julieta feita estátua.
“Força, Treza.”
E Tereza corria, com João ao seu encalço.
Luís cheirou a maçã e pestanejou, as sombras brincavam abrindo e fechando o sol. À frente, brilhava uma erva boa. Limpou o nariz à manga e pôs-se de pé. Tereza corre ao longe, os braços espetados.
“Teza!”
Tereza tão depressa ao longe era um pássaro. Gritavam todos no terreiro, Luís fechou a mão sobre a maçã e caminhou. À beira da erva seguia o voo dos insectos contra a luz. O chão estava molhado, prendia-se nas botas novas. Soltou o pé, estendeu a perna e caiu.
João já deitava os bofes pela goela e a cachopa corria que nem o diabo. Parou, engolindo o ar à boca cheia. Tereza foi ao coito e partiu de novo aos gritos.
“João, João, João paspalhão! Salva todos, salva todos”, dizia tocando nos amigos um a um. E eles ganhavam raízes, ganhavam pernas, saíam aos pulos terreiro afora.
“Vivá Tereza!”
“Ganda Treza!”
“A Tereza é tesa, a Treza é tesa.”
As gargalhadas da Tereza enchiam o terreiro.
“Ó, João, não corras não!”, jogou um dos rapazes.
Apareciam cabeças às portas, chamando nomes. Era chegada a hora do circo, e essa certeza tornava mais ruidosos ainda os gaiatos.
“Valha-me Deus, vens encharcado! Vê lá se me apanhas por aí alguma”, diziam as mães à vez, chegando-se aos seus.
Tereza crescia de contente: iam ver os trapezistas, ouvir a banda, comer cavacas. Foi buscar o irmão, cuidando não atrasar a mãe.
Subiu o carreiro aos pinotes, uma perna depois outra, cantarolando uma modinha.
“Ó, Luisinho, a mana táqui, não tenhas medo!”
Os ramos da macieira enegrecida estendiam o seu desenho pelo chão, do menino nem sombra. Tereza olhou à volta, o coração preso.
Do outro lado, viu os calções do Luís, estava deitado de borco.
“Ó, Luís, levanta-te que te sujas todo.”
Entrando pela erva adentro viu, voltou a conhecer como nunca esquecera, que era água. Aqueles farripinhos verdes fechando-se em torno dos pés ao caminhar. Ficou por momentos de braços perdidos, olhando o irmão quieto.
Luís, acorda!, mas as palavras não lhe vieram à fala.
Baixou-se para apanhar uma maçã que flutuava junto às socas.
E de cócoras espreitou a cabeça escura do irmão, rodeada de pontos verdes movediços, tão lindos. Chamou a si os braços e virou-o. Viu, então, que no lugar da cara estava a máscara do palhaço no cartaz: boca entreaberta, olhos fundos, sobre o branco da cara pintada.
Depois, a voz da mãe.
“Tereza! Tereza!”


Diana Almeida In Onde a Terra Acaba