03/04/2009

Pouca sorte com barbeiros




Ao tempo em que eu chupava o meu primeiro cigarro clandestino, a Campo de Ourique, namorando uma loirinha da mansarda em frente, e a barba começava a dar-me a aparência dum fruto peco, descobri à rua Ferreira Borges o maior de quantos barbeiros jamais me assentaram a mão nas faces: o Rego. Dessa vez tive barbeiro para um ror de anos, uns bons dez. Entretanto fiz namoro tão platónico como eterno a várias meninas, todas igualmente louras e distantemente amansardadas (o que as tornava irremediavelmente platónicas, muito contra a minha vontade), e a barba tornou-se-me decente, se bem que dura e suína como o cabelo. Fui passando conforme pude do Liceu da Lapa, com alguns chumbos, para o Instituto Comercial, onde a custo acabei por esgalhar o diploma de comercialista. Nesse tempo espremia as espinhas da cara, fazia sonetos de contar pelos dedos, errados como contas de cabeça, e contraí (por causa do platonismo) a minha primeira doença secreta. Mas sempre fiel ao Rego-barbeiro, que conhecia a crónica toda das minhas aprovações arrancadas à força do copianço, dos meus amores inconsequentes (ou de más consequências), da terapêutica drástica a que me sujeitava aquele enfermeiro do Hospital da Marinha, «que sabia muito mais desta coisa do que os médicos», do meu deficit perpétuo – todo o quadro, enfim, da alegre mocidade lisboeta, – e reciprocava, confidenciando-me os seus próprios dramas familiares.
Tinha o Rego uma filha casadoira, bem comportadinha, coitada, um modelo de virtudes a Campo de Ourique. Com uns arzinhos de sonsa, quem te vê não quebras um prato, deu-lhe para se apaixonar perdidamente por um vizinho, homem casado e, ao que parece, muito sério (todos somos sérios até à primeira), com laboratório de análises químico-farmacêuticas à referida rua Ferreira Borges; e um belo dia, à hora em que as fábricas do bairro apitavam e ela devia levar o almoço ao pai, num cabaz, fugiu com o homem das pipetas. Uma menina tão bem comportada. Nesse dia o Rego-barbeiro jejuou, coitado, e nunca foi possível averiguar que destino levou o cabaz com o almoço: os dois ternos amantes foram talvez comê-lo, em mavioso piquenique, para o Parque Silva Porto ou as furnas de Monsanto.
O caso provocou muita emoção. O Rego chorava, metaforicamente falando, ao meu pescoço, que me roía e danava interiormente de não ter eu aproveitado a garota. Mas ao mesmo tempo, tais são os contrastes da sorte, a barbearia ganhou uma enorme clientela: a história tinha corrido, e agora os fregueses eram assim, vinham de longes bairros, como corvos ao cheiro da carnagem. A esposa do analista, senhora bastante nutrida e pouco bonita, mas inteligente e simpática, aparecia regularmente pela loja do Rego, a exprobrá-lo por ter «vendido» a menina, dezassete anos em flor, ao sátiro do marido. Tudo isto se passava com
calma, a meia voz, sem escândalos. Mas era uma acusação sem base, porque passados meses a pequena regressou uma noite a casa, lavada em lágrimas, talvez química e bacteriologicamente menos pura, concedo, e o químico-analista nunca reclamou reembolso algum: prova, a meu ver irrecusável, da honradez e boa-fé do mestre-escama.
O analista regressou também aos almofarizes matrimoniais, e a paz reinou de novo a Campo de Ourique. A pequena, essa, é que nunca mais, que eu saiba, arranjou namoro para bons fins, porque lá diz a trova: «Depois da cidra partida, cidra remédio não tem.» Somos intransigentes em questões de moral, e dividimos o sexo frágil em duas categorias: as virtuosas que nos cosem as meias, e as perdidas que nos dão o ponto.
O Rego-barbeiro, coitado, nunca se refez do abalo: ainda durou coisa de dois anos, mas tinha empalidecido até ao cume da calva, e nunca mais pôde engolir bem o almoço, que a pequena, calada e humilde, continuava a trazer-lhe num cabaz, todos os dias à Hora do Apito. As mãos dele eram tão hipnóticas como sempre, mas o pobre arrastava os pés, tinha as faces cavadas, a pele cerosa, e a fatiota pendia-lhe tão bamba em volta do ventre, dantes proeminente, que dois Regos podiam coexistir agora, harmoniosamente, no mesmo par de calças.
Lentamente afundou-se. Cuspia muito, sempre engasgado. Dava dó vê-lo. Tinha qualquer coisa no inzófago, e os médicos prometiam operá-lo, hoje-amanhã, hoje-amanhã, mas nunca se resolveram, e uma tarde o Rego morreu serenamente, sem dor, de inanição, como ainda hoje se morre a Campo de Ourique. Nunca chegou a saber do que morria. Poucos dias antes de se acabar confessou-me: «A desgraça desta filha cavou-me a sepultura, seu Artur!» O tubo digestivo era nele o órgão de expressão das dores morais. Psicossomático, em suma, avant la lettre!
Foi uma grande perda para mim; mas como o cabelo não parou de me crescer, comecei logo a procurar outro barbeiro, não com uma lanterna, mas com a cabeça, o que nem o próprio Diógenes teria ousado. As mãos do Rego tinham-me estragado com mimo, e muitos anos passaram sem que eu achasse uma tesoura digna da sua memória. Tornei a fazer muita experiência desagradável. No meu desespero, cheguei a cair um dia no antro duma escola de barbeiros: saí de lá com a cabeça do feitio dum poliedro de museu escolar. Quantas vezes, louvado seja Deus, amaldiçoei a honrada classe dos coiffeurs! Atravessávamos então uma
época agitada, de descompressões, e rebentavam bombas por todos os lados, incluindo às portas das barbearias. (Devo dizer que não meti para aí prego nem estopa: a minha coragem nunca deu para tanto).
Por volta dos trinta, e já com algumas desilusões, um pedagogo meu amigo indicou-me um bom barbeiro à rua do Mundo, antiga de São Roque, e hoje da Misericórdia. Aquele homem não era barbeiro, era um escultor, um mestre de caracterização! Devia estar nos Caetanos, na Arte de Representar, e estava ali, simplesmente, na rua do Mundo, digo, da Misericórdia. Capaz de ombrear com o Rego de eterna memória. A minha cabeça reassumiu a aparência de coisa humana, e durante alguns meses fui o mais feliz dos fregueses de barbeiro de que rezam crónicas.
Ora uma tarde, quando eu já supunha ter barbeiro tão perpétuo como o secretário duma Academia, fui dar com um grande ajuntamento à porta da loja: um homem era levado em braços para dentro dum táxi, que bateu logo para a Misericórdia. Os curiosos em volta abanavam cabeças consternadas.
– Que é que houve? – indaguei alarmado, pensando no fígaro da Graça.
O meu barbeiro tinha acabado de almoçar um tacho de bacalhau com batatas, quando lhe ocorreu a ideia letal de lavar o cabelo: virou para o lado, redondo. Os camaradas confessaram-se muito impressionados com o espectáculo do sangue rubro a escorrer duma ferida através da espuma branca do shampoo.
– Até parecia um merengue arrebentado! – disse um deles com génio metafórico, fazendo uma careta.
Pressenti vagamente a mão da fatalidade. E nunca mais, em Portugal, tive sorte com barbeiros.


José Rodrigues Miguéis, Léah e Outras Histórias