28/04/2009

Na tal noite


Vinte e cinco , Natal. O quissimusse, como se diz aqui. Mariazinha, à porta, espera a anual visita de Sidónio Vidas, o episódico esposo. Ei-lo agora, em aparatosa aparição, santificado seja ele e mais a sua vaidosa viatura. Ele nunca tanto chegara. Fazia como a chuva procede com as fontes secas: inundava após ausência.
Mariazinha parece viúva, alinhada com seus dois filhos, na entrada da porta. Ela contempla o volumoso Sidónio, parecendo uma gelatina a ser descolada do fundo da taça. Mariazinha, atrapalhada, segreda aos miúdos:
- Já sabem, ao sinal combinado, vocês desaparecem das vistas!
Os filhos rabeiam o olho na mãe, irreconhecendo-a: vestido cheiroso, penteado de cabeleireiro, unhas de manicure. E receiam que, uma vez mais, seja mais desencontro que encontro. Havia sido assim desde o princípio: a noite sem núpcias, o esposo cadente, com juramento sem prazo de viabilidade.
Os miúdos já sabiam: o pai trabalhava longe em país muitíssimo estrangeiro, a distância que só lhe dava conveniência visitar a família na noite de vinte cinco. Cada ano, o pai chegava com seus carros sempre novos. O remoto controlo accionado, num blip-blip mágico e, da bagageira, como em atrelado de trenó, saltavam os presentes, alegria aos molhos.
Neste Natal, mais uma vez, muda o carro e toca mesmo. O pai faz abrir a mala do automóvel e de lá espreitam embrulhos e celofanes. São mais os enfeites que os conteúdos, mas não é assim mesmo a festa: feita de ilusão e brilhos maiores que as substâncias? Os miúdos, algazurrando, precipitam-se sobre os presentes. E ali ficam, no quintal, entretidos com as lembranças.
Sidónio dá entrada na sala em pose de governante. A esposa segue-o, diminuta, protocolar. O homem engrossa as vistas pela sala. Sobre o armário um improvisado presépio. Só as palhinhas do menino nascente são genuínas. O resto é invenção desenrascada, tampinha de coca-cola, arames e restos de lixos.
O marido senta-se à mesa, refastelado, dono. Vai desapertando a fivela do cinto para, em prevenção, se valer por dois. Mariazinha assoma à porta da rua e, com um estalar de dedos, reafirma a ordem: os filhos que se mantenham longe. Aquele momento era exclusivo dos dois, a noite de todas as noites.
- Fritei um peixe, aquele que você morre pela boca.
Sidónio estala os dentes na língua e faz passar as espinhas pelos beiços. A esposa comendo em pé, prato no apoio da mão, vai olhando o marido. Resplandecendo no pescoço, o fio de ouro, ambos cada vez mais gordos. O ouro parece autêntico. Falsificado é o portador, sem marca de origem, nem garantia de proveniência. Sempre que vem, ele exibe acrescidos fios e anéis, ornamentos douradoiros. Para que Mariazinha não pense que ele foi cavalo e regressa burro.
- Cuidado marido, cuidado a espinha na goela.
- Goela tem o pobre - emenda Sidónio.
- Gente como eu tem garganta, esta perceber?
Sidónio Vidas arrota a marcar parágrafo na refeição. Mais calado que um deus, distante, confiante. Toca o telemóvel, altissonoro, ele grunhe sílabas de nenhum idioma. E desliga como se desligasse não o aparelho, mas o interlocutor.
- Há sobremesa. Um docinho?
- Estava com falta de açúcar, mas o vizinho, o Alves...
- Pois é, açúcar com gentil cortesia do vizinho Alves.
O tom é irónico, magoado, suspeitoso. O vizinho Alves estava-se avizinhando de mais?
- Mariazinha, você me está ser fiel?
- Eu? Sidónio, eu...
Ela, desencontrada das palavras, derrama-se, chorosa. Podia ele, de humano direito, duvidar?
- Cale-se, mulher. Não diga nada.
Que aquela comoção lhe aflige a digestão. Sidónio vê-se obedecido. Passa a mão pela barriga, com a mesma ternura com que as grávidas acariciam o vindouro.
- Não quero esse doce.
- Mas, Sidónio, fiz para si, com tanto carinho...
- Não me apetece, pronto.
Mariazinha recolhe o prato, junto com a lágrima. Na cozinha assoa-se, olhando pelo quebrado vidro da janela a luxuosa viatura do marido. Quem vai à guerra dá e leva, se diz. Mas ela tinha ido à paz e só tinha levado. Ali estava, o Mercedes, cheio de auto--suficiência.
Em vez de inveja, porém, lhe vem um alegre preenchimento. Como se o automóvel fosse propriedade sua e ela, alguma vez, viesse a espampanar suas larguezas nos estofos.
Regressa à sala e mantém-se encostada ao armário. O móvel abana e tombam os bonequinhos. Cristo desaba do berço. Sidónio, pela primeira vez, concede olhar a esposa. E confirma o ditado: que o homem é tão velho quanto a sua idade e a mulher é tão velha quanto parece. Olha as mãos dela, nota o verniz. Mariazinha se esgateia, às pressas recolhendo aquela vaidade.
- Pintei hoje de manhã, pedi ã vizinha uma tintinha emprestada.
- Sou capaz de ter que rever essa mesada.
- Ah, a mesada, já há dez meses que você não...
- Tenho prioridades, Mariazinha.
Finda a refeição, descalçados os sapatos, Sidónio escomprida-se na cadeira e fecha os olhos, todo atento aos seus próprios interiores. Sucede, então, o imprevisto. A mulher, subitamente dengosa, se debruça sobre ele, aumentando a visão das suas carnes.
- Me está a apetecer dançar. Não quer ligari essa musiquinha, marido?
- Qual música?
- Essa do seu telemóvel.
Sidónio levanta-se, arrastado. Os olhos dela ainda rebrilham, esperançosos. Mas não é para ela que ele se ergue. São horas, está de abalada. À porta, ela ainda requer, em sussurro:
- Para o ano, você volta?
- Não sei, mulher, não sei, você sabe, a coisa não está fácil...
- Mas você pode trazer os seus outros... os irmãos dos seus filhos. E pode trazer a... ela, também. Eu não me importo, Sidónio.
Mas o homem já não está na conversa. Chama os filhos para a despedida e ruma para o carro. Enquanto ele se espreme para entrar na viatura, Mariazinha comenta para os miúdos:
- Aquele é um homem bom que ainda há nesse mundo.
E o mais novo, apertando a mão da mãe:
- O pai é aquele que chamam de Pai Natal?
Riso triste vai esvanecendo no rosto da mãe, enquanto Sidónio desaparece no fundo escuro da estrada. Mãe e filhos ficam contemplando a noite, como que esquecidos que havia casa onde reentrar. De súbito, o mais velho sacode a saia da mãe e aponta:
- Veja, mãe, está chegar o vizinho, o senhor Alves.
Mariazinha, apressadamente, compõe vestido e sorriso, e murmura:
- Já sabem, meninos, ao sinal combinado, vocês desaparecem das vistas!


Mia Couto, O Fio das Missangas