12/03/2009

Ressurreição


Tinha sido em Paris. Uma noite, casualmente, encontrara-se num pequeno teatro vermelho para Montmartre, bocejando o seu tédio. Mas de súbito, entre as intérpretes da revista idiota, os seus olhos fixaram-se numa dançarina meia nua – esplêndida, duma beleza enclavinhada: corpo agreste, musculoso, seios oscilantes, pequenos e esguios – lábios roxos, grandes olhos admirados, cabelos negros, - e a carne, a carne luminosa, mordorada a trigueiro, para se cobrir de esmeraldas. Nocturnamente, seria bem aquele talvez – excelsior! o corpo triunfal
da Salomé...
E no enlevo granate da maravilha, contemplando-a suspenso, o seu cérebro imaginoso logo se lembrou de construir um romance sobre ela – ai, agora, bem barato romance...
Voltara-lhe de súbito a nostalgia da gentileza – desses brandos episódios loiros que, em todo o caso, nos desenastram a alma e agitam véus cor-de-rosa em cerca à nossa vida.
Sim, pelas mesas dos cafés, quantas vezes invejara aqueles que esperavam uma companheira gentil que aparecia modesta, ligeira, afável – ao passo que ele se detinha solitário sempre, endurecido... Todo de incoerências – embora as suas repugnâncias, não lograra ainda renunciar definitivamente àquilo que os outros possuíam, e devia ser em verdade de tão meigas cores...
A sua primeira amante não a buscara ele; ela própria viera ao seu encontro – nem a possuíra ele; ela só o possuíra... As outras tinham sido tão raras, tão distantes...
Eis pelo que em face do corpo aureoral, recordando-lhe estas invejas, estes desgostos – o romancista começara, em inferioridade, a arquitectar um enredo...
Hoje corava de si mesmo se lhe lembrava a pobre história – nem podia acreditar que a tivesse vivido...
Ela fora assim:
No dia seguinte pegara num exemplar luxuoso da sua última obra e enviara-o pelo correio à bailarina, acompanhado duma carta escrita premeditadamente, em romantismo, do Pavilhão d’Armenonville – uma carta tola onde justificava o seu envio desta maneira: a dançarina dera-lhe uma sensação tão grande de beleza – ah! de beleza apenas, não o fosse julgar apaixonado – que, ele, o Artista, o divino que só procurava por toda a parte as emoções gloriosas, não resistira, em primeiro lugar, a agradecer-lhe a visão estética sublime que o seu corpo lhe proporcionara e, depois, a ansiar viver um pouco em torno à maravilha – de qualquer forma referindo-se a ela.
Assim lhe mandava esse volume – que de resto a encantadora nem saberia ler, escrito numa língua estrangeira – para que ao menos os seus dedos esguios, maquilhados, perturbantes, uma vez tacteassem alguma coisa dele (o seu nome, as suas palavras) – e essa carta, para que um dia, mais tarde, longos anos volvidos, as suas mãos secas a achassem, quem sabe, entre velhos papéis... E então, longinquamente o recordaria – isto é: fosse como fosse, ele volvera-se uma personagem da sua existência...
Mas havia mais, pois – suave glória! – a partir da tarde em que lhe escrevera, ele, o desconhecido, ao admirá-la nos teatros onde dançaria nua – saberia em verdade alguma coisa do seu passado: que ela uma vez recebera uma carta sua, um livro seu, estrangeiro...
Enfim, o certo era que, sem nunca se terem encontrado, milagrosamente iam deixar de ser dois estranhos – uma pequenina coisa de ora avante os ligaria: existiriam com efeito em relação um ao outro...
A rapariguinha – romanesca talvez, ou apenas interesseira – breve lhe respondera numa pobre carta sem ortografia, acusando a recepção do livro, afirmando que tinha gostado muito da carta, pedindo que lhe escrevesse mais.
E havia nas suas frases toscas um tal desejo de corresponder ao pensamento delicado, de ser graciosa – que uma onda de ternura quebrantou Inácio...
Logo essa tarde, num entusiasmo, correu a um grande florista da rua Scribe e enviou cinquenta francos de cravos à bailadeira – com um simples cartão de visita prometendo nova carta.
Só lha escreveu no outro dia. Então, insidiosamente, ele dispunha o curso ido enredo – cantando em audácia o esplendor da sua carne ébria, dando-lhe a entender que não era rico, mas tinha vinte anos – para prevenir uma desilusão...
Terminava a lastimar-se, sempre em ardil, que era muito belo o seu papel misterioso de «desconhecido» mas que ignorava se teria coragem para o desempenhar até ao fim...
Na volta do correio, recebeu a resposta. E logo de novo se enterneceu, ondeadamente. A caligrafia era melhor – mais cuidadosas a ortografia e a gramática... Um desejo evidente de agradar... E, com uma simplicidade adorável, a rapariguinha perguntava porque se não haviam de conhecer. Ela gostaria tanto...
Um júbilo infinito, esplêndido, lhe correu na alma. Beijou a carta repetidas vezes...
– Enfim! um pouco de sol chegava à sua vida... Ah! que triunfo admirável passear nas ruas de Paris com essa mulher dourada, e possuí-la – estiraçar-se imperialmente sobre a sua carne de aurora, entregar-se-lhe todo em amor e anseio fluido!... Havia de a morder, de a ferir – sim, de a ferir! – com os seus beijos, arroxeadamente...
... E ela parecia-lhe tão humilde, tão pobrezinha, tão pouca coisa... Pois bem! ele a levaria aos maiores restaurantes, às casas de chá mais luxuosas... Era-lhe impossível vesti-la de jóias, mas ensinar-lhe-ia que os grandes perfumistas são Delettrez, Houbigant, Lanthéric – que os mais esquisitos bombons saem das lojas do Boissier, do Marquis...
Como ia ser venturoso, como ia ser belo... Na manhã seguinte esperava três mil francos de Lisboa!
Saiu. Após o almoço entrou na Napolitano para lhe escrever uma carta em que marcaria o primeiro rendez-vous para dali a dois dias. Pediu café, papel, sobrescritos... E, de súbito, encontrou-se a pensar:
«– Afinal para quê... para quê... Aonde vou?... Sim, de que me vale prolongar tudo isto?... Conhecê-la-ei... beijá-la-ei, pode ser... e depois?... Que haverá de comum entre mim e ela?... Pobre criaturinha fútil, banalizada, insensível...
Possuí-la? – oh!... possuí-la... Demais sei o que me espera!... E seguir-se-ão mil pequenas contrariedades... mil pequenos desenganos... encontros a certas horas... mil complicações inúteis... Para que? para quê?... Não... Decididamente não vale a pena... de modo algum…»
E, numa resolução momentânea, limitou-se a escrever-lhe um rápido bilhete onde lhe dizia que era na realidade tão encantadora, tão cendrada, aquela aventura longínqua – que o melhor seria pôr-lhe termo, ser subtil até ao fim: não prosseguir para não quebrar o encanto... Saiu. Estampilhou o bilhete no bureau próximo do Boulevard dos Italianos – deitou-o na caixa... sem uma saudade; sem mágoa nem arrependimento...
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Ainda alguns dias pensou, é claro, no triste episódio – mas sempre levemente, embora com ternura.
A rapariguinha não lhe tornou a escrever – e ele lembrava-se da cruel desilusão que fora talvez para ela a sua última carta... Via-a também sonhando amor, como ele, a certas horas – e a caminhar radiante para uma aventura literalizada em pacotilha, mas quem sabe se ideal aos seus pobres olhos...
E chegava-lhe assim uma piedade esvaída pela bailadeira nua, perversamente: só porque ela sofrera talvez dele, muito, um dia...
As suas cartas, guardara-as num grande sobrescrito – preciosas, pois iam-lhe servir para fixar palpavelmente alguns instantes dessa época da sua vida, alguns instantes do Paris dos seus vinte e três anos...
Aliás notava hoje bem como tivera razão em pôr um termo à aventura. Lançado nela, coisa alguma o deteria – e embalde, pois o certo era que nem mesmo por mais que beijasse esse corpo esplêndido, alcançaria nele aquilo por que uma noite o ambicionara. Com efeito o artista só poderia saciar os seus desejos – não estrebuchando esse corpo nu, magnífico; mas sim se ao mesmo tempo vencesse possuir os passos da bailarina sobre aquele pequeno tablado dum teatro vermelho para Montmartre... e os seus gestos, os seus sorrisos, o carmim dos seus lábios, os seus véus, as suas lantejoulas, as suas jóias falsas, as luzes que a iluminavam – todos os ritmos de cor e som que soçobravam rodopiando em volta da sua carne, a subtilizarem-lhe, a aureolarem-lhe o corpo indistinto em vertigens e apoteoses!...

Mário de Sá-Carneiro, Céu em Fogo