06/03/2009

A pergunta e o povo

Depois do distúrbio e das guerras, o que faz correr o povo?
“O povo corre para dentro de si, traçando no chão o círculo da sua identidade” - diz o velho, sentado à sombra da grande árvore.
Ele sabe uma quantidade enorme de estórias.

O povo nunca está parado, sempre a correr como a grácil gazela ou como a chita rápida e voraz?
“Não. O povo dança por dentro do tempo” - diz o velho, tossindo, depois da baforada no cachimbo.
Ele parece não se incomodar com as perguntas… E porquê que há povo?
“Essa pergunta não se faz ao povo” - diz o velho, rindo.
E levanta-se , espreguiçando indiferença. Ele sabe uma quantidade enorme de estórias. Quando as mulheres vêm do rio, com a lata de água à cabeça, põem folhas na superfície ondulante. Se não, a água cai. Cai mesmo?
“A água cai e vai escorrer pelo rosto, humedecer-lhes os seios, pôr gotas brilhantes nos braços. E isso não pode ser. As mulheres devem trazer o seu corpo. Não podem logo ser água.” .
O velho voltou a sentar-se. Está cheio de paciência, este velho, olhando as perguntas, dando baforadas no cachimbo de pau-rosa. Tem os pés gretados, sobre as sandálias, que andaram muito e é por isso que ele sabe uma quantidade enorme de estórias.
Mas porque está sózinho o velho, sentado assim, com fumo e paciência, sob a árvore grande?
“O velho está sempre sózinho. O povo está sempre sózinho” - responde ele e nem suspira fundo, nem voz muito grave, nem nada.
O povo tem que ser sempre misterioso?
“O mistério do povo é ele existir.”
E estar sentado sob a árvore grande?
“Não!…”
Ele quase se zanga, este velho sentado. O povo está a espera?
“Deus do dia e da noite; Espírito que habitas o tronco da árvore e voas entre a raíz e a cabeleira de folhas; tu que viste o vento de sangue como um rio com o povo dentro e incendiar-se o lago e o grito das mulheres de repente secas, diz-me de onde vêm estas perguntas?” - inquieta-se o velho.
“Pergunta, estou com sede. Traz-me aquele vaso, o de boca larga, ali!”.
Ele debruça-se sobre a água, sôfrego, as mãos em concha para beber.
“Não pares de dançar, ó tecido líquido, senão eu regresso da minha cegueira e não quero mais ver a memória. Ela está lá onde pus silêncio e agora digo outras palavras.” Suspira.
“Esta pergunta parece uma hiena, gargalhante.”
O velho levanta-se e começa a andar à volta da árvore. Há uma enorme quantidade de estórias ao redor do tronco: uma pele de leopardo, o ventre prenhe de uma mulher, máscaras e tambores, uma lança manchada de sangue, uma escultura queimada, uma cruz, um cofió, um livro e uma kalasch, panos esfiapados, uma bandeira.
“Esta pergunta é um espírito que me cercou das minhas coisas à volta.” - diz o velho, mais calmo. E senta-se.
“Eu sou estas coisas. E agora já posso voltar a ver. O que tacteei do círculo e da árvore, o que solucei de sangue e fiz no lago escuro jorrando meu leite espesso, a máscara de meus rituais e medos, o uivo com que esventrei homens, matando-me, o ciclo da chuva e a palavra antiga, tudo sou eu. Pergunta, eu te mando que te sentes a meu lado! Não vês a noite aproximando-se como uma mulher diante de ti ajoelhada, seus feitiços de ventre, sua linguagem de água?”
Como posso descansar com a noite se ainda ontem canoei pelo rio dos mortos e afugentei os bichos para chegar aqui?
“Como é que sabias que eu estava sentado sob esta árvore?”.
Disseram-me que no fim do planalto havia uma árvore e que onde há uma árvore há um homem sentado, à espera. Disseram-me que esse homem tinha muitas perguntas para mim.
As gargalhadas do velho atravessam o escuro.
“Só isso?”.
Não sei como te responder. Te digo só que atravessei os séculos e parei em muitos lugares, com suas vozes, seu tempo que nascia e morria ou se acrescentava ao que as vozes iam dizendo e era sempre outras coisas ou uma coisa só e que acabava sempre numa pergunta.
“Essa pergunta era o povo?” .
Te pergunto eu a ti. Ouvi coros pressagiando o caos mas que depois desceria uma ordem, um princípio original. Perturbou-me, uma vez, uma canção infantil. Procurei nas bibliotecas, nas muitas estórias que estão sentadas sobre a cabeça dos velhos como tu. De outra vez, atravessando-se ao caminho, alguém me falou num labirinto e num círculo. Quando lhe pedi que os desenhasse no chão porque eu precisava de ver , a figura ou voz de que não posso já nem precisar os contornos ou o timbre, esvaneceu-se e só guardo a memória de não saber o que vi ou ouvi. Quando já desesperava, soube que tu existias.
“No fim do planalto um homem sentado sob uma árvore?”
Sim.
“Só isso?”
Sim… E que ele sabia uma enorme quantidade de estórias.
“E que estórias querias tu saber?”
Essa pergunta-me deixa-me confuso.
“Lembras-te de que te disse para te sentares a meu lado e não ficares aí à minha frente? Aceita o meu convite”
Assim ficamos os dois a ver a mesma coisa! O velho ri-se às gargalhadas outra vez.
“Porque é que não escreveste ‘mais outra vez’? Era como se tirasses uma espécie de fotografia. Ficavas mais cúmplice…”
Não compreendo a tua pergunta.
“Depois do distúrbio e das guerras, o que faz correr o povo?” - observou o velho.
O povo corre para dentro de si, traçando o círculo da sua identidade.
“O povo nunca está parado, sempre a correr como a grácil gazela ou como a chita, rápida e voraz?”
Não. O povo dança por dentro do tempo.
“E porquê que há povo?”
Essa pergunta não se faz ao povo. E porque é que interpuseste uma vírgula quando falaste da chita?
“Rápida e voraz?”
Sim.
“ Porque estamos os dois sentados e nos vemos um ao outro. E porque essa vírgula faz parte, agora, da minha sabedoria”
Como uma respiração no tempo.


Conto de Luís Carlos Patraquim (Moçambique)