19/03/2009

O Pio dos Mochos

Ao camarada Duarte

Há um ano que ansiava por aquele momento (fazia um ano e dois dias que fora suspenso, por mau porte na prisão) – e agora, que Alexandre lhe entrara pelo quar­to dentro, sentia-se incapaz de repetir uma palavra se­quer da conversa que tantas vezes planeara. Alexandre não aludiu ao passado, nem mostrava ressentimento. E isso aumentava a sua ansiedade.
Houve um silêncio breve. Depois, aquele que fora o seu melhor amigo expôs-lhe o caso em poucas palavras. «Que os camponeses da sua terra natal não se deixaram contratar na praça de jornas, onde se troca a força dos braços por salários de fome: paralisaram as ceifas. E que a aldeia, por represália, ficara isolada no meio de um cordão sanitário de polícias, como se de epidemia se tra­tasse.» E Alexandre concluiu:
– Em toda a região, há olhos postos nos campone­ses em greve. É preciso ajudá-los, antes que esmoreçam. Queres ir?
–Vou.
Naquele momento, diria a tudo que sim. A presença inesperada do amigo fazia-o retroceder ao tempo em que merecia a confiança dos camaradas, e lutava. Tam­bém ele, por castigo, fora isolado como um leproso...
– Amanhã é dia de finados - explicou o amigo.
– Deixas este saco no cemitério, dentro do jazigo...
– No cemitério?!
A exclamação saiu-lhe dos lábios, sem que pudesse reprimi-la. Corou. Alexandre incidia sobre ele os olhos coruscantes, que pareciam devassar-lhe todos os pensa­mentos.
– Tens medo? - perguntou secamente.
– Não. Irei, nem que seja ao cabo do mundo. Que­ro «limpar-me» de vez.
O amigo esboçou um sorriso imperceptível; tirou do bolso um revólver.
– Toma. Pode ser-te necessário – disse ele. – Os panfletos devem ficar pouco visíveis sobre as campas. Adeus. Saúde e bom êxito.
No patamar, voltou-se ainda. – A Lua rompe à meia-noite. Percebes?
Tomé ficou a remirar o revólver entre as mãos. «Po­de ser-te necessário, dissera o amigo. Era uma alusão àsua fraqueza na prisão?.. Ah! mas ia mostrar-lhe que era um homem!»
Em plena estrada, depois, Tomé fixou os ponteiros luminosos do relógio. «É cedo, ainda. Posso descansar algum tempo.» Havia meia hora que caminhava e o saco começava a pesar-lhe nas costas, embora apoiado no bordão com que retocara a sua indumentária de maltês. Várias vezes olhara para trás – o seu lado vulnerável. Em redor, a noite era cortina cetinosa e Inegra, a enco­brir perfídias e punhais. Mas deixava antever silhuetas de quintas próximas que emprestavam confiança ao ca­minhante. Se gritasse, ladrariam cães, vultos assomariam às janelas...
Continuou a andar. Ao longe, onde uma estrela pa­recia indicar a meta do infinito, recortava-se o olival, mais escuro do que a noite, misterioso, cerrado! Tomé procurou esquecer-se deste pormenor.
«Que conteria o saco? Pelo cheiro e volume, adivi­nhava latas de conserva, açúcar, chocolates... Umas mi­galhas para uma aldeia de famintos. Mas era um elo da solidariedade que liga o Partido às massas.» (Isto di­ziam os panfletos que escondera entre a barriga das per­nas e as ceroulas.) Animado, Tomé pôs-se a rememorar o documento. «O Partido Comunista está convosco, ir­mãos camponeses! A vossa luta é a nossa luta.» Pela ma­nhã, após terem deposto flores singelas na campa dos parentes, as mulheres achariam conforto em tais pala­vras, mais do que nos mantimentos. E não regressariam pesarosas ao lar vazio, nem propensas a levarem os ho­mens à renúncia da greve. «Era um grande dirigente, aquele Alexandre!»
Pisou com mais firmeza o pavimento da estrada. Apetecia-lhe quebrar o encantamento das coisas ador­mecidas: assobiar. «Alguém agitava a cortina da noite, as ramarias? Não, era o vento. Olhar para trás? Ora. Porquê? Agora era oficial de ligação com um exército proletário em luta aberta, invencível!» Antevia o cemité­rio da sua aldeia, muito branco de cal, juncado de flores como o adro da igreja em manhã de romaria. Mulheres comiam chocolates, acenavam com os panfletos... Sau­davam-no. E surgiam camponeses trigueiros, em filas cerradas, de punhos cerrados...
Partiu-se o fio dos pensamentos. Um mocho piara.
E Tomé sacou do revólver; quedou-se ante o olival, a que chegara sem reparar. «Que agoirento pio!» Ali, ti­nha de meter-se no labirinto dos trilhos que esquartejavam o campo e onde um estranho se perdia. – Foi só por isso que me escolheram – lamentou-se o jovem.
Mas logo se lembrou que prometera ir, até mesmo ao cabo do mundo.
Curvado, pretendendo passar despercebido entre as sombras vigilantes, penetrou no olival. Em volta, silên­cio e trevas. Deliu-se a ténue claridade da lua, apenas pressentida; somente as estrelas bruxuleavam como círios. Na estrada, resguardado por sebes e muros, ele vigiava-se em duas direcções: atrás e à frente. Agora o perigo vinha-lhe de todos os lados. Tipos zoóides destacavam-se dos troncos nodosos, pareciam dormitar sob a copa das oliveiras. «Seriam mesmo oliveiras?.. Ah! que se o mocho não piasse mais!...» Mas o mocho piou e outro mocho respondeu. Pios estridentes, entrecortados, como os gritos duma criança afogada. Acorda­ram lobisomens e duendes que Tomé julgou ver em mo­vimento, resolutos e pachorrentos, certos da presa. Barravam-lhe o caminho, estreitavam-lhe o cerco, tal qual nos sonhos maus da sua infância. E o mocho pia­va... E outro mocho respondia... «Porque não viera con­sigo o Alexandre?! Porquê?.. Porquê?!»
Deitara a correr através do olivedo, agitando a arma inútil, tropeçando. Um suor frio escorria-lhe pela cara imberbe; faltava-lhe o fôlego; o saco pesava-lhe nas cos­tas arrepiadas. Não via o caminho, nem gritava por so­corro. Corria, apenas. E quanto mais corria, mais as sombras rodavam em volta, numa dança macabra. O oli­vedo parecia não ter fim! E os mochos piavam, pia­vam...
Quando chegou à orla do olival, deixou-se cair no chão, exausto. Ao longe, nascia a lua. Da terra, evolava­-se o perfume das ervas orvalhadas; corria a brisa nos trigos por ceifar. Campo aberto, silente, a tomá-lo no seio, como outrora a velha ama, nos braços protectores.
Com lágrimas nos olhos espantados, Tomé reagiu en­tão. «Se Alexandre o tivesse visto correr... Que vergo­nha! Mas era assim; não tinha culpa disso. Acaso sabiam eles, os camaradas, porque se denunciara na prisão? Não foi pela dor das pancadas; mas pelo medo da soli­dão e do escuro, naquela cela fria que lhe lembrava o quarto interior onde o seu avô o encerrava por castigo. Estava nisso a sua culpa e a sua defesa.»
Para as bandas da vala que contornava a aldeia, lati­ram cães. «Diabo. A vala podia ser trincheira de polí­cias.» Mas polícias ou cães, embora ferozes, eram bichos que ele sabia classificar. Pior era o perigo dos seres en­feitiçados, intangíveis. Bem pior, o cemitério. Estreme­ceu só de lembrar-se que ainda lhe faltava esse obstáculo final. – Posso atirar o saco por cima do muro – reflec­tia ele, enquanto rastejava pelo campo fora. «E se a po­lícia o apanhasse? Quebrava-se o elo que liga o Partido às massas. Mas então também eu sou um elo do Parti­do.» – Pois sou – repetiu ele, e alegrou-se. «Pois en­trarei no cemitério! O materialismo dialéctico ensina que o espírito não existe fora da matéria organizada. As sombras do olivedo... eram oliveiras, afinal.»
Assim pensando, criou um novo alento. Transpôs a vala deserta (os polícias estacionavam nos caminhos da aldeia, com certeza); subiu até à copa duma velha árvo­re, rente ao muro do cemitério; ficou-se a olhar. Lá den­tro imperava o silêncio tumular, arrepiante como o gelo. Campas rasas, marcadas por tufos de verdura e cruzes toscas e coroas fingidas, semelhavam canteiros de mo­desto jardim, diziam dos míseros aldeões vencidos pela morte, após luta porfiada com a vida. Apenas ao fundo da rua central, limpa das ervas daninhas, havia um jazi­go de cantaria, entre ciprestes. Tomé fingiu que não o via. Era o túmulo dos seus avós, daquele velho iracundo que batia nos servos e o assustava a si, quando menino. Um déspota!
De novo ouviu latidos. A lua, ao alto, começava a banhar de claridades lustrais o campo funerário. «É tem­po de saltar – decidiu-se Tomé. Alivio-me do saco, de­pressa, e espalho os panfletos pelas campas. Depois... ninguém me agarra.»
Sentiu nas mãos a frieza do muro... Saltou. E de sú­bito, por entre o fuste dos ciprestes, pareceu-lhe distin­guir um vulto imóvel à porta do jazigo. Parou estarreci­do. A mão direita tacteou o revólver no bolso, mas o cérebro recusou-se a comandar o gesto. Um calafrio ar­repanhou-lhe as costas; ouviu bater o próprio coração. Ali, no domínio dos mortos, tornavam-se inúteis as ar­mas. E aquele vulto era a alma penada do seu avô que vinha opor-se ao sacrilégio. Sim, era ele! Via-se avançar; pressentia o toque mortal das suas mãos geladas... «Por­que escolhera Alexandre o cemitério? Porquê?! Sempre os fins a justificarem os meios! Meu Deus...»
Caíra de joelhos, com o rosto escondido entre as mãos. Como num eco, escutou uma voz que lhe dizia:
– Estás fatigado, camarada? Deixa ver o saco.
Admirado e trémulo, o jovem levantou a fronte.
– Mas és tu... Alexandre?!
– Pensei que precisarias do meu auxílio... – E nou­tro tom: – Vamos. Espalha os panfletos e safa-te. Os cães farejam-nos.
Tomé soergueu-se. – E tu?
– Eu fico no jazigo. Tentarei falar com algumas mu­lheres.
Minutos depois, rastejando sobre as ervas orvalha­das, no regresso, o jovem repetia para si: «É um grande dirigente, aquele Alexandre! E um bom amigo.»
No olival enluarado, um mocho piou e outro mocho respondeu. Tomé sorriu. «Que engraçado é o pio dos mochos!»


Soeiro Pereira Gomes,
Primavera de 1945