26/03/2009

O ódio das vilas


Na frente do velho, todo curvado, e da rapariga, alta, vestida de trajos garridos, António Vargas refreava o ímpeto do alazão e impunha-lhe aquele passo miúdo e sacudido de modo a não se distanciar. O animal, ora ladeando ora repetindo pequenos golpes de garupa, parecia brincar uma dança estouvada. Bem colado na sela, o homem enrolava um cigarro.
A tarde era cheia de sol. Para lá do montado, depois da vereda estreita entre piteiras, esticava-se a fita branca da estrada. Mais para lá, corriam cabeços nus, ondeando a perder de vista.
Certo aos movimentos do cavalo, atento ao caminho e aos longes do horizonte, o homem pensava na sua luta.
Breve, mal entrasse nas ruas de Cerromaior, começaria a fase decisiva. Se vencesse, leal-mente, debaixo daquela luz crua do Sol, todos os dias que somavam anos de incerteza e de tédio seriam um passado longínquo e rasgaria na sua frente um destino largo para os seus passos, até que enfim cheios de sentido. Não mais a monotonia das horas à toa como se boiasse num marasmo para o qual não havia remédio nem defesa. Não. Agora sentia bem o sol calar-lhe na pele, sentia e media a distância dos caminhos e a resistência agressiva da gente rica de Cerromaior. Era uma sensação física e nítida, como de espinhos por onde roçasse o corpo. Mesmo longe da vila, tudo nele reagia e se concentrava para aquela luta em que punha a vida inteira. Os sobrolhos erguiam-se-lhe como asas e o queixo largo vincava-se, imóvel, como de pedra.
Maria Jacinta, era bem o norte que faltava aos seus passos. Ela chegara quando já desesperava da vida. Fora, meses atrás, naquela manhã, entre a seara. Trazia os cabelos negros envoltos num lenço e palavras simples de admiração para o seu desânimo. Tudo nela era natural. Por detrás do riso e no fundo dos olhos, brilhava uma certeza comunicativa.
Pelo atalho estreito, murado de piteiras e silvas, o cavalo afiava as orelhas inquietas, numa atenção constante a todas as formas que lhe apareciam à esquerda e à direita. Só a alegria enérgica dos movimentos
— mãos que se enrolavam, logo atiradas airosamente para longe e os membros anteriores batendo um compasso mais lento — continuava. Jogado fora o cigarro, António Vargas deixou o animal adiantar o passo. Saiu o valado, cortando caminho, e saltou a vala estreita da estrada. Aí, refreado, o cavalo estacou. O vento levou-lhe as clinas para a frente.
Voltando-se na sela, o homem olhou para o lado. O velho lá vinha no mesmo jeito de todo o caminho: cabeça tombada, passo inseguro. A rapariga olhava, sorrindo como naquela manhã entre a seara. Assim vieram e, torneando o carreiro, entraram na estrada.
Por algum tempo, ficaram silenciosos. A rapariga sentia um mal-estar que nunca julgara possível ao pensar na separação. Para a mãe fora uma despedida tão desapaixonada, apesar das lágrimas da velha... Antes, parecia-lhe mais simples dizer adeus ao pai.
Impaciente, o cavalo recuou. Os metais do freio tiniram na boca cheia de espuma.
Então, o velho endireitou-se e ergueu a cabeça para o cavaleiro. Tinha um olho todo branco, gelatinoso. Segurou as abas coçadas da jaqueta e disse:
— Patrão António Vargas, o senhor já sabe o meu parecer acerca deste assunto. Nós nada temos no mundo senão trabalho e miséria. Todos o sabem.
Respirou fundo, esticando a jaqueta nas mãos fechadas com força:
— O senhor é novo e rico. Mais que isso: é homem nascido noutro meio!... A mãe dela lá ficou lavada em lágrimas. Nada de bom poderá sair deste casamento. E ela é a nossa única filha e nós estamos no último quartel da vida! Patrão António Vargas...
Não pôde continuar. O rosto, duro, contraiu-se-lhe. Largou as pontas da jaqueta, tomou alento olhando para a filha:
— Ouve, malfadada. Suceda o que suceder, à casa de teus pais vai dar sempre o mesmo caminho!
Ainda voltou os olhos para António Vargas, como se esquecesse qualquer coisa. Mas, brusco, sem um gesto de despedida, o velho saiu da estrada, retomou o atalho. Daí a pouco, desapareceu-lhe a cabeça por detrás das piteiras.
Foi a rapariga que rompeu o silêncio:
— Meu pai sempre teve estes modos. Não se agaste.
António Vargas, que seguira o velho com a vista, mirou-a muito sério:
— Não, Maria Jacinta. Teu pai é de verdade um homem.
Pareceu ficar triste, de olhos postos na rapariga. Ela baixou as pálpebras, envergonhada, assim, pela primeira vez sozinha com ele, naquelas terras desertas, longe de casa.
António Vargas curvou-se. O chapéu de aba direita fazia-lhe sombra na cara morena.
— Antes do sol-posto, temos de chegar a Cerromaior.
Segurou-lhe as mãos, puxou-a para cima do cavalo, que já batia as patas no macadame duro, e logo partiu num trote cadenciado.
Maria Jacinta ajeitou-se, passando o braço em volta da cintura de António Vargas. De cabeça tombada um pouco para o lado, não desfitava o chão. As saias colo¬ridas, ondeadas de rendas e folhos, pareciam um gran¬de ramalhete, do meio do qual lhe saíam os sapatos negros, brilhantes.
Esquecida do pai e das suas palavras, a rapariga sentia o peito contra as largas costas de António Vargas. Insensivelmente, aquele sentimento de vergonha desapareceu-lhe. Uma comoção muito suave tomava-a. Os seus lábios carnudos entreabriam-se, as narinas arfavam levemente. Abandonou-se um pouco ao galope do cavalo, numa ansiedade doce, como nos sonhos, quando se vai caindo, caindo. A respiração entrecortada roçava-lhe os lábios frios. Nem via a estrada, correndo branca de pó e, de onde em onde, escurecida pelas sombras muito desenhadas das árvores. Assim ia, quando António Vargas disse, refreando o cavalo:
— Ergue a cabeça e olha de frente quem olhar para nós.
Notou pela primeira vez aquela voz de mando dura. Abriu os olhos, muito grandes, aguados. Viu confusamente que entravam em Cerromaior.
A passo batido, o alazão ladeava. Passaram o largo, cheio, na tarde de domingo, e subiram a rua maior da vila.
Todos olhavam admirados, ora para António Vargas, hirto na sela, ora para a rapariga, afogueada, de olhos negros, luzindo.
À porta do café veio gente. E, no primeiro andar do prédio grande, duas senhoras ergueram a cortina. Logo a boca se lhes abriu de espanto e a cortina caiu.
Ouvindo o murmúrio das falas dos homens da porta do café, António Vargas obrigou o cavalo a voltar atrás. Olhou-os de vagar. Uma ruga funda unia-lhe as sobrancelhas, de boca cerrada, os olhos iam lentamente de rosto em rosto:
— Meus senhores, boa tarde.
Nunca Maria Jacinta ouvira uma voz tão agressiva. Um momento pareceu-lhe que ia haver uma grande desordem. Mas os senhores da porta do café levaram, com frieza, as mãos aos chapéus:
— Boa tarde, António Vargas.
Quando o cavalo desapareceu ao cimo da rua, os homens voltaram a sentar-se. Todos se olhavam como se, só nesse instante, dessem conta da própria cobardia.
De pé, o Dr. Anselmo ia de um lado a outro, nervoso. Francisco Salgado, muito gordo, esbugalhando os olhos em volta, suspendeu as mãos sobre os joelhos:
— Que traste, hem!
O Dr. Anselmo, àquelas palavras, parou agitando os braços:
— Desafiar-me!... Os senhores notaram? Desafiar uma criatura da minha posição social! Notaram? De dedos muito abertos, espalmou as mãos:
— Ah! se não fosse o receio do escândalo, eu bem sei o que respondia àquele atrevido!
O rapaz que se sentara ao canto apaziguou:
— Doutor, nós também sabemos. O desafio foi para todos. Mas eu penso e sempre hei-de pensar que as acções ficam com quem as pratica. Por isso desprezo desordeiros.
O Dr. Anselmo deu dois passos em frente:
— Mas, Sertório Pires, você é um homem novo. A bem dizer um rapaz. Está bem que pense assim. Até lhe fica bem pensar desse modo. Mas olhe para a minha idade, olhe para a minha posição social! Que diabo, exijo que me respeitem!...
Francisco Salgado limpou o suor da testa. Atirando o chapéu para a nuca, repetiu, num assomo de decisão:
— Que traste!
Atrás do balcão com a cabeça aparecendo entre as latas de bolacha, o rapazinho do café ouvia interessa¬do, mordiscando a ponta do lápis.
A conversa generalizara-se. André Silva, até aí silencioso, já por duas vezes intentara falar de modo que todos o ouvissem. Mas o Dr. Anselmo discutia com Sertório Pires, prendendo, num momento, a atenção geral. André Silva limitou-se a murmurar para Francisco Salgado, levando dois dedos ao polpo da orelha:
— Mas que pedaço!...
O Dr. Anselmo expunha a única forma como enca¬rava um caso daqueles: um enxovalho lançado por um garotão a um homem de passado limpo. Sertório Pires insistia que não, que António Vargas era um desequilibrado, um doido. Portanto, devia ser encarado como tal. Não lhe morrera a avó materna depois de longos anos de loucura? E os pais? Uns sos que nem acabaram de criar o filho. Morreram quando ele ia nos cinco anos, se tanto. Mas vá lá seis...
— Veja o doutor: desde os seis anos sem família e com uma ascendência dessas, que poderia sair daquele homem? Claro que um doido.
O Dr. Anselmo ia serenando. O insulto parecia ter passado para segundo plano.
Entre as caixas de bolacha, o rapazinho esquecera o lápis nos dentes abertos.
Foi então que André Silva, aproveitando a ocasião, mordeu o lábio inferior, fez um sinal de inteligência com a cabeça:
— Mas que pedaço de mulher! Desculpem mudar de assunto. Vocês viram bem? Que palminho de cara, meus amigos! E os olhos?... Ó Sertório, você sabe que idade tem a rapariga?
Sertório Pires sabia. Sabia a história toda. A rapariga tinha dezassete anos e era filha do Jacinto Oudelinha. O Jacinto Oudelinha de Vale Barrancos. Estava farto de contar e ninguém acreditara. Que não podia ser um rapaz fino e rico casar com uma moça do monte. Que, embora fosse criada pelas tias como menina rica, no Cercal, não deixava de ser uma moça do monte.
André Silva não se conteve:
— Mas que moça! E que cinturinha, meus caros!
Parando no seu passeio, o Dr. Anselmo insinuou:
— Talvez não casassem...
Sertório sorriu. Um sorriso azedo. Então ninguém conhecia o velho Oudelinha? Mesmo assim velho ainda era homem para pregar um tiro no primeiro que se atrevesse com a filha.
— Não, doutor. Casaram no Cercal. Foi o Tavares, do Registo, que me informou, quando o Vargas foi pedir as certidões.
O Dr. Anselmo voltou ao passeio. Diante de tais provas disse acreditar. O Tavares, do Registo, decerto sabia desse assunto. Até aí estava bem. Isto é: bem não estava, mas vá... Agora entrar na vila, num domingo, com a rapariga à garupa do cavalo, isso é que era um escândalo, um desafio às pessoas honestas. Ou então...
E o doutor calou-se. Quem quisesse que continuas¬se o seu pensamento.
Foi Sertório Pires que o pôs em palavras:
— Claro, claro. Esta entrada do Vargas foi para mostrar publicamente o desprezo que tem pela filha do Dr. Inácio Reis. Aí está.
Francisco Salgado circundou a vista em redor. O pescoço, gordo, enrugou-se-lhe:
— Era precisamente o que estava a pensar. Que traste! Depois de um namoro de anos, depois do pedido de casamento! Só de pulha. Pobre Luisinha Reis. E logo com uma moça do monte...
A porta do prédio em frente abriu-se, e as senhoras que, há pouco, haviam erguido a cortina saíram rua abaixo.
Sertório Pires foi à porta do café espreitar. Viu-as voltarem à esquina do Chico Cardoso. Era certo o que pensara.
— Lá vão as irmãs do Dr. Reis confirmar à sobrinha o que ela não acreditava. Pobre Luisinha!...
Ao sentar-se ficou admirado do tom de sinceridade que dera às últimas palavras. Veio-lhe de novo à ideia o despeito por que passara, três anos antes, quando Luisinha Reis respondera com um não à sua carta tão apaixonada. Pouco depois começara ela o namoro com o Vargas. Como sofrera com tudo isso... Mas aí estava vingado — e por quem! Parecia-lhe maior humilhação o gesto de António Vargas. Porque seria aquele abandono? Luisinha tão bonita e o pai tão rico!... Talvez agora Luísa Reis o ouvisse...
— Ó homem, adeus. Você parece que está na Lua. Adeus.
Sertório, como se acordasse, estendeu atrapalhadamente a mão ao Dr. Anselmo. Depois ao Francisco Salgado. André Silva bateu-lhe nas costas umas palmadinhas repetidas:
— Grande pedaço, grande pedaço de mulher!...
Iam todos jantar. Já devia passar do sol-posto, porque a penumbra invadia o café. Sozinho, Sertório Pires voltou aos seus pensamentos. Apoiou os cotovelos na pedra da mesa, encostando a cabeça nas mãos. Luisinha Reis... Diante dos seus olhos, os cabelos dela, em grandes ondas, loiros, cor de oiro... Talvez em toda a vila não houvesse fortuna maior que a do Dr. Inácio Reis... E os cabelos loiros alastravam, tapavam Luisinha por inteiro.
Assim estava, quando um rapaz de chapéu desabado entrou no café. Ao reparar em Sertório, ainda fez menção de retroceder. Mas, cumprimentando, sentou-se.
Sertório Pires ficou a encará-lo como se fosse descoberto nos seus pensamentos. Lentamente ia-se recompondo, procurando uma frase qualquer que quebrasse o silêncio que se fizera após a saudação.
O rapaz do chapéu desabado abriu a cigarreira, tirou lentamente um cigarro, olhando um ponto vago para lá da porta. Ao acender o isqueiro, como quem emenda um esquecimento, estendeu a cigarreira:
— Vai?
Sertório Pires ergueu-se, veio até ele, pôs-lhe a mão no ombro. Acentuou gravidade na voz, falou pausadamente:
— Obrigado, Jorge Reis. Ouve, amigo... Mas calou-se. O amigo fitou-o:
— Também viste?
Sertório sentou-se na cadeira ao lado, sem retirar a mão do ombro de Jorge Reis:
— Vi. Até falei. Disse o que penso, o que pensa um homem às direitas. E mais que isso: disse o que pensa um homem que é teu amigo de infância.
Jorge Reis pareceu ficar mais taciturno. Jogou fora o cigarro mal principiado. Levantou-se.
— Obrigado.
Saiu porta fora. Enterrou as mãos nos bolsos das calças, foi andando ao acaso.
Não sabia que pensar. Tentava ordenar os factos, mas era-lhe impossível. Todos pareciam mais interessados que ele, mais ofendidos. Viera o escândalo e já o Sertório dissera tudo aquilo. E ele, irmão de Luísa, sem reacção nenhuma, andando ao acaso...
O mal-estar acelerava-lhe os passos. Pouco a pouco, muito nítido, insistente, veio-lhe o desejo de de¬fender António Vargas contra todos. Contra a própria irmã.
Era tão longe da vida da irmã, a sua vida! Dela só sabia as horas gastas ao espelho, estudando atitudes, o ar distante com que recebia, o jeito senhoril e frio dos seus passos.
Desde pequena sempre aquele egoísmo seco, já nas brincadeiras, já nas birras que fazia a propósito de nada. De nenhuma das suas partidas de rapaz guardara segredo. Corria logo a contar à mamã a coisa mais insignificante. E tudo isto crescera com ela, encoberto na distinção das maneiras, nos gestos estudados.
A António Vargas conhecia melhor que ninguém. Era o amigo de infância e sempre sentira pena daquela vida tão abandonada, nem afeições nem família, e em tudo tão leal. E recordava cenas de rapazes, lutas, correrias, o jogo da bola na Courela da Feira. Assim haviam crescido e, um ao outro, contado os segredos, as ambições. Ele, Jorge Reis, queria ser oficial do exército, vestir uma farda, mandar batalhões, caracolando num cavalo, com mulheres a olhá-lo das janelas. Mas todos os seus planos se perderam, molemente, pelos cafés e clubes de Lisboa. Vargas sempre desejara o mesmo: ter família. E via-o, mal enfiara as primeiras calças compridas, numa tarde em que os dois passeavam em volta do castelo, muito direito, compondo a gravata e com um grande sorriso no rosto corado. Ouvia-lhe, de novo, aquelas palavras tão repetidas:
— Quando chegar à maioridade e o padrinho me entregar a herança, caso-me, Jorge!
Todo ele parecia compenetrado dessa certeza. Só quando um dia lhe perguntou se já lhera noiva o viu perplexo, numa surpresa. Sem mais palavras desandou. E Jorge, depois daquela atitude, deixava-o falar no seu projecto tão querido sem o interromper.
Mas, António Vargas parecia mais violento nas brincadeiras. Todos os rapazes o temiam. Crescera muito, ossudo, de ombros largos. Já fumava como um homem. Vinham uns dias em que parecia outro. Então passeava com Jorge numa conversa animada. Fazia-lhe perguntas sobre a mãe. Como o tratava ela? Ia de noite ao quarto vê-lo dormir? Tapava-o, compunha-lhe a roupa quando era de Inverno? E Jorge, que pensava perceber o motivo daquelas perguntas, mentia-lhe: Que não, que a mãe pouco se interessava por ele; acontecia até que só raramente lhe dava um beijo. Mas bem via que António Vargas não acreditava. Vinha-lhe aos olhos o brilho agressivo e partia para não aparecer por muitos dias.
Jorge Reis recordara as férias grandes do último ano em que andara nos estudos. Viera encontrar o amigo já um homem. António Vargas, de posse da herança, levara-o para uma vida de noitadas e mulheres. Um dia, chegaram a uma praia do Sul. António Vargas, insaciável, parecia sorver a vida como se a morte o esperasse cada manhã seguinte. Mas breve, o casino, os namoros, as festas contínuas, o encheram de tédio. E vieram as taças cheias de vinho, mulheres de acaso.
Depois começou uma grande bebedeira. Um dia, surpreenderam-se correndo estradas, o automóvel guinando numa vertigem, gemendo nas curvas. Passavam vilas, árvores, e o vento puxava-lhes os cabelos para trás. Mas tudo, árvores, vento e os muros caiados e as curvas escondidas de traição, tudo era impotente para suster aquele desejo ansiado de vida. António Vargas tinha os olhos jogados para a frente, o maxilar cerrado, o pulso firme. Vinham mulheres às portas com as mãos apertadas sobre o peito, no lugar do coração, porque os seus meninos brincavam na estrada; espantavam-se os animais, recuando os carros contra taludes e troncos; fez a polícia sinal de paragem; em vão: António Vargas corria como um destino.
Só de noite, um rio largo lhe moderou a marcha. E, atracado o barco na outra margem, entraram numa grande cidade. Aí, durante um mês, foi sempre noite para eles. Noite de asfalto luzidio das primeiras chuvas de Outono, com o jorro das montras e dos candeeiros espelhando-se. Noite de clubes, com mulheres de cabe¬los de todas as cores caídos em cachos sobre os ombros nus. Noites de beijos mordidos e de lutas até de madrugada. Então, numa outra cama de lençóis muito frios, um sono pesado de inércia até à noite. E mais vinho para excitar. Uma mulher ruiva. Agora uma menina quase, os cabelos claros, a pele branca, como se fosse virgem. E tabaco, cigarros acesos uns nos outros, vinho, sempre vinho! Esta noite, aquela rapariga alta, de boca rasgada e os olhos oblíquos, o cabelo negro! Hoje, a loira, a do sorriso terno e gestos brandos de embalar meninos.
Mas tudo aquilo cansava, enchia de torpor. Na última noite, foi só vinho. Vinho e desânimo. Alta madrugada, para ali estavam os dois em frente um do outro, vazios, sem um gesto, sem um interesse. As mãos sustendo as cabeças, os cigarros ardendo. E ninguém mais àquela hora, no clube sem música nem mulheres. Parecia o mundo deserto e eles sozinhos, amparando as cabeças nas conchas das mãos, sobre um abismo. António Vargas olhava um ponto vago, os olhos enublados, o cigarro evaporando-se em fumo, névoa. E depois, veio a voz arrastada, num murmúrio medroso, de despertar gritos. Gritos estrídulos de aflição que bem se viam no brilho lucilante que estava por detrás da névoa dos olhos de António Vargas. Veio a voz suada de angústia, e ciciada, e vagarosa, e sumida:
— Não pode ser, não pode ser... Há, decerto, alguém. Isto é gelo que está caindo, é gelo que passa...
Nesse momento, Jorge Reis não encontrara pala¬vras para responder, sequer um gesto para confortar. Em toda a viagem, de volta, quase não trocaram uma frase. Depois, durante meses, António Vargas desapareceu. Tivera notícias dele unicamente por intermédio do feitor. E por uma tarde, já na Primavera, agradável surpresa o esperava, ao dobrar uma esquina: António Vargas estava, num grupo, à porta do café. Mas aos seus modos de alegria, António respondeu com simplicidade, como se o acabasse de ver na véspera.
Começara pouco depois o namoro com sua irmã. A princípio andou indeciso, sem saber que motivos haviam levado o amigo a apaixonar-se por Luísa. Eram tão diferentes um do outro nos gestos, nas ambições. Luísa só pensava em festas, vestidos, guiar automóveis e sentir em sua volta, admirações, homenagens. Mas breve se desinteressou, entretido na roda dos amigos. E, só agora se arrependia de não ter falado na altura própria. Não ter tentado convencê-lo que Luísa não lhe servia. Que, mais tarde ou mais cedo, havia de fatalmente aparecer uma palavra, uma atitude a separá-los. Agora era tarde.
Que sabia Sertório Pires para falar daquele modo? E os outros? Todos iriam arquitectar enredos, aventar hipóteses, enfim; o escândalo correria a vila de ponta a ponta.
Em casa, que fariam, que pensariam os seus? Calculava. Choros, recriminações, palavras azedas. E nisso tudo, como irmão e filho, ele se via obrigado a tomar parte, embora apaga-damente.
Sem saber por onde passara, Jorge Reis estava em frente de casa. Que fazer? Entrar ou voltar pelas ruas, ao acaso? Decidiu-se. Meteu a chave à porta, subiu a escada.
Havia um silêncio pouco habitual. Só se deteve na casa de jantar. Sentou-se e esperou. O silêncio continuava, anunciando más coisas. Quando ouviu passos compôs um ar aborrecido. Mas quem entrou foi a criada com a terrina fumegando.
Depois, com grande surpresa sua, vieram, uma por uma, todas as pessoas de família. Muito graves, sem uma palavra, começaram a comer. Só Luísa se não servia: os pratos e os talheres inúteis, na sua frente. Olhou-a e viu-lhe os olhos muito brilhantes de choro. Mas assim um choro como os de birra, tão habituais nela.
Sem desmanchar o aspecto compungido, Jorge Reis sentia-se intimamente aliviado. Decerto a tempestade passara e nada mais havia a dizer uns aos outros.
Quando uma frase da mãe quebrou o silêncio, Jorge mal entendeu as palavras, tão pouco naturais lhe pareceram. No entanto, a mãe insistia; voltada para Luísa:
— Iremos ao cinema. Se não fôssemos, todos di¬riam que minha filha sofria, humilhada por um traste. Talvez até inventassem sei lá o quê!... Não. A melhor resposta a esse canalha é ir ao cinema tal qual como sempre fazemos.
A frase ficou no ar sem objecções. Parecia mesmo uma combinação já determinada e aquelas palavras apenas um aviso para ele, Jorge, que todos os domin¬gos comprava os bilhetes.
Ainda pensou fazer uma pergunta clara ao pai, que mastigava, carrancudo, de olhos no pra-to. Mas teve receio de quebrar o silêncio e trair pela voz o desinteresse em que estava. Bebido o café, ergueu-se:
— Compro ou não compro os bilhetes? A mãe fitou-o, de nariz afilado, e o tom das palavras parecia de repreensão, seco:
— Já o devias ter feito. Se não o fizeste, vai e espera-nos como de costume.
Na rua, Jorge acendeu um cigarro e caminhou pensando que tudo aquilo estava mal. Nada de correcto naquela ida ao cinema. Mas assim faziam todos para mostrarem desprezo, para fingirem serenidade, quando a impotência lhes vedava outras atitudes. Ainda se o pai ou ele mandassem alguma coisa em casa, tudo se passaria de outro modo. Jorge, no entanto, sabia de há muito que só a mãe governava e só a ela se obedecia. Até Luísa, tão cheia de caprichos, se dobrava à sua vontade.
Nestes pensamentos comprava os bilhetes, certos em todos os espectáculos, e ia reparando o jeito dos cumprimentos das pessoas conhecidas. Havia em todas, ao encará-lo, um movimento de surpresa, logo desmentido num «boa-noite» muito delicado.
Quando entrou na sala, atrás da família, notou que a admiração era geral. Todos cochicha-vam, disfarçan¬do. Muito serena, Luísa parecia entretida, ora a ler o programa ora a corres-ponder, com acenos de cabeça, aos cumprimentos das amigas.
As quatro únicas filas do balcão daquele cinema de província encheram-se com os frequen-tadores habituais. Só na segunda fila, quase ao meio, havia dois lugares vagos.
Sertório Pires, muito concentrado, parecia debater-se com um problema difícil. De vez em quando, olhava para Luísa demoradamente. André Silva fumava, discutindo com o sujeito do lado, afectando um grande interesse. Lentamente, a admiração que se traduzira por um silêncio, só perturbado pelo rumor de vozes que subia da plateia, foi desaparecendo. O Dr. Anselmo já tomara o seu lugar, o que significava, para os frequentadores do balcão, que a sessão ia principiar.
Apagavam-se as primeiras lâmpadas do tecto, quando António Vargas, vestindo de claro, entrou na sala dando o braço à filha do velho Jacinto de Vale Barrancos.
A rapariga caminhava sem jeito, amedrontada de tantas caras desconhecidas. António Vargas guiava-a através da segunda fila. Sentaram-se nas duas cadeiras até ali vazias.
Fizera-se de todo escuro na sala. Da cabina vinha o ruído contínuo da máquina desenrolando o filme. Na tela, começaram a agitar-se cenas. Gente. Uma estrada sombria de arvoredo. Depois, paisagens largas. Depois, uns bonecos faziam coisas impossíveis.
Mas até ao primeiro intervalo, todos olhavam ora para a tela ora para o lado de António Vargas. Quase ninguém reparou no filme de actualidades, nem no outro, de desenhos animados. Quando as imagens começaram a tremer anunciando o fim, prepararam-se para varrer a dúvida. A tela escureceu um momento, logo iluminada pela luz caindo do tecto da sala. E, piscando os olhos à claridade, voltaram-se todos os rostos.
Maria Jacinta, muito séria no seu vestido simples, tinha o mesmo aspecto de admiração com que entrara. Os cabelos pretos, abertos ao meio, erguiam-se nas fontes para trás das ore-lhas. A boca, de lábios grossos, era um traço vermelho no rosto afogueado. Os olhos, negros, brilhavam.
Ao lado, António Vargas, de rosto duro, olhava de frente todas as caras. Ia obrigando, um por um, a desviar a vista. O peito abaulado parecia comprimir uma grande força prestes a soltar-se.
No meio do silêncio frio que enchia o balcão, o Dr. Anselmo levantou-se e saiu para o corre-dor. Andava no seu passo nervoso de exaltado. Não. Aquilo não podia ficar assim! Era uma ofensa. Mais: um desafio. Uma camponesa entre gente de posição e um atrevido provocando com o olhar, como se fosse espancar o primeiro que lhe desse pretexto para isso!... Ah! Não! Para enxovalho chegava a cena do café.
Dirigiu-se ao pequeno escritório do fundo do corredor. Aí expôs as suas razões.
O Sr. Mota atendeu-o com amabilidade. Mas, ao saber a causa que tanto enfurecia o Dr. Anselmo, mudou, apreensivo. E o Dr. Anselmo insistia: que fosse avisar o Vargas, que ele não podia continuar ali, com uma mulher daquelas.
— Isto é um insulto a todos nós! É uma vergonha para as nossas famílias! Se aquele homem não sair imediatamente, não voltarei aqui. E outros farão o mesmo: ninguém voltará aqui. Nunca se viu uma coisa destas, Sr. Mota!
O Sr. Mota concordava. «Tinha razão o Dr. Anselmo, todos tinham razão. Até era proibido a certa gente o ingresso no balcão. Isso era. Mas o Sr. Vargas trazia a mulher. Era a mulher dele, logo, portanto...»
— Tem a certeza disso?
«A certeza não tinha, claro, não ia jurar. Era o que se dizia. O Dr. Anselmo devia compreender. Era um assunto melindroso.»
Mas o Dr. Anselmo não desistia:
— Então chame esse homem e pergunte-lhe se é casado. O balcão é para gente honrada, Sr. Mota!
Por fim, o Mota cedeu. «Que diabo, era só chamá-lo de parte e, ali no escritório, fazer-lhe a pergunta muito delicadamente. Dizer-lhe mesmo que era contra vontade que se metia num caso daqueles.»
Empurrado pelo Dr. Anselmo, o dono do cinema entrou no balcão.
Caminhou até ao princípio da segunda fila, mas aí parou indeciso. António Vargas varava-o com aquele olhar parado, fixo.
Perante a atenção geral, o homem voltou-se, a desistir. O Dr. Anselmo, já sentado no seu lugar, quase se ergueu. Mas ainda o Mota não dera um passo, quando a voz cortante de António Vargas se ouviu:
— Há alguma novidade?
O dono do cinema voltou a cabeça com um sorriso forçado.
— Não, senhor, está tudo muito bem...
António Vargas, então, pareceu falar para todos:
— Creio que não há ninguém, aqui dentro, que tenha uma opinião diferente da sua!
O corpo do Dr. Anselmo abateu pesadamente na cadeira. Sertório Pires pareceu mais interessado que nunca na resolução do seu problema. O lencinho que Luísa Reis mordia esgarçou-se-lhe nos dentes. Ao lado, a mãe tinha a testa suada e os cantos da boca tremiam-lhe. Jorge sentia as orelhas rubras de vergonha. Mas, em todas as filas, nem um gesto, nem uma palavra. Todos faziam por ter um ar composto, natural.
Quando saíram do cinema, a noite estava muito serena, cheia de estrelas. Maria Jacinta estranhou a noite e as estrelas. Mal se dava conta das ruas negras da vila por onde ia pas-sando. Parecia-lhe apenas cami¬nhar através da noite e das estrelas.
Depois de fechar a porta de casa, António Vargas disse à rapariga:
— Aborreceu-me tudo aquilo. Desejava ver-me só contigo, de vez. Mas era necessário ir lá, era necessário.
Maria Jacinta deixou-se levar através do corredor.
A meio, o homem abriu uma porta e deu volta ao comutador. O candeeiro grande, suspenso do tecto, iluminou a quadra. Era uma sala enorme, atapetada. Quadros de diversos tama-nhos pendiam das paredes. Nem os passos se ouviam, sumidos no pêlo fofo da carpeta.
— Vês esses retratos, Maria? São da minha família. Nenhum é vivo. Este é meu pai, aquela é minha mãe. O resto são avós, nem eu sei ao certo.
A rapariga, interessada, corria a vista pelas paredes. Depois, quedou-se, apreensiva, perante aquelas senhoras e aqueles senhores, hirtos e de olhar parado.
Tudo lhe parecia um sonho. Não conseguia dominar-se e pensar nitidamente os factos desse dia. Eram como coisas de sonho. O pai à beira da estrada; a corrida a cavalo e o sol inundando tudo; o desmaio que quase lhe dera, encostada a António Vargas; a entrada em Cerromaior; as cenas da porta do café e do cinema... Agora, aquelas caras paradas, de olhar fixo.
Havia qualquer coisa de muito estranho em todo aque¬le dia.
Como podia ser noite sem ela andar na casa, de chão batido, a pôr a comida à lareira? Onde ficava aquela sala com caras que nunca tinha visto? E as ca¬beças suspensas da parede, muito sérias, a olhá-la? Parecia-lhe um túmulo.
O pai ainda estaria na estrada, de cabeça erguida? E o Sol?
Olhou para o lado, sobressaltada. António Vargas desaparecera. Julgou-se sozinha, sozinha num jazigo! Voltou-se. Ao canto da sala, de pé, António Vargas fitava-a. Pareceu-lhe assim como um retrato preso na parede. Teve medo, gritou:
— António!
António caminhou sorrindo. As feições carregadas haviam-se esbatido e um ar ingénuo e jovem brilhava-Ihe no rosto. Parou junto dela, passou-lhe o braço em volta da cintura, levou-a para o corredor:
— Agora és tu a minha família. Nunca mais voltaremos àquela sala. Hoje enterrei uma porção de mortos. Vem!...
E entraram no quarto, fechando a porta.


Manuel da Fonseca in Aldeia Nova