16/03/2009

O arquipélago dos picapaus

Noctium phantasmata ne polluantur corpora.

Estou casado há meses, na Ilha (conta John Derosa, súbdito norte-americano), com um corpo feminino que se compõe da maré cheia, das nuvens algodoadas, dos bicos dos penedos, e desta aragem carregada de sal que me visita no torreão da Ponta Negra e faz tremer as folhinhas amargas e verdoengas dos salgueiros. É Minha Mulher a Solidão.
Procuro em vão, no fundo do meu saco de aventuras, farrapos de experiência que se assemelhem a isto. Nem Kate, cujos ombros olímpicos me levantavam meia jarda inglesa acima da dobra do lençol. Este ser de nada é mais bravo. Vera, a italiana, dava-me beijos preparados com uma pastilha de fruta que me deixavam sem forças e de meninges a latejar. Mas de manhã, quando abro a porta para o caminho, o mar envia-me um pique mais doce e bravio. E desisto de comparações simplesmente idiotas.
Isto deve ser uma pontinha de febre enxertada num certo esgotamento dos meus trinta anos excessivos, e já me lembrei que, tomando brometos, talvez esta espécie de mulher marinha se safe, como se eu fosse um corpo aberto. O Prof. Sousa Júnior, aqui retirado há anos, e que além de médico eminente é um coração de ouro e grande cavaqueador, falou-me de sífi lis hereditária e deu-me calomelanos. Melhorei um pouco, mas não... Isto não vai com drogas. Asseguro que estou casado com uma mulher de sal e que vai dar-se aqui uma coisa tremenda que fará gemer os prelos!
Trata-se, pelo menos, de uma ilusão singular. Esta noite sonhei que a Solidão deixava de ter aquele corpo quimérico e feito de linhas de limite, para tomar as formas aproximadas de Nanette. E acordei a chorar como uma criança:
– Minha Mulher a Solidão é Nanette!
E, ainda, por uma pegaça de ritmo:
– Nanette é Minha Mulher a Solidão!
Como foi? Não sei bem. Parece que eu deixara Nanette num país esquisito e inabordável: o Arquipélago dos Picapaus. O nome era devido à configuração dos habitantes dessas ilhas: tipos ferozes, gargaludos, providos de narigueiras que farejam tudo de alto a baixo.
Nanette, que eu levara ali à falsa fé, sob um pretexto de regata, não queria desembarcar no único ancoradoiro da Picapau Grande, cortado entre falésias mosqueadas de líquenes cor de fogo. Eu, verde de perfídia, disse-lhe:
– É só por um dia, meu amor! E ficas muitíssimo bem entregue... Vá, minha filha! Ponha aqui o seu pezinho no primeiro degrau do cais...
O chefe dos Picapaus dissera-me ao ouvido que no arquipélago se desenhava uma tendência evolutiva nos caracteres antropológicos da escassa população. Os narizes pencudos, de alto faro, tinham provocado afinal uma epidemia terrível que dizimava em massa as tabas: a rinite picapaual.
Além disso, um vento misterioso, soprado dos seios do Pacifi co (o Arquipélago dos Picapaus está mais ou menos na latitude do Golfo da Califórnia, entre 25° e 30° de latitude Norte), apanhara a população de surpresa nas suas tarefas habituais – a picagem do pau de rolo – e cortara cerce os pescoços de mil e quinhentos cidadãos. Se eu quisesse, mediante um cheque de cem mil dólares, ele, führer natural do Arquipélago, receberia Nanette em depósito durante dois ou três anos e fá-la-ia conceber de um ou dois picapaus mais decentes.
Animado pelo secreto desejo de enriquecer e encobrindo a própria vileza com reservas mentais de eugenésia, fechei a transacção. Fomos ao Banco de meu primo James Derosa e recebi metade do estipulado. Preferi o esterlino.
A outra metade ser-me-ia entregue quando me restituissem Nanette com um quinto dos picapauzinhos humanizados que ela houvesse, a bordo de um navio do contrabando do álcool tripulado por marujos da confi ança de Al Capone.
Consegui enfim vencer as últimas resistências de Nanette. Ela era romanesca, de uma docilidade de cadelinha, e confiava em mim como as pombas palonças que, na Praça de S. Marcos, em Veneza e antes de Tito estar às portas de Trieste, vinham comer milho americano disposto grão a grão nos meus ombros enchumaçados, sob a forma patriótica por que se agrupam as estrelas na bandeira dos Estados Unidos.
Comecei por dizer-lhe que precisava estudar os costumes dos Picapaus para esclarecer um ponto controvertido da história do Canadá, minha especialidade.
E creio que lhe falei vagamente em hibridismo e nas ervilhas lisas e crespas das experiências de Mendel.
Ela, que copiava com tanto amor todos os meus verbetes, desembarcou carregada de tiras de papel de costaneira e com uma grande caneta de uma marca que oculto enquanto me não derem mil dólares para a revelar aqui. Eu ia dar um bordejo a outra ilha e dali a seis horas voltava. Escusado é dizer que não voltei...
Não posso precisar todos os pormenores do sonho, mas foi horrível! Os Picapaus hospedaram Nanette numa casa abjecta, onde mulheres de baixa esfera a cobriram de chufas horrendas e a untaram de um creme afrodisíaco.
Nanette ainda tentou resistir às megeras a pulso – aquele seu pulso fino e endurecido a transportar os nossos móveis, a pegar nos filhos alheios e a – encerar o meu escritório. Não pôde. De cabeça baixa, a testa afogada na mecha de cabelo que às vezes desfazia e descompunha para me dar a impressão da Mãe no Manicómio (filme que me aterrou), chorava em fio e tinha o queixo marcado pelas unhadas dos picapaus. Algumas lágrimas me caíam também, feitas pedras de gelo; outras iluminavam o chão do cais do regresso, como carvões espalhados de uma braseira honesta. Quando acudia à pobre Nanette, acordei. Eram cinco horas da madrugada. Agora, na Ponta Negra, amanhece mais cedo; entra na minha alcova
uma luz mortiça e creme e o coro dos melros pretos de bico amarelo dos faiais.
Como a casa onde moro é escaiolada a vermelho, parecia-me estar numa das falésias do ancoradoiro da Picapau Grande, toda mosqueada a fogo e tinida dos dólares do resgate.
Esfreguei os olhos e atirei com a dobra do lençol. Cá fora o mar desenrolava-se azul, sem uma ruga. A luz do farolim da Ponta do Cavalo ainda pulsava a distância. Cantava um galo: respondia outro – e mais nenhum.
Eu sei que há uma ligação secreta entre a fauna torpe e absurda que nos povoa os sonhos e o fundo inconfessável que levamos connosco até à cova. Talvez eu deixasse Nanette nalguma casa suspeita! Talvez eu esteja casado com Minha Mulher a Solidão...


Vitorino Nemésio, O Mistério do Paço do Milhafre