28/02/2009

O Rapaz não gostava das mãos

Talhado em angústia mansa, o rapaz entrou na taberna, pediu uma garrafa cheia de vinho e regressou à porta, levando o olhar fosco para além das casas, como se tivesse deixado atrás de si qualquer coisa fundamental ou viesse acossado
por um bicho fero. Parecia temeroso ou atormentado. Agarrava-se nas mãos a dor que não cabia dentro de si.
Altarrão e enxuto, vergava um pouco pelos rins, onde a camisa fraldiqueira e suja lhe saltava das calças derreadas. Tinha cara de menino assustado.
– Ah vida! – disse para a rua quase num grito.
Devia julgar-se sozinho com a vida para lhe atirar aquela acusação irada.
Quando reparou que também nós andávamos na mesma liça, quis perceber para quem falava, olhou à volta e atirou para o monte a sua pergunta:
Para que quer um homem a vida?...
Depois encolheu os ombros com resignação e desdém, indo sentar-se à ponta do banco encostado à parede. Pegou na garrafa, mirou-a à luz que vinha da porta e voltou a pousá-la no marmorite do balcão.
Abanava as mãos longas. Pensava que se as não tivesse não estaria ali tão longe. Pudera vir ao mundo lázaro das duas e andaria agora pela sua terra, batendo feiras na ganhuça de mendigo.
Era por isso que remirava as mãos com desprezo.
Atirou com o chapéu salgadiço de suor para a nuca, arrancou o lenço do pescoço e limpou a testa. Fez aquilo para não ficar quieto.
Quando pegou de novo na garrafa teve uma cortesia:
– São servidos?...
Uma escala de vozes respondeu-lhe obrigado!
Então o rapaz limpou a boca com a manga da camisa e começou a beber. Todos voltámos a cabeça para vê-lo beber. Ele percebeu-o, sentiu que reparavam nele, coisa que não lhe acontecia há muito tempo. Cheio de brio, mamou a garrafa até ao fim. Voltou a limpar a boca, estendeu a garrafa ao taberneiro e mandou-a encher.
– Já agora preparo a cama... Dorme-se melhor em cima de vinho do que numa esteira...
Largou o chasco e não sorriu. A verdade é que também não lhe achámos graça.
– Ontem o gajo do automóvel pôs-me umas suíças, o filho da mãe. Só hoje vi. Cheguei à noite a Bucelas com uns camaradas... Viemos todos prà vindima do patrão Soisa, o Tóino de Soisa. E o fi lho da mãe do chófer andou c’a gente às voltas e vai ao fim pede cinquenta malréis. Por uma légua cinquenta malréis. Se calhar ao Soisa leva dez... Povo a roubar povo, não há coisa mais feia nem coisa mais certa...
Num repente calou-se assustado. Fez agulha à conversa:
– A gente bebe vinho, mas não bebe juízo... O fi lho da mãe do chófer há-de gastar o dinheiro que roubou à nossa desgraça com remédios de botica... Não lhe quero outro mal... O meu mal é outro...
Meteu a garrafa à boca sem a gala de se limpar. Levou-a de um trago até meio.
– Andar quase dois dias de camineta, a butes e de comboio para arranjar serviço... E viva! Na minha terra um homem quer matar o corpo e não encontra.
Não percebo porquê, encarou comigo. Vi que os olhos baços de tristeza se iluminavam de raiva.
– Terra pobre há-de dizer o senhor... Qual nada, qual quê! Há lá lavradores com terras que nem condados. Metem-lhe dentro três ou quatro feiras-atadeiras e aquilo é um bafo. A gente, os homens, acarretam lenha como as mulheres. Vão jornas a dezoito malréis. E é para quem quer... Quem não quer é madraço. Pra quem não quer há lazeira ou cadeia...
Voltou a sentar-se.
– Trabalho de mulheres prà gente – repetiu duas vezes com escárnio. – Pois que fiquem lá as mulheres; talvez elas um dia sejam tantas que acabem por capá-los.
Se a minha mão tivesse capado o meu pai não tinha eu vindo ao mundo...
Não gostou da ideia e pô-la mais ao jeito:
– Mais valia que a minha mãe me tivesse desfeito a cabeça numa parede quando me viu nascer...
Na madorra do pranto seco, suspirou: – Ah vida!...
– Vossemecês não gostam da gente... A gente vem de tão longe tirar o trabalho aos que cá moram. Está certo!...
O vinho começava a trocar-lhe as voltas. Enrolavam-se-lhe as palavras e as ideias.
– Está certo, não! Porque não há coisa mais desgraçada do que andar longe da nossa terra a padecer... Os padecimentos na nossa terra doem menos; saram mais depressa. Na minha terra não havia nenhum chófer que me levasse cinquenta malréis por meia légua. É o mesmo que roubar um cego...
Voltou a abanar as mãos.
– Vossemecê gosta das suas mãos?!... Diga lá, homem!
– As mãos nunca me fizeram mal...
– E bem?!
– Faziam-me falta...
– Pois a mim, não. Se não tivesse mãos, nunca abalava da minha terra.
Deixava-me morrer de fome, mas não abalava. Nunca abalava da minha terra...
Pedia esmola. Os lavradores sempre me davam alguma coisa. Não me mandavam apanhar lenha... Vossemecê já viu um homem a apanhar lenha?... É pior que ser mulher magana em terra de soldados.
E cuspiu no chão da taberna com raiva de provocar um terramoto.


Alves Redol, Histórias Afluentes, 1963