16/01/2009

Silka


1º capítulo

«Numa viagem por terras bálticas apeei-me, certa tarde de calor, numa extensa praia de areia lisa. Descalcei-me e pus-me a caminhar ao longo do mar, calmo como os lagos das florestas. Tão grande era o silêncio em redor que me parecia ouvir as vibrações do ar e a agitação dos peixes na água.

Caminhando assim, a passo lento, sem hora marcada, deparei com um aglomerado de casinhas desabitadas, de pedras toscas enegrecidas pelo tempo, sem portas nem janelas. Resolvi entrar numa delas, mas mal pus o pé na soleira da porta o mar empinou-se em ondas ruidosas que se quebravam aos meus pés e alastravam pela areia, numa espuma hostil de tão fria. Era como se uma grande mão inimiga me tocasse.

Assustada, afastei-me em direcção ao monte do outro lado das dunas e das tristes casinhas vazias, o qual, visto assim de baixo, me parecia bastante calvo. Resolvi subir. Chegado ao cimo, vi que o mar voltara à sua calma, tal como o tinha encontrado ao chegar.

Nisto os meus olhos caíram sobre um grupo de quatro árvores que naquele lugar ermo, sem mais nenhuma vegetação, faziam o efeito de terem sido expulsas para o deserto. Entre um pinheiro e um cipreste, ambos de porte solene, havia um choupo de aspecto frágil, cujas folhas, verdes de um lado e prateadas do outro, tremiam sem cessar. Atrás elevava-se uma faia, majestosa no esplendor do seu tronco sem mácula e da sua volumosa copa de folhas cor de sangue. Dir-se-ia que os outros dois, o pinheiro e o cipreste, se aconchegavam na sua sombra como num quente abraço maternal.

“Como terão estas árvores vindo parar aqui, a este monte abandonado?”, perguntava de mim para mim, quando ouvi uma voz:

- Belas árvores, não são?

Ao meu lado estava um velho, de olhos amáveis por detrás das lentes grossas.

- São belas, sim – concordei. – Mas estranho vê-las aqui e serem cada uma da sua espécie.

O velho apontou para as casas desabitadas, em baixo, junto ao mar:

- E não estranha também aquelas casas, sem portas nem janelas?

Respondi que sim, que elas me surpreenderam, e que o mar se enfurecera quando eu quisera entrar numa delas.

- Não me admiro – disse ele. – O mar vigia-as com rancor, pois certo dia viu todos os habitantes fugirem delas, apavorados, para nunca mais voltares.

- Mas porque é que fugiram?

- Porque viram o mar tingir-se da cor do sangue, da mesma cor das folhas desta faia.

Mal ele tinha acabado de falar, as folhas – seria ilusão minha? – sussurraram por uns breves instantes como em confidência amigável.

- É uma história longa – continuou o velho –, mas se tiver tempo e paciência gostava de lha contar.

Eu tinha tempo, pois andava em viagem de recreio. E paciência para ouvir uma história, raras vezes me falta.

Ele convidou-me com um gesto a sentar-me junto de si, num rochedo perto das quatro árvores, e começou a contar a história mais extraordinária que eu jamais ouvira.


2º capítulo
O Visitante da Noite

«Numa daquelas casinhas, ali em baixo na praia, vivia Silka, com os pais e os dois irmãos. Era uma rapariga tão linda que pela manhã, quando saía de casa, o céu e o mar se douravam à janela para a verem, pois diz-se por estas bandas que “encher, pela manhã, os olhos de beleza, é começar o dia com uma festa”.

Os pais tinham grande vaidade na filha. Além de ser bonita, trabalhava com o afinco da formiga e cantava com a doçura do rouxinol. Diziam eles que só um príncipe ou um rapaz famoso da cidade seriam dignos dela, e que não consentiriam nunca que ela casasse com um dos pobretões da aldeia. Silka não ligava a tais conversas. Despreocupada, trabalhava, cantava melodias alegres, banhava-se na água do mar e estendia-se ao sol.

Ora, certa tarde de Verão, vinha ela de uma aldeia das proximidades carregando um cesto de fruta, sentiu-se atraída pela frescura do mar. Despiu-se por detrás de um rochedo, saltou para a água e chapinhou alegremente nas ondas, que vinham lentas e brandas como numa carícia de amor. Assim se deixou ficar um bocado, e só quando o Sol baixou no horizonte se tornou a vestir e regressou a casa.

Nessa mesma noite, no seu quarto, saltou-lhe da blusa um estranho bicho, meio cobra, meio peixe, dum azul transparente como o das pedras-marinhas. Assustada, correu para a porta, mas nisto ouviu uma voz quente a suplicar-lhe:

- Não fujas, bela Silka. Eu não te quero mal, acredita. Não vês que sou insignificante e indefeso?

Ainda desconfiada, Silka aproximou-se de novo e olhou de soslaio para tão exótica criatura do mar que então lhe pediu:

- Toca-me, Silka.

- Não, isso não! – exclamou a rapariga.

- Não sou frio nem escorregadio. Não tenhas receio – voltou aquela voz quente.

Um tanto por piedade, um tanto por curiosidade, ela passou-lhe rapidamente a mão sobre as escamas azuis e, para surpresa sua, sentiu-as cálidas e macias como a pele de um ser humano.

- Pobrezinho – disse -, como aconteceu perderes-te na minha blusa?

- Não me perdi – confessou ele, e ouviu-se-lhe um riso. – Estava perto de ti quando te banhaste no mar. Vi-te tão linda, mais linda do que o próprio mar, que senti desejo de ficar junto de ti. Saltei para terra e escondi-me na toalha que tinhas deixado com as tuas roupas ao pé do rochedo. Tu própria me trouxeste contigo.

Silka soltou uma gargalhada:

- Atrevido! Desavergonhado! Vais já voltar para onde vieste.

- Silka, bela Silka! Porque é que não me deixas ficar, por uma única noite, aqui no teu quarto? – perguntou o inesperado hóspede.

O timbre quente daquela voz enterneceu Silka.

- Mas onde queres tu ficar? Se a tua vida é na água do mar, como vais aguentar a noite aqui, num lugar seco?

- Bastava que enchesses de água o alguidar. Lá dentro ficarei perfeitamente bem. Estou a pedir muito?

- Enfim, parece-me razoável – respondeu ela, e encheu um alguidar com água, que colocou num canto perto da janela e o mais longe possível da cama.

- Silka, porque é que me queres tão longe de ti?

- Tens medo? – troçou ela então.

- Como posso ter medo nesta pequena quantidade de água desabitada se estou acostumado ao mar imenso e cheio de imprevistos? Não tenho medo, Silka. O que quero é estar junto de ti. Não achas justo, já que me deixas passar a noite no teu quarto?

Silka suspirou, mas fez-lhe a vontade e puxou o alguidar para junto da sua cama. Depois despiu-se, deitou-se e apagou a luz.

- Silka, bela Silka! – ouviu de novo a voz do hóspede – se eu pudesse viver para sempre ao teu lado seria a mais feliz de todas as criaturas debaixo do Sol.

- Cala-te! Perdes-te o juízo? Tu, que és do mar e eu que sou da terra, como é que imaginas tal coisa?

- Bastava que fosses comigo, viver no fundo do mar.

- Disparate! Eu no fundo do mar!

- Casa-te comigo! Vem viver em minha casa. Serás feliz, Silka, acredita.

- Agora basta de conversa! – respondeu-lhe Silka -. Estou cansada e tenho de me levantar cedo.

- Silka, bela Silka, por favor não digas que não! Promete que te vais casar comigo e não te incomodo mais.

Silka, um tanto arrebatada pelo timbre agradável daquela voz, um tanto por estar cheia de sono, prometeu:

- Está bem, vou casar-me contigo. Mas agora sossega e deixa-me dormir.

Pareceu-lhe ouvir um suspiro de alívio, mas não tinha bem a certeza, pois já fechara os olhos. E quando o hóspede murmurou: - Obrigado, Silka -, estava já ferrada no sono.

Pela madrugada, mal o Sol tingira de rubro a parte do céu oposta ao mar, Silka vestiu-se. Na concha das mãos transportou o visitante da noite para a praia, onde o atirou à água com estas palavras:

- Adeus, amigo! Foi bom conhecer-te!

Por uns momentos conseguiu ver os círculos que se desenharam, fugazes, no sítio onde o amigo marítimo desaparecera. Depois, uma onda impetuosa passou por cima, rolou lentamente para a areia e desfez-se em espuma branca.


3º capítulo
Os Casamenteiros

«Foi grande o espanto dos pais da Silka quando, na manhã seguinte, depararam, no limiar da casa, com quatro bichos do mar, meio serpentes, meio peixes, do azul transparente das pedras marinhas. Chamaram pelos dois filhos, irmãos de Silka, que olharam boquiabertos para aqueles visitantes matinais. Mas quando ouviram o mais alentado dizer em língua de gente: - Senhores, concedei-nos o favor de uns momentos de atenção. É que temos um recado de importância a transmitir-vos – faltou-lhes a voz para responderem.

Então, o peixe-serpente que além de mais alentado era também o mais velho do grupo dói directo ao assunto que os trouxera ali:

- Meus senhores – disse – somos da família dos peixe-azuis, mas o nosso nome não pode ser revelado. Garanto-vos, no entanto, que somos honrados e que gozamos da mais alta consideração entre os habitantes do mar. Uma missão tão importante como delicada trouxe-nos a esta casa. Viemos a pedido de um nosso parente, o mais belo e mais inteligente de todo o clã, que viu ontem, ao entardecer, a linda Silka, rapariga gabada por estas redondezas. E de tal maneira dela se enamorou que diz morrer de saudades se não a receber como mulher. Eis-nos, pois, para vos pedir que deixeis a vossa filha e irmã casar com ele, a quem estamos muito afeiçoados.

Os pais e os irmãos de Silka desataram numa gargalhada e exclamaram repetidas vezes:

- Esta é boa! Esta é boa!

- Não vos riais de nós, por favor! – suplicaram eles -. Não somos nem estúpidos nem ridículos, embora não nos apresentemos aqui altos e fortes como vós.

Então os irmãos de Silka, disfarçando o riso e fingindo falar a sério disseram:

- Pois bem, senhores Azuis-Sem-Nome, estamos comovidos com a honra que nos prestais pedindo em casamento para o vosso ilustre parente a nossa irmã Silka. Agrada-nos saber que o vosso clã é tão considerado pela fauna do mar. Somos gente simples e rude, mas a nossa ambição tem sido sempre ver a nossa irmã casada com uma personalidade inteligente e famosa.

- Obrigados, obrigados! – exclamaram os visitantes, e o mais velho ainda acrescentou: - Ela há-de ser feliz, acreditem. Podemos levá-la já connosco?

- Calma, calma, senhores! – disseram os irmãos de Silka. – Tanta pressa nem ficaria bem a vós nem a nós, não é verdade? De resto, a nossa irmã não se encontra em casa. Primeiro temos de conversar com ela. É muito nova e precisa dos nossos conselhos. Mas amanhã, pela madrugada, estará na praia à vossa espera e então podeis levá-la para a companhia do seu noivo.

- De acordo – disse o visitante mais velho. – Que ela nos espere junto ao rochedo onde ontem, ao entardecer, se banhou no mar.

Mas as estranhas criaturas tinham desaparecido, os pais e os irmãos de Silka riam a bandeiras despregadas. E depois tramaram pregar uma partida àqueles fervorosos embaixadores marítimos.

4º capítulo
Silka toma uma resolução

«Não é difícil imaginar que a família de Silka não estava de modo algum decidida a deixar casar a rapariga com uma criatura do mar, e que nem sequer tomara a sério o pedido dos visitantes matinais. E assim, pela madrugada do dia seguinte, os irmãos de Silka foram buscar uma galinha branca que enfeitaram com flores de laranjeira e levaram para junto do rochedo onde Silka se despira para tomar banho no mar. Em tom de escárnio despediram-se da ave:

- Adeus, noiva branca! Que sejas feliz com o teu esposo azul! E não te constipes, lá no fundo da água fria!

E foram para casa.

Daí a pouco assomaram do mar os três casamenteiros. Ao verem a galinha enfeitada de noiva enfureceram-se de tal maneira que se puseram vermelhos como sangue. Tornaram à casa de Silka. Àquela hora ela ainda estava no quarto, e com estranheza ouviu lá fora os irmãos aos gritos e insultos:

-Seus loucos sem vergonha! Seus insolentes! Ponham-se daqui para fora, se querem voltar vivos ao mar!

Olhou pela janela e viu os bichos meio cobras, meio peixes, de escamas azuis do azul das pedras marinhas, a fugirem apavorados. Lembrou-se então do estranho companheiro da noite, a quem prometera casamento, e perguntou aos irmãos o que foi que acontecera. Ao saber da brincadeira com a galinha enfeitada de noiva, à espera de ser levada ao noivo no fundo do mar, sentiu-se envergonhada pela indelicadeza dos irmãos. Era como se voltasse a ouvir a voz quente que lhe pedira: «Silka, bela Silka, por favor não digas que não! Promete que te vais casar comigo…». E não prometera ela que sim, que ia casar com ele, o estranho companheiro nocturno? Tinha-o feito para o sossegar, era verdade, mas no fim de contas uma promessa era uma promessa.

- Peço-vos que apareçam, amanhã cedo, no mesmo sítio, disse ela aos casamenteiros.

Pela madrugada vestiu-se de branco e, sem que ninguém a visse saiu de casa e foi sentar-se junto ao rochedo, à espera do que viesse a acontecer.

Mal o céu se tingiu, do lado oposto ao mar, do rubro das manhãs que nascem, emergiam da água os embaixadores azuis. Ao verem-na ali, mais linda do que nunca, subiram-lhe ao colo, aconchegaram-se-lhe nas mãos e agradeceram-lhe por ter vindo e por não os repelir.

- Sim, vou convosco – disse Silka. – Vou cumprir a minha promessa.

Nessa manhã a bela Silka desapareceu. Só alguns anos depois foi mais uma vez vista pelos habitantes da aldeia.

5º capítulo
“Os Magníficos”

«Quem eram, afinal, o estranho hóspede nocturno e os fervorosos embaixadores matinais? Isso só se ficou a saber, em circunstâncias dolorosas, quando Silka voltou a terra para ver a família e os amigos.

Pois essas criaturas, meio serpentes, meio peixes, da cor azul das pedras marinhas, uma vez no mar tomavam a forma de gente. O mais novo, que se escondera na blusa de Silka, chamava-se Reinaldo e era tão belo como a própria Silka.

No tempo em que os remotos antepassados daquela família oceânica viviam em terra, empenhavam-se, com palavras e com actos, em que os homens se tornassem capazes de viver sem se detestarem e fazerem maus juízos uns dos outros. Mas ninguém os compreendia nesses seus intentos uns dos outros. Mas ninguém os compreendia nesses seus intentos. Em vez de lhes darem ouvidos, apontavam-nos como desatinados, embora lhes invejassem a inteligência e o saber. E era sobretudo por isso, por os invejarem, que não conseguiam dedicar-lhes amizade e lhes amarguravam a vida. Chamavam-lhes “Os Magníficos”, para troçarem deles. Mas, bem vistas as coisas, a alcunha era prova de que, no íntimo, para além de os detestarem, também os admiravam.

Como “Os Magníficos” não cediam e não lhes vergavam, começaram a maltratá-los. Agrediam-nos sempre que os encontravam, de modo que eles, para se salvarem daquela fúria humana, punham-se em fuga. Mas os outros, em número muito maior, seguiam-nos sem piedade e não lhes davam descanso em parte alguma. Desesperados, “Os Magníficos” certa noite reuniram-se junto ao mar para deliberarem como encontrar uma saída para aquela vida insuportável. Sabiam que vivia refugiado, no fundo do mar, um velho justiceiro cego a quem desalmados tinham arrancado os olhos, apesar de ele ter procurado ajudá-los no seu infortúnio. Esperançados em que ele lhes desse ajuda, “Os Magníficos” começaram a chamar por ele, explicando quem eram e por que razão se queriam afastar. Os seus clamores, cântico dorido, assombraram a noite e o mar que, por uns momentos, contiveram a respiração para os escutarem. Mas, em seguida, o mar agitou-se e uma onda alta avançou sobre a areia, onde se dissipou num murmúrio semelhante a vozes humanas.

- Uma mensagem! – exclamaram “Os Magníficos”.

Acenderam as suas lanternas e, procurando na areia molhada algum sinal do velho justiceiro, viram uma anémona branca. Mal um deles a levantara ficou, no mesmo instante, reduzido a uma criatura meio serpente, meio peixe de cor azulada que faiscava à luz branda das lanternas. Os companheiros estremeceram, mas depressa compreenderam que o velho do mar lhes estava a oferecer auxílio. Então, um após outro, tomaram na mão a anémona para se metamorfosearem nas mais insólitas criaturas que alguma vez imaginaram. Por fim mergulharam no mar, e os seus perseguidores perderam-lhes, para sempre, o rasto.

Longos anos se tinham passado sobre a fuga dos “Magníficos” para o fundo do mar quando o jovem Reinaldo se apaixonou por Silka. E naquela , manhã em que os parentes casamenteiros a levaram junto dele, a rapariga não queria acreditar nos seus próprios olhos. Nunca antes vira homem mais perfeito.

- Foi o senhor quem dormiu no meu quarto? – perguntou, embaraçada.

- Parece-te isso tão extraordinário, Silka? – disse Reinaldo.

- Parece-me um sonho, senhor.

- Não me trates por senhor, Silka. Sou o homem com quem prometeste casar. Acaso estás arrependida?

- Estou feliz – disse Silka, e sorriu.


6º capítulo
As saudades de Silka

«Silka e Reinaldo tiveram três filhos, todos eles rapazes. À medida que o tempo ia passando, Silka começava a sentir saudades da praia, da areia macia que costumava pisar pelas manhãs frescas, do sol, do vento e da chuva, e também dos pais, dos irmãos e dos amigos da sua aldeia. Certo dia falou disso ao marido:

- Já se passaram alguns anos desde que deixei a minha aldeia, a casa dos meus pais e os meus amigos. Não achas que é tempo de eu ir lá, para matar saudades e para mostrar os nossos filhos?

Reinaldo bem sabia que os pais e os cunhados nunca lhe perdoariam o ele ter atraído Silka para o mar. Sabia que tinham ambicionado vê-la feliz e rica na cidade, admirada pelos aldeões a quem então teriam dito: “Ora vejam que sorte teve a nossa filha, a nossa irmã, a bela Silka!”. Possivelmente os cunhados nem tinham ainda perdido a esperança de se vingarem da desfeita que ele lhes fizera, a eles, famosos como pescadores hábeis e mergulhadores destemidos. Por tudo isso a ideia de que Silka iria visitá-los o afligia muito.

- Silka, meu amor, disse, acho que sim, que um dia deves subir à terra para voltares a ver os sítios que tanto apreciavas, e também os teus pais e irmãos. Mas nesta altura fazes-me muita falta. Desde a madrugada que sofro de uma forte dor nas costas e vejo-me obrigado a recolher à cama. Quem me há-de tratar e fazer companhia senão tu?

Silka ficou preocupada por saber o marido doente e durante algumas semanas não saiu do seu lado, sem se aperceber de que ele, com grande custo, simulava dores e sofrimento.

Quando já estava mais do que farto de tanto descansar, Reinaldo levantou-se e afirmou sentir-se, finalmente, melhor.

Poucos dias depois Silka voltou ao mesmo pedido:

- Reinaldo, achas bem que vá agora subir à terra, com os rapazes, para ver a minha aldeia e a minha gente?

- Silka, meu amor, respondeu ele, compreendo bem que seria uma grande alegria para ti e para os teus se lá fosses agora, mas vejo-me mais uma vez obrigado a pedir-te paciência. Não te deve ter escapado que não só no interior mas também na fachada da nossa casa se estão a desprender uma série de corais, conchas e pérolas danificadas e gastas pelo tempo. È uma grande necessidade fazermos obras e és-me indispensável para me aconselhares.

E mais uma vez Silka resolveu adiar o plano de subir à terra para tornar a ver tudo aquilo que fizera o seu encanto no tempo em que ainda não conhecia o marido. Ajudou Reinaldo a procurar os corais mais preciosos, as conchas mais perfeitas, as pérolas de mais subtis matizes. Mas mal as obras ficaram concluídas, voltou a insistir:

- Reinaldo, não achas que já é tempo de eu ir ver a minha terra e mostrar os nossos filhos à minha gente?

Reinaldo compreendeu que de nada lhe valia inventar mais pretextos para adiar a ida dela. Apreensivo disse:

- Se é assim tão forte o teu desejo, Silka, vai e leva contigo os três rapazes. Mas peço-te de todo o coração que nem tu nem eles revelem a ninguém o meu nome e o da minha família. Se algum de vós o fizer, nunca mais nos voltaremos a ver. Prometes guardar segredo e advertir os nossos filhos para o guardarem da mesma maneira?

- Prometo, Reinaldo. Nenhum de nós pronunciará o teu nome durante a nossa visita à terra.

Mas Reinaldo, continuando preocupado, insistiu:

- Silka, meu amor, ouve bem o que te digo: se apesar da tua promessa o meu nome for revelado, não voltem para aqui antes de verificarem a cor do mar. Se ela for como de costume, azul, verde ou acinzentada, não hesitem e venham sem demora, pois eu cá vos espero com a mesma impaciência com que te esperei no primeiro dia da tua chegada. Mas se a cor do mar for vermelha, ele se tingiu do meu sangue, e de nada valerá voltares aqui.

Silka, um tanto distraída com a ideia da viagem, riu-se:

- Que palavras tão lúgubres, Reinaldo. Dentro de pouco tempo já nos terás de novo aqui contigo e seremos felizes como até agora.

- Esperemos que assim seja, disse Reinaldo, e beijou a mulher e os três rapazes.


7ºcapítulo
Silka visita a família

«Naquele dia memorável em que os estranhos visitantes levaram Silka para o fundo do mar e para junto de Reinaldo, os pais e os irmãos esperaram desesperadamente por ela. E quando a noite desceu sobre a aldeia sem a rapariga dar sinal de si, puseram-se a caminho das aldeias em redor, perguntando a toda a gente:

- Não viram a nossa Silka?

Ninguém a tinha visto em todo o dia.

«Afogou-se no mar», concluíram, e romperam a chorar. E ficaram vários dias e várias noites junto ao mar à espera que ele arrojasse à terra o cadáver de Silka. As marés cheias e as marés baixas alternavam-se no seu ritmo regular e perpétuo, o Sol levantava-se no Oriente e punha-se no Ocidente dourando o céu e as ondas, as noites desciam lentamente, e nada mais se via do que a faixa branca reflectida da luz da lua, a deslizar sobre a água do mar.

- Quando ela vier vamos-lhe fazer um enterro bonito – disseram os pais e os irmãos de Silka.

Mas à medida que os dias foram passando perderam a esperança e compreenderam que não valia a pena esperarem mais tempo. Intrigados, perguntaram-se uns aos outros:

- Terá ela fugido? Mas porquê? E para onde?

Entre lamentações e pranto fizeram várias conjecturas, mas não lhes veio à ideia que o desaparecimento de Silka pudesse estar relacionado com a visita das insólitas criaturas do mar.

Os anos foram passando. A família de Silka lembrava-se frequentemente dela, e os irmãos diziam:

- Se alguma vez descobrirmos quem foi o malvado que nos roubou a rapariga, ele terá de se haver connosco.

Ora, quando num dia radiante de Primavera Silka lhes entrou em casa na companhia de três lindos rapazes, não queriam acreditar no que viam. Era verdade? Era sonho? Mas ouviram a voz dela:

- Cá estou, minha boa gente. E estes são os meus filhos.

Então apertaram-na nos braços, choraram lágrimas de alegria e gabaram-lhe a beleza e a dos filhos. A mãe correu para preparar um jantar com o que tinha de melhor em casa, o pai foi buscar o vinho, e os irmãos ofereceram um colar de conchinhas a Silka e búzios aos meninos para que escutassem a voz do mar. Na verdade, conchinhas e búzios os meninos conheciam-nos mais belos, mas não falaram disso e agradeceram as prendas com a mesma boa vontade com que lhes foram oferecidas.

Comeram e beberam alegremente. Por fim, o pai ergueu-se e, com solenidade e comoção, disse:

- É este o dia mais feliz da minha vida. Silka voltou para junto de nós e trouxe-nos os seus três filhos, lindos como ela. Nada lhes há-de faltar nesta casa, disso tomaremos conta. Estivemos longos anos à espera, mas sentimo-nos bem compensados.

Todos ergueram os copos para brindarem. E as lágrimas nos olhos de Silka, que eram de mágoa e aflição, os pais e os irmãos julgavam-nas de satisfação e alegria.

Silka torturava-se com a dúvida se devia dizer-lhes que não viera para ficar, mas vendo-os tão bem dispostos e confiados não teve coragem.

«Amanhã digo-lhes», pensou.

Por sua vez os pais e os irmãos estavam ansiosos por saber o que acontecera naquela manhã de Verão em que Silka tão misteriosamente desaparecera. Mas sempre que começavam a fazer-lhes alguma pergunta, Silka ria-se e desviava a conversa.


8º capítulo
O nome de Reinaldo é revelado

«Durante uma semana Silka deixou-se ficar em casa dos pais sem falar na partida. Procurou os lugares que lhe tinham sido queridos e visitou os velhos amigos da aldeia. Só então disse à família:

- Gostei muito de estar aqui e convosco, mas agora é tempo de partirmos, pois os meus filhos têm saudades do pai e eu do meu marido.

Estas palavras foram para os pais e para os irmãos como que uma terrível revelação. A mãe desatou num alto choro, o pai soltou um grito de cólera, e os irmãos ficaram de tal maneira enfurecidos que Silka pensou, aterrorizada: «Ai de nós! Nunca tivéssemos vindo!». E disse:

- Meus pais e meus irmãos, se é assim que nos agradecem a nossa vinda, então não voltaremos nunca mais.

Sem prestar atenção ao aviso dela, os irmãos sacudiram-na violentamente e perguntaram:

- Quem é esse teu marido a quem amas mais do que a nós? Onde mora e que nome tem?

- Não digo nem nunca direi qual o seu nome, nem onde mora -, respondeu ela com firmeza.

Os irmãos arrastaram-na para as dunas desertas da praia, espancaram-na e cobriram-na de palavras insultuosas.

- O nome!? O nome!? – quiseram saber.

Silka gemeu de dores, mas a sua boca não pronunciou o nome do marido.

Os irmãos, compreendendo que de nada lhes serviria insistir por mais tempo com ela, deixaram-na ficar ali entre as dunas, coberta de feridas e desesperada de tanto sofrer.

Foram buscar os três rapazes, levaram-nos para longe, mas em direcção oposta ao lugar onde tinham abandonado a mãe. Com fingida benevolência começaram a perguntar-lhes:

- Gostastes de estar connosco? Achais que vos tratamos com a mesma amizade e o mesmo carinho com que vos trata o vosso pai?

Responderam que sim, que tinham gostado de estar com os avós e os tios, e que os tinham tratado com amizade e carinho.

Os tios continuaram com modos brandos:

- Mas por que razão não quereis ficar connosco para sempre?

- Temos saudades da nossa casa, disse o mais velho.

- E do pai, disse o segundo.

- E dos outros tios, disse o mais novo.

- De acordo, de acordo – acederam os irmãos de Silka -, mas nós também somos vossos tios. Isso não conta nada?

- Pois claro que conta, porque é com o pai que temos vivido sempre e os outros tios conhecemo-los desde o primeiro dia da nossa vida.

- E não nos quereis dizer aos menos qual é o nome do vosso pai? Afinal é nosso cunhado. Temos o direito de o conhecer. Gostávamos mesmo de ir cumprimentá-lo.

Os rapazes bem sabiam que tinham de guardar o segredo. Sabiam também que os tios, ali em terra, eram os mais famosos mergulhadores em redor, e que iriam matar o pai se eles lhes revelassem o seu nome e onde morava. Por isso ficaram calados.

Os tios já não se contiveram por mais tempo e começaram a fazer com modos grosseiros:

- Teimosos! Obstinados! Se não nos disserdes o nome e o paradeiro do vosso pai sereis castigados.

Como os rapazes continuaram calados, esbofetearam-nos sem piedade. O mais velho e o segundo empalideceram, mas permaneceram calados. O mais novo, porém, começou a tremer e a soluçar. Os tios puxaram por um chicote e fustigaram-nos um após outro. Os dois mais velhos gemeram e choraram sem, no entanto, pronunciarem uma palavra. Mas o mais novo, depois da primeira chicotada, gritou:

- Tenham piedade! Não me magoem, não me magoem!

Os tios compreenderam que aquele era o mais fraco e, por isso, chicotearam-no quanto puderam. E ele, incapaz de aguentar tanta dor, acabou por dizer o nome do pai e o lugar onde morava.


9º capítulo
A metamorfose de Silka e dos seus filhos

«Á tardinha, quando o sol era brasa no céu, Silka conseguiu arrastar-se até às dunas onde se encontravam os rapazes, transidos de pavor por verem as ondas a galgar, espumando e bramando, e da cor do sangue.

Então Silka gritou o nome do marido. Gritou-o em dor, em demência. E toda a população da aldeia veio a correr, juntando, apavorada, o seu clamor ao de Silka.

O sol pôs-se no horizonte como se nada tivesse a ver com o que se estava a passar sobre a terra. Uma última luz vagamente esbranquiçada iluminou, por mais uns instantes, as ondas cor de sangue e toda aquela gente que ali se agitava na praia, alucinada. Depois a escuridão envolveu tudo e todos.

Pela manhã Silka e os filhos procuraram aconchegar-se aos amigos da aldeia, pedindo abrigo, mas ninguém os quis em casa. Todos se afastavam deles, erguiam os braços e exclamavam:

- Longe de nós! Malditos! Malditos!

Silka então compreendeu que para ela e para os filhos não havia mais amigos, nem na terra, nem no mar. Silenciosamente conduziu os rapazes pela praia fora, até este monte. Subiram e deitaram-se no chão, esperando que o Sol de novo se levantasse no Oriente. E quando isso se deu, Silka viu que o mar continuava vermelho de sangue e que os habitantes da aldeia tinham fugido, horrorizados.

- Meus filhos, disse, mataram o vosso pai. As ondas estão manchadas do seu sangue. Fiquemos aqui, de onde podemos olhar o mar que durante tanto tempo foi a nossa casa.

Beijou os filhos, a todos eles com a mesma ternura. Ou talvez beijasse o mais novo com ternura maior do que os outros, por saber que era ele quem mais necessitava do seu amor.

E depois soltou um grito tão agudo e de tanta mágoa que foi ouvido nas aldeias mais distantes. Pediu aos filhos que se colocassem diante dela, o mais novo no meio. Abriu os braços como se fossem asas e transformou-os aos três em árvores: o mais velho num cipreste, o mais novo num choupo e o outro num pinheiro. Em seguida colocou-se atrás deles e transformou-se, ela própria, na faia de folhas vermelhas, porque a faia é forte e resiste a todas as tempestades.

Foi assim que aconteceu aparecerem neste descampado as quatro árvores. Daqui olham para o mar e recordam Reinaldo. Recordam o belo solar de corais e pérolas, a vida harmoniosa e tranquila que lá levaram e todo o seu mundo perdido.


10º capítulo

«O velho calou-se. As quatro árvores atrás de nós sussurravam como se quisessem confirmar o que eu acabara de ouvir. O velho sorriu:

- Agora conhece a história.

- E o senhor, quem é? – perguntei.

- Oh, eu? Não passo de um velho pescador que já não serve para andar no alto mar, mas que tem tantas saudades dele como Silka e os seus filhos.

- E a história? Quando foi que se passou?

- Passou-se num tempo em que os velhos que a contavam eram ainda crianças. Contavam-na vezes sem fim. Diziam eles que no momento em que Silka soltou aquele grito agudo, antes de se transformar a si e aos seus filhos nestas árvores, as ondas enfurecidas se calaram de espanto e os homens das aldeias em redor pararam nos seus afazeres e murmuraram: «É grito de amor e de morte». E a história de Silka nunca mais lhes saiu da memória. «Meninos! Ouvia a história da bela Silka. Vinde e ouvi!», chamavam. E nós, os meninos, escutávamos, de todas as vezes como se fosse a primeira, com o mesmo espanto com que o mar parou de bramar e os homens pararam nos seus afazeres quando Silka soltou o seu grito de amor e de morte.

Virei-me para as árvores: a faia, majestosa como uma rainha, o cipreste e o pinheiro, solenes e tristonhos. E vi as folhas do choupo a tremerem como crianças assustadas. Num impulso cortei uma delas. Era verde de um lado e prateada do outro. Por uns momentos senti-a tremer na minha mão.

Despedi-me do velho, desci o monte e aproximei-me do mar, sereno como um lago. Desta vez não se agitou com a minha presença. Voltei-me e ergui os olhos para o monte. Lá estavam as quatro árvores, olhando o mar que fora a sua casa. E de repente julguei ouvir um grito, um grito tão agudo que encheu o silêncio. Estremeci. As casinhas vazias da aldeia continuavam caladas. Não havia ninguém em redor. Ninguém. Só o silêncio.