09/01/2009

A Reencarnação Deliciosa


Era uma velha, tão velha que ninguém diria quantos anos tinha. Dobrada sobre o bordão, já a cabeça lhe pendia para terra como abóbora carneira do galho duma árvore. E a corcunda tolhia-a de ver o céu.
Vivia numa cabana, abandonada por leproso ou profeta, na altura da escarpa, antes de chegar ao lago, em que começava a aparecer no côncavo a aldeia de Tiberíade e os colmos negros das casas pareciam sargaços ao lume de água. Aérea, só pele e osso, não reparavam nela os ladrões da Samaria e é possível que a própria morte passasse sem a ver. Além disso, como era pobre, nunca à sua porta descia canastra de peixe, nem vinham bater, parada a cáfila no caminho, destas mulheres nómadas, negras e secas, a pedir por amor de Deus uma sede de água para o filho, cozido em febre nos seus braços. Necessitados que por ali transitassem deitavam adiante, uns porque sabiam quanto a velha estava impossibilitada de obséquio, outros a quem a choupana de adobes, coberta de musgos e com sardões em cada fenda, tresandava a bruxaria.
Nuns tristes quintalinhos, com a sua figueirinha melancólica e duas cepas cansadas, deserto e silêncio à volta, se resumia o seu mundo todo.
O maior sinal de vida davam-no em baixo as velas dos barcos quando saíam à pesca; e, ainda nessas horas, garças adormecidas não pairavam mais de manso.
Eram os gritos dos pescadores: ala! arrasta! na faina de tirar as redes, quem quebrava o mudo espanto da terra em redondo.
Mas a velha tinha rija perna. Apenas o sol nado, corria as ruas de Tiberíade; uns besugos, aqui, ao fazer a lota, a troco de qualquer demão; duas bocadas, ali, de almocreve mais liberal em maré de farto; um migalho de pão, acolá, «pelas obrigaçõezinhas» e assim acalentava os dias.
Nas vizinhanças da Páscoa ia para as dunas espreitar o horizonte. Costumavam atravessar por ali as caravanas que do Alto Jordão se dirigiam a Jerusalém, ora imponentes e rápidas, de dromedários, ora passeiras, com gente de pé e de cavalo, camelos de recova e burrinhos patriarcais, carregando levita ou beata sequiosa de purificação.
Os pobres das aldeias esperavam-nas à borda dos caminhos e junto dos poços em que era costume acamparem e puxarem da merenda. Muitos ao faro da esmola que os ricos iam largar à Cidade Santa metiam de rusga com os arrieiros, resignados às suas chufas e picardias. E à porta do Templo, enquanto nos altares grelhava o anho pascal, punham ao léu, clamando e gemendo, as pústulas que o Senhor lhes dera e outras que faziam e agravavam por suas mãos.
Cheios da beatitude do santo dos santos, os patrícios de barba em leque com nojo cuspiam o óbulo à chusma sórdida. Homens e mulheres engalfinhavam-se a apanharem a reles moeda de cobre, com grande risota dos mirones e legionários e ira dos vendilhões que expunham em tabuleirinhos de cedro que a branda aragem virava caramelos e bugigangas de barro.
Páscoa fora, quando os estalajadeiros da Cidade Santa deitavam contas à ganhuça, punha-se o rebotalho das doze tribos a caminho dos seus lugares. Taleiga às costas, tanto mais taluda quanta a esmola era fraca, como sucede de ordinário na vida mendicante, lá iam de seu mole pelas intermináveis estradas romanas. E rezando à porta dos rabinos de teres, continuavam a amealhar o seu ceitil.
Anos a fio fizera a velha de Tiberíade esta romaria; desde que se achou escassa de forças para tão grande jornada, ia postar-se debaixo das palmeiras à espera que passassem as caravanas. E a mão incansável, à falta do siclo de bronze, sempre colhia a sua côdea dura ou talhadinha de melancia deste ou daquele, a poder de responsá-los ao santo padre Abrãao.
No peditório, matraqueando às portas com o seu pauzinho, ou recolhida na choupana, a velha falava alto consigo e com Deus. Com Deus, sobretudo, a quem as vezes que orava, acabava sempre por pedir que a levasse. Que andava ela a fazer no mundo? Porque não vinha a boa e caridosa morte buscá-la?... Falecia o pescador, pai de filhos; falecia o lavradorzinho deixando a mulher ao desamparo e o campo a monte; dela, que tinha os dias cheios, o Senhor Deus misericordioso não se lembrava! E por que razão? Não era útil a ninguém; não dava sombra a ser vivo; não fazia sentido algum na Terra! Deus tivesse piedade e a chamasse, e seria como raio de luz, o mais fraquinho raio de luz que se extinguisse em dia hibernal.
Uma tarde, ao entrar na choupana, sentiu grande angústia e apressou-se a dar graças, supondo que era chegado o seu fim. O Deus Senhor havia-a guardado uma longa vida, não lhe deixando sofrer enxovalho nem doença. Uma longa vida andara ela com o Deus Senhor tão perfeitamente o sentindo a seu lado, que o mesmo era vê-lo. Via-o em pleno ermo, na sombra dos sicómoros e na deliciosa consolação das cisternas à beira do deserto; via-o nas belas coisas e belas criaturas que se ofereciam à vista, torres e palácios, tendas de mercadores e alcaçarias do país filisteu, formosas nazarenas e príncipes de Israel esbeltos como ciprestes; nunca deixava de vê-lo na sua choça de paredes tão estreladas que a noite rompia por ela dentro como fera pelo covil; aquela mesma hora estava a vê-lo ali, aldeia de pescadores, no lago, azul líquido de dia, veludo negro recamado de oiro à noite, e até no próprio deserto, a tristeza do qual em tão invariável desdobre era flor ainda da sua bizarria. Um anjo podia vir buscá-la para a conduzir ao seio de Abraão, que não se achava em falta; podia vir que se não deixava saudades tãopouco as levava. Nunca amara, nunca fizera sofrer. E se era certo as cortesãs e os publicanos encontrarem por vezes abertas as portas do Céu, ela tão mofina da vida, tão desprezível do mundo, tinha assento marcado à direita do Eterno. Podia morrer em sossego.
E confortada com semelhantes pensamentos se deitou e, dormindo, teve um sonho, sonho de fumo mais capitoso que a mirra pura. Voz azeda de profeta falava-lhe e o seio dela pouco a pouco ia-se enchendo de confusão:
– Velha, julgas que vais morrer e enganas-te. Tens ainda que durar, viver a tua vida. Como foi coisa que não fizeste, o Senhor não perdoou. Tens que recomeçar. Pobre de ti...!? Pobre de ti, se o Senhor te chamasse assim inútil e vã ao seu divino pretório! Porque a tua vida, velha, é como o rolo do papiro dado ao escriba para registar a lei e que o escriba deixou em branco; e, esquecido, saltando em claro, entrou com ele a traça e a ruína do templo. Que conceito pode merecer aos olhos do Senhor o escriba desmazelado? Pois tu pecaste como ele. Quando as tuas faces eram morenas e apetitosas como o pão à boca do forno e na tua garganta gorjeavam rouxinóis, não foste moça. Quando os seios te entumesceram e as ancas te arredondaram de modo a poderes trazer um Sansão ou um Messias, não foste mulher. Fizeste da falsa virtude barreira contra a verdade e murcharam entretanto as rosas do teu rosto e sorveu-se-te o peito como fruto desprezado na árvore. Pior que a fi gueira brava de que reza a escritura, que sempre dá sombra aos pássaros e lenha ao fogo, fi caste rebelde à ordem da natureza. Infeliz, olha em roda de ti para o mistério da criação; os seres todos lá vão exactos em cumprir os passos do trânsito incompreensível que é a vida, abrasando-se nas núpcias, tantas vezes o leito de amor derivando em leito de morte. Agora repara: dentro do conjunto de fatalidades que algemam a criatura ao mundo, a ela pertence a faculdade de escolher caminho, tomar à direita ou tomar à esquerda, modelar em suma a vontade na vida corrente como o escriba afeiçoa as letras que hão-de traduzir os mandamentos da lei. Que uso fizeste do rolo que te deram a encher? Às cortesãs deparar-se-á misericórdia no seio de Deus porque sofreram; aos salteadores da Samaria perdão na sua magnanimidade porque penaram; aos publicanos graças em sua clemência porque terão amado e por seus joelhos engatinhado filhos. Não amaste, não geraste, não sofreste na carne, a tua vida não é mais que blasfémia.
Mas Deus, em sua compaixão, amerceou-se de ti e quer que vivas. Sim, viverás até que ele debaixo de mil formas habite em teu corpo e alma.
Acordou a pobre mulher e rompeu em choro desfeito. Era a vida que a chamava em vez da morte a levar. E chorando, repesa duma existência safra como pedra no meio de trigal, suspirou:
– Meus verdes anos, meus verdes anos, quem mos dera!
Um dia, à boca da noite, caía o Sol detrás dos montes, a velha cabeceava acocorada na soleira da porta. Os pescadores do lago tinham festejado o seu santo padroeiro e com os créscimos das bodeganas não houve pobre que não tirasse o ventre de misérias. Ela voltava cheia como uma urca. Arrastando o quadril, deixara-se cair para ali, com um olho irreal contemplando Deus e o mundo, com o outro, semimorto, dormitando. A certa altura apareceu Matatias o zorato, a pedir dois golinhos de água por alma de seu pai. Também estava com sede, e fez-lhe sinal para entrar dentro e buscar a infusa que ainda de manhã lhe enchera Ibraim.
No céu nuvens pardas, com debrum de púrpura, pareciam um acampamento de tendas reais. Tocado pela aragem, o fumo das cozinhas de Tiberíade varria pelos campos, rescendente de cedro e tamarindo. Cheirava a peixe frito, o peixe frito do fim de função, e desta feita não lhe cresceu água na boca à ideia das mesas fartas com o bom azeite de Gaza alumiando nos pratos como sol. E estava nisto, chegou-se um mendigo a ela e pediu dormida. Vinha arrimado ao bordão e que era de Nazaré ou seu termo inculcavam-no os cabelos que lhe desciam para as costas em branca juba. Repetiu o pobre de Deus a cantilena e ela estava em mandá-lo para a aldeia onde as varreduras seriam de sobra para lhe matar a fome, mas ao vê-lo tão humilde, tão mortinho de fadiga, com cabeçorra de jumento, achou melhor dar-lhe pousada, embora não tivesse mais que meia tigela de farinha na arca e duas lágrimas de azeite na almotolia. Depois de cearem e renderem graças, alapardou-se o pedinte ao borralho e adormeceu. Manhã cedo, ainda o primeiro maçarico não andaria a bicar na greda do lago, a velha que tinha o sono leve ouviu dizer:
– Santinha, santinha! Está a nascer o Sol, são horas de me pôr a caminho. Agora ouve: já que de tão boa mente recebeste o pobre de Deus, o pobre quer deixar-te uma lembrança. Pede por boca...
– Pede por boca – repetiu ela assombrada com o que via, pois o velho irradiava como a sar a de reb.
Pede – tornou ele – que não pedirás em vão.
Ela sorriu um sorriso que levou tempo a espairecer, visto em seu rosto há muito tempo nem alegria ou gra a desfranzir as rugas, mas ao clarão que derramava a fronte do homem e ainda por ser aquela terra de milagres acreditou de boa-fé e respondeu:
– Quero ser rapariga!
Ficou o pobre muito despeitado por ela não ter pedido a salvação ou um pêlo da barba de Daniel, mas palavra dada não volta atrás. ardil, porém, é virtude contra o louco e o borracho e objectou:
– em, mas para isso é necessário meter-te forma...
– forma... ? Que é isso?
– Antes de mais nada tenho de cortar-te em postas... meter tudo numa panela, e depois p r ao lume a cozer.
Ouvindo enunciar a tremenda receita quedou a velha perplexa e confrangida de medo. Deveras não lhe causava pavor aquela morte que chega de improviso e zás! arranca com a pessoa como lobo com a cordeira: as lá a morte que dá senha porta, bate e torna a bater, agarra, e farta-se de puxar, irra! Por outra, tornar a orir mo a e bonita, reatar o fio da vida atrás, lá bem longe, quando certas bocas morriam pela sua boca tinha sal e inédito sabor. Era de resto o seu sonho, o sonho que a cometia tantas vezes quando julgava com ansiedade sempre viva que coros de anjos voadores vinham com tiorbas e pandeiros buscá-la para o reino da glória.
Não valia, pois, a pena aceitar aquela espécie de morte, uma vez que não era o abismo negro, sem ar, sem luz e sem fundo, em que se cai para todo o sempre, mas um vau a passar, sem se dar conta, duma margem para outra, e ainda mais ela que se fartava de suspirar pelo último dia!
–Mulher, faz-me dever-te assim joguete do próprio pensamento – proferiu em voz paternal o velho que parecia ler a descoberto nos corações. – pensamento inventa, compara, distingue, mas a realidade terrestre é sempre a mesma inalterável realidade. Por onde quer que a tomes é sofrimento; como quer que a vivas é desilusão; por muito que tentes sofismá-la é a mesma igual, molesta realidade.
A mulher, felizmente para ela, não compreendia a filosofia do bruxo e uma curiosidade nova, que imprevistamente se acendera em seu peito e que consistia em renovar em si o destino, decidiu-a a aceitar o lance. Pesava-lhe já o estéril passado; pesava-lhe ter deixado a vida em branco como o escriba desmazelado da parábola. Depois, como ouvira certo dia a um levita que apenas se não realizavam os sonhos que não têm formosura, afoitou-se. Ah, mas estaria muito tempo a cozer...?!
O homem abriu os braços em sinal de que a cozedura era condição de muitas coisas que não estavam bem nas suas mãos, e que mais valia ter um desejo menos metafísico...
– Ora essa! mandaste-me pedir por boca, pedi. É pecado querer ser nova?
– É loucura. Considera e torna a pedir.
– Nada, nada! – interpôs ela, atravessando-se a qualquer endrómina do bruxo.
– Quero ser rapariga e acabou-se.
– Meu Deus, que vontade tão delirante para corpo tão desgraçado! – gemeu ele, torcendo-se todo num patético de mau gosto.
– O meu santo prometeu, prometeu. Nesta altura da vida outra coisa não me tenta – tornou ela aferrada à sua entrevista miragem.
Pediu ele uma vasilha em que havia de operar a sublime metamorfose. Ela que era avisada apresentou-lhe um pote grande, pançudo e bem assente nas três pernas, em que caberia o sarrabulho dum Golias e não se perderia osso com a fervura, por mais pequenino que fosse. Mas ele desejou coisa mais jeitosa e manejável.
Trouxe então a mulher a infusa da água, a única vasilha mais que havia em casa, mas em que de sorte ela caberia, embora se tratasse dum recipiente de capacidade mais que mediana. O homem contemplou-a: era esbelta como a torre de David e delicada como palmeira nova. No bojo tinha mais harmonia que onda de água a subir em cisterna de alabastro; as asas que suspendiam o bocal ao alto, lembravam mãos a toucar uma fronte com diadema; a curva era lenta, ampla, melancólica e sumida como a linha surpreendida à mais requintada voluptuosidade. Toda ela de talhe tão excelso, gargalo alto, fundo estreito, asas tão altivas que a velha, reparando bem, mais assustada ficou. Era milagre se a infusa não tombasse e não se perdesse por lá bocadinho que fi zesse falta, depois, à perfeição de rapariga. Mas o homem despótico proferiu:
– Em que ficamos?
E a velha entregou-se, cobiçosa de percorrer de novo a estrada em que, olhando do alto do seu desejo como de montanha pelo vale coberto de névoa, não destrinçava alegrias de tristezas, a Primavera do luto das almas, e todo o temível tropel de tormentas emboscadas no ténue gozo.
Mal viu o facalhão que o feiticeiro sacou da túnica, a velha desmaiou. Quando volveu a si, ao romper o Sol dentre os cedros, dizia uma voz por cima dela:
– Salta cá para fora...
Estava dentro da infusa, muito moldada com o barro, mas encolheu-se, torceu-se com imprevista maleabilidade, e pulou fora. Soltando uns ah! uns ih! gritinhos agudos como de cotovia que escapa à gaiola, descobriu-se bonita de corpo e um sorriso de blandícia iluminou-lhe o rosto especioso. Especioso sabia que era e, todavia, ainda se não vira ao espelho, traste diabólico-divino que nunca entrara naquela casa, pelo qual ela agora daria meio mundo. mas ao que abrangia com os olhos tinha a sensação física do que era o resto. E só então lhe acudiu que fora uma triste velha, muito velha, que andava a dormir de pé pelos caminhos – onde se assentava tomava-a o sono, irmão da morte, mais desalmado que um ladrão; riam dela por pancrácia; temiam-na por bruxa – e que um dos belos milagres da Galileia se havia representado em sua pessoa. E como houvesse
guardado o sagaz instinto de mulher, bamboleando-se e admirando-se, disse para o velho, em frente dela baboso decerto com a obra e com mais nada:
– Bem desfigurada me vejo, não há dúvida. Se não soubesse, não me reconhecia. Nenhum deita-gatos era capaz de consertar melhor uma tigela quebrada! Muito rico da graça de Deus és tu para assim obrares prodígios a troco dumas colheres de papas!
– Tive pena de ti porque notei que o teu coração andava triste.
– Consolaste-me. Que paga queres?
– Nada em ti me seduz. Dá graças ao Inefável.
– Manda, sou a tua escrava.
– Essas palavras não me iludem. Tu o que adoras em mim é o poder e não o homem. Se te tomasse comigo, breve te arrependerias também. O homem, repara, morreu em mim quando reconheci que a felicidade não está nos bens do deleite.
– Onde está então?
– Onde menos se busca.
– E onde é que menos se busca? Parece uma adivinha...
– Na arte de se conformar a gente.
Calou-se a deliciosa compreendendo que na palavra do velho todos os destinos se equivaliam, as galas da formosura não lhe acarretando mais venturas que a sua desamparada velhice. Mas tudo isso era retórica de jarretas, certa, já se deixa ver, e ela cria-o piamente, mas nada mais temerário em jovens. A questão toda era enterrar os dentes no fruto sem morder o caroço, que é amargo. E como o seu entendimento era advertido tornou:
– Com que hei-de retribuir tão grande fineza?
– Não tens nada que retribuir. As minhas mãos são rotas a dar e fechadas a receber.
– Mas, por quem és, não me vais deixar aqui ao deus-dará...?!
No rosto do velho perpassou um sorriso mau, reflexo talvez do seu desprezo pelas ilusões das criaturas. E disse:
– Para mim não tens préstimo nenhum.
– Com que cara o dizes! Ah, vocês os velhos a mim não me enganam. Por fora parecem uns santos, por dentro são sacos de lacraus. Para que me vieste tirar ao meu sossego?
– O destino esteve nas tuas mãos.
– Querias que pedisse a salvação? Pois não pedia! Quis ser rapariga, acabou-se.
Agora o que te pergunto é isto: que queres tu que eu faça de mim?
– Conforma-te.
– Conformam-se os defuntos com o caixão. Os vivos não. Põe lá na tua que o meu coração desejava mas não sabia mais que desejar.
Calou-se o velho num instante e disse maneando a cabeça:
– Minha rica, puseste-te fora da vida por teu belo gosto. Querias amar, sofrer, sentir o turbilhão da existência, julgando que não tinhas amado nem sofrido, e a tua alma desentranhava-se a amar e a sofrer. Acabavas de cumprir fadário igual ao dos outros mortais e não estavas satisfeita. Coitada! Uma noite que o Diabo soprou em teu peito bastou para te perder. A voz que ouvias era dele e de mais ninguém.
E como lhe lançasse um olhar inconfundivelmente zombador, ela que se supunha forte e dominosa mirou-se e remirou-se com minúcia e desconfiança dos pés à cabeça, desde as linhas implexas às veladas, desde os membros livres às cabeças de pombo dos seios de neve. E ao cabo do exame, embora os desígnios transmitidos ao seu coração pelo canal do Demónio lhe parecessem os melhores, desatou a chorar em fonte com mais sinceridade do que malícia.
Ai! a cintura dela, ao manear-se, parecia um anel suspenso; o pescoço, em vez de prender a cabeça, levantava-se para o céu, como se quisesse separá-la do tronco e oferecê-la de pasto às aves. As pernas, ah, as pernas que deviam ser feitas para subir aos montes e às árvores, eram de tal pulcritude e matéria que davam ideia do pórfi ro quebradiço.
– Para que me serve este corpo inútil? Dize lá, mandigueiro, homem maligno, para que me serve...?
Chorava e tornava a chorar lágrimas que lhe banhavam o rosto, ela própria via correr um fi o, sentia rolar em bagadas pelo seio como um rocio ao mesmo tempo pungente e agradável. Mas em vez da boa cabeça de jumento intonsa e taciturna, o homem que se debruçava para ela tinha a face esquálida, dois pêlos espetados à sovela no lábio superior e outros dois no queixo, e olhos pequeninos de azeviche.
Por debaixo do fez saíam-lhe fi apos de cabelo sujo, e a sua voz era sibilada e diferente daquela com que travara despique, e essa voz pareceu-lhe conhecida ao proferir:
– Então dorme para aqui ao relento sem se importar com a orvalhada? Está a ganhar a morte, mulher...
A velha esfregou os olhos, deu conta que era manhã, e negou-se com todas as veras da sua alma a aceitar a verdade desconsolada. Nessa esperança perguntou:
– Tu não és Ibraim, o aguadeiro, pois não...?
– Sou eu mesmo, pois quem havia de ser? Olha, olha, quebraram-lhe a infusa; onde deito agora a água?
– Quebrou-se, sim, quebrou-se. Se tu soubesses!
A velha fechou as pálpebras, decerto a retina interior espraiada em ameníssimas perspectivas, o que se adivinhava pela imobilidade e o silêncio, e acabou por dizer:
– Tu querias voltar a ser novo, Ibraim?
– Para quê...? Para carretar mais água...?
A velha afundiu-se em seu mutismo e ele depois duma longa pausa impacientou-se, que estava atrasado. E enquanto despedia a aviar os fregueses, nada descontente por não ter que lhe encher a cantarinha, que já devia a semana, ficava ela a chorar, outra vez a chorar em fonte, não saberia dizer se o prejuízo que lhe dera o zorato, se o doce sonho realizado.

Quando ao Gavião cai a pena, 1935