17/01/2009

O Viajante Clandestino

Nesse ano – hoje tão distante no tempo e nos usos dos homens, que por vezes julgamos viver noutro mundo – o Dezembro correu muito menos frio do que habitualmente ao longo da costa do Atlântico: nevoento e chuvoso, e morno até, como se a corrente, vinda lá de baixo, do Golfo, antes de se alongar a caminho da Europa, tivesse querido acercar-se do litoral para o aquecer e abrigar melhor das águas gélidas que descem da Gronelândia.
O Natal estava à porta, e a neve sem chegar. Ora, um Natal sem neve nem frio não é festa nem é nada. Não rangem trenós nas encostas e caminhos, não se vêem homens de neve com um chapéu velho na cabeça e o cachimbo entre os dentes imaginários, não há batalhas de bolas de neve, e nos tanques e lagos, que não gelaram, não pode a gente patinar de mãos dadas, com as faces vermelhas, o cabelo solto, e o cachecol a esvoaçar ao vento; não há gritos de júbilo e susto no ar cristalino, nem o tinir das guizalhadas –
Jingle bells, Jingle bells,
Jingle all the way...
– que enche as noites estreladas dum eco de tempos lendários. Nos relvados, em frente das moradias, as árvores de Natal não espalham na alvura fofa do chão os reflexos silenciosos e multicores das suas luminárias, a sugerir calor, intimidade e hospitalidade. A natureza escura e molhada, a névoa e a chuva, os arvoredos hirtos e desnudadas, tudo amortece o resplendor das casas, e abafa os repiques dos campanários, que de outro modo encheriam a vítrea sonoridade da noite.
Através das janelas irrompem no escuro os doirados clarões da festa; lá dentro, há sempre o mesmo entusiasmo e a mesma gula pelos presentes do Santa Klaus, empilhados em torno da árvore fulgurante de luzes, nas suas embalagens de luxo e fantasia. E o viajante solitário e sem família que passa na estrada pode entrever com melancolia os pares que dançam, ou os rostos saciados e felizes em volta da mesa bem guarnecida, a que preside um gordo e tostado peru. O Natal fica doméstico e recolhido, e perde a alegria pagã que ecoa de risos e apelos
juvenis nos bosques e nos vales. Não, um Natal sem neve, um Natal que não seja «branco», não é festa nem é nada: parece um Thanksgiving que se atrasou no calendário.
Ora isto deu-se (ou melhor, começou) em Baltimore, que é uma cidade algo sombria, pacata e ordeira, embora muito menos triste do que a visionou o nosso Poeta – «cidade triste entre as cidades, ó Baltimore!» Ou talvez os seus sinos tenham esquecido a rima do sinistro Never more, never more, que ele julgou ouvi-los clamar, ecoando o Poe. É preciso sair do centro, e percorrer os subúrbios, para se encontrar a atmosfera própria da «estação festiva». Quanto aos cais, são soturnos, caóticos, confusos, e aqui e além ameaçam ruína os hangares e barracões grisalhos, como velhos pardieiros ou igrejas rústicas abandonadas. São tristes os
portos decadentes, sobretudo de noite e nas épocas de crise! Mas respira-se uma poesia sugestiva nestes molhes de estacaria luminosa e negra, onde as marés, cansadas e oleosas, vêm bater de manso o ritmo da sua canção de amor à terra. Há cidades que parecem viver na intimidade dos dramas e segredos do mar; onde este está sempre presente, em convívio com os homens. E nada fala tanto ao coração do errante solitário, como este apelo eterno do mar, junto aos cais.
Foi a um destes molhes meio esbarrondados que o navio atracou pela manhã de vinte e quatro de Dezembro, vindo do mar aberto e azul, da África e dos trópicos.
Era um velho cargueiro esgalgado, de alta chaminé enfarruscada, com grandes remendos no casco a desfazer-se em ferrugem, e a linha de flutuação muitos palmos acima das ondas: uma dessas ruínas obscuras que singram vagarosamente os sete mares do mundo, coxeando em busca de freguês, com roupas mal lavadas a enxugar pelos cordames, e alguns marujos esquálidos acotovelados às amuradas, a olhar a terra estranha. Um navio, em suma, que podia ter inspirado um conto triste a Joseph Conrad ou a Pierre Mac Orlan.
A sua carga era pobre e variada: óleo de palma, cocos, bananas verdes em começo de putrefacção, amendoim, duas dúzias de fardos de algodão, e um macaco mais ou menos domesticado, que adoecera em viagem e gemia numa cama de trapos, com febre, queixoso da invernia.
Também vinha a bordo um passageiro, um só, de que não rezavam os livros de navegação e que não pagara a passagem, entregue ao cuidado cúmplice de dois marinheiros: escondido nas entranhas gemebundas do calhambeque, num cubículo sem ar nem luz, junto das carvoeiras, na companhia das ratazanas. Quem era e donde vinha ele? Ah, mas são perguntas, essas, que se não fazem nunca a um destes homens magros, de rosto antes do tempo engelhado pelos trabalhos, as privações e os ventos forasteiros, com os olhos negros a luzir sombriamente de medo e desconfiança no fundo das órbitas encovadas. Viria de Marrocos, valhacouto de tantos desgraçados? das Ilhas Perfumadas? da Costa d’África?
Ninguém o diria, nem que o soubesse, e ele menos que ninguém. A ilegalidade tem as suas leis, a sua moral e as suas combines, e o silêncio é a regra de ouro dos pobres deste mundo. Quem o pusera a bordo? Quem o mantinha e sustentava ali, durante a noite, em segredo, com os restos miseráveis do rancho da tripulação meio andrajosa? – Mistério, mistério! A solidariedade é outra lei sagrada entre os homens que vivem à margem da vida.
Tinha embarcado pela calada da noite nalgum porto desolado das Áfricas ou dos Arquipélagos, e é tudo. Alguém o tinha guiado em silêncio no labirinto ressonante do cargueiro, e ali o deixara como um rato de porão. E ali, na sombra sufocante, tinha transposto as claridades sem limites do oceano tropical, para dar entrada no Inverno americano.
O «Maria Alberta» – chamemos-lhe assim, escondendo-lhe o nome verdadeiro e a matrícula – cumpridas as formalidades da lei, despejou no cais deserto e cinzento a escassa mercadoria. Os guindastes e cabrestantes rangeram, as roldanas guincharam nos cadernais, os botalós descreveram no ar baço a sua incerta acrobacia, e os fardos, caixotes e engradados deram entrada nos hangares varridos de ventania. A noite chegou cedo, e tudo recaiu no silêncio. Os guardas e funcionários do cais foram-se quase todos embora, e o «Maria Alberta» sumiu-se no esquecimento e na obscuridade, como um cavalo cansado e lazarento ao fundo duma estrebaria.
Era a véspera de Natal, e cada qual procurou o seu conchego, a família se a tinha, ou o recanto enfumarado dum bar de tectos baixos, com mulheres esgrouvinhadas e descoloridas sob a maquilhagem, a beberricar whisky de má raça e a meter moedas num juke-box trepidante de melodias quentes e ensolaradas, de Califórnias e coqueirais que só existem no sonho e no celulóide. Para os homens que rastejam à superfície do globo e da vida, de porto em porto como se pátria nenhuma os aceitasse, não há outro refúgio senão esse: e no fi m, uma cama de aluguer e uns braços de empréstimo.
O silêncio escorreu sobre os molhes e hangares, raras luzes brilhavam, poucas conseguiam vencer a espessura da névoa a desfazer-se em chuva. Os mastros dos cargueiros atracados em feixes perdiam-se no céu encarvoado. Mas a neblina cria sempre, em volta dos portos, um manto de abrigo e clandestinidade.
O capitão desembarcou à paisana, e foi à sua vida: tinha uns negócios quaisquer a tratar em Filadélfia. Atrás dele foi-se o imediato, depois alguns oficiais e pilotos, o enfermeiro, e até marinheiros. Alguns deles levavam uma garrafita duma aguardente intragável, a que chamavam brandy, com que esperavam lubrificar a boa vontade dos funcionários da Alfândega, de modo a passarem sem a apalpação da ordem nem a inspecção aos embrulhos.
Os funcionários, quase todos irlandeses, nutridos, bem pagos e agasalhados nos seus quentes e macios uniformes, olhavam com um misto de dó e espanto ou ironia aqueles pobres marítimos magrizelas e mal barbeados, que tiritavam dentro das farpelas de ganga ou cotim desbotado, com remendos, raros deles envergando um jaquetão razoavelmente coçado, e com a gorra de malha ou a boina basca na cabeça. Que diacho de candonga é que eles podiam transportar? Nenhum trazia com certeza ouro, diamantes ou coca.... Aceitavam a garrafita e deixavam-nos passar: «Merry Christmas!» Depois voltavam ao seu póquer, ao cachimbo e ao copo de bourbon. Os marujos sorriam, humildes, esfregavam as mãos enregeladas, e desapareciam no escuro, com as calças enrodilhadas nas canelas, convencidos de que tinham ludibriado a vigilância do Departamento do Tesouro. E que iam eles fazer na terra dos dólares, em noite de Natal, com as suas pobres roupas e os seus magros bolsos de embarcadiços?
O passageiro tinha subido, já noite fechada, das entranhas da carvoeira, para se esconder numa clarabóia do convés, sob a qual havia espaço para um homem se deitar, como num esquife. (Já ali tinham viajado outros, durante dias e até semanas, e um deles, por sinal, apanhado pela dura invernia do Norte – os cordames eram estendais de gelo! – com as roupinhas leves em que vinha do Brasil, ficara tolhido para o resto dos seus dias.) Não comia desde que, manhã cedo, lhe tinham levado o café amargoso e a bucha do pão; a fome roía-o, e depois do calor abafante das caldeiras, o frio húmido da noite inteiriçou-o. Ali encaixado,
ouviu vozes de comando, risos, passos de homens que desciam a prancha, os ecos de ferro do navio despejado. Esperou que, tudo sossegado, o viessem pôr em liberdade. Mas o tempo corria, naquela imobilidade, e a impaciência dele cresceu:
Que raio esperavam eles para o tirar da toca? Iriam esquecê-lo, deixá-lo a bordo sozinho, metido naquela urna a morrer de fome e de frio?... Haveria dificuldades imprevistas ao seu desembarque?... A noite avançava com um vagar exasperante, e ele tinha pressa. Apertava ao corpo, para se aquecer, o saco onde encerrara os parcos haveres.
Tinha entrevisto na noite, ao chegar ali, os perfis dos barracões do porto, mais longe fábricas, prédios, o clarão mortiço da cidade. Estava na América, a dois passos do trabalho e do pão, a um salto do seu destino. E o coração batia-lhe de anseio. Já tinha regularizado contas com os marujos que o tinham posto a bordo, escondido e alimentado. Se havia mais alguém por trás deles, isso não era da sua conta. Restavam-lhe algumas dolas no fundo de um bolso das calças. Junto delas, retinha na palma da mão suada um papel puído, com um endereço, esse ponto perdido na imensidade da América desconhecida: Patchogue ou coisa assim, para lá de Nova Iorque, em Long Island, a quantas léguas seria aquilo de Baltimore, e quanto teria ele que palmilhar às cegas, para alcançar o seu destino?! (Se lá chegasse...) E uma data de números, de portas e ruas, isso ele não entendia, não entendia nada, não sabia patavina de inglês, só sabia que estava ali à espera que dispusessem dele, para começar vida nova, ou então... Sozinho, diante do desconhecido. Não conhecia ninguém, nesta terra envolta em noite e humidade.
Inquietava-o pensar em tudo isso, ali imóvel, impotente, com o coração do tamanho dum feijão a zumbir-lhe no peito apertado. Sonhava com a América havia muitos anos. Vinha em busca dela como, quatrocentos anos antes, e mais, os seus antepassados (isto é um modo de falar) tinham andado em demanda da Terra Firme, do El Dorado e do Xipango. Esses porém eram felizes, não precisavam de passaporte, o mundo era então um mistério aberto à curiosidade e ambição de todos! Ele viajava escondido, embora não buscasse oiro nem prata nem pimenta. Tinha dois braços, sabia pegar numa enxada ou picareta, queria trabalhar. E se o oiro não andava agora aos pontapés, quem caminhasse de olhos no chão ainda podia topar aqui e ali com algum penny perdido – assim tinha ouvido dizer a um trangalhadanças dum alemão que da América voltara com dois patacos, e ele conhecera algures. A lenda do Novo
Mundo ainda não tinha morrido no coração, ou seria no estômago?, dos homens. Para alcançá-lo tomara pelo caminho mais curto, que é quase sempre o mais arriscado: a clandestinidade. Assim viera meter-se a bordo deste cargueiro de má-morte, um calhambeque a desfazer-se em ferrugem, asmático e claudicante.
O tempo correu e ele dormitou. De repente acordou sobressaltado, e enclavinhou as mãos no saco. Uma voz rouca segredava-lhe ao ouvido:
– Salte cá para fora, Seu Tomé!
A clarabóia estava levantada. Atirou com as pernas entanguidas para fora do esquife, mas quando se quis pôr em pé elas recusaram-se a aguentá-lo; doía-lhe a barriga, tinha a bexiga a arrebentar, e uma sede de morte.
– Não me posso mexer!
O marujo murmurou qualquer coisa que ele não ouviu bem, uma praga com certeza, e pôs-se a esfregar-lhe com vigor as costas, as pernas e os braços.
– Beba lá um gole de cachaça. Aqui é que vossemecê não pode ficar. Veja se se despacha, temos que aproveitar esta aberta, enquanto não anda nenhum guarda no cais.
Bebeu, sentiu um pouco de vida voltar-lhe aos membros, e pôde enfim andar. Foi verter águas junto dum turco dos salva-vidas. O outro fumava, impaciente, escondendo a brasa do cigarro na concha da mão morena.
– Pegue lá uma bucha prà viage. E agora tenha cautela, há?
Palpou o embrulho morno do farnel que o marujo lhe meteu na mão, e encaminhou-se atrás dele para o castelo da popa em trevas. Tinham retirado a prancha, mas nem que ela lá estivesse: mesmo àquela hora adiantada era perigoso desembarcar a descoberto. O que ele tinha a fazer era transpor a amurada e descer por um cabo da amarração, como uma ratazana.
Chegara o momento difícil. Mas uma vez no cais, olho atrás olho adiante, cosido com as sombras e as paredes, fazendo-se parte delas, era sumir-se no desconhecido, e estava livre.
– Meta o farnel no saco, homem. E pendure-o do pescoço, como é que você quer descer assim? Não tenha medo, agarre-se bem e ande prà frente.
Trocaram um aperto de mão. O clarão frouxo da cidade, a distância, enegrecia mais, por contraste, as vizinhanças. Ajeitou a trouxa ao pescoço, e sentiu-se pálido. A que altura estariam do cais? O marujo segurou-o, ajudou-o a transpor a amurada fria e molhada, e ele agarrou-se à corda com força. Ouviu em cima um murmúrio:
– Boa sorte! Vá com Deus.
Ficou sozinho, encangonchado no grosso cabo, áspero e encharcado. Alguns metros abaixo dele, invisível, era o cais, a terra firme, a liberdade, o pão amassado com o suor do seu rosto. Saberia alcançá-lo? Coragem! Sim, mas tinha o com licença que não lhe cabia nele uma agulha. Era como se estivesse entre mar e céu, com o Credo na boca por todo amparo. Devagar, com o saco pendurado ao pescoço a embaraçar-lhe os movimentos, e de pernas ensarilhadas, deixou-se escorregar. A palma das mãos ardia-lhe na aspereza do cabo. O peso do corpo puxava-o para o lado inferior, mas ele era magro e lá conseguiu resistir à gravidade
e manter-se equilibrado a cavalo na amarra.
Diante dos olhos só tinha agora o casco negro do navio, que não conseguia desfitar, como se a ele se quisesse prender pelo magnetismo da vista. A água clapotava contra a estacaria, que rangia brandamente. Aquela água era agora o seu terror, e talvez viesse a ser o seu túmulo. Se a olhasse podia-lhe dar uma vertigem, e então...
Pela posição e balanço mais amplo do cabo percebeu que ia a meio caminho. Mas nem podia olhar para trás, nem via um palmo adiante do nariz, além do negrume do casco. Deixou-se escorregar mais um pedaço, com dificuldade, porque o cabo se aproximava da horizontal, e, segurando-se com firmeza, saltou e agitou uma perna, à procura do contacto com a terra. Mas esta devia estar ainda fora do seu alcance. Descansou um migalho. O suor escorria-lhe na cara e no pescoço, encharcava-lhe as costas. Se agora caísse, era verdadeiramente um
homem ao mar: ninguém dava por isso, e que dessem – de bordo ninguém lhe acudia. Nem do cais deserto. No dia seguinte, ou só Deus sabe quando, o cadáver seria pescado, meio roído dos peixes e dos caranguejos, ou inchado e fedorento, a escorrer água e lodo. Se o fosse!, porque também podia ir pelo mar abaixo...
Seria mais um desaparecido, ou um cadáver anónimo, sem parentes, amigos nem conhecidos que o viessem identificar e reclamar. Longe, a família, à qual não escrevera em dois anos, continuaria por mais algum tempo à espera dele, ou de notícias: mas acabaria por esquecê-lo. De bordo ninguém dava por nada, ou calavam-se. Quanto aos destinatários, lá em cascos de rolha, que lhes importava?
Nem sequer o conheciam. O comentário indiferente – «Aquilo, se calhar o homem nem chegou a embarcar!» – seria todo o seu responso e epitáfio. Era como se nunca tivesse existido.
Impelido pelo súbito terror de não existir, escorregou mais, tornou a agitar a perna, em vão. Agora o corpo, na horizontal, e a oscilar com a amarra, não podia arrancar-se à gravidade nem recobrar a verticalidade. Ainda que o pé esbarrasse na beira do molhe, como é que ele ia soltar-se, dar uma reviravolta e um pulo, para cair em pé? Nem pensar em pendurar-se pelos braços: ficaria abaixo do nível do cais, e então é que não havia esperança. Não ousava desenvencilhar-se da espia que o prendia à terra e à vida, para se endireitar e dar um salto. Nem sequer podia virar a cabeça para avaliar a que altura estava. Mais alguns minutos, que tanto lhe durariam as forças, e a queda era fatal.
Teve a clara visão do seu estado – a boca negra da morte à espera dele, em baixo, como um tubarão insaciável – e intimamente amaldiçoou a hora em que lhe dera para se meter nestas andanças: se não era marujo, não sabia trepar uma corda nem sabia nadar! Suspenso entre dois nadas.
Encolheu-se todo e, com um esforço desesperado, conseguiu deslizar mais um pouco: o pé tocou por fim na beira do molhe, e um bafo de lume veio-lhe dele, subiu-lhe os membros, reanimou-o como um calor de ressurreição. O cais, molhado e escorregadiço, estava ao seu alcance! Mas por baixo era ainda o abismo de água. Encavalitado na amarra, crispado e dorido, desembaraçou a custo a outra perna, e agitou-as ambas, à procura de apoio. As solas delgadas patinavam na viscosidade do madeiramento gasto, ou no rebordo de aço. Se tentasse firmar-se nelas, podia escorregar, perder o suporte do cabo, e dar o mergulho definitivo. A suar em bica, trémulo do esforço, ficou com as pernas pendentes e imóveis. Voltar para cima, nem pensar nisso: já não tinha forças para marinhar, e que as tivesse, a bordo não o deixariam entrar nem ficar. Agora era respeitar o contrato, e escapulir-se ou morrer. Como uma mosca teimosa, que se agita para escapar à armadilha, tornou a fazer esforços para se apoiar no cais, e soltou uma praga em voz alta:
– Oh rais ta parta a minha sorte!
Nesse instante sentiu que alguma coisa de duro, mão ou tenaz, o agarrava com violência pelos rins, dando-lhe a sensação dum ferro em brasa, e teve este pensamento de renúncia «Estou catrafi lado!» Mas, é curioso, recobrou simultaneamente a calma e a esperança.
O que quer que fosse puxou por ele com força, e ele deixou-se levar passivamente, até que, com o cordão do saco a estrafegá-lo, conseguiu endireitar o corpo e firmar-se nas pernas bambas. Aquela mão de ferro, invisível, arrepanhava-lhe as roupas e as carnes, macerando-o e magoando-o. Depois, com um safanão supremo, quase o ergueu do chão e fê-lo dar uma reviravolta.
Levantou os olhos e viu diante de si um grande vulto negro, um capote de oleado reluzente de chuva, uma farda com botões de metal e uma chapa cor de prata. O agente da polícia inclinou para ele o rosto vermelho e robusto:
– Stowaway, eh? – e sacudiu-o com energia, como se o quisesse despertar do torpor. – Passageiro clandestino? – repetiu, e riu-se. – You speak English?
Que pode um homem dizer em tais circunstâncias? Tinham-lhe recomendado:
«Haja o que houver, não abra bico. Faça-se de trouxa.» Mas com aquela mão brutal não se brincava, e ele respondeu:
– Eu não espique inglish, eu não espique!
O agente largou uma risada de gozo e tornou a sacudi-lo:
– No eespeek! No eespeek!
Tinha um hálito quente, de tabaco e whisky. Na fria humidade de Dezembro, um homem precisa de alguma coisa que lhe aqueça as entranhas, para andar assim de ronda pelos cais desertos, entregue aos seus pensamentos. Depois, na noite de festa, de porta em porta ao longo das tabernas e saloons da borda-d’água – Merry Christmas, Mack! – há sempre quem tenha uma franqueza com a Autoridade, e a gente não é de pau, nem pode fazer uma desfeita, recusar... A verdade é que um trago ou dois dispõem muitas vezes um homem a ser mais tolerante com as fraquezas humanas.
Ficaram assim um pedaço, frente a frente, ele à espera, a contar os minutos de vida, e o agente talvez a dar balanço à situação, a macerar-lhe devagar o ombro magro na tenaz de ferro da manápula, e repetindo a meia-voz:
– No eespeek, no eespeek...
Pequeno como um murganho, a tremer de medo e frio na fatiota leve, à espera da sentença – quem sabe até se o guarda, enraivecido, não lhe ia dar um empurrão, atirá-lo à água? – o passageiro clandestino olhava fixamente os botões da farda, o cassetete comprido e polido.
O agente disse ainda qualquer coisa que ele não entendeu, e apertou-lhe os ombros com mais força, a tactear-lhe os ossos, talvez a ensaiar esmagar-lhos pelo simples prazer de exercer forças naquela fragilidade.
Depois, de repente, obrigou-o a dar meia volta, de cara à terra, apoiou-lhe a mão enorme e espalmada nas costas, e empurrou-o:
– Now run!
Não precisou de entender, e correu: correu sem saber aonde ia, nem se o guarda lhe ia dar um tiro pelas costas como a um ladrão das docas que desobedece à ordem de Alto!, ou se realmente o mandava embora, livre, sem o prender nem o forçar a regressar a bordo. Correu às cegas, a mastigar palavras sem tom nem som, a esbarrar em paredes, a trepar em caixotes, em fardos, em cordames, em máquinas, confuso e perdido, incapaz de encontrar a saída daquele labirinto.
Foi quando a voz do polícia lhe atirou à distância, pela rectaguarda:
– Hey! Merry Christmas!...
O clandestino estacou, compreendendo vagamente, e só nesse instante se lembrou que era Noite de Natal. Então com a garganta apertada, a rir e a chorar, transpôs umas calhas ferroviárias, pulou uma vedação de rede de arame, e deitou a correr em campo aberto, nas trevas.
De longe, o clarão agora mais vivo da cidade guiava-lhe os passos, como o reflexo de misteriosa estrela oculta, ou de lareira acesa, chamando-o à consoada.

Gente de Terceira Classe, 1962