22/01/2009

Maria Altinha

Todos os anos, mulheres que vivem lá para o sul, ao pé do mar, atravessam as serras e espalham-se pela planície, para a monda e para o trabalho dos arrozais.
Trazem cantigas alegres e falas rumorosas, e o povo das vilas junta-se nos largos para as ver passar a caminho das herdades. E, nos primeiros dias da faina, à hora a que o manajeiro tem as palavras mais desejadas para os que andam curvados entre as espigas ou enterrados no lodo das várzeas, quando o sol desaparece e cigarras e ralos arrastam um traquinar que se perde pelos longes, as mulheres de ao pé do mar cantam coisas novas e coloridas.
Em volta do lume, malteses e ganhões calam as vozes pesadas e ficam-se a ouvi-las, com os olhos parados na noite, pensando nas terras da beira-mar, lá donde elas vieram. Que as cantigas das moças do sul têm o brilho das águas e a vivacidade das ondas. E as suas gargalhadas são naturais como um pincho de água trespassado de sol, saltando numa rocha. Elas trazem a frescura do mar para a charneca desolada.
Por isso o povo das vilas se junta nos largos para as ver passar, e malteses e ganhões ficam calados a ouvi-las, depois da faina, quando a noite se derrama de estrelas, pela terra.
Maria Altinha pela primeira vez saiu da aldeia e a longa viagem foi uma coisa nova para ela.
Ficaram para trás as serras e amendoeiras e caminhos murados e hortas de terra solta com árvores carregadas de frutos. E os laranjais e as casinhas brancas e as noras chiando pelas encostas. E o sussurro azul embalador do mar e o cheiro do mar que o vento trazia até à janela do seu quarto. E a mãe fazendo cestinhos de palma à porta da casa, e os irmãozinhos vendendo-os pelas vilas – tudo, tudo ficou para trás, lá para longe... Agora, era aquele descampado raso e poeirento, com grandes montados de onde em onde, e sempre raso, bravio e deserto.
Mas que importava? Depois voltaria para a aldeia com o dinheiro ganho no seu novo trabalho, e nem a mãe nem os irmãos passariam fome quando viessem os frios do Inverno.
... Logo que chegasse a casa, a mãe abraçá-la-ia chorando, e ela, com um sorriso rasgado, havia de mostrar o seu saquito de chita cheiinho de dinheiro. E pela calada da noite, com a chuva batendo na telha e o vento correndo lá por fora, em volta da lareira ouvi-la-iam contar as coisas daquelas terras; os irmãos fazendo perguntas e olhando-a de olhos brilhantes, admirados das respostas.
Depois, o mais novinho, vencido pelo sono, tombaria a cabecita para o seu colo e o outro logo a seguir também. Só o mais velho teimaria em ouvir até chegar aquele peso maior que as suas forças a puxar-lhe as pestanas e a fechar-lhe os olhos. Ela e a mãe iriam deitá-los e deitar-se. E a chuva e o vento não fariam medo porque, com um ou outro trabalho que aparecesse, as economias levadas da planície chegariam para todo o Inverno, sem que a fome entrasse em casa.
Por isso a sua voz clara transbordava de alegria quando cantava e os malteses quedavam-se a ouvi-la até o sono vir.
Valdanim, mal engolia o naco duro, arrastava-se para o pé da casa pegada ao celeiro onde dormiam as mulheres. Pràli fi cava, de. cigarro apagado, a olhar Maria Altinha e a sorrir-lhe; uns dentes enormes debaixo do bigode, os braços pousados sobre os joelhos.
Vinham as cantigas, os risos – as mulheres do sul venciam os homens da planície naqueles primeiros dias.
Mas, agora, tudo mudava a pouco e pouco. Já a malta arrastava um coro pesado pelas quebradas e a voz das mulheres esmorecia. Começavam a sentir na carne a faina dolorosa; desde a manhã à noite, debaixo de um sol abrasador. O ar escaldante da planície secara a frescura do mar. Só as cantigas dolentes soavam pela calada da noite.
E Valdanim tomava fôlego deitando a cabeça para trás, os olhos fitos em Maria Altinha como se .cantasse só para ela, embora a sua voz se perdesse na toada igual das outras vozes da malta. Embora; Valdanim cantava para ela e, já quando a via, não era só aquele sorriso parado, – uns dentes enormes debaixo do bigode – era também uma frase atrevida:
– Maria Altinha, uma noite destas hei-de falar-te a preceito...
Mas a moça não respondia e Valdanim enrolava-se na manta, pensando que um caso daqueles não queria conversa, mas sim uns braços bem fortes em volta da cintura de Maria Altinha... Um torpor tomava o corpo do homem, parecia afundar-se. Puxava a manta para a cabeça, os olhos voltados para o céu fechavam-se lentamente. Num momento era só Maria Altinha em todos os sentidos. E adormecia. Um sono toda a noite, sem pesadelos nem sonhos. Lá pela madrugada, aquele despertar doloroso, o corpo torcendo-se todo numa ânsia
revoltada. Mal acordado ainda, toca a andar com a malta a caminho da várzea.
Era a água fria do charco, subindo pelas pernas, que os acordava a todos de vez.
Pareciam condenados.
O céu baixo limitava, em volta, o horizonte escurecido. Outeiros e cabeços nus, onde em onde um sobreiro engelhado com os ramos torcidos, solitário. No meio da várzea, pernas enterradas até às coxas, cintura dobrada, em fila, as mulheres metiam os braços na água remexendo no fundo. Aqui e além um homem.
Dês que o sol vinha – desfazendo os véus húmidos da madrugada e depois queimando como lume – até que se ia embora, as mulheres, de saias repuxadas entre as pernas, mangas arregaçadas, chapinhavam no pântano mondando o arroz.
Mosquitos zumbindo riscavam a água barrenta, um fedor acre entupia as narinas e parecia entrar por todos os poros da pele. Com o meter das mãos para o fundo, pequeninas ondulações partiam, concêntricas, ao redor dos braços, e bolhas de ar vinham gorgolejando e rebentavam à superfície, avivando o fedor, mesmo por baixo do nariz. Porque o rosto das mulheres quase roçava no lodo quando davam um passo em frente, farrapos de madeixas caídas sobre a testa oscilavam pingando. E as mulheres acamavam os cabelos e coçavam as babas dos mosquitos com os dedos engelhados.
O capataz, na vala, olhava duro, mandando. Aqui e além, um homem. O sol de brasa pegado nas costas, o horizonte escurecido.
Pareciam condenados.
Por um anoitecer pesado de tristeza, campos fora só se ouvia o ralhar das cigarras e grilos. Maria Altinha sentiu as primeiras febres. Esteve dez dias sem ir à várzea. Dez dias sozinha, tremendo de frio e suores em cima da saca, tapada com a manta, a um canto da casa da arrumação. Vinha o carreiro da vila com a caixinha redonda cheia de hóstias e Maria Altinha sem ir à monda...
Um dia fez como os outros: meteu-se no arrozal amarelinha de sezões. Quando começavam a bater-lhe os dentes saía da água e deitava-se na terra, a tremer dos pés à cabeça. Era um quartel perdido; o capataz lá estava traçando o risco no papel.
Ao chegar sábado, aquela semana tivera só três dias para ela.
Valdanim, uma tarde, saiu da várzea muito antes do sol-posto. «Que não podia, que tinha uma dor.» O capataz consentiu à má cara, riscando o papel.
Valdanim, coxeando, tomou o caminho do «monte». Mas passada a encosta deixou de coxear e acelerou o passo.
Nuvens escuras de trovoada toldavam o céu. Um bafo morno tocava na pele da malta da monda, arrepiando-a de suores frios.
Valdanim corria para o «monte».
Para trás, cada vez mais para trás, ficavam homens e mulheres enterrados no arrozal, dobrados, com as mãos remexendo no fundo.
Pareciam condenados.
Deitada sobre a saca, Maria Altinha dir-se-ia adormecida.
Nesse dia nem se levantara para ir ao trabalho. Viera aquele tremor brusco e, sozinha no «monte», lutara tentando cerrar os dentes, crispando os dedos no fato. Um frio de morte tomava-lhe os membros e os dentes batiam acompanhados pelo gemido estrangulado que lhe vinha do peito. Em vão, numa luta dolorosa, o corpo retesado forçava por dominar os movimentos desordenados e contínuos. E sozinha: longe era a casa e longe era a mãe!... Depois o frio desapareceu lentamente e com ele o tremor. Ficou extenuada, o corpo quebrado, a cabeça latejante como se ardessem dentro labaredas de uma fornalha. E aquele calor foi descendo para o corpo. Ardia; o suor repassava, envolvia-a toda numa calda pegajosa. Pesadelos, um ruído colossal ia e vinha, ora intenso, insuportável, ora brando e caricioso, adormecedor. Falava gesticulando, chorava, ria. Os olhos escancarados tentavam ver, mas, no escuro, só passavam coisas disformes e rápidas, alucinantes. Lá vinha o ruído crescendo, crescendo até estalar como um trovão dentro do cérebro. E passava esvaído num sussurro longínquo. Também o calor se fora e os pesadelos terminavam. Ficaram aquelas
camarinhas de suor e o corpo sem forças para nada. Agora, Maria Altinha dir-se-ia adormecida.
E mal ouviu uns passos cautelosos que se aproximavam e uma voz que lhe soprava perto dos ouvidos. Mãos acariciavam-lhe os cabelos, o rosto e os seios.
Mãos enormes. Tudo vago, embalador como um sonho. Depois aquela dor aguda no ventre; uma punhalada rasgando-a!
Maria Altinha gritou, mas uns lábios grossos amachucaram-lhe a boca numa ânsia brutal.
Agora, o povo das vilas nem conhece as mulheres que voltam das searas e dos arrozais quando as vê passar, no largo, de jornada para o sul. Vão sequinhas e amarelas como se fossem velhas – sem uma fala, sem um sorriso – o rosto parado debaixo do lenço.
E aquela moça que tanto cantava e ria, pràli vai, murcha, calada como uma sombra. Só lá por dentro os pensamentos se enrodilham numa amargura sem fim...
«Virá o Inverno com chuvas e ventos e virá a fome para aquela casinha humilde da aldeia... E o irmãozito mais novo há-de tossir toda a noite e a mãe há-de chorar pelos cantos e nada, nada ela poderá fazer!...»
As outras mulheres parecem pensar o mesmo; tão caladas e sumidas nos lenços que mal se lhes vê a cara.
Por isso o povo das vilas sai dos largos desiludido e costuma dizer daquela gente que vem do sul, lá de ao pé do mar:
– É todos os anos o mesmo. Vêm cantando e voltam chorando...


Manuel da Fonseca, Aldeia Nova, 1942