28/01/2009

Histórias da Meia-Noite

– ... Serra negra, que onde não é pedra é urze e tojo... Tem pouca roupa como os pobres... E no Verão vêm os sóis queimar-lhe as costas, no Inverno, as pedras, que são os ossos, estalam do gelo e o vento canta a moliana a quem não se ativer a uma gabela de lanhiço. Hoje está branca dum camadão de geada, que dá gosto a gente chegar-se aqui à fogueira que ferve o caldo. Os lobos lá andam, a esta hora, batedores de ladeiras, até se desenganarem e descerem aos povoados onde agucem o dente... Está a fazer seis anos, dormi eu na toca dum castanheiro...
– O menino quer freiras? – interrompia a criada velha, farta daquelas bazófias.
Pedro, o filho dos patrões, com os seus catorze anos, tinha já uns modos de homenzinho e dava pouca confiança a velhas tontas. Para não interromper a treta do João Meco, só abanou com a cabeça, que sim. E a velhota, com um punhado de milho na mão, limpou da cinza o granito quente e atirou para a pedra requeimada os grãos que iam abrir em flor branca.
João Meco não perdeu o fio ao discurso e voltou à história:
– O patrão disse-me assim: amanhã vais ao pinhal da Sancha e marcas o desbaste. Ainda a madrugada não apontava nas tralhiscas, saltei da cama, peguei da roçadoira e ala, fajardo!
– Lá estás tu a rasgar baeta!... – disse o moço dos bois, a entrar na cozinha.
– Não estou, não. Há quem seja mais gabarola do que eu...
– Essa não é pra mim. E olha que trago que contar: vi agora um fantasma. O rapaz da Ilda não podia ser, que o namoro acabou...
A rapariga olhou-o com desprezo e baixou-se para apanhar dois grãos de milho que tinham estoirado. Mas a velha comentou:
– Não venhas já com invenções de tolo...
– Eu?... (E acrescentou com ironia:) Não há fantasmas e almas do outro mundo? Então a mão cortada do Januário?
– Pois sim... Mete-te com a tua vida.
– Nega que contou?
– Nego-te a ti, diabo negro.
João Meco, interrompido em sua prosa, cortou a discussão:
– Vocês não me dão licença que fale?
– Espera aí que não abafas.
E voltando-se para a velha, o moço dos bois, com o mesmo sorriso de troça, intimou:
– E a alma do Elias Gordo?
– Nem magro...
– Eu lhes conto... O Januário era um criado cá de casa, antes de vocês. Ora uma certa noite houve mister de ir ao moinho e ali a ti Leonor desafiou uma mocita que também cá estava, para irem as duas com ele ao passeio. Estava uma noite negra, que não se via um palmo à frente do nariz. Iam passadas. Mas não queriam dar parte de fracas. E o Januário começa a moê-las com histórias da meia-noite... A candeia não dava luz, e elas abraçadas uma à outra, de cambulhada, e a rirem pra fingir... A lanterna, negra do fumo, alumiava cegos e só mexia sombras... E ele a dizer que se tinha trazido a luz não era para ver o caminho, que o passava de olhos fechados, mas para os lobisomens verem que era ele e fugirem a tempo. Neste comenos iam a chegar ao moinho e começam a ouvir um grande gemido, que elas as duas ficaram com o sangue coalhado. O Januário sabia o que era, mas fez-se lãzudo. – «Há-de ser o eixo da mó... Torceu com o peso da água... Ou não será?...»
Nem bulia ponta de aragem e quando ele abre a porta do moinho vem de lá de dentro um sopro e apaga o raio da lanterna...
– Foi mesmo verdade.
– Ah! santinha! Quem diz que não? Eu estou a rir porque me rio só do que não deve ser... Diz vossemecê.
– E digo.
– Então deixe rir... Pois apaga-se a lanterna e ali a ti Leonor dá um grito e vai para se abraçar à Gracinda. A gente não pode pensar que era o Januário que se queria abraçar a alguma delas. O caso é que a tal Gracinda tinha desaparecido e não podia ter caído ao rio, que havia ali um muro. O Januário viu o caso mal parado e entrou no moinho para encher a taleiga. Nisto, a nossa ti Leonor sente uma coisa a mexer-lhe nas pernas e desalvora aos gritos. Valeu o Januário segurá-la, que ele segurava bem as raparigas, e explicar que era o cão, o Piloto...
que nem ali estava...
– Pois não estava, não. Ri-te, que também há-de haver quem se ria de ti.
– Pois há-de... Mas deixe contar, ah, santinha!... E ele lá traz a ti Leonor pró moinho, mais morta que viva. Mas mal ela entra, sente um puxão na saia. E o Januário a explicar que tinha sido entalada na mó...
– E também não foi verdade que ele saiu de lá com a mão cortada cerce, que toda a gente disse que só podia ter sido com um machado? E ao outro dia alguém viu na mó sinal de sangue? Cala-te lá! Deixa estar a verdade quieta onde ela está.
Valha-te o poder de Nosso Senhor Jesus Cristo...
– Aí está que foram fantasmas ou almas do outro mundo. É esta a sua verdade?... Pois onde as houver, dessas almas, vou eu lá e trago um saco delas. Ah, tiazinha! Temer é dos vivos, cantés dos mortos!...
João Meco interrompeu, com seu ar de filósofo:
– Eu não acredito em fantasmas... Mas há.
– Não acreditas, mas há? Como isso?
– Há coisas que a gente pode não acreditar, e havê-las...
– Está boa, essa!
– Horas do Diabo, isso há... Então em certas noites, por essas serras, é preciso um homem ser afoito.
– Quando se leva medo é que elas acontecem.
– É certo. Quem anda de noite topa lobo... A quem o dizes. O fantasma da Catraia do Maneta, já eu vi e não fugi. Lá torcer caminho por fantasmas, nunca fui desses. Nem mais nem menos, oiçam bem esta: – Andava eu de boas conversas com uma rapariga de Eirigo, quando, certa noite, o céu caiu desfeito em água, com um estrebuchar de vento que um homem bálhava o vira-virou. Mas estava com a tineta de ir e ia mesmo. Pancada feita vai abaixo. Daqui, são duas horas de serra acima, por caminhos onde Cristo nunca passou. Mas fui. Era uma rosa duma cachopa, que até nem tinha perdão se não fosse.
«Ora eu, quando saio aos gambozinos, pego no marmeleiro, que a árvore bem plantada quer a estaca à ilharga. No bolso a sevilhana, e ala, que quem vier encontra firme. Estava uma noite de breu, mais negra que a dos infernos. De bacamarte não era o perigo, que quem mo quisesse apontar tinha de mo chegar ao nariz a cheirar. Quando, ao descer pró rio, pelo meio do pinhal, sinto de repente, por cima da cabeça, o desabar duma carrada de mato. Até me agachei pró chão, Eh! valente!... E ao mesmo tempo olho para cima e vejo uma coisa branca a
passar-me ao chapéu. Nem pensei no que fazia, já o varapau ia no ar, e sinto uma pancada nas mãos, que o porrete voou-me das unhas. Logo outra na cabeça, que fico espojado no chão, lá o que era torna a desabar pela rama dos pinheiros abaixo.
Aí vem ele. Só podia ser o fantasma do Maneta. O mesmo alvejar do que fosse, até me fez vento à cara. E percebo que era outro corujão que nem um carneiro.
Sabem o que fiz? Deixei-me ficar sentado, a rir de mim, que ainda é o melhor que a gente pode fazer em certas ocasiões.
«Está de ver que o pau saltou-me das mãos porque arreei com ele num pinheiro, onde logo marrei com a testa, que foi o murro que me tombou. Agora juntem-lhe uma voz a chamar e a gemer na outra encosta, que era um borrego que o Lambicas tinha perdido no monte, e aí têm como elas se inventam. Se juro que era coruja, juro e torno a jurar. Não que visse o passarolo bem visto. Mas era.
E dizem que as corujas dão azar! A mim, aquela, deu-me sorte... Ou que fosse fantasma... Tanto monta.
– Bazófi a é que tu és, João Meco!
– Pois sou... Mas não te conto outra, porque então não tinhas nome pra me chamar.
Na mão de cortiça, a velha oferecia as flores de neve, os grãos de milho abertos na pedra quente.
Pedro começou a trincá-los sem desviar a atenção fita nas palavras do narrador.
– E histórias de franceses?... Sabes alguma?
– Essas são como as das almas penadas. Conta-se sempre mais uma... O menino há-de ir comigo mas é ao rio, ao Poço de Alça-Perna, para me ajudar a apanhar a caldeirinha de oiro, da moira encantada que está lá no fundo.
Pedro, mudo de espanto, abanava com a cabeça, que sim. Mas a velha cortou o sonho:
– Não faça caso, menino.
Nem a ouvia. E João Meco, em sua alta fantasia, voava já fora de tiro
– Há-de estar numa caverna... O rio, ali, faz um poço que não tem fundo.
Há quem o tenha sondado com cinco cordas de carro, sem lhe chegar ao fim. Já lá desci duas vezes amarrado com uma pedra ao cinto. Comecei a descer com os olhos abertos, e primeiro só via as raízes das árvores, como cobras negras, e uns peixes pretos que andavam à volta de mim. Depois, a água, mais pra baixo, começou a ser verde e luminosa, com muitas luzes de cor de azul, amarelo, cor de laranja, cor de violeta. E então começaram a sair dos buracos uns peixes grandes, uns brancos, outros encarnados, com uns olhos que deitavam lume ou seriam de diamantes. As paredes do rio, aí já eram de pedra negra, com rosas de prata, e a
mim parecia-me que, em vez de ir a descer, ia a subir uma montanha de rochedo, com o sol a nascer lá atrás, pois via-se uma grande claridade. E fui dar a uma gruta que tinha na entrada uns degraus que só podiam ser de oiro, e a gruta por dentro era toda de vidro e tinha estrelas a brilharem. Ia eu a entrar e estavam uns lindos cabelos a ondear na água, e uma mão a penteá-los com um pente de oiro fino.
Mas veio uma grande cobra que se me envolveu ao de roda do pescoço, e então dei um puxão na corda, para içarem para cima. Quando me tiraram da água, já não dava acordo, e tiveram-me morto, estendido na erva...
– Está visto que tu nem com uma pedra ao pescoço...
– Mas enquanto andava lá por baixo, andava bem, como se respirasse o ar... E ainda lá voltei duma outra vez. Então levei uma faca. Mas não vi nada. O menino pode acreditar que nessa hora é que eu tive medo. (E baixou a voz, como quem confessa um segredo:) Era um escuro como se a água se tivesse tornado em tinta, e um frio, que sentia os ossos a estalarem.... Há-de ser este Verão, quando as águas estiverem mais finas, que hei-de lá voltar...
– E eu é que te hei-de amarrar a pedra ao pescoço... – prometeu o moço dos bois.
– Ao cinto – emendou Pedro com ingenuidade.
– Ó menino, para ele é melhor ao pescoço. E uma mó do moinho.
– Vocês acreditam em almas do outro mundo e não acreditam em moiros, que foi um povo que já houve antigamente? Aí está como é o vosso juízo.
– Tanto sei que há moiras e moiros, que sei que tu és um, e não te deitam a cabeça num cepo prà cortarem e porem-te lá outra melhor...
– Mas tenho palavreado pra te vender numa feira...
– Lá isso és capaz: de enganar alguém... – resmunga a velha.
– A si já não, ti Leonor.
– Brinca com as da tua idade.
– Brincar? Não que elas querem-me logo a sério. Quanto lhe devo do conselho?
– Tenho mais pra te dar. Pagas no fim. E toca a andar, que são horas. Quero deixar a fogueira apagada. Estás a desafiar uma criança pra ir pró rio com cordas, à procura das caldeirinhas de oiro, e não queres que te chamem ao menos maluco?
– Eu quero... Se fosse igual aos outros, sem pensar em fantasias, é que era um triste desgraçado. Hei-de desencantar a moira e entrar por aquela porta com ela na minha frente, pra vocês verem o que é uma rainha com o manto de seda e a coroa de lumes... E eu com a caldeirinha de oiro cheia duma água de onde você bebe um golo e fica logo uma rapariga de dezoito anos, capaz de um fantasma me cortar a mão como ao Januário... E o menino, se descobrir alguma moira encantada, conte-me tudo, que eu acredito. Não acredito é em quem só vê as coisas que toda a gente pode ver... e não arrisca nem um dedo à chuva... Boa noite!
Veio uma rabanada de vento, quando se abriu a porta da rua. E João Meco saiupara o escuro, a assobiar, feliz e aventuroso, como se, desaparecendo nas trevas da noite estrelada, entrasse, com seu passo natural, no encantado mundo das grandes maravilhas.


Branquinho da Fonseca, Bandeira Preta, 1956