28/01/2009

Desportos de Inverno

Os largos vidros embaciados era como se transpirassem de frio. Exactamente: transpiravam de frio. Mas, lá dentro, as pequenas mesas, apesar de muito juntas para aproveitar o espaço exíguo, não ajudavam a intimidade dos clientes entre si. Somente os que se ajeitavam, num esforço, em cada uma delas, esses, tinham de falar em voz baixa para não serem ouvidos pelo vizinho. Conspiração de pastelaria, mais inofensiva decerto que a de café.
Mas ninguém conspirava de coisa nenhuma. Só que o português médio é discreto, não gosta de dar nas vistas nem que os outros saibam da sua vida.
Não havia sequer jovens casais entendidos, que já dispensam hoje a conversa de chá e bolos, o que se compreende. Média etária, como se usa dizer agora dos frequentadores da Smarta naquela tarde? Aí dos quarenta anos para cima, isto é, gente de idade, os mais velhos talvez ainda presos a hábitos, herdados ou adquiridos, dum certo tipo de conversa gratuita e nisso é que ela é diferente, ali, da de outros cafés ou pastelarias, seja a conversa idealista ou tumultuosa, quezilenta ou ressentida, frustrada ou desiludida.
Há uma dignidade sui generis na Smarta, com sua ambiguidade de freguesia ou função. Um certo burguesismo inofensivo na plataforma do «five o clock tea», senhoras serôdias, cansadas das compras nos saldos do bairro ou que, vindas da Baixa, esperam ali o fi m da hora de ponta para conseguirem um lugar no autocarro e lograrem uma espécie de comunicação humana nem que seja só nos olhos curiosos, muito atentos aos outros, e que lhes falta na exiguidade dos dois quartos assoalhados onde vão enclausurando seus dias sem cor. Lá em baixo, ao balcão, é diferente, e rapazes ou raparigas muito novos ainda, ou jovens empregados na área, que emborcam a qualquer hora, num bom intervalo fugidio, o seu «galão» nutritivo, que depois do trabalho virão ao encontro com o amigo exigente ou à matinée das seis e meia e acabam as mais das vezes por jantar apenas outro «galão», ou, em casa, a sopa de pacote. Na cave do restaurante, a maioria é composta de turistas médios, estrangeiros que até no Inverno nos cobiçam o sol, pessoas dotadas do bem inestimável de acharem graça a tudo, saborearem tudo.
A cave da Smarta, essa tem mais carácter, podia ter sido uma espécie de mini-Lipp lisboeta, com suas ceias nocturnas, depois do teatro ou do cinema, quando, à volta de 1960, ali se juntavam, noite fora, escritores ou artistas, uma certa boémia resignada a um certo conforto. Mas a ambição, modesta embora, acabou por ser vencida pelas exigências dos horários de trabalho do pessoal.
Muito apertadas, pois, as mesas, naquela espécie de palco sem cenário nem vedetas, figurantes apenas, e, junto da que eu escolhera, duas senhoras, acima dos meus cálculos, falavam pouco uma com a outra e iam olhando os circunstantes, para lá da pintura dos olhos, já cansada àquela hora. Noutra mesa, três sujeitos incaracterísticos: dois liam desinteressadamente os vespertinos, enquanto o terceiro olhava o frio através dos vidros e, silencioso, pedia de vez em quando um dos jornais para ver, distraído, os principais títulos. E logo o pousava de novo sobre a mesa ou o restituía ao vizinho, esvaziando o resto da garrafa de cerveja, esquecida. As duas senhoras da mesa contígua não se contentavam em conversar muito; ambas faziam grandes gestos ilustrativos, exibindo feias unhas demasiado vermelhas a rematarem fatigados dedos pré-gotosos. Um visco de fim de dia sem imaginação.
O meu amigo chegara, procurara mesa, divisara-me de longe, numa alegria: «Posso sentar-me aqui, contigo?» Podia, pois. Conhecemo-nos desde miúdos, andamos juntos, adolescência fora, mas a verdade é que não o encontro muitas vezes nos caminhos duma Lisboa tão dispersa e, por mim, também não faço muito por isso. As amizades que foram um erro do tempo são às vezes as mais perduráveis: não há hipótese de decepção ou atrito, por mais diferentes que sejam os gostos ou os caminhos da idade adulta. Sei vagamente que faz negócios, tem mulher e filhos, vive bem. São outros os seus interesses, nunca indaguei muito
deles, mas quando nos encontramos ou me vê ao longe na rua e corre para mim, para não me deixar fugir, é sempre, da parte dele, a mesma satisfação de íntimo feliz, o mesmo tuteamento a que correspondo desajeitado, as mesmas evocações dum passado que gosta de saber comum: «Lembras-te, pá, quando fomos uma noite beber para aquela tasca das Portas de Santo Antão? Apanhámos um pifo!»
(O meu amigo não tem só uma memória incómoda, esforça por manter-se jovem e aprendeu a terminologia dos filhos). Sentou-se, mandou vir uma cerveja, passou revista à sala, inquiridor, como se isso lhe fosse um ritual. E, realmente, era-o, pois logo me disse, sem mais nem menos, com experiência de conhecedor desiludido:
«Isto hoje está fraco. Mas naquela mesa lá em baixo, já viste...»
Não percebi. «Naquela mesa lá em baixo», desconcertava-me. Mas entendi pouco depois, era a assistência que estava «fraca», muitos homens, a maioria das senhoras acima da tal média dos quarenta anos. «Fraco.» Mas já ele insistia: «Repara bem, naquela mesa lá em baixo, à esquerda.» Reparei, fiz-lhe a vontade. Era efectivamente a única senhora ali, naquela tarde, que valia a pena olhar... Jovem ainda, esbelta, duma elegância simples, nem se tornaria notada, apesar da sua juventude, a quem fosse ali, ao contrário dele, apenas para fugir ao frio ou entreter o estômago até ao jantar. No entanto, eu conhecia-a de a ver na pastelaria, notara mesmo logo à primeira vez que os óculos escuros e a natural descrição lhe davam certo ar de
mistério e sobretudo reparara no carinho com que se entendiam, ela e o miúdo de nove ou dez anos, não mais, que a acompanhava sempre no rápido chá e bolos que iam ali tomar. O meu amigo pensou o mesmo porque nem me deixou dizer nada, tocou-me no braço, confidente: «Já me notou, não tira os olhos de mim, logo que me sentei dei por ela, é natural. Deve ser mãe e filho, ou então irmã mais velha, mas é bem que se farta!» (Eis um sintoma da idade que lhe escapou, pensei eu.
Estava à espera de que ele a achasse gira, muito gira. Foi mais ou menos na nossa juventude – ia reflectindo porque ele não me deixava falar – que se começou a dizer que uma mulher estava ou era «muito bem». E era agora a nossa juventude que, despaisados verbais, vinha agora ali, de repente, à superfície da conversa.
Felizmente ele não percebeu, tinha mais em que pensar.)
A partir de então foi a antiga manobra, nem sequer discreta, uma espécie de desporto fora de moda, e eu, entre envergonhado e aborrecido assistindo à cena. Abrira o jornal à frente dos olhos para disfarçar ou para, baixando-o de vez em quando, chamar a atenção da jovem para o manejo quase ingénuo, decerto ingénuo. No entanto, com alguma curiosidade, eu esperava o desfecho do episódio.
Dez, vinte minutos, correram na tarde mole, de anonimato e pastelaria. Os olhos do meu amigo iam inchando, gulosos, conseguira tudo o que pretendia: reduzir-me à condição obscura de espectador do seu êxito, da sua juventude, de como, afinal, o tempo nada tinha mudado, pelo contrário tudo lhe continuava fácil.
Insistia: «Não olhes para lá, não vá ela julgar que eu te chamei a atenção, mas quando puderes repara que não tira os olhos de mim...» Hesitou, foi diplomata:
«Ou pelo menos da mesa... Mas do lugar onde está não te vê, não é para ti que ela olha. É para mim, já percebi, até já mandou o pequeno ao balcão buscar qualquer coisa para fi car mais à vontade. Não a conheces?» – «Só de vista, daqui, vem cá muitas vezes.»

Luís Forjaz Trigueiros