25/01/2009

Alguns Quartos de Hotel em Itália


Estas são as minhas mãos. Dobro os dedos, num gesto de quem se comove. Memórias, ou as pétalas de rosa que lhes servem de leito, afastam-nas de outras mãos, aquelas que te pertencem. O ruído de passos na carpete do corredor foi mínimo, subtil, e o seu teor em angústia foi inaudito. A maçaneta da minha porta não roda sem esforço. A vista da minha janela honra a nulidade fluvial de Milão, como se a ausência de um rio possuísse ao mesmo tempo virilidade e bonomia mundana. Porquê assim, sem uma explicação, de maneira tão brusca? Porquê sem um grito, teu ou (breve e abafado) meu?
Faz-se tarde para ir esperar Agatão à estação. Ele vem acompanhado por uma amiga com quem simpatizo moderadamente. Conheço dois caminhos para ir da Stazione Centrale até ao Duomo, um descendo a Via Pisani, o outro seguindo pela Via Vitruvio e cortando à direita no Corso Buenos Aires. As ruas encontravam-se bloqueadas pelo exército de Napoleão que fazia a sua entrada na cidade, gravuras representando uma ingénua caricatura de pendor anti-austríaco vendiam-se aos milhares, e todo o povo confraternizava com aqueles soldados com menos de vinte e cinco anos, comandados por um general que não teria mais de vinte e sete. Bailes improvisados passaram a encher as noites milanesas.
Cruzei-me com um homem que mastigava e cuspia tempo. As minhas mãos têm mansas margens. Do hotel Villa Flori, de Como, respondeu-me uma voz de contralto, com ademanes de soprano.
Vorrei una camera singola con bagno. Con o senza bagno? Ho detto com bagno. Quando arriva lei? Domani, se ci sono i treni.
O Agatão queria passar por Cantù no caminho. Gabou-nos a basílica do século X, e a atmosfera. Mas eu preocupava-me apenas em saber se os reflexos nocturnos do luar na superfície do lago propiciavam o esquecimento, para além do seu estatuto de cenário idílico para as escapadelas de Gina, condessa de Pietranera, que assim vive uma segunda juventude.
Perguntei ao rapaz que lavava os carros dos hóspedes se dali se conseguia avistar Cernobbio, ou mesmo o monte Bisbino, mas ele limitou-se a desviar o olhar sem dizer nada, e trouxe-me um guarda--chuva, pois ameaçava chover. Na terra enlameada junto à margem vieram imprimir-se as pegadas de Fabrice Del Dongo, que esperava (sem o saber) um sinal para se juntar ao Imperador, nas planícies desoladas de Waterloo. Um fragmento de pé humano. Trata-se de uma batalha que determina o decurso do século XIX.
Porque não visitamos Nápoles, sugere a amiga de Agatão, à mesa do pequeno-almoço. Eu respondo com um encolher de ombros. Mais tarde, o sol rompe. É durante a nossa excursão de um dia a Lecco que lhes anuncio que um acontecimento capital exige novamente a nossa
presença em Milão. Trata-se da grande ou da pequena história, desta vez, pergunta Agatão. Lecco orgulha-se de um mercado bissemanal, na Piazza XX Settembre, que se realiza sem interrupções desde 49.
É também a cidade onde Manzoni passou a sua infância. O que te atrai em Milão, quis saber Agatão. Passeávamos pelo bairro de Brera, admiravelmente servido pela manhã húmida e muito fria. Recordações de infância e de juventude. A atmosfera. Metade de uma sala do museu Poldi Pezzoli. Os laços mais importantes são os laços humanos.
Um amigo meu, milanês de gema, frequentou o teatro Scala até ser capaz de se orientar nos seus corredores com os olhos vendados, e isto apesar de o espectáculo operático nada lhe dizer. Não esperava senão a ocasião para lançar o rumor de que, num certo camarote, se podiam saber notícias recentes de França e da Revolução. O rumor podia ou não ter sido julgado merecedor de crédito, mas foi precisamente o que sucedeu. Foi ao visitar este camarote que Gina foi apresentada ao conde Mosca, ministro da guerra do príncipe de Parma.
Gina esperava um pedante, mas em vez disso viu-se perante um homem cheio de espírito, e que falava com a maior das desenvolturas do seu cargo e do seu soberano. Com as mãos ocupadas por sacos de plástico da livraria Feltrinelli, entrámos no vestíbulo, a cuja vastidão
o lúgubre fim de tarde acrescentava uma finitude melancólica.
Foi com grande apreensão minha que…
(esta cidade mesquinha, espécie de Gomorra em pantufas)
… decidimos mudar de hotel, por causa do ruído do ar condicionado.
Na recepção perguntei ainda se alguma mensagem chegara para mim, proveniente ou não de alguém com o lábio inferior proeminente, e uma edição económica de Ungaretti espreitando para fora do bolso do casaco.

Può mostrarmi sulla carta…?
Dopo l’incrocio…
Giri a destra / a sinistra…
Sempre diritto…
Quanto costa il biglietto per…
Vorrei una andata e ritorno per…
Prima / seconda classe.
La prima colazione è compresa?
Vado via prossima domenica.
Sono arrivato lunedì scorso.

Foram ver, e disseram que não. Mas no coração / nenhuma cruz falta.
Na estação central de Milão, indicaram-nos a plataforma de onde partia o comboio para Parma. Na estação central de Parma, indicaram-nos o caminho para o balcão de informações turísticas. No balcão de informações turísticas, marcaram-nos quartos no hotel Astoria, de três estrelas. No hotel Astoria, forneceram-nos abundante literatura sobre monumentos e locais de atracção turística.
Nas traseiras do Palazzo della Pilota, construído durante a dinastia dos Farnese, que durou de 1545 a 1973, um cavalheiro bem vestido, calçando sapatos de pele verdadeira, com ar cansado e compleição de halterofilista, interveio mesmo a tempo de impedir que um carteirista abusasse da ingenuidade de um homem de negócios japonês.
Seguiram-se explicações confusas e agradecimentos copiosos.
Enquanto o Agatão tirava fotografias tipo passe num Photomaton, a amiga dele contou--me que estava a escrever um romance, que, se bem que ainda numa fase incipiente, possuía já estrutura e alguns episódios. Tudo se passa na Itália dos anos 50, ou talvez dos anos 60.
A personagem principal é um engenheiro, ainda jovem, que, depois de um estágio numa pequena cidade do Piemonte, é enviado para Siena, ou talvez Perugia, onde chega a um dia de semana, ao fim da tarde. Veste o melhor fato e gravata, como se esperasse encontrar alguém de importante a acolhê-lo. Nunca descera tão a sul da península itálica. Não conhece ninguém. Dirige-se à cantina da fábrica. A sala encontra-se quase deserta, e ele pergunta se já é tarde para comer.
“Spaghetti arranja-se sempre… E talvez se encontre ainda alguma carne guisada.” Ele senta-se, e serve-se de água, embora não sinta sede. Um dos empregados da cantina aproxima-se e mete conversa.
Os dias passam. Ele deixou a mulher em Turim, e escreve-lhe regularmente. A sua escrita é miúda e lenta. “Parma é sinistra, como se a história, em vez de se ficar pelas pontes e pelas fachadas, se amontoasse nas valetas. A minha cama range como um animal em agonia, e a colcha é áspera. Parto amanhã.” Agatão bem tentou dissuadi-la, mas a decisão estava tomada. O aperto de mão que eu e ela trocámos poderia ter sido um pouco menos seco. O quarto deixado livre por ela era contíguo ao meu. À falta de rangidos dilacerantes, foram as
recriminações de Mosca a Fabrice que não me deixaram dormir, na noite seguinte. De regresso da sua amada Grianta, Fabrice tinha-se exposto a um risco inútil, indo ao ponto de roubar um cavalo.
“Estamos rodeados de acontecimentos trágicos.” Gina, em lágrimas, suplicou a Mosca que não fosse mais longe. Faltou apenas a bolsa, com vinte escudos a menos, que Fabrice trazia. Essa bolsa fora-me confiada pelo homem dos sapatos de pele. Nos seus olhos aparecera uma centelha de cumplicidade. Perdi a bolsa num mercado ao ar livre. Dirigi-me ao Ufficio di Oggetti Smarriti, mas estava fechado por falta de pessoal. Queixei-me do ruído na recepção do hotel. O recepcionista encolheu os ombros, muito devagar, em sinal de impotência, e sorriu. Achei aquele sorriso extraordinariamente belo.
Entretanto, em Bologna, Fabrice envolvera-se com a actriz Fausta. Longe de Parma, dos seus inimigos poderosos, mas longe também da tutela daqueles que lhe queriam bem, Fabrice sentia-se mais livre para dar largas à sua impetuosidade, que apenas em parte se poderia imputar à juventude. A breve e intensa paixão pela jovem actriz foi acompanhada por bilhetes provocadores dirigidos ao seu amante, o conde M***, e por uma mais do que imprudente surtida a Parma.
Onde estás tu? Penso em ti noite e dia, mas sobretudo de noite. À mesa do pequeno-almoço (paupérrimo), Agatão mostrou-me o itinerário que escolhera para aquele dia. Agradou-me por fazer coincidir o longo passeio pelo Parco Ducale com a hora de maior luminosidade. Agatão comia com apetite e dava mostras de bom humor. O deplorável episódio da véspera parecia ultrapassado, e regozijei-me por isso. Momentos havia, porém, em que aquela boa disposição soava decididamente a falso. Eu estava atento a cada subtil inflexão de voz, a cada escolha de palavra. Asparagi, carciofi, fagiolini, lenticchie, melanzana, piselli, sedano, spinaci. Minuto, ora,giorno, settimana, mese, anno. Carta di credito, assegno.
E este, inverosímil e distante, continua a ser o meu corpo. Como descrevê-lo? Pensa em tristes arremedos de querer e latitude, dotados de moto próprio, imagina muitos destes largados numa praça pública, e admite que um deles é o meu. A sua temporalidade dá-lhe
um único direito, o de esperar por algo sob um pórtico sombrio.
Sangue, postura e unhas partilham inimigos; a fronte é branca como neve recente; a pele que cobre o esterno parece mais delgada do que é na verdade. A fadiga não conta, quando se visita uma cidade tão rica em património arquitectónico. Visitámos igrejas e palácios, torres e pátios, praças e parques. Estados de espírito confundiam--se com paredes, onde humidades alastravam em círculos magníficos; os meus dedos não chegavam para aquilo que gotejava. Agatão comparou desfavoravelmente a Parma de hoje à Parma de há quatro anos, data da sua última estadia. Assegurou-me que se notavam diferenças, ao nível do cosmopolitismo, do tráfego automóvel, da paisagem urbana, e até na delicadeza do homem da rua. O dono de
uma barraca de apostas mútuas pusera-o ao corrente (a ele, Agatão, estranho e estrangeiro) do desespero de Gina por causa da detenção de Fabrice. Tudo por culpa de um grosseiro erro de cálculo de Mosca. Nenhum súbdito do duque ignorava o afecto que Gina dedicava ao sobrinho. Perante o cepticismo de Agatão, o homem tinha-lhe dito para procurar no cesto do lixo da geladaria, do outro lado do Piazzale Santa Croce. Agatão encontrou um rascunho de
carta amarfanhado: “…Numa palavra, caro conde, acreditai que sereis sempre o meu amigo mais caro, mas jamais outra coisa. Não alimenteis, peço-vos, qualquer ideia de regresso, tudo está deveras acabado. Contai sempre com a minha amizade.” Agatão levara o rascunho para o quarto, e chegara a ficar inquieto com a possibilidade de a cameriera (que não lhe merecia confiança) o descobrir entre os seus papéis. Fiz ver a Agatão…
(a íris e os músculos da maxila são aliados, quando a dignidade é o que está em causa, e seja ou não o cenário a região da Emilia Romagna)
…que alguma coisa de positivo haveria a assinalar na arquitectura dos edifícios mais modernos, como por exemplo aqueles varandins estreitos mas com espaço para uma pessoa que se queira fazer ouvir do outro lado da rua cantando uma ária de ópera.
Ou mesmo comunicar através de um alfabeto especial, concebido por Clélia, a filha do governador da cidadela, escrito nas páginas de um breviário, com tinta improvisada à base de carvão e vinho. Ou por meio de sinais luminosos.
Eu gastava uma pequena fortuna em cartões de telefone. A posta restante de Parma era-me agora familiar. Todos me tratavam com lhaneza e cordialidade. As toalhas limpas que apareciam todos os dias em cima da minha cama cheiravam bem, a sândalo e a alfazema.
E contudo, contudo, não era possível que a população ignorasse aquilo que se preparava. A evasão de Fabrice e o assassinato do duque tinham sido planeados com minúcia e paixão, com a ajuda preciosa de Ferrante Palla, um poeta proscrito que adorava Gina. Passaram-se vários anos, muitos anos. Por fim, chegou o ano de 2003. Agatão declarou estar farto de Parma, e acompanhou este seu desabafo com uma mão-cheia de cascalho que arremessou ao leito do rio. O seu gesto continha mais resignação do que raiva. Fomos convidados para um baile de máscaras. Agatão é um homem cuja aparência sofisticada e mundana não chega a esconder um interior corroído pelo mal do século. Concordei que chegara o momento de partir. O antigo e familiar tema do lugar geográfico que cristaliza uma aversão, moldando a sua paisagem ao sabor de um modesto quinhão de miséria humana, instalava-se com tranquilidade e maneiras de soberano. Quem não confia em mim não formaria um coro, nem
uma centúria rubra de jactância, não passaria de um solista no seu pedestal descolorido pela intempérie; e foi por isso que me bastou entrar numa loja, comprar selos e envelopes, recolher alguma da confiança que tombava em pétalas pelas ruas, e enviar tudo para o endereço que para sempre saberei de cor. Partimos no próprio dia do casamento de Clélia. Por sorte, no hotel aceitaram guardar as nossas pesadas mochilas durante algumas horas. A cerimónia foi sumptuosa, condicente com o prestígio de que gozava o general Conti. Fabrice passara oito dias no silêncio mais absoluto, e mesmo o seu criado e aqueles que lhe estavam mais próximos tinham sido instruídos no sentido de não lhe dirigirem a palavra. Clélia estava dividida entre o afecto imenso e eterno que a unia a Fabrice e noções confusas mas robustas de pecado e dever. A presença de Fabrice na cerimónia encheu Clélia de um júbilo quase impossível de disfarçar.
Esse júbilo pediu dois versos de Petrarca, que Clélia repetiu para si mesma. Com a ajuda do leque aberto, murmurou o seu reconhecimento a Fabrice, e deixou-lhe um voto de amizade eterna. Despedi-me de Agatão na gare. Ele mencionara Nápoles, com medíocre convicção, mas eu convencera-o sem esforço de que Nápoles não era mais do que um algures por excelência, os bastidores das principais linhas narrativas, o mudo contrapeso às eloquentes intrigas palacianas do ducado de Parma. Lágrima no olho esquerdo de Agatão. O meu comboio partiu com um atraso de duas horas. Correntes de ar frias faziam voar folhas de jornal. O cansaço das noites mal dormidas derrotou o meu corpo. A minha saliva adquiriu um gosto ácido.
Um músico de rua falhou uma nota. O tempo disse não. O filho de Clélia e Fabrice morreu prematuramente. Gina cumpriu a sua promessa de nunca mais voltar a Parma. No seu palácio de Vignano, na margem esquerda do Pó, recebia a fina flor da sociedade. O conde estava imensamente rico. O novo duque era amado pelos seus súbditos. To the happy few.


in As Não-Metamorfoses, Lisboa: Errata, 2004