21/12/2008

O Conto das Artes Diabólicas


Era uma vez um padre que tinha um afilhado.
De maneira que pediu ao compadre que lhe deixasse ir o afilhado lá pra casa, que o queria educar muito bem-educado.
O compadre disse-lhe que sim, que levasse o afilhado.
Foi o rapaz pra casa do padrinho, e o padrinho pô-lo à escola, e o rapaz aprendeu a ler na ponta da língua.
Quando o rapaz já ia sendo crescido, começou ele a ver fazer artes ao padrinho, que o padrinho fazia artes diabólicas.
Fazia artes diabólicas o padrinho, e o rapaz tudo era querer aprender, e fartava-se de espreitar o
que fazia o padre!
Até que uma vez encontrou um livro e pôs-se a ler – e viu que dali estudava o padrinho as artes
que fazia.
Começou o rapaz a praticar, e já ia fazendo algumas coisas. O padrinho, como deu notícia que o rapaz ia já fazendo algumas coisas, mandou-o embora para casa do pai.
O pai era pobre, e não tinha sequer que lhe dar de comer; mas vendo-o o filho tão apaixonado e adivinhando logo a razão por que era, diz-lhe o rapaz:
– Pai, não tenha fezes! que amanhã saímos, e verá que arranjamos muito dinheiro!
No outro dia prepararam os dois um burrinho que tinham, e foram-se para o campo.
Depois de chegarem ao campo, diz o filho:
– Pai, eu agora faço-me num cão e vou à caça, e as lebres que vir apanho-as todas!
De maneira que o rapaz fez-se num cão, e começou logo a andar caçando. Todas as lebres que apareciam, todas apanhava!
Carregaram o burro de lebres, e vieram-se embora a vendê-las à terra, e passaram à rua do rei.
Vendo o velho com tanta lebre a carregarem o burro, todos se admiravam!
– Oh! Tanta lebre que leva aquele velho!
Diz-lhe o rei:
– Ó velho! Como apanhaste tu tanta lebre?!
– Isto, senhor, foi o meu cão!
Diz-lhe o rei:
– Hás-de-me vender o teu cão.
– O meu cão não vendo eu, não senhor, que o meu cão é o meu governo!
De maneira que o velho foi-se embora a vender as lebres.
No outro dia voltaram à caça, e o burro tornou a vir outra vez carregado de lebres!
Diz o rapaz:
– Pai, olhe que o rei há-de-lhe dizer para me vender; mas vossemecê peça muito dinheiro, de
modo a nunca vender senão as lebres.
Passa o velho pela porta do rei, e vão dizer logo a Sua Majestade:
– Ali vai o velho outra vez! E outra vez com o burro carregado!
Diz-lhe Sua Majestade:
– Ó velho, não passas sem me vender o teu cão.
– O meu cão não vendo, não senhor, que o meu cão é o meu governo!
– Pede o dinheiro que quiseres, que eu to dou pelo teu cão.
Pediu uma quantia que a ele lhe pareceu, e o velho levou o dinheiro e o rei ficou com o cão.
Um dia determinou o rei sair à caça, e levou com ele todos os companheiros, para verem o cão apanhar as lebres.
Assim que chegaram ao campo, começou logo o cão a andar à busca.
Levantou-se uma não tardou nada, e ele mete-se a correr atrás dela – e dali a pouco já o não avistavam.
Assim que percebeu que já o não avistavam, o cão fez-se num homem, e deixou-se ficar muito
bem parado.
Correram todos a uma altura para avistarem o cão, e como vissem um homem perguntaram-lhe:
– Você viu pra aí algum cão atrás duma lebre?
Diz ele:
– Vi! Lá vai ele a correr, lá baixo! Lá vai ele já muito longe!
Ora até agora eles correm, a ver se descobrem o cão!
De maneira que trataram mas foi de se ir pra o palácio – e o rapaz para casa do pai.
Chegou:
– Então, pai, já temos que comer?!
– Isso sim! O que me deu o rei, ladrões o levaram. Roubaram-mo!
– Deixe! Logo se arranja mais!
Torna o filho a dizer ao pai:
– Pai, vai vossemecê ver como se arranja mais! Agora faço-me num cavalo, e vossemecê vai à feira a vender-me; mas quando me vender, tire-me o freio.
De maneira que o velho marchou para a feira, com um cavalo que era uma lindeza!
Quem havia de ele encontrar?
O compadre!
Viu logo que tinha o afilhado diante dele, feito num cavalo.
Diz:
– Ó compadre! Quer-me você vender o cavalo?
Diz:
– Vendo! Mas vai-lhe custar muito dinheiro!
O padre deu-lhe todo o dinheiro que ele lhe pediu, porque a sua vontade era apanhar o cavalo
pra em seguida dar cabo dele.
O pai recebeu o dinheiro e entregou o cavalo – mas não se lembrou de lhe tirar o freio!
Apanha o padrinho o cavalo e monta-se nele – e agora verás quem há-de fugir – e da corrida ia-o
rebentando!
Até que se apeou à entrada de um povo.
Prendeu o cavalo a uma árvore, e antes de ir onde tinha de ir disse para o animal:
– Quieto ai! Com outra corrida hei-de-te arrebentar! Ali perto havia um poço, onde as mulheres iam à água. Passaram duas que iam para lá, e o cavalinho, assim que as viu, tudo era querer ir também direito ao poço.
Diz uma:
– Aquele cavalinho tem muita sede. Vamos-lhe levar uma caldeira de água, a ver se ele bebe.
Levaram-lha e ele não podia beber.
Dizem as mulheres:
– Tira-se-lhe o freio.
Foram elas, tiraram-lhe o freio.
Mas apanha-se o cavalinho sem freio – e agora verás quem há-de fugir!
Vem o padrinho e faz-se noutro cavalo mais forte, e mete atrás dele.
Quando viu que o padrinho já o agarrava, faz-se numa lebre.
O padrinho fez-se num galgo, e ele aí vai atrás da lebre!
Tanto que viu que o padrinho já a agarrava, faz-se numa pomba e larga a voar. O padrinho faz-se numa águia, e mete logo atrás da pomba.
Tanto que viu que o padrinho o agarrava, fez-se num anel – e caiu!
Onde havia de cair o anel? Na varanda do palácio do rei!
Foi a princesa até à varanda, e achou o anel, que era muito bonito; – e o padrinho, esse nunca soube para onde foi o rapaz, porque não viu onde caiu o anel.
A princesa quando o viu:
– Olá! Um anel tão bonito aqui na varanda?!
Apanhou-o e meteu-o no dedo.
A noite, quando a princesa se foi deitar, não quis tirar o anel e deitou-se com ele.
O anel fez-se-lhe num homem deitado com ela – que mal o vê começa a gritar.
Corre o pai ao quarto da filha, a ver o que era: – mas ele torna outra vez a fazer-se em anel e meteu-se logo no dedo da princesa.
Diz-lhe o pai:
– Tu que tens?!
Diz:
– Ó meu pai! que tenho um homem dentro da cama!
O pai buscou e não viu nada, e disse para a filha muito alterado.
– Isso são loucuras! Vê lá agora se ainda tornas!
E foi-se para o quarto e meteu-se na cama.
Mas estaria o rei a pegar no sono, o anel que torna outra vez a fazer-se num homem, deitado ao
pé da princesa!
Ela, com medo do pai, já não gritou; e quando foi de manhã ao levantar, o homem fez-se outra vez no anel, e a princesa meteu-o no dedo.
...Começou a andar muito soado um anel que tinha a princesa!
O padrinho, que ouve falar tanto no anel, desconfia, e diz:
– Oh! Aquilo é o meu afilhado!...
E foi e disse à princesa se lhe vendia o anel.
Ela disse-lhe que não – que lho não vendia.
Foi-se embora o padre pelo mesmo caminho, e o anel diz à princesa:
– Aquele homem que veio aí pra tu me venderes é o meu padrinho. Ele anda pra ver se dá cabo de mim, e ainda cá há-de voltar pra que me vendas, e tu vende-me – mas quando me passares para a mão dele, deixa-me cair no chão.
Outra vez foi o padre onde à princesa:
– A Senhora Princesa há-de-me vender o seu anel. Vende?
Vendo, não vendo... – sempre lhe disse:
– Vá lá! Vendo!
Trataram o preço, e ele deu o dinheiro.
Mas ela a desenfiar o anel – e a deixá-lo cair no meio do chão!
Cai o anel no meio do chão – e faz-se logo numa romã, toda esbugalhada!
Faz-se o padrinho numa galinha, com muitos pintos, e deitam-se todos a comer nos bagos.
Escapou um bago que os pintos não viram!
Era ele – que se fez numa raposa e comeu a galinha, e os pintos matou-os todos!
Ali acabou o padrinho com a existência, e ele ficou feito anel no dedo da princesa.
...Com que não sei se o anel ainda existe ou se já levou fim – porque eu vim-me de lá embora e
nunca mais o vi.


Trindade Coelho, Os meus amores