06/12/2008

O Conto da Infeliz Desgraçada


A D. Maria Calheiros Veiga


Era uma vez um rei...

A minh‘alma por ti morre,
A tua por mim não sei...

Enviuvou e ficou-lhe uma filha, da idade de quinze anos. A passar já de algum tempo, impeça o rei a dizer prá filha:
– Filha, casa-te! Casa-te, que eu já estou cos pés prà cova, e então quero-te deixar amparada quando morrer!
A princesa não pendia a casar e vivia com algum desgosto, e todos os dias ia à missa a fazer as suas orações.
Mas um dia a princesa estava muito apaixonada, a lembrar-se das fezes que lhe dava o pai por amor de a casar, quando ouviu uma voz que dizia assim:
– Isabel! Diz a teu pai que te casas, mas que há-de ser com um homem que tenha dentes de marfim, e que se os não tiver que não casas!
A filha assim o disse ao pai, e o pai mandou logo deitar bando pelas outras nações, para ver se havia algum homem com dentes de marfim – e que se o houvesse que lhe dava a filha.
Vieram muitos homens com dentes de marfim; mas quando se iam a examinar, conhecia-se logo que eram postiços; mas afinal sempre apareceu um que os tinha de raiz, e foi esse que casou com a princesa.
A passar tempos de casado, diz-lhe o marido:
– Isabel, temos que ir à minha terra, a ver a minha família.
Ela disse-lhe que sim, e tratou logo de se aprontar para ir com o marido.
Vindo Isabel a descer as escadas, ouviu uma voz que dizia assim:
– Isabel!
Diz ela:
– Valha-me Deus! Quem me chama parece mesmo que está na estrebaria!
Foi ela e assomou-se à porta da estrebaria, e estava lá dentro um cavalo cardano de clinas pretas, e diz-lhe o cavalo:
– Isabel! Diz a teu pai que já lhe fizeste o gosto de te casares, também ele te há-de fazer o gosto de te deixar levar o cavalo cardano das clinas pretas – porque se me não levas estás perdida!
Ela foi, e disse ao rei:
– Meu pai, fiz-lhe o gosto de me casar; agora também me há-de fazer o gosto de me deixar levar
o cavalo cardano das clinas pretas.
O pai disse-lhe logo:
– Pois sim, filha, leva-o.
Ela tratou logo de mandar arrear o cavalo, e montou-se nele e o marido noutro, e lá foram.
Já com duzentos dias de jornada, e mais sete, e eles que não chegavam à terra! Mas vai um dia, caminhavam os dois por umas serras, que eram umas montanhas tão fragosas que se não via senão céu e mato, olha a princesa para trás e não avista o marido! Diz ela!
– Valha-me Deus! Que é isto?! Desapareceu-me o meu marido da vista dos olhos!
Diz-lhe o cavalo:
– Isabel! Volta para trás!
A princesa voltou logo com o seu cavalo, e o cavalo largou dali a quanto podia! Onde parou ao pé dum monte, e diz-lhe o cavalo:
– Isabel! Apeia-te! Sobe àquele monte, e entra na casa que lá encontrares – mas não olhes para lado nenhum. O que lá vires apanha!
Ela foi, coitadinha, sempre muito assustada, e quando entrou na casa inda teve mais medo; mas
reparando para trás da porta viu dois canudos, e um papel que estava enrolado, e apanhou tudo e retirou-se logo.
Chegou ao pé do cavalo, e diz-lhe o cavalo:
– Anda que sempre olhaste... Ela montou, e toca a fugir!
Quando lhe a ela pareceu, olhou para trás.
– Ai que desgraça, que aí vem o meu homem!
Diz-lhe o cavalo:
– Atira com esse papel!
Ela foi e atirou com o papel. E logo ali se armou um nevoeiro, mas um nevoeiro que era tão cerrado, que o marido se atrasou no caminho, e não a alcançou.
Mas quando depois passou a névoa, e já se via, o marido que larga outra vez atrás da princesa, a ver se a podia agarrar. Mas ela que o vê lá atrás, e grita logo:
– Ai que desgraça, que aí vem o meu homem!
Diz-lhe o cavalo:
– Atira com um desses canudos!
O canudo estava cheio de agulhas. Tancharam-se todas logo no chão, e armou-se um rochedo tão grande que o marido não podia passar. Arrodeou muito o pobre do homem, que não teve outro remédio; e quando se viu para além do rochedo, que largou outra vez atrás da mulher, ela ao vê-lo e a gritar logo:
– Ai que desgraça, que aí vem o meu homem!
Diz-lhe o cavalo:
– Atira com o outro canudo!
O canudo estava cheio de água. Armou-se num rio muito grande, que o marido não pôde passar – e o remédio foi voltar para trás!
Caminhou a princesa com o seu cavalo, sem saber pra onde, até que lhe diz o cavalo:
– Isabel! Vai além àquela casa, e que te vendam um fato de homem, ou que to troquem pelo teu se to não venderem.
Ela foi; e pediu aos da casa o favor e esmola de lhe venderem um fato de homem, e que se lho não vendiam que lho trocassem.
Tiveram dó dela os de casa, e deram-lho. E ela veio ao pé do cavalo e disse:
– Cá está o fato!
O cavalo:
– Veste-te agora em trajo de homem, e despreza o que trazes vestido.
Ela vestiu-se em trajo de homem, e montou a cavalo; e foram ter a uma terra que não conheciam, porque já não era o reino dela, mas onde havia também um rei.
E passando por aquela corte, a fazer uma grande gala no seu cavalo porque não havia outro que fosse mais lindo, todo o mundo lhe mirava o cavalo.
E foram dizer ao rei que passava ali um cavalo muito bonito – e logo o rei se prantou à espera de o ver passar.
O cavalo disse à princesa:
– Isabel! Olha que o rei está à espera de me ver passar. Ele há-de-te chamar, e dizer-te se me queres vender – mas tu não me vendas, senão olha que estás perdida!
Quando passou pela rua, que o rei o viu, mandou-o chamar e disse-lhe assim:
– Ó rapaz! De quem é esse cavalo?
– O cavalo é meu!
– Hás-de-mo vender.
– Não vendo, não senhor.
E retirou-se logo – e mais cavaco não deu ao rei.
Depois disse-lhe o cavalo:
– Isabel! Olha que o rei inda te manda chamar, e há-de ateimar contigo para que me vendas; e logo que tu não queres, há-de-te concertar para o seu jardim, por fazer gosto em me lá ter em palácio. E tu concerta-te, mas olha não te esqueças de mim!
Como assim foi: o rei mandou-o chamar e disse-lhe assim:
– Ó rapaz! Então tu não me vendes o cavalo?
– Não vendo, não senhor!
– Então concerta-te comigo cá prò jardim.
– Pois sim me concerto!
O rapaz concertou-se, e pergunta-lhe o rei:
– Tu como te chamas?
– Eu chamo-me José.
O rei mandou-o para o jardim. Mas, como solteiro, Sua Majestade ia todos os dias ver as flores, e começou a olhar muito para o rapaz e a dizer consigo:
– Não parecem olhos de homem... Parecem olhos de mulher...
Ela indo tratar do seu cavalo, diz-lhe o cavalo:
– Isabel! Olha que o rei anda desconfiado que tu és mulher, e vê lá agora se lhe dás cavaco...
O rei já ia ao jardim a todas as horas, e começava a conversar com ele, mas ele não lhe dava cavaco.
O rei sempre desconfiado, foi-se ter com uma feiticeira já muito velha, e disse-lhe assim:
– Ó sua velha! Você há-de-me aqui dizer se o rapaz do meu jardim é homem, ou se é mulher.
Respondeu a velha:
– Sua Majestade convide-o para ir jantar ao palácio, e prante-lhe uma cadeira alta, e ao pé prante-lhe outra baixa. Se se sentar na baixa, é mulher; e se escolher a mais alta então é homem.
Ela indo tratar do seu cavalo, diz-lhe o cavalo:
– Isabel! Olha que o rei manda-te convidar para ires jantar ao palácio. À mesa pranta-te duas cadeiras, para te experimentar se és homem ou mulher. Mas tu escolhe a mais alta. – E assim
aconteceu.
O José depois veio-se embora; mas o rei, sempre duvidoso, foi-se outra vez ter com a velha:
– Você há-de-me dizer se o rapaz do meu jardim é homem ou mulher! Senão, morre.
– O que quer Sua Majestade que lhe eu diga?! Como quer saber, convidei-o para ir dormir ao quarto de Sua Majestade, «porque tem medo de dormir só».
Ela indo tratar do seu cavalo, diz-lhe o cavalo:
– Isabel! Olha que o rei há-de-te convidar para ires dormir ao quarto dele, «que tem medo de
dormir só»; e tu vais, que não tens mais remédio. O que ele quer saber é se és homem ou mulher, mas tu não te esqueças de mim!
Como assim foi, disse-lhe o rei:
– José! Tens que ir esta noite dormir ao meu quarto, porque tenho medo de dormir só.
José disse:
– Pois irei.
Como foi, dormir ao quarto de Sua Majestade.
Depois de ter o quarto bem fechado, diz-lhe o rei:
– José, eu desconfio que tu não és homem.
Mas agora aqui é que mo hás-de dizer! Es homem ou és mulher? Responde!
– Sim! Sou mulher!
O rei mandou-a logo mudar de fato, mas ali passaram a noite.
Sendo já muito de dia, e o quarto ainda fechado, foi a mãe do rei e bateu à porta. Ele veio abrir, e diz prà mãe:
– Mãe! Não lhe dizia eu que os olhos do José que não eram de homem, mas de mulher?!
A mãe ficou muito contente por ver que era uma cara linda, como princesa que era – e o rei tratou logo de casar com ela.
A passar algum tempo já de casados, veio uma embaixada ter com o rei para ir vencer uma batalha. O rei disse-lhe:
– Isabel, tenho que te deixar. Vou para a batalha e levo o cavalo cardano. Fica tu em palácio com minha mãe, que nada te há-de faltar.
O rei caminhou para a sua batalha; e a dias de lá estar, teve a mulher dois meninos que eram duas caras muito bonitas; e foi a mãe e escreveu-lhe uma carta mandando-lhe dizer: – «Filho, cá teve tua mulher dois meninos que são as caras mais lindas que têm aparecido!»
E a carta foi remetida por um soldado, e o soldado caminhou um dia todo, e foi-lhe anoitecer perto de uma casa onde pediu pousada por uma noite. Disseram-lhe que sim, que entrasse.
O soldado entrou e sentou-se, e não viu mais que foi um homem naquela casa. Ali conversaram um bocado ambos-e-dois; e perguntando ao soldado que caminho levava, disse-lhe ele que ia levar uma carta ao rei que andava em batalha.
Depois preparou a cama para o soldado, e o soldado deitou-se e deixou-se dormir.
Ele assim que apanha o soldado a dormir, deu-lhe volta à mochila, e tirou-lhe a carta e esteve lendo. Depois começou a escrever outra em vez daquela, dizendo: – «Filho, cá teve tua mulher dois bichos, que não há quem possa parar em palácio, e então vê o que determinas dela.»
Fechou a carta e meteu-a na mochila e o soldado não deu notícia.
Assim que amanheceu, o soldado levantou-se e foi-se embora. Chegou ao sítio onde era a batalha,
e entregou ao rei a carta que levava.
O rei abriu a carta e esteve lendo, e assim que leu começou a chorar. Ele queria muito à sua mulher; e assim escreveu logo a mandar dizer: – «Mãe, deixe estar minha mulher em palácio até eu ir.»
Remeteu a carta pelo dito soldado, que foi dar à mesma pousada; onde lá encontrou o companheiro que lhe fizera a cama, e ali dormiu também essa noite.
O soldado pegou no sono mal se deitou; e ele mal viu o soldado pegado no sono, dá-lhe logo volta à mochila, e tirou-lhe a carta, e depois de a ler queimou-a, e escreveu outra a mandar dizer: – «Mãe, logo que esta receba ponha minha mulher fora do palácio, que a não quero encontrar quando daqui for.»
E meteu a carta na mochila do soldado, e o soldado não deu notícia.
No outro dia caminhou o soldado para o palácio; e assim que chegou, entregou a carta à mãe do rei.
Ela abriu a carta, e viu o que vinha dizendo.
E disse:
– Jesus! Isto que é?! O meu filho endoideceu!
Assim começou a andar muito triste, e um dia diz-lhe a princesa:
– Ó minha mãe! O que tem que anda tão triste?!
– Nada! Não tenho nada! O teu homem que endoideceu! Manda-te prantar fora do palácio – «que te não quer encontrar quando voltar».
Ela, coitadinha, disse:
– Ai que sorte tão desgraçada! que só vim ao mundo prà desgraça! Logo que o meu homem me manda prantar fora do palácio, então vou-me já embora!
Muito chorava a mãe; mais chorava ela por se ver assim; – e pegou nos seus dois meninos, um em cada braço, e caminhou pelos campos sem saber para onde, e disse:
– Seja o que Deus quiser, que eu vou caminhando sem destino, que não sei onde irei parar!
O rei continuava em batalha, mas muito apaixonado por ter recebido uma tão ruim nova. Não bastava só isso, senão deixar fugir o cavalo cardano! Eram duas paixões que o matavam! Mas deixemos o rei, e vamos à infeliz desgraçada, que se viu sozinha numa montanha, com os seus dois meninos.
Vai a olhar, e viu vir o cavalo cardano, que vinha a quanto podia; e depois olha e vê também o seu marido primeiro, que vinha para a matar! O cavalo chegou ao pé e diz-lhe:
– Isabel! Ai o teu homem primeiro que te quer matar! Mas não te mata, que eu brigo mais ele, e ele mata-me a mim e eu mato-o a ele, e tu em me vendo morto mete-me a mão dentro da boca, e tira o que lá achares e segura-o no chão!
O cavalo cardano brigou mais o dito indivíduo, e por fim caiu cada um para seu lado, ambos mortos. E ela assim que viu morto o seu lindo cavalo, meteu-lhe a mão dentro da boca, e apanhou-lhe a língua e a firmou no chão. Formou-se-lhe uma torre, e ela dentro mais os seus meninos; e tinha tudo quanto lhe fazia falta.
O rei que chega da batalha, e pergunta à mãe novas da mulher. A mãe responde:
– Ingrato! que a mandaste deitar fora do palácio, e agora perguntas por ela!
Ele disse:
– Não há tal! Para onde foi a minha mulher?!
Quero ir em busca da minha mulher!
E correu logo a correr, e perguntando se alguém lhe dava notícia de uma infeliz desgraçada. Soube por notícia o pai da princesa que a filha andava desgraçada, e tratou também de a procurar, a ver onde a iria topar.
Como andavam de terra em terra, encontraram-se os dois numa pousada, o pai e o marido, à procura ambos da mesma pessoa; mas não se conhecendo um ao outro, e dizendo um que andava em pergunta de uma infeliz, dizia o outro que procurava também uma desgraçada!
Ali se fizeram os dois muito conhecidos, e trataram de marchar caminhando juntos um dia todo, até que lhes anoiteceu. Não encontrando quem procuravam, onde se haviam de eles agasalhar? Vendo brilhar uma luz, dirigiram-se logo direitos a ela, e viram que era de uma torre; mas pondo-se ambos de roda dela, à pergunta da porta, foi coisa que não encontraram! Ele ouvindo falar em baixo, assomou-se à janela; e observando e conhecendo quem era, deitou uma escada de corda para subirem, porque a torre não tinha porta.
Eles subiram; mas não se conhecendo um ao outro e ela conhecendo-os a ambos, obsequiou-os muito, e prantou a mesa para comerem todos – e avisou em segredo os seus meninos:
– Vocês em acabando de comer hão-de rezar, e depois tomar a bênção àquele homem mais moço
primeiro, e depois também àquele mais velho.
Os meninos isso fizeram. Mas o rei moço admirou-se muito e diz assim:
– Oh! Uns meninos tão bem-educados, e não têm preceito de pedir primeiro a bênção ao mais velho?! Vieram-na pedir primeiro ao homem mais moço?!
Diz-lhe a mãe:
– Os meus meninos têm muito preceito, que o preceito é tomar a bênção primeiro ao pai e depois
à mãe e depois ao avô.
Foi quando eles se conheceram, e se abraçaram todos com muito choro! E como então já se conheceram, determinaram logo ir-se dali embora – e a torre desapareceu.


Trindade Coelho, Os meus amores