11/12/2008

Maria Moisés


A Tomás Ribeiro

São passados dez anos depois que vieste aqui. Foi ontem: e a pedra onde gravei o teu nome está denegrida como a dos túmulos antigos. Debaixo dela estão dez anos da nossa vida. Jazem ali os homens que então éramos. Estou vendo Castilho encostado ao friso da coluna tosca; estou ouvindo os teus versos recitados em nome de meus filhos... Ah! é verdade... Tu não os recitaste porque tinhas lágrimas na voz e no rosto. – Que faria de ti a política, meu querido, meu poeta da pátria e da alma?

S. Miguel de Seide, Novembro de 1876.


Primeira parte

O pequeno pegureiro contou as cabras à porta do curral; e, dando pela falta de uma, desatou a chorar com a maior boca e bulha que podia fazer. Era noite fechada. Tinha medo de voltar ao monte, porque se afirmava que a alma do defunto capitão-mor andava penando na Agra da Cruz, onde aparecera o cadáver de um estudante de Coimbra, muitos anos antes. O povo atribuíra aquela morte ao capitão-mor de Santo Aleixo de além-Tâmega, por vingança de ciúmes, e propalava que a alma do homicida, de fraldas brancas e roçagantes, infestava aquelas serras. O moleiro das Poldras contrariava a opinião pública, asseverando que a avantesma não era alma, nem a tinha, porque era a égua branca do vigário. A maioria, porém, pôs em evidência o facto psicológico, divulgando que o moleiro era homem de maus costumes, tinha sido soldado na guerra do Rossilhão, não se desobrigava anualmente no rol da igreja, nem constava que tivesse matado algum francês.
Era por 1813, meado de Agosto, quando o pastor chorava encolhido, a um canto do curral, e pedia ao padre Santo António com muitas lágrimas que lhe deparasse a cabra perdida.
João da Laje, o amo, assomou à porta da corte, e bradou:
– Perdeste alguma rês?
O rapaz tartamudeou, tiritando de medo.
– Perdeste, ladrão? Vai em cata dela, e, olha lá: se a não trouxeres, não me apareças mais, que te arranco os fígados pela boca.
E deu-lhe dois valentes pontapés à conta.
Este João da Laje era homem de princípios menos maus, assentados em religião e pátria; havia matado dois franceses doentes nas ambulâncias retardadas, e acreditava que o fantasma era a alma do capitão-mor e não a égua branca do vigário.
O rapazinho deitou a correr, e lá foi caminho da serra. Tendo de optar entre os malefícios da alma penada e a biqueira do tamanco do amo, preferia encontrar o defunto capitão-mor. Ainda assim, ia rezando alto quanto sabia da cartilha: os Pecados Mortais, as Obras de misericórdia, os Sacramentos da Santa Madre Igreja, tudo. À saída da aldeia, recuou estarrecido. Vira um fantasma branco a destacar das trevas, e agachado na raiz de um castanheiro.
– Ó Zé da Mónica, és tu? – perguntou o suspeito fantasma.
– Sou eu, tia Brites – respondeu o rapaz suspirando ofegante. – Credo! Que medo você me fez!
– Tu onde vás a esta hora?!
– Vou à cata de uma cabra. Você viu-a?
– Eu não. Olha lá, a tua ama Zefa também anda à procura da cabra?
– Àgora! A senhora Zefinha está doente há mais de mês e meio na cama.
– Isso sei eu; mas havia de jurar que a vi saltar agora o portelo da cortinha do rio! Se não era a Zefa era o demo por ela!
O rapaz tornou a tolher-se de medo, e perguntou a meia voz:
– Seria a alma?
– Do sr. capitão-mor? Não me pareceu; que ela ia de saia escura, e levava um saiote pela cabeça.
Neste comenos, descia o moleiro do lado da serra pela barroca escura com dois jumentos carregados de foles, e vinha cantando:

Já fui canário do rei,
Já lhe fugi da gaiola,
Agora sou pintassilgo
Destas meninas d’agora.

– P’ra pintassilgo estás muito fanhoso, ó Luís! – disse galhofando a Brites do Eirô.
– Olá, sua bruxa, que feitiços está você a fazer aí? – respondeu o veterano do 2º regimento do Porto. – Não me meta medo aos burros que eles já estão estacados a olhar p’ra você. Deixe passar os parentes.
– Eu não sou da tua família, ouviste, jacobino? – replicou a velha; e fazendo-lhe duas figas, acrescentou: – Toma, que te dou eu, herege!
– Ó tio Luís! – perguntou o pegureiro – Vossemecê viu aí na Agra da Cruz uma cabra?
– Não a vi, rapaz, mas ouvia-a berrar lá para o rio. Mete aí pela cangosta do Estêvão, e vai pela beira do rio abaixo que a topas lá para a Várzea das poldras ou na Ínsua.
– Está mesmo indo... – interveio a tia Brites. – Boa hora é esta para um rapazinho se meter à cangosta do Estêvão!
– Então que tem?
– Que tem?! Vai perguntá-lo à Zefa do João da Laje, que ficou lá tolhida uma noite e nunca mais teve saúde.
– Sim, sim, tia Brites; você lá sabe desses tolhiços, e eu também sei como as raparigas se tolhem nas cangostas. Tens medo, rapaz?
– Tenho, sim, senhor.
– Espera aí que eu venho já.
E, tangendo os burros que espontavam o tojo dos valados, foi descarregá-los, encheu-lhes a manjedoura de erva, gargalaçou da borracha uma vez de vinho, e voltou onde o esperava o pastor, a quem a tia Brites contava casos vários de almas penadas.
– Vamos lá, pequeno – disse o moleiro –. Conheço bem o teu amo, e sei que ele à conta da cabra, se tiver meio quartilho de aguardente no bucho, é capaz de te quebrar os braços; por isso é que eu ta vou ajudar a procurar. De que tens tu medo, rapaz? É da alma do capitão-mor? Não sejas tolo. As almas boas dos que morrem são de Deus, não fazem mal a ninguém; e as más são do diabo, que as não larga das unhas.
– Arrenego-te eu! Este homem está vestido e calçado no inferno! – murmurou a tia Brites, erguendo-se indignada, benzendo-se de ombro a ombro, e do alto da cabeça ao umbigo.
– Que está você a rosnar, mulher! Que este rapazelho seja parvo, tem desculpa; mas você, com mais de setenta anos na carcaça, já tinha tempo de ter juízo nesses cascos. Você já viu almas, ó criatura?
– A mim não me empecem, graças a Deus! – respondeu Brites com desvanecimento. – Elas bem sabem com quem se metem.
– Não se metem no seu corpo? Pudera... – redarguiu o veterano sempre risonho. – Eu, se fosse alma penada, topando com você, desatava a fugir. A alma que se metesse nesse corpo devia sair suja como a ratazana dum cano.
– Vai-te, vai-te, jacobino; cruzes, diabo, cruzes! – exorcismou a tia Brites com dois dedos em cruz, e meteu-se em casa às arrecuas.

*

– É o que te digo, rapaz. Deixa lá asnear o povo. Olha se te guardas de alguma sacholada de teu amo, que das almas do outro mundo te livro eu.
O moleiro ia conversando com o pastor pela pedregosa cangosta do Estêvão. Apesar das palavras animadoras do veterano, o rapaz, ao passar nos lanços mais escuros do pedregal, ia orando mentalmente fragmentos da Cartilha. Os vaga-lumes fosforeavam entre os silvedos, e às vezes um melro assustado batia as asas na ramagem das sebes. O pastor então maquinalmente agarrava-se ao braço do moleiro, que lhe metia a riso a covardia.
Ao fundo da viela, que desembocava no rio, havia dois portelos, um à direita para uma várzea de milho espigado com grande folhagem, outro à esquerda para um panascal que entestava com a corrente do Tâmega. Saía então do rio para a cangosta um grande vulto alvacento chofrando na água com pernadas longas e mesuradas. O rapaz expediu um ai rouco e, agarrando-se aos suspensórios de couro do moleiro, gritou:
– Ó tio Luís, ó tio Luís!...
– Que é?
– Vossemecê não vê?
– Vejo, pedaço de asno, vejo; é a alma do capitão-mor que anda a pescar bogas com chumbeira... Não vês que é um homem em fralda? Abre esses olhos, bruto!
Era o caseiro da quinta de Santa Eulália, que vinha batendo com a chumbeira as angras do rio por onde o escalo costumava acardumar-se.
– És tu, ó Francisco Bragadas? – perguntou o moleiro.
– Sou.
– Ouviste por’í berrar uma cabra?
– Há pedaço, berrava ali no bravio do Pimenta; mas já depois a ouvi lá p’ra baixo na Ínsua.
– O peixe cai? Dá cá duas bogas para eu cear.
– É má noite. O peixe meteu-se aos poços. Anda coisa má por aqui... Vou-me chegando a casa.
– Coisa má? Topaste algum avejão no rio? Olha que a alma do capitão-mor anda na serra; mas talvez viesse tomar banho, que a noite está quente.
– Homem – volveu o pescador escrupuloso –, deixemo-nos de graçolas. Aí bem perto donde tu estás, para lá desses salgueiros, ouvi eu, quando passei p’ra riba, uma coisa que parecia uma criatura a chorar e a gemer.
– Isso era coruja ou sapo – replicou o moleiro com a intemerata certeza das ciências naturais. – Se tens medo, vou contigo; mas hás-de repartir do peixe que levas... Lá está a cabra a berrar, ouves, rapaz?
– Já passou para além do rio – disse o da chumbeira –; havia de ser pelo açude. Tendes que fazer. Adeus, Luís.
– Má raios partam a cabra! – praguejou o moleiro. – Temos de ir passar às poldras. Olha que espiga! Eu antes queria pagar a rês a teu amo que ir agora além do rio!
Neste momento, ouviram gemidos, que pareciam pouco distantes, à beira do rio.
O pastor, com as mãos fechadas sobre a boca, e pondo-se de cócoras, disse:
– Ai Jesus!
– Aquilo é cousa! – observou o veterano com pachorrenta reflexão. – Bem dizia o outro. Não é coruja nem sapo... Agora é!
– Então que é, tio Luís? – perguntou o rapaz com a rouquidão afónica do pavor.
– É uma mulher a chorar, tu não ouves? Vamos ver quem geme antes de mais nada.
Transpôs o moleiro de um pulo o valado, tossindo de maneira que significava coragem neste bravo do Rossilhão, mas que em outros bravos que tossem não tem sempre o mesmo significado. O pequeno seguia-o tão de perto que o trilhava nos calcanhares.
Seguiu bem rente a ourela do Tâmega; de vez em quando ouvia os gemidos, mas pareciam-lhe mais longe ao passo que mais se avizinhava, porque a voz ia esmorecendo em soluços abafados. Ao cabo do ervaçal adensava-se uma moita de álamos e salgueiros, e lá no interior o rio espraiava-se, formando lençol de água murmurosa, onde os pescadores colhiam com a chumbeira as bogas no tempo da desova. Ao chegarem ali, ouviram estas palavras:
– Quem me acode, que eu morro sem confissão!
– Ela é a senhora Zefinha! É a minha ama! Valha-me Deus! – exclamou o pastor, e com incrível ânimo rompeu a direito por entre a ramaria do salgueiral, e saltou, sem arregaçar-se, ao rio, que lhe dava pelo joelho. O moleiro seguiu-o. Com meio corpo a água e os braços enroscados no esgalho de uma árvore, entreviram, mal distinto na escuridão cerrada da ramagem, aquele vulto de mulher, que repetia as palavras:
– Quem me acode, que eu morro sem confissão!
– Ó senhora Zefinha! – disse o rapaz – É vossemecê? – e deitou-lhe os braços ao peito erguendo-a para si. – Ó ti Luís, ajude-me que eu não posso!
– Eu cá estou – disse o moleiro, levantando-a a custo, porque ela tinha as mãos recurvas e os braços rijamente hirtos no tronco do salgueiro, como se em ânsias de asfixia se houvesse agarrado nele.
– Isto que foi, Josefa? – perguntou Luís, tomando-a nos braços, e galgando a custo o valado que se esbarrondava cedendo aos pés vacilantes de Luís, molhados pela água que escorria dos vestidos.
A filha de João da Laje, estorcendo-se nos braços do moleiro, dizia com palavras soluçantes:
– Não me leve para casa, pelas almas benditas. Deixe-me deitar na terra, e vá chamar o sr. vigário para me absolver, que eu estou a expedir.
– Tem paciência, moça; aqui não te deixo, que estás toda ensopada em água, e tens a cara a arder... Tu caíste ao rio, Josefa? Que vieste aqui fazer tão de noite?
– Jesus valei-me! Jesus acudi-me! Jesus salvai-me! – murmurava ela perdendo o alento, e tiritando em calafrios.
Luís, receando que a convulsa rapariga lhe expirasse nos braços, atirou-a para o ombro direito, e apertou o passo por entre o ervaçal, dizendo ao rapaz que fosse adiante avisar o amo.
No momento em que transpunha o portelo com o embaraço do peso e do estorvo que lhe fazia o vestido molhado, teve de colher as saias com a mão esquerda; e, neste lance, sentiu nas costas da mão um contacto de líquido quente com fartum enjoativo de sangue. Então pensou que ela estivesse ferida, e perguntou:
– Tu feriste-te, Josefa?
Ela não respondeu, nem gesticulou levemente. Os braços pendiam inertes ao longo das costas do moleiro, e a cabeça balançava maquinalmente conforme os movimentos variados que ele lhe dava ao corpo ajeitando-o para saltar a parede escadeada. Vencida a dificuldade, e conseguindo assentar o pé no trilho pedregoso por onde viera, sentou-se esbofado no respaldo duma fraga; e, como gelado do terror do cadáver que lhe parecia resfriar nos braços, tremia, descendo do ombro para o regaço a mulher que efectivamente estava morta.
Chamou-a, agitou-a, invocou as almas à míngua dos recursos humanos; e, encostando-a à ribanceira, enxugava com a rama de fetos secos o suor que lhe gotejava das faces ao peito.
Poucos minutos depois, João da Laje, o vigário e outras pessoas, atraídas pela curiosidade ou pela compaixão, desciam a cangosta do Estêvão com fachos de palha acesos. A Brites do Eirô, que os vira passar, ajuntou-se ao grupo dizendo que, ao toque das Trindades, tinha visto Josefa saltar para o campo da Lagoa e meter para o lado do rio, com o saiote pela cabeça.
Na extrema da viela encontraram o Luís moleiro sentado à beira de Josefa que, vista à luz dos archotes, parecia viva porque tinha os olhos abertos.
– Que é isso, rapariga? – perguntou o pai.
– Não lhe perguntes nada, João, que ela está com Deus – respondeu Luís.
O vigário, apalpando-lhe as mãos e o rosto, confirmou:
– Está coberta de suor frio. Que foi isto? – ajuntou ele voltando-se para o João da Laje – Você há-de saber pouco mais ou menos porque esta boa rapariga se deitou a afogar!
– Eu não sei – respondeu o pai com a serenidade de um estranho narrador. – Ela estava doente há mais de mês e meio; mandei chamar o boticário de Friúme; ele receitou-lhe não sei que barzabum de xaropadas que a rapariga nem p’ra trás nem p’ra diante. Ora vai hoje ali pela sesta fui achar a minha Maria a chorar, mas nada me disse. Depois, fui regar um campo de milho, e, quando tornei a casa à noite e perguntei por minha mulher, soube que ela estava ainda no palheiro. Fui-me onde a ela, perguntei-lhe o que tinha, e ela já me não respondeu, porque estava sem acordo; peguei nela e deitei-a na cama; e agora, quando lá chegou o rapaz com a notícia, ia eu mandar chamar o barbeiro das Vendas Novas a ver se ma sangrava.
Nesta conjuntura, voltaram-se todos para um dos campos por onde vinha correndo a mãe da morta, chamando a filha a grandes brados.
Os archotes erguidos ao alto alargaram a penumbra e condensaram mais a treva por onde o vulto da mulher vinha crescendo com as mãos na cabeça. A Brites aconchegava-se do vigário a fim de, no caso de intervenção diabólica, se encostar à coluna da igreja. Luís meditava nas revelações do lavrador, e João esperava quieto, silencioso e estúpido a chegada da mulher.
Ela saltou do campo à barroca por cima do tapume de espinheiros e silvas, foi direita à filha, deitou-se sobre ela a beijá-la, a sacudi-la, a chamá-la com gritos de louca, e ali perdeu os sentidos entre os braços brutais do marido que se esforçavam por desprendê-la da morta.

*

Vinte e quatro horas depois, o cadáver de Josefa de Santo Aleixo, a loura mocetona, desceu à cova, porque o fedor da podridão obrigara a alterar o estilo das quarenta e oito horas sobre a terra. Maria da Laje, a mãe, diziam que dava em louca, porque não comia, nem bebia, nem chorava; e, durante a noite, fugira para o lado da serra. O pai da defunta, aborrecido dos interrogatórios impertinentes que lhe faziam os vizinhos e parentes acerca das causas que levaram Josefa a matar-se, fechou-se na adega; e, nas securas da sua ardente aflição, é natural que bebesse.
O leitor urbano mal imagina como são estes pais e maridos rurais quando lhes morrem as filhas ou as mulheres. Os mais lúgubres, se estão seis horas no forçado jejum a que os obriga a funeral lareira apagada, começam a cair num sentimentalismo de burros com fome. Nunca vi uma lágrima luzir nestas caras. Às vezes, morrem mães que deixam um grupo de crianças ali a chorar num canto da cozinha. Os viúvos olham para os pequeninos de través, e ralham-lhes brutalmente. A estupidez é mais valente que a morte. Se falta a luz que adelgaça e rompe a treva do homem bárbaro, à mistura com a velhacaria que a civilização lhe tem dado, o cérebro e o coração são umas empadas de massa inerte, umas substâncias granulosas ou fibrosas contidas em sacos membranosos. Não há nada mais bestial que o homem sem a alma que se faz na educação. A mulher já não é assim. A maternidade é uma ilustração que lhe dá a intuitiva inteligência do amor e das grandes tristezas. Essas, em toda a parte, a chorar, são mulheres; e, ainda na derradeira curva que atasca em lama a espiral da degradação, é-lhes concedido remirem--se pelas lágrimas. Estas reflexões não são todas minhas: quem fazia algumas era um escrivão do juiz de paz, que fora desanojar o João da Laje; e, posto a um canto do sobrado, conversava com um minorista da Póvoa, que assistira aos responsos.
– Você conhecia esta rapariga, padre Bento? – perguntou o funcionário ao minorista.
– Vi-a uma vez na romaria de S. Bartolomeu, fez um ano em 24 de Agosto. Assisti-lhe aos exorcismos na capela do Santo.
– Ah! Conte-me isso... Ela tinha demónio no corpo? Note você, padre Bento, que os espíritos maus quase sempre se ferram nos bons corpos!
O tonsurado entreabriu um sorriso de forçada complacência, e não deu azo a que o espírito forte abrisse a válvula dos sarcasmos, por causa dos quais havia sido expulso de um convento graciano onde noviciava, e também porque sabia francês, e lia O Citador de Pigault Lebrun, e chamava à carniceria da revolução francesa a grande operação da catarata social. Dizia cousas como os socialistas de hoje, que estão a chocar o ovo de uma cousa pior, que há-de ser os socialistas de amanhã.
– Bonita era ela... – concordou o estudante de teologia dogmática; e, movendo pausadamente a cabeça como quem confirma uma recordação dolorosa, acrescentou: – Bem sei eu quem foi a causa deste suicídio...
– Sabe? E está calado com isso...
– Estou, e... estarei – respondeu discretamente.
– Já sei quem foi a causa de se suicidar a Josefa – acudiu o escrivão.
– Sabe?... Então quem foi?!
– Foi você, padre!
– Não me diga isso nem a rir! – acudiu o teólogo com semblante mortificado.
– Estou a brincar, padre Bento. Sei quem é o meu amigo; sabe-o toda a gente; mas conte-me essa história se confia em mim.
– Lembre-se que essa pobre mulher ainda está quente na terra. Conversaremos outro dia.
O minorista ergueu-se, quis despedir-se de João da Laje, que se fechara na adega com a sua dor, e saiu acompanhado do escrivão, que o não largou até lhe arrancar o segredo às relutâncias do escrúpulo. O futuro presbítero compreendia cristãmente o dever da caridade; mas, vencido pela pertinácia do amigo, disse o que sabia, encarecendo o melindre da revelação. Sumariamente contou o seguinte:
Que Josefa, quando foi exorcismar-se à capela de S. Bartolomeu, a Cavez, não tinha no corpo o espírito imundo; e acrescentou entre parêntesis que não duvidava da existência de demónios súcubos e íncubos (1).
E demonstrou que havia obsessos, autorizado com S. Gregório, Santo Anastásio, Santo Hilarião, que lutou com eles em forma de mulheres. O escrivão replicava que todos os homens eram Hilariões, e cada qual era o demónio de si mesmo; porém não citava autor digno de crédito; toda a sua erudição neste importante assunto era um fragmento de má e velha poesia francesa que dizia assim:
On se livre à la volupté
Parce qu’elle flatte et qu’on l’aime;
Et, si du diable on est tenté,
Il faut dire la vérité:
Chacun est son diable à soi-même.

O minorista, ouvida a tradução da quintilha, confundiu o adversário com latim; e, a respeito da filha de João da Laje, continuou:
– Não era possessa; era a paixão que a desnorteava. O sr. Maurício conhece o morgado de Cimo de Vila?
– Se conheço! Aquele cadete de cavalaria de Chaves que estudou primeiro para frade crúzio, e assentou praça quando ficou senhor da casa por morte do irmão!... Esse rapaz foi para a corte com o pai... Foi ele então quem na apaixonou...
– Foi. Há quem os visse no bosque de amieiros da Ínsua, defronte da Granja. O senhor sabe...
– Conheço esse bosque. O meu padre mestre de latim chamava-lhe a Ilha dos Amores; foi lá que todos os bons latinistas meus condiscípulos leram a Arte de amar de Ovídio; e o cadete, pelos modos, aplicou as teorias do Sulmonense...
– Não vamos tão longe, sr. Maurício – emendou o minorista. – O que se diz é que ele passava o Tâmega nas poldras, com a cana de pesca e o cacifro; depois, metia-se na Ínsua, e a Josefa ia lá ter.
– Tudo isso é inocentemente pastoril. Depois ele fazia de Felício, e ela de Florisa, como os pastores de Fernão Álvares d’Oriente, e altercavam os seus queixumes ao som do arrabil... Vamos ao fim do conto: a rapariga, frágil e bonita...
– Devagar – atalhou o prudente moço. – Não inventemos culpas, atidos à lógica dos delitos. É necessário atender aos temperamentos das pessoas, quando não quisermos extremá-las pela virtude.
– Padre, eu não o percebo. Quer dizer que eles se amavam honestamente? Diga isto assim pelo claro, que eu acredito tudo quanto há virginalmente extraordinário em um cadete de cavalaria de Chaves.
– Digo o que sei e presumo sempre o melhor quando não tenho provas do pior. E, quando as tenho, calo-me. O que afirmo é que o morgado de Cima de Vila, chegando há dois meses de férias de Coimbra, onde estuda matemática, pediu ao vigário de Santa Marinha que o casasse com Josefa de Santo Aleixo. O vigário recusou-se e avisou Cristóvão de Queirós, pai do cadete. O fidalgo saiu, como o senhor sabe, com o filho para a capital; e lá, como o cadete quisesse fugir-lhe, ou mesmo recusasse obedecer-lhe, meteu-o no Limoeiro. Entretanto, Josefa suicida-se. Agora, seja qual for a causa que levou esta mulher morta à desesperação, a caridade o que aí vê é uma desgraça, e a religião chora uma alma condenada.
– Adivinhei o que o padre não sabe...
– Nem quero saber – acudiu o minorista; e retirou-se, agitando rapidamente ambas as mãos com gestos negativos.

*

A nossa curiosidade, nesta época de escalpelo, vai além dos limites que o teólogo abalizou à sua. Desenterre-se o cadáver, e venha para o anfiteatro anatómico.
Josefa não fora caluniada pelo escrivão, quando ele lhe malsinou a inocência nos sinceirais da Ínsua. Uma cousa verdadeira, que os maus homens quase sempre têm, é a crítica mordaz dos costumes. Percebem e farejam os actos mais abscônditos da sociedade, como se a sociedade fosse obra deles.
As pessoas cândidas e boas vivem constantemente logradas, e andam tão vendidas nesta feira de pecados como o Serafim do auto de Gil Vicente. Enlevadas no especulativo, pairando ao de cima destas ambulâncias em que todos gememos amputados na alma ou no corpo, quando cuidam que é virtude e resguardo a ignorância das cousas mundanais, vem o Mercúrio do poeta jogralesco de D. Manuel, e diz-lhes:

Muitos presumem saber
As operações dos céus,
E que morte hão-de morrer,
E o que há-de acontecer
Aos anjos e a Deus,
E ao mundo e ao diabo.
E o que sabem tem por fé;
E eles todos em cabo
Terão um cão pelo rabo
E não sabem cujo é.

Isto, que diz aquele grande realista do século de quinhentos, é verdade. Os que se derem a parafusar operações do céu, quando mal se precatarem, são filados, onde quer que seja, pelo mastim da ironia que lhes crava o dente canino da chufa. Estes bons corações passam entre nós mordidos, espavoridos, com os dedos no nariz, e vão deixando os paletós nas mãos incontinentes das Zuleikas.
Maurício, o escrivão, tinha no corpo a nevrose que aumenta o calibre da retina, e lhe espelha imagens através de corpos opacos. Raciocinou com a lógica dos corruptos, que é a arte de pensar bem. Quem pensava mal era o teólogo, imaginando que o cadete e a loura de Santo Aleixo, emboscados no choupal da Ínsua, eram mais inocentes que os pássaros. Não se pode ser perfeito hoje em dia sem se ser um bocadinho idiota. A esta saudável ignorância das misérias do próximo chamava o meu padre Manuel Bernardes «trevas claríssimas».

*

Ora vamos à história, já que me coube em sorte arpoar com pena de ferro, no fundo lodoso deste tinteiro, as frases do meu tempo.
Era pescador e caçador António de Queirós e Meneses. Viu no monte a filha do lavrador de Santo Aleixo. As serras têm sombras do infinito. O coração aí é maior que as dimensões do peito. O homem, como se vê só, no cabeço de um fraguedo, dá-se grandeza extraordinária, mede-se pelo comprimento de horizonte a horizonte. Se o amor lhe rutilou aí como um relâmpago que fulgura numa vasta cordilheira de montes, é um amor olímpico, titânico, imenso, que, disparado sobre a modéstia e singeleza de uma rapariga montesinha, faz lembrar Camões:

.................. Qual será o amor bastante
De ninfa que sustente o dum gigante?

Andava ele cursando retórica em Coimbra para ir vestir o hábito de frade fidalgo em S. Vicente de Fora. Tinha vinte e dois anos, e aspecto pouco de bernardo. Era magro e pálido, da palidez dos que amam, segundo o preceito ovidiano: Paleat omnis amans. Tinha êxtases nos píncaros das serras, como se ouvisse as harmonias das esferas. Sentia o grande vazio que a retórica lhe não enchia. Queria o amor, não queria tropos; preferia uma mulher feia, se as há, à mais nítida metáfora de Cícero ou Vieira.
Nestas ideias o encontrou Josefa da Laje, nos montados da sua freguesia. Coraram ambos. Este rubor era o primeiro lampejo do incêndio. Depois, à volta de poucos dias, o fogo levou de assalto aquele combustível edifício de inocência, cheio de fluidos inflamáveis. A serra tinha penhascais, bosques, cavernas, insinuando o amor selvagem. Rodeava-os uma natureza contemporânea do homem vestido da pele do seu confrade em civilização, o grande urso e o grande veado. A forma selvática e antiga do proscénio deu-lhes jeitos de antigos actores da vida animal. Ninguém que os visse, ninguém que lhes lesse os grandes livros do padre Sanches acerca do matrimónio. Oh! A solidão, entre dois amantes, faz os poetas; mas talvez primitivos demais, algum tanto gaélicos, normandos, alheios a tudo o que é epistolografia amorosa – peles-vermelhas no rigor antropológico, à vista do modo como a gente em honesta prosa costuma casar-se.
Assim seria; mas eles adoravam-se.
– Não serás frade – disse-lhe o coração a ele.
– Assim que meu pai morrer – disse ele à filha do lavrador –, caso contigo. Vou sentar praça, quer meu pai queira quer não. Sou o morgado, porque meu irmão mais velho morreu.
Ela, para ser feliz até às lágrimas, não precisava destas esperanças. Preferia tê-lo e amá-lo nas matas chilreadas, nos desfiladeiros dos montes, no sinceiral da Ínsua, nas alcovas de ramagem que só eles e os rouxinóis conheciam nas margens do Tâmega.
Foi por aí que deslizaram três meses do estio e outono de 1812. Ele foi para Coimbra, com farda de cadete.
O velho fidalgo de Cimo de Vila ponderou na mudança de ideias do filho. Escodrinhou razões secretas que o movessem; todavia, não o contrariou. Tinha meninas para conservar a raça dos Queiroses e Meneses; mas a casta varonil iria pelas gerações além menos sujeita a reparos de genealógicos.
Nas suas pesquisas descobriu que o filho, vindo a férias do Natal, passara o Tâmega e caçara nos montados de Santo Aleixo. Foi visto. É que os arvoredos estavam desfolhados; os choupos da Ínsua mostravam as grimpas curvadas à flor da corrente arrebatada; nos recôncavos das penedias, em vez dos froixéis da relva, havia lençóis de neve, palmilhada pelos lobos. Como não tinham florestas confidentes, foram vistos à beira do rio, ali mesmo, na cangosta do Estêvão, sentados naquela fraga onde o Luís Moleiro encostou o cadáver de Josefa. O velho não deu a mínima importância à denúncia, logo que lhe disseram quem era a rapariga.
– Antes por lá que pelas criadas da casa – disse o assisado fidalgo. – É rapaz, e precisa de se divertir.
No último quartel da vida, os pais... e até as mães – santo Deus! – dizem aquilo. Precisam divertir-se os filhos: levem a desonra onde quer que seja; mas não corrompam a disciplina doméstica, não embarrem pelas criadas, não perturbem o serviço da casa. Com que zelo estas matronas veneram a moral da cozinha, da salgadeira e da despensa!

*

Nas férias de Páscoa, António de Queirós viu chorar Josefa. Não eram lágrimas de amante magoada, nem de filha malquista de seus pais: eram lágrimas de mãe. Entrara-se de uma terrível vergonha e confusão. Ninguém a suspeitava; e ela, se alguém a encarava a fito, estremecia. A mãe era cruel com as mulheres manchadas. No seu serviço não entrava jornaleira de má nota. Não se ajoelhava na igreja à beira de criatura de ruim vida. Dava-lhe este direito haver sido filha humilde e esposa honrada do homem com quem a casaram, o João da Laje, que era vesgo, cambado, lanzudo e bêbedo.
O pai viu de longe, uma tarde, Josefa a conversar em uma barroca com o fidalguinho, e disse-lhe:
– Se tua mãe o sabe dá-te cabo do canastro, rapariga.
Não lhe bateu, porque estava sempre às avessas da mulher. Se ele imaginasse que a mãe fechava os olhos às toleimas da moça, então com certeza lhe dava.
A rapariga tremia pois da mãe, e queria fugir; mas o cadete, cheio de bons propósitos, jurou-lhe que viria casar com ela, antes de cinco meses. Dizia o cirurgião que o velho tinha uma anasarca, e não viveria mais de três. O estudante contava com isto, e dizia-o com uma sossegada fleuma como se se tratasse da esperançosa morte de um parente desconhecido para onde houvesse de lhe vagar a administração de um vínculo. Pobres pais! A verdade é que o fidalgo tinha as pernas inchadas, e prometia não incomodar muito tempo a sua família.
Passados os cinco meses aprazados, Cristóvão de Queirós desinchou ao contrário da Josefa da Laje. Parecia castigo um pouco zombeteiro! O estudante, quando recebeu esta nova com os parabéns do cirurgião, foi à terra; e, como disse já o minorista, expôs ao vigário o estado melindroso da rapariga, e pediu-lhe que os recebesse. Já sabem que o vigário denunciou ao velho o propósito do jovem doido que pensava envergonhar seu pai, não só descendente de Bernardo del Carpio, ilustríssimo galego, sobrinho d’el-rei D. Afonso, o Casto, mas também representante de Fernão de Queirós, castelhano que entrou em Portugal a servir el-rei D. Fernando contra o de Castela, – um renegado da pátria.
O fidalgo, quando tal ouviu mandou selar as mulas dos lacaios e pôr aos varais da liteira a parelha dos nédios machos. O filho recebeu ordem de acompanhar seu pai à corte, onde não havia corte nesse tempo. A surpresa abafou a reacção do moço; mas o velho, em todo o prumo da sua soberba, se o filho reagisse, iria à sua panóplia – que era um feixe de montantes e partazanas ferrugentas encostadas a um canto da tulha – e seria capaz de lhe meter um ferro de lança no degenerado peito! Assim fizeram sempre Queiróses, os bons, entenda-se; porque há em Portugal outros Queiróses, que não vêm de Bernardo del Carpio – o qual matou o rei dos Longobardos em Itália –, e estes fazem o que lhes parece, porque não são dos bons, nem têm diplomas de assassinos desde o século X (2).
Chegados à capital, o solarengo provinciano, sem consultar o filho, agenciou-lhe noiva entre as mais estremes do sangue germânico das Astúrias. Isto de esposas, quanto mais bárbaras na origem, melhores. Quem puder hoje provar, com trinta e seis quartéis, que seu trigésimo avô era celta, ibero, huno, vascónio, ou gépida, tem barrigadas de orgulho de raça; mas bom será que tenha doutras para a digestão. Os árabes eram inteligentes, civilizados e finos; porém vão lá filtrar em uma neta de Pelágio ou Cid uma gota de sangue muçulmano! É uma árvore podre, uma genealogia estragada; porque pode ser que alguma dessas Urracas, Ortigas ou Gelorias antigas passasse pelo harém do amir de Córdova, Al-horr-Ibn-Abdur-rahman-Ath-Thakefi, sujeito que foi muito amado pela melodia suavíssima do seu nome.
Não estava no rol das infelizes senhoras de raça mista a destinada esposa de António de Queirós. Era Teles de Meneses, mas dos bons, oriundos de uma D. Ximena, filha de Ordonho 2º, que fugiu ao pai com um cavaleiro, que a abandonou em um bosque donde a mísera foi dar ao sítio que hoje é Turgueda, na comarca de Vila Real, e aí casou com Telo, lavrador do casal de Meneses (3).
– Escolhi-te mulher – disse Cristóvão. – É ainda tua parenta por Meneses. Não é herdeira; mas o irmão morgado está ético, e o segundo-génito é aleijado e incapaz para o matrimónio. Virá ela portanto a herdar os vínculos. É preciso que a visites hoje comigo.
– Meu pai – respondeu António com respeitosa serenidade –, pode V. S.ª dispor da minha vida; mas do meu coração já eu dispus. Ou hei-de casar com uma rapariga de baixa condição a quem prometi, ou não casarei nunca.
O velho pôs a mão convulsa nos copos do espadim, arquejou largo espaço, e disse:
– Duvido que você seja meu filho. Proíbo-lhe que se assine Queirós de Meneses. Adopte o apelido de algum dos meus lacaios.
António levantou o rosto e redarguiu:
– Não se ultraja assim a memória de minha mãe.
O velho lutava entre a cólera e a vergonha. Estendeu o braço, e apontou-lhe a porta, rugindo:
– Espere as minhas ordens no seu quarto.
Ao outro dia, um mandado da regência ao intendente geral da polícia ordenava a prisão do cadete de cavalaria António de Queirós e Meneses no Limoeiro.


*

Josefa esperava confiada, mas aflita. Não sabia escrever, não tinha ninguém a quem pedir a esmola de uma carta. A mãe olhava para ela com atenção, mas sem desconfiança. Fazia-lhe umas perguntas da maior naturalidade, e inferia das respostas que a rapariga não estava sã. O cirurgião da terra, que matava pelo Portugal Médico e pelo Mirandela, receitava-lhe emplastos de ervas orjavão e semprónia, fervidas em um quartilho de aguardente. Ao fim de quatro meses, João da Laje, que matava o bicho todos os dias, e tão copiosamente como se tivesse no estômago a arca de todas as bestas-feras diluviais, queixou-se rusticamente das sangrias que sofrera o pipo. A mulher refilou; e, no apuro da sua indignação, bradou-lhe:
– Ainda eu te veja como está a rapariga!
– Salvo tal lugar! – retrucou. – Rebentada te veja eu a ti!
O cirurgião continuou até ao quinto mês; depois, sorrindo com certa velhacaria, tocou brandamente na face da doente, e disse-lhe a meia voz o que quer que fosse muito semelhante ao que uma comadre, pela boca de Gil Vicente, havia dito três séculos antes a Rubena:
Isto é cousa natural,
E muito acontecedeira,
Se nunca fora outra tal,
Disséramos que era mal,
Por serdes vós a primeira.
A vida íntima é cheia de passagens ridículas. A gente, que escreve casos tristes, se lhes não joeirasse a parte cómica, não arranjava nunca uma tragédia. Estava ali aquela desgraçada mulher sobre as brasas do seu suplício, e à volta dela a bruta vida de seus pais – ele a esconder o pipo da aguardente de medronho, a mãe a pisar a erva semprónia e a pedir sinceramente ao céu que lhe levasse o marido em uma das suas frequentes borracheiras.
Josefa já não saía da cama, a fim de evitar que a vissem. Expedia gritos de indizível angústia, estorcia-se em frenesins. Tinha alanceada a alma pelo tormento da desesperação. António de Queirós não chegava!
Um dia, porém, uma mulher não conhecida de Maria da Laje, muito velha e bem agraciada de semblante devoto, perguntou-lhe no adro, ao sair da missa, como estava a sua Josefa. A lavradeira disse mal humorada o que sabia da doença, e perguntou-lhe quem era. A curiosa respondeu que era de além-Tâmega, e viera àquela freguesia por causa de um sonho que tivera. E, dizendo isto, levou os olhos para o céu, e baixou-os logo para a terra com humildade de pessoa indigna das mercês do alto.
– Então que sonhou você, tiazinha? – perguntou Maria da Laje aconchegando-se da mulher com bastante fé.
– Em sua casa lho direi, pois que a sua casa é que venho.
E deixou cair uma das contas de pau preto, que, batendo na imediata do rosário, fez o soído de umas castanhetas.
Quando entraram no quinteiro, saía o lavrador da adega, onde pela terceira vez fora matar o bicho, aquela hidra de Lerna que botava cabeças todo o santo dia no bucho hercúleo de João da Laje. Vendo a companheira da esposa, perguntou-lhe:
– Quem é essa criatura, ó Maria?
– Que te importa? Se havias de ir à missa, ficaste a beber, borracho! Entre cá p’ra dentro, santinha.
– Guarde-o Deus, sr. João – disse a hóspeda.
– Vossemecê não é a Rosária, a mulher do Manuel Tocha, caseiro do sr. sargento--mor da Temporã? – perguntou João, infitando-se nela.
– Sou, sim senhor.
– Valha-a o demo! Custou-me a conhecê-la! Você vem assim a modo de quem anda a pedir p’ra uma missa! Se quer beber, entre cá. Você parece esmaleitada, mulher!
– Deus lhe dê saúde; agora não é preciso. Vou cá dentro conversar com a sua companheira à conta dumas meadas.
– Meadas? Vocês lá as arranjam... – disse ironicamente João, ao que a mulher retorquiu:
– Vai-te deitar.
Ele não se ofendeu, porque, em verdade, foi-se deitar, como quase sempre ia, nos fenos do palheiro, onde tinha visões como nunca tiveram os narcotizados califas de Damasco, ressupinos em almofadas da Pérsia...
Entretanto, a mulher de Manuel Tocha revelava à mãe de Josefa que sua filha estava doente de morte, se lhe não acudissem...
– Tenho-lhe posto cataprasma de orjavão e semprónia, há quatro meses a eito todas as noites – atalhou Maria da Laje.
– Isso não lhe faz nada, é o mesmo que pô-las na barriga daquela cadela – e apontava para uma perdigueira que uivava, ouvindo tocar ao longe uma requinta.
– Raios partam a cadela! Isto é agouro! – exclamou a dona da casa, remessando- -lhe um canhoto às pernas com grande cólera.
– Sua filha está enfeitiçada, tia Maria – prosseguiu a outra.
– Eu já a levei ao sr. São Bartolomeu – contraveio Maria.
– O santinho tira o cão tinhoso, mas não desfaz os bruxedos – replicou Rosária Tocha. – Vamos ver se ainda lhe podemos valer.
– Deu-lhe p’ra inchar! – observou a mãe da enfeitiçada.
– Não qu’ele é isso quando o feitiço adrega de pegar d’ostrução – explicou suficientemente Rosária.
– Vejam vocês! – volveu a outra assombrada, cruzando os braços. – Quem ma tolheu?
– Isso agora! – e olhou para o tecto. – Vamos, leve-me onde a ela, que eu preciso requerê-la. Aqui levo as arrelíquias p’ra lhe deitar ao pescoço.
E mostrou dependuradas de um negalho surrado e sebáceo as seguintes, entre outras cousas cabalísticas: duas figas de azeviche, duas pontas de vaca loira, um canudinho de latão como um agulheiro, outro como um dedal, o sino-saimão aberto em placa de chumbo. Dizia ela que os canudos continham ossos das sete irmãs santas naturais de Basto, de S. Cucufate de Braga, de S. Pascásio, bracarense também, e de S. Rosendo, do Porto, cidade que ainda não deu outro santo, nem promete. E, exibidas as relíquias, acrescentou:
– Preciso ficar sozinha com a doente, e vossemecê enquanto eu lá estiver não me corte o ar, entende?
– Olhe que eu não sei o que vossemecê diz, santinha, lá disso de cortar o ar, salvo seja.
– Não abra a porta do quarto em que a tolhida estiver comigo, percebe agora?
– Ah! quanté isso, vá descansada. Feche-se por dentro no sobrado, que ninguém lá vai. Venha daí com Deus.
E, encaminhando a suposta benzedeira no sobrado alto em que estava a filha, entrou com ela e disse a Josefa:
– Aqui te trago a saúde, rapariga! Mal haja quem te meteu no corpo o feitiço! Tantos diabos o levem...
– Credo! Credo! – atalhou a benzedeira. – Vá vossemecê rezar sete salve-rainhas, e não fale no berzabum. Nada de chamar quem está quedo.

*

Fechada com Josefa, Rosária escutou à fechadura os passos da outra que descia; e, abeirando-se à doente assustada pela inopinada visita, disse-lhe com o maior e mais desbeato desempeno:
– Eu venho aqui com um recado do fidalgo novo de Cimo de Vila.
– Ele onde está? – exclamou Josefa em ânsias de alegria.
– O sr. Antoninho está preso em Lisboa.
– Ai, meu Deus! Preso!
– Não barregue, fale baixo, que, se nos ouvem, lá vai tudo com a breca. Eu lhe conto, Josefinha. O fidalgo escreveu de Lisboa ao filho do meu amo, que é o sr. sargento-mor da Temporã, a dizer-lhe que o pai o metera em ferros d’el-rei porque ele não quisera casar com uma menina de lá, e diz que o não tira da cadeia enquanto ele teimar que não casa. Olhe que diabo de homem, Deus me perdoe! E vai ao depois, o sr. Antoninho escreveu ao meu patrão novo a contar-lhe isto e aquilo e aqueloutro, p’r’aqui, p’r’acolá, e escreveu-lhe então a dizer-lhe que a sr.ª Josefinha estava nesse estado, e coisas e tal, como o outro que diz, que em bom pano cai uma nódoa. E vai depois o meu amo foi onde a mim, e contou-me resvés tudo, e até me leu a carta, que as bagadas me caíam quatro a quatro por esta cara abaixo (e alimpava a cara enxuta ao avental). Ó filha, as mulheres nasceram para os trabalhos! Não chore, criatura, que eu vou dizer-lhe ao que venho e vossemecê vai ficar alegre como uma levandisca. O meu patrão mandou-me chamar, leu-me a carta, e disse-me que viesse eu falar com vossemecê, custasse o que custasse, e lhe dissesse que fugisse quanto antes de casa e fosse ter à quinta do Enxertado, que é do sr. Antoninho, e lá seria recolhida pelo feitor até ele vir de Lisboa. Ora aqui tem.
– Pois sim – exclamou Josefa com exaltação e profundamente abalada. – Eu fujo amanhã, porque tenho medo que minha mãe me mate, se desconfia. O pior é que eu não sei o caminho para o Enxertado.
– Não tem que saber...
E explicou-lhe o trilho que devia seguir passadas as poldras do Tâmega; mas, para se não enganar, disse que mandaria o rapaz das cabras esperá-la na encruzilhada do Mato, ao pé da caixa das alminhas, e não descobrisse ela quem era ao rapaz, e que lhe dissesse somente: «anda lá».
Rosária embiocou o rosto no lenço, enfiou as camândulas no pulso esquerdo, e desceu as escadas. Maria da Laje saiu-lhe da porta da cozinha com a boca aberta e cheia de interrogações:
– Então?
– É o que eu lhe dizia, criatura – respondeu Rosária. – Pegou-lhe deveras; mas tem cura. Vá vê-la que já não parece a mesma; tem outro doairo na cara, está com uma pele de rosto que parece uma rosa, benza-a Deus!
– Pois ela sãzinha e escorreita é como não há muitas; e então virtude? Isso é que nenhuma, nem na mais pintada! As outras por aí na freguesia todas têm rapazes que lhe rentam, e algumas... sabe Deus o que elas fazem. Cala-te boca! (e, estendendo os beiços, esbofeteava-os). A minha Josefa nunca tolejou tanto como isto.
Andaram aí atrás dela os fidalgos de Agunchos, a mais os filhos do sr. capitão-mor, Deus lhe fale na alma, que é um que dizem que anda a penar na Agra, vossemecê há-de ter ouvido dizer...
– Sim, sim, Deus o despene!
– Pois é verdade, e a rapariga teve bons casamentos falados, e lá quem na tirasse das suas devoções, de ir lavar ao rio e de guardar as ovelhas era matarem-na. Pois olhe que esses feitiços são invejas das desavergonhadas que não podiam levar à paciência a virtude da minha Josefa. Havia de ser a brejeira da Rosa da Fonte e aquela tinhosa da Bernarda do Manel Zé! Cala-te, boca! Enfim, vossemecê agora há-de mastigar um bocado de presunto para beber uma pinga do velho.
– Deus lho acrescente, sr.ª Maria: eu jejuo para ganhar o jubileu. Vou-me indo que são horas. Adeusinho, se for preciso que eu cá torne, não tem mais que mandar-mo dizer.
Maria galgou as escadas, e foi topar a filha sentada na cama a desengrenhar os seus loiros e bastos cabelos com uns meneios largos de braços e um atirar de tranças para trás que parecia uma alegre amante a pentear-se para ver passar o noivo amantíssimo.
– Ora ainda bem! – exclamou a risonha velhota. – Foi o meu padre Santo António que trouxe cá a santa da mulher! Vais-te prantar a pé, rapariga? Há cinco semanas, fá- -las amanhã, que não sais desse ninho! Queres tu comer? Vou-te buscar uma tigela de caldo, uma posta de presunto e um pichel de vinho. Bebe-lhe, cachopa, e mal hajam as invejosas que te fizeram a mandinga. Hão-de roê-la! Sabes quem foi?
– Quem foi o quê, senhora mãe?
– Quem te fez o feitiço? Ninguém foi senão a Bernarda do Manel Zé que te veio aqui pedir um dia – lembras-te – o teu jaqué amarelo com botões azuis. Foi para te fazer o feitiço no jaqué.
– Àgora foi, coitada da pobre rapariga que é tão boa! – contradisse Josefa.
– Então quem foi? – interpelou a mãe com azedume. – Quem foi?
– Eu sei lá, senhora mãe! Quem foi o quê?
– A mulher que aqui esteve contigo não te disse que era feitiçaria o teu mal?
Josefa, caindo em si, respondeu balbuciante:
– Ah! sim, isso disse ela, mas...
– Mas quê? Não foi outra senão aquela tísica que não quer que haja outra mais bonita na freguesia. Pões-te a pé ou não?
Josefa, com o pente na mão direita descaída e inerte, e a cabeça encostada à mão esquerda, sentia-se como cansada, esvaída de alento, e esmorecida como se o súbito incêndio de felicidade fosse um lampejo de estopas que se inflamam e nem faúlhas deixam. É que ela nesse momento sentira uma dor física, desconhecida, não forte, mas acompanhada de um calefrio. A mãe, vendo-a mudar de cor, atribuiu o desmaio à fraqueza, e correu a trazer-lhe uma farta malga de caldo fumegando por entre uma floresta de couves recheadas de feijões vermelhos. Quando entrou no quarto, viu a filha fora da cama, vestindo as saias com agitação febril, e chamando Jesus, com os dentes cerrados.
– Que tens tu, mulher? – exclamou a mãe.
– Estou aflita, muito aflita! Jesus, valei-me! – dizia Josefa entre gemidos, sentando-se, erguendo-se, e fazendo até uns gestos diante da mãe como se quisesse ajoelhar-se-lhe com as mãos erguidas.
– Que tens, mulher? – bradava a mãe, seguindo-a espavorida naqueles trejeitos frenéticos. – Dói-te alguma coisa?
– Tenho uma dor muito grande... muito grande...
E, como levasse as mãos aos quadris no ímpeto da dor aguda, a mãe quedou-se como estupefacta a olhar para ela. Neste instante fez-se-lhe luz na alma a um clarão infernal. Aqueles gritos e contorções recordaram-lhe que havia sido mãe: viu, como nunca vira, os sinais exteriores do crime nem sonhado; os modos suplicantes da filha confessavam o crime.
Fez-se uma desfiguração improvisa e medonha nas feições de Maria da Laje, quando, crescendo para a filha, com as mãos fincadas nas fontes, bramiu:
– Tu que tens? Tu que fizeste, amaldiçoada?
Josefa ajoelhou-se, com as mãos no rosto lavado em lágrimas, e murmurou:
– Deixe-me chorar, minha mãe, que eu à noite vou-me embora.
– Vais-te embora, malvada? Então p’ra onde vais tu? Morta te veja eu antes de à noite! P’ra onde queres tu ir? Quem foi que te botou a perder? Respondes, mulher perdida? Olha que se me gritas de modo que alguém oiça, dou-te com o olho de uma enxada na cabeça! Pois tu! Pois tu!... Ai que eu endoideço! ai que eu endoideço!...
E, com as mãos na cabeça, partiu a fugir escada abaixo, e foi sumir-se no palheiro, dando gritos com a cabeça metida no feno para os abafar.
Entretanto, João da Laje, entrando à cozinha para jantar e não vendo ninguém, foi bater à porta da filha.
– Que é de tua mãe, rapariga? – perguntou de fora, porque a língua da chave estava corrida.
– Não está aqui, sr. pai.
– Hoje não se come? Cá vou ver o que está na panela: quando ela vier, diz-lhe que eu cá m’arranjei.
E, de feito, extraindo do pote um naco de toicinho com que fez uma enorme e pingue sanduíche entre duas talhadas de broa, foi para a adega, sentou-se ao pé da cuba, e murmurou: «Aguenta-te, João, que tua mãe não faz outro».
Este homem tinha em si algumas faíscas do génio de Diógenes, um tudo-nada do espírito de Epicuro, e o mais era espírito de vinho. Viveu assim largos anos, reformando-se sempre para pior, e morreu aos 80, como lá dizem, coberto de musgo, que era o sarro interior que lhe porejava na casca. Com alguma sentimentalidade no coração e frugalidade no estômago, morreria na flor dos anos.

*

Com toda a certeza, Maria da Laje sofrera punhalada que rasga profundas fibras em peitos de mães honradas. Era dura de condição, tinha o orgulho selvagem da honra, compreendia barbaramente o dever da mulher, e julgava-se com direito a murmurar de todas as frágeis, sem discriminar as infelizes. O seu ódio às mães tolerantes com os desatinos das filhas era entranhado, convicto e implacável. Da caridade cristã só entendia o preceito da esmola. O confessor não lhe ensinara outra interpretação da terceira virtude teologal. Não perdoava cegueiras de amor porque não amara nunca. Se imaginava que a filha podia desvairar uma vez, sentia nas mãos as crispações nervosas de quem estrangula um pescoço. Como era deslinguada e mordacíssima nas fraquezas alheias, impunha tacitamente à filha o dever de a sustentar na sua soberba inexorável. Uma ligeira camada de verniz social não sei o que faria desta mulher. Ainda um destes dias contavam as gazetas de uma ilustre dama parisiense que matou a ferro frio uma neta que conspurcara a sua raça em amores abjectos. Em tempos tenebrosos, os mosteiros portugueses eram o dragão com os colmilhos abertos para esta espécie de vítimas que os pais lhe atiravam: se o cubículo claustral as não amordaçava, havia o tronco, a enxerga e a fome; depois a sepultura; mas o brasão limpo. Se há inverosimilhança na crueldade das mães como Maria da Laje é lá onde são raras as que podem ler às filhas o livro da sua vida honesta.
Ao entardecer daquele dia de Agosto, a mãe de Josefa, segundo o marido contou ao vigário na cangosta do Estêvão, foi levada em braços para a cama; e, naquele lance, João, ouvindo dizer que o pegureiro perdera uma rês, deixou a mulher a escabujar no catre, e foi interpelar o rapazinho, reclamando-lhe a cabra ou os fígados.
Ao mesmo tempo, Josefa era mais um dos inumeráveis exemplos da força prodigiosa da mãe, quando a soledade e o desamparo a obrigam a socorrer-se de si mesma. Ninguém lhe ouviu os últimos gritos dela nem os primeiros vagidos da criança. Quem ler, em um tratado de obstetrícia, as regras, conselhos e desvelos que a ciência agrupou à volta de uma puérpera, e souber da inutilidade da arte e dos preceitos, quando o infortúnio ou o acaso interceptam o menor auxílio à mãe, nivelando-a nesse lance às espécies irracionais, convence-se de que a mulher do período quaternário (vou assim longe porque na Bíblia se conhecem de nome as parteiras Séfora e Fua) não carecia de mais assistência que a loba das cavernas. E observa também que os encarecimentos e demasias da arte a enfraqueceram e melindraram, privando-a da confiança pessoal, da consciência da força própria e de algum modo estorvando as influências directas da natureza.
Josefa, quando descia de manso a escada do seu quarto, amparando-se à parede, trazia debaixo do braço um berço com o filho; era o mesmo berço em que a mãe a criara, uma canastrinha de verga urdida tão densa e solidamente, e com o fundo fasquiado de madeira tão impermeável, que poderia estancar a água sem transudar. Um saiote de baeta dobrado envolvia a criança, deitada sobre a velha enxerga de serradura.
A mãe era robusta; sentia-se esvaída, mas contava consigo, se tomasse algum alimento. Na cozinha não estava ninguém quando ela atravessou de passagem para o quinteiro. Olhou para a lareira a ver se acharia um pouco de caldo. Não o queria para si; era para o converter no leite da sua filha. Pousou o berço no escano; ia levantar o testo do púcaro; mas neste instante ouviu os brados da mãe, cuja cama era na tulha, no mesmo plano da cozinha. Estremeceu, cuidando que fosse apanhada; pegou da criança, e fugiu, lançando a saia de pano azul pela cabeça, e apertando o berço contra o peito.
O seu destino era o abrigo que o pai da sua filha lhe dera. Da parte de além- -Tâmega, logo à ourela do rio, pediria que a fossem guiar no mau caminho da grande légua que a distanciava da quinta do Enxertado. Lembrou-se de José da Mónica, o pastorinho que lhe era muito afeiçoado; mas, ao atravessar o quinteiro, ouviu a voz do pai a praguejar contra o rapaz, que perdera a cabra. A Brites do Eirô reconheceu-a a saltar para o campo da Lagoa; o pescador da chumbeira ouviu-a chorar na cangosta do Estêvão, quando amamentava a criança, e lhe parecia que a filha, não achando leite, se lhe estirava hirta nos braços como morta. Atormentavam-na dores outra vez, e sentia-se torvada, desfalecida e sem forças para transpor as poldras, que não estavam perto. Havia de atravessar o ervaçal que o moleiro e o pastor percorreram um quarto de hora depois. Quando ouviu vozes, ao longe, no alto da barroca, ergueu-se cambaleando, saltou a vala, invocando o auxílio das almas benditas. Era o Luís moleiro que vinha descendo com o rapaz. Ao avistar as poldras que alvejavam puídas e resvaladiças ao lume d’água, teve vertigens, e disse entre si: «Eu vou morrer». Pôs o berço à cabeça, esfregou os olhos turvos de pavor, e esperou que as pancadas do coração sossegassem. Depois, benzendo-se, pisou com firmeza as quatro primeiras pedras; mas daí em diante ia como cega; a corrente parecia-lhe caudal e negra. Quis sentar-se em uma das poldras; e, na precipitação com que o fez para não cair, escorregou ao rio. A água era pouca, e a queda de nenhum perigo; mas o berço caiu na veia da corrente, que era bastante forte para o derivar. Quando ela estendeu o braço já o não alcançou. Arremessou-se então ao rio; mas os altos choupos da margem, encobrindo a baça claridade das estrelas, escureceram o berço. Neste lance, perdido o tino, a desgraçada cortou de través para a margem, onde um claro de areia se lhe afigurou o berço.
Quando aí chegou, caiu; e, na queda, agarrou-se ao esgalho do salgueiro em que o pastor e o Luís moleiro a encontraram moribunda.
Sabem os sucessos posteriores, desde que ela expirou nos braços do veterano até que o escrivão do juiz ordinário nos deu o exemplo da dissecção daquele cadáver. Viram que Maria da Laje, rompendo sozinha pelo escuro da noite, quando ouviu dizer que a filha se afogara, foi mãe naquela já tardia explosão de angústia e amor. O remorso pôde mais com ela que a selvajeria da sua virtude; mas ainda viveu seis anos com reveses de demência, e morreu em casa de seus irmãos em Santa Maria de Covas de Barroso, repelindo o marido desde que lhe ouvira dizer: «A rapariga faz-me falta porque não tenho quem me governe a casa».

*

António de Queirós soube no Limoeiro, por carta do seu amigo da Temporã, que Josefa de Santo Aleixo se suicidara no mesmo dia em que ele conseguira enviar-lhe o aviso para a fuga. O informador, espantado do sucesso, atribuía à demência repentina a resolução da infeliz que ainda na manhã desse dia se mostrara contentíssima com a deliberação da fugida para a quinta do Enxertado.
O vigário de Santa Marinha também avisou Cristóvão de Queirós do suicídio da rapariga. O fidalgo conferenciou com a regência, e o intendente geral da polícia mandou passar alvará de soltura ao cadete de cavalaria.
– Vamos para a província, se não quer casar – disse Cristóvão ao filho.
– Nem caso nem vou para a província, meu pai – respondeu António de Queirós.
– Tornará para o Limoeiro.
– Irei já enquanto lá tenho a minha bagagem.
– Para onde quer ir?
– Para o Rio de Janeiro: seguirei lá a vida militar.
– Sabe que é o sucessor dos meus vínculos?
– Disponha V.ª S.ª deles se quer e se pode; a mim me bastariam a felicidade, a mocidade e a alegria que me matou.
– Com quem cuida você que fala? – interpelou o fidalgo com Bernardo del Carpio às cavaleiras que lhe esporeava as ilhargas com o direito de avô.
Afuzilavam-lhe os olhos, como ao seu antepassado quando matou o rei dos longobardos em Itália.
– Com quem cuida você que fala? – repetiu o convulso velho.
– Com V.ª S.ª, um homem que eu sinceramente temo, porque tem a minha liberdade e o Limoeiro à sua disposição.
– Não é meu filho! Vá para o Brasil, vá para onde quiser. Sua mãe teve cinco mil cruzados de dote. Dessa sei eu que você é filho. Recebê-los-á hoje, e amanhã partirá.

Segunda parte

Francisco Bragadas, o timorato pescador de chumbeira, despedindo-se do moleiro, com certas apreensões agoirentas, teria dado trinta passos rio abaixo com a rede já enrolada, quando ouviu no recanto escuro ou angrazinha da corrente, que espraiava para dentro de um algar, o choro abafado de uma criança. À primeira esfriou de medo; mas esperou a reacção do bom senso. Pé ante pé, acercou-se do lugar sombrio donde vinha a toada incessante daquele ríspido chorar. Ele, que era pai de muitos pequenitos, não podia confundir os vagidos de um menino com os guinchos das desdentadas bruxas, as quais, por via de regra, costumam cacarejar casquinadas de riso quando lavam nas claras águas das ribeiras os seus indecentes arcaboiços.
Estendendo a mão, tocou na face tépida da criança. O berço quedara-se enleado na ramagem de um salgueiro vergado pelo peso de uma rede ou pardelho, como lá dizem, que dali, atado nele, atravessava para a margem da Ínsua, – um bosque de choupos assim chamado. As bóias arfadas pela corrente chofravam nos flancos do berço. Francisco Bragadas exclamou levantando a canastrinha:
– Oh! Pobre menino! Atiraram-te ao rio! Ainda eu mais verei neste mundo? – E, apalpando-lhe o corpo por baixo do saiote, disse maravilhado: – E nem sequer está húmido! Isto é milagre!
Como a chumbeira lhe pesava, escondeu-a em uma lura do valado, e deitou a correr para casa, com o berço debaixo do braço.
A mulher de Bernardo, sentada à porta da cozinha, embalava uma filha com o pé, enquanto amamentava a mais nova.
– Cá tens mais um, mulher! – disse ele, quando a avistou.
– Um quê, homem?
– Um crianço que pesquei no rio.
– Tu estás tolo, Bernardo?
– Aqui o tens tal qual o topei engasgalhado num amieiro, berço e tudo. Olha que desgraça, ó Isabel!
A mulher benzeu-se; foi buscar a candeia; convenceu-se que era uma criança viva, pôs as mãos, olhou para o céu com profunda mágoa, e exclamou:
– Ó homem, o mundo está a acabar!
– Dá-lhe o peito quanto antes, senão o mundo acaba-se para ele. Aqui to deixo, que eu vou contar aos fidalgos este caso.
– Ai! – exclamou ela examinando a criança – É uma menina e ainda não tem cortada a invide!
Queria dizer que ainda não estava ligado o cordão umbilical. Isabel tinha a ciência prática da mãe de onze filhos, todos nascidos sem mais auxílio que o do seu homem e o da sua serena coragem naquele acto. Confessava-se na véspera, comungava de madrugada, e depois, com o maior sossego de alma e muita conformidade com as dores, matava uma galinha e dizia ao marido:
– Vamos a isto, Bernardo.
Depois, lá prestava os cuidados à criança, ela mesma a lavava, não na queria enfaixada; dava-lhe aos braços toda a liberdade, todo o alento aos pulmões. Era como as mulheres de Israel, de quem as parteiras egipcíacas diziam ao Faraó: «As mulheres de hebreus não são como as dos egípcios; porque elas mesmas se sabem partejar, e, antes de nós chegarmos, parem» (Bíblia, Êxodo, cap. 1º, vº 19). E, dois dias depois, mandava o homem para a lavoura, e ela ia para a labutação da cozinha, dos cevados, da maceira, com umas cores rosadas que parecia uma noiva na véspera de ser esposa.
O caseiro atravessou um campo de hortas e pomares na extrema do qual estava a casa nobre, onde os fidalgos de Santa Eulália costumavam passar o estio para se banharem no Tâmega.
Esta família era do Arco de Baúlhe, gente nobre e antiga. Duas senhoras de outros tempos com seu irmão desembargador aposentado, homem erudito em história pátria, sabendo de cor a Monarquia de Brito. Estava hóspede na casa o cónego de Braga João Correia Botelho; ainda frescal, grave, falava muito no Pentateuco, e asseverava que o primeiro e mais verídico historiador do género humano fora Moisés – asserto que ninguém lhe contestava. D. Maria Tibúrcia e D. Maria Filipa eram solteiras. Passavam dos cinquenta, idade em que o sexo principia a descaracterizar-se, período equívoco em que a mulher, se não tem filhos que lhe afirmem uma serventia retrospectiva, parece que foi sempre assim, uma coisa melancólica, embalsamada, e presa à bisca sueca pelo espírito e à caixa do esturrinho de 1813 pelo nariz.
Haviam sido feitas de modo e feitio pouco vulgar, mas muito honestas, posto que não antipatizassem com Cupido. Gostavam de alguns sujeitos que fingiram ignorar o sentimento involuntário que acendiam. Elas tinham fogo latente no peito; mas, por causa da má cara que possuíam, tornaram sagrado aquele fogo de que elas mesmas eram as vestais. Para estas senhoras não tinham significação estas palavras do padre Manuel Bernardes: «Mui íngremes e costa arriba são as veredas da castidade!» Eram castas estas duas irmãs como as melancias são frescas e os tremoços sensaborões: – era o seu feitio e a sua natureza. Na folha de inventário cabia a cada uma dez mil cruzados; porém, nunca exigiram quantia notável de seu irmão, senhor de grandes prazos, o doutor Teotónio de Valadares, que também era solteiro, mas menos casto que as manas. E era isso não pequeno desgosto para elas. O mano doutor tinha servido lugares de magistratura, desde juiz-de-fora até corregedor, em várias comarcas, e por todas elas deixara prole ilegítima. Umas filhas eram freiras franciscanas, outras eram mães; alguns filhos seguiam as letras, outros as armas: tinha filhos para todos os ofícios e artes. Era o D. Sancho povoador de seis comarcas, mas povoador de sua lavra, moto próprio e propagação pessoal.

*

Quando o caseiro, a deitar os bofes pela boca, apareceu a dar notícia do achado da criança no Tâmega, estavam as senhoras e mais o cónego e o irmão a jogar a sueca. Largaram as cartas a um tempo. O cónego ergueu os óculos de tartaruga para a testa, e exclamou:
– Parece um caso bíblico!
– Há factos análogos na história da Lusitânia – observou o desembargador, recordando-se.
Enquanto os dois pilares da história sagrada e profana porfiavam em erudições respectivas ao caso, D. Maria Tibúrcia disse ao ouvido de D. Maria Filipa:
– Olha que isto é marosca, mana!...
– Marosca?
– Sim. Deixemo-nos de tretas... A criança é filha do mano Teotónio.
– Credo! Tu que dizes, mana Tibúrcia? O mano doutor não mandava atirar ao rio a criança...
– Isso sei eu; mas arranjava esta comédia com o caseiro. O Bragadas vem ensaiado por ele, e talvez pelo cónego.
– Eu sei! – duvidou a outra. – O mano Teotónio não precisava de estar com estas endróminas... E quem há-de ser a mãe?
– Faltam elas por aí...
– É necessário – disse o cónego Botelho – baptizar a criança amanhã, que não vá ela morrer, que é o mais natural. Madrinha há-de ser uma de vossas senhorias, minhas senhoras; padrinho há-de ser o sr. desembargador.
– Prontamente! – anuiu o doutor Teotónio.
– Vês? Não é ele o pai – disse D. Maria Filipa à irmã a meia voz.
– Será ele o cónego? – redarguiu D. Maria Tibúrcia.
– Não sejas má língua! Olha quem! Coitado do homem...
– Então qual é madrinha? – perguntou o padre.
– Pode ser a mana Filipa – disse a outra.
– Serão vossas senhorias ambas, porque madrinhas têm lugar de mães, ou mãezinhas, que é o diminutivo de madres, mães.
– Matercula, de mater – acrescentou conspicuamente o doutor.
– Isso – confirmou o cónego, enquanto as duas irmãs estavam a ver se percebiam o modo como eram mães por um figurado esforço de latinidade.
– E na qualidade de mães substitutas que o sacramento lhes confere, visto que a recém-nascida não tem mãe conhecida, tem de ficar a criança a cargo de seus padrinhos, pois que o Francisco Bragadas tem onze filhos... – acrescentou o cónego.
– Serão doze – atalhou o agricultor – mas, se vossas senhorias tomarem conta da enjeitadinha, boa esmola lhe fazem.
– Sim, Francisco – disse o desembargador –, tomaremos conta da enjeitada. Amanhã iremos a S. Salvador baptizá-la.
O caseiro saiu alegre, a pensar que Deus lhe olharia pelos seus pequenos, em paga de ele acudir àquela criança que, depois de baptizada, se morresse, já teria asas que a levantassem até ao paraíso. Ele não era teólogo, nem conhecia o limbo.
– Como há-de ela chamar-se? – perguntou o cónego.
– Maria, já se vê – respondeu D. Tibúrcia. – A mana é Maria.
– Bem sei, minha senhora; mas há-de acrescentar-se-lhe um sobrenome indicativo da circunstância em que foi encontrada, num berço sobre o rio. Muito bem sabe o sr. desembargador o que a Bíblia refere. O ímpio Faraó mandara matar as crianças do sexo masculino, dizendo: «Lançai ao rio todo o que nascer macho, e não reserveis senão as fêmeas».
– Sim – conveio o desembargador –, vai o cónego contar-nos o caso de Moisés.
– Justamente, Moisés foi achado no rio, e vinha à flor da corrente deitado num berço. Parecia-me, portanto, que a menina se chamasse Maria Moisés, em comemoração de tão estranho sucesso.
– E porque não há-de chamar-se Maria Ábidis? – perguntou o doutor.
– Ábidis?! – disse o padre invocando a memória. – Que é isso de Ábidis?!
– É um caso semelhante da história portuguesa, sr. cónego. Leia, leia o meu Bernardo de Brito. Não lhe tenho eu dito cem mil vezes que a nossa história é um tesouro de ricos acontecimentos aplicáveis filosoficamente a tudo quanto há mais extraordinário?! Eu lhe conto de memória: e, se ela me falhar, irei buscar o tomo I da Monarquia Lusitana, que é livro que nunca me larga. – E, tomando do esturrinho de D. Tibúrcia, continuou com ênfase: – Górgoris, rei da Lusitânia, no ano 2806 da criação do mundo, foi o inventor do mel.
O cónego sorriu-se.
– O senhor ri-se – acudiu o doutor.
– Eu cuidei que o inventor do mel houvesse sido o inventor das abelhas – explicou o padre.
– Essa não me parece de homem que lê! Esse casaco que o senhor tem vestido quem o inventou? Quem é que inventou os casacos, pergunta a minha curiosidade.
– Eu não sei.
– Se o cónego quer que o inventor do mel haja sido o inventor das abelhas, responda que o inventor dos casacos foi o inventor dos carneiros que dão a lã dos estofos.
– Tem razão – conveio ironicamente o cónego. – Vamos à história de Górgoris.
– Que por inventar o mel se chamou o Melícola.
– Meli e colo: não o inventou, cultivou-o: são coisas diversas – reguingou o padre.
– Inventou, de invento – eu acho. Achou-o.
– Ai que fazem sono à gente com a seca dos latinórios!... – atalhou D. Maria Filipa. – Vá, mano, conte lá a história.
– É melhor – obtemperou o hóspede. – Eu não interrompo mais seu mano, minhas senhoras.
– Interrompa quanto quiser, que eu cá estou. O rei da Lusitânia Górgoris teve uma filha que se apaixonou por um homem de baixa extracção. O que denunciou estes amores foi, diz Bernardo de Brito, em uma palavra de cunho português de lei, foi a «emprenhidão».
– Credo! Que palavra! – exclamou com engulho D. Maria Tibúrcia.
– Não parece palavra de pessoa eclesiástica! – notou a outra senhora não menos escandalizada.
O mano Teotónio, como tinha piscado o olho direito ao cónego, ria-se; e o cónego, com a maior gravidade, disse:
– Minhas senhoras, os antigos faziam as coisas e diziam-nas; hoje em dia a civilidade não permite dizê-las. Ande lá com a filha de Górgoris, sr. desembargador.
– Deu ela à luz um menino, que o avô deitou às feras; e, como as feras o não comessem, atirou-o ao Tejo. Foi o menino encontrado no sítio que hoje chamam Santarém; e, como quer que uma corça lhe desse o primeiro leite, chamou-se o menino Ábidis, e daí veio chamar-se ao lugar Esca Abis (manjar de Ábidis), e, corrupto, Scalabis, etc.
– Tudo isso me parecem vocábulos corruptos e interpretações corruptíssimas, –objectou o cónego Botelho – e, ainda que as entendesse, fábulas de Brito não me engodam. Esse frade, se não inventou o mel como Górgoris, inventou Laimundus, e Mestre Menegaldo e Pedro Aládio, que existiram tanto neste mundo como o tal Ábidis. Enfim, sr. doutor Teotónio de Valadares, permita-me que eu repugne a que a enjeitada tenha um sobrenome procurado na fábula (4) .
Quando os sinos de S. Salvador festejavam com três repiques o baptizado de Maria Moisés, os sinos de S. Aleixo dobravam a finados. A criança saía da pia baptismal, ao mesmo tempo que o esquife da mãe, posto no lajedo da igreja, entre quatro círios, era responsado por alguns clérigos que franziam os narizes ofendidos dos miasmas da carne podre. A opinião dos padres e dos assistentes ao ofício era que a suicida praticara aquele crime porque devia ter chagas de lepra que a corroíam. O vigário consentia que a enterrassem em sagrado, porque a moribunda, segundo o testemunho do moleiro, pedira fervorosamente a confissão.
Quando a família de Santa Eulália ia a caminho de casa com a afilhada, o cónego, ouvindo além-Tâmega o tanger a finados, disse:
– Uns nascem e outros morrem... Não saberei eu dizer quais são os mais felizes...
– Eu cá por mim antes queria nascer que morrer – disse D. Maria Tibúrcia com a energia explosiva dos dizeres sentenciosos e finos.
Conversaram a respeito da enjeitada, até toparem um homem de Santo Aleixo a quem perguntaram quem lá morrera. Contou ele que se deitara ao rio a filha do João da Laje.
– A Josefa? – perguntou Isabel, a mulher do Bragadas que levava a menina. – Você que me diz, homem? A Josefa, que era a virtude em carne e osso! E então bonita, fidalgas? Faz p’rá semana santa dois anos que ela foi de Madalena na procissão do enterro. Ai, senhoras, que eu não quero que haja mais lindo anjo do céu!
– Por que se matou ela? – perguntou o desembargador.
– Saberá vossa senhoria que até esta manhã não se dizia nada ao certo. Uns diziam que ela não podia aturar o pai que, com licença de V.as S.as, é um bêbedo.
– Eu dou licença – disse o cónego rindo.
– Outros – prosseguiu o informador – dizem que lhe subira o flato ao miolo; mas o que por lá corria agora é que ela... Enfim, morreu, acabou-se... Deus lá sabe.
– Mas que é que dizem? – instou o doutor.
– Enfim, V.ª S.ª manda... O que dizem é que aí pelo verão ia por lá um fidalgo... O sr. Antoninho de Cimo-de-Vila...
– Não queremos saber disso... Misérias, misérias... Vamos embora... – atalhou D. Maria Tibúrcia.
– E abandonou-a? – perguntou o cónego.
– Nada; o que dizem é que o fidalgo velho meteu, à conta dela, o filho no Limoeiro, e ela então, isto é o que dizem, atirou-se ao rio. Eu digo o que ouvi, que eu não sei nada... Sim, eu não sei se isto que dizem se assim é nem se não é. Deus lá sabe.
O desembargador foi discorrendo acerca da corrupção dos costumes, que atribuiu a Voltaire, a Rousseau e a Helvetius, posto que nunca os lesse, o que ele confessava com honrada jactância. Deu como prova da corrupção das aldeias um suicídio e uma tentativa de infanticídio no mesmo dia e na área de um quarto de légua. Fez ao propósito reflexões políticas e até proféticas. Previu o advento monstruoso das ideias jacobinas. Disse que, na qualidade de desembargador, lavraria a sentença de morte dos portugueses que militavam na França com o tigre da Córsega. Citou os generais portugueses que deviam ser enforcados; e, num rapto de vidente, exclamou:
– Quem viver dez anos há-de ver caída a inquisição, ó sr. cónego!
– Deixá-la cair – disse o padre.
– Deixá-la cair? E a fé?
– Qual fé? A estátua que está no frontal da Inquisição no Rossio? Deixá-la cair também, contanto que nenhum de nós esteja debaixo.
– Falo na fé, no dogma, sr. cónego!
– Ah! Isso é outra coisa... Cuidei que me falava da Fé de pedra, sr. desembargador (5).

*

Este cónego, cujo retrato eu vi há dias, em Braga, na galeria dos benfeitores do hospital de S. Marcos, não era, como se vê, um estrénuo defensor do Santo Ofício, nem acreditava nas invencionices de Bernardo de Brito, mas dava aos pobres inválidos e enfermos parte de suas rendas e estimulava, como há pouco presenciámos, a caridade dos seus hospedeiros amigos, em benefício da enjeitada. Folguei de ver aquele ridente aspeito em que reluzem uns olhos sagazes, posto que já desvidrados pelo puir dos setenta anos. Estava ao pé de mim o nonagenário provedor da Misericórdia que me disse ter ainda conhecido aquele alegre ancião com a sua cabeça veneranda à gelosia de uma casinha na rua d’Água. Foi ele quem recolheu no convento das Teresinhas de Braga, aos quinze anos, Maria Moisés, quando já eram falecidos o desembargador, e uma das irmãs, a madrinha da enjeitada.
Pelo que respeita a D. Maria Tibúrcia, não sei se me acreditam, mas a minha obrigação é atirar para aí com as pérolas da verdade sem me preocupar com o destino delas. D. Maria Tibúrcia, preenchidos os cinquenta e sete anos, casou com um mancebo, que estudava teologia moral com tanta incapacidade, que preferiu D. Tibúrcia com 10.000 cruzados ao Mestre Larraga com a ciência do céu. Este moço fazia sonetos e madrigais. Conhecia toda a simbólica das flores; mas não as comia como Esdras, a única pessoa, que eu saiba, que se sustentou catorze dias de flores. Manducabis solummodo de floribus, disse-lhe o anjo; deu-se bem o florífago, e – acrescenta Isidoro de Barreira – tornou a comer outros sete dias flores, e a sustentar-se (6). A idiossincrasia do marido de Tibúrcia não eram flores; eram boi e leitão, frigideiras de Braga e morcelas de Arouca.
O desembargador quis pôr a irmã por demente; mas ela, que perfazia quatro emancipações completas, não lhe refilou os dentes, porque os não tinha, mas safou-se de casa e desmaiou cheia de pudor e denguice nos braços do seu bardo e marido.
A outra, D. Maria Filipa, injuriou-a até ao extremo de lhe dizer, cara a cara:
– Estás uma carcaça e queres casar! Não tens vergonha! Põe um cáustico nessa cabeça, doida!
Depois, fez testamento, e deixou 5000 cruzados a sua afilhada Maria Moisés, representados na quinta de Santa Eulália, na margem direita do Tâmega.
O tutor e director da recolhida, o cónego Botelho, desejou residir um verão na quinta de Santa Eulália para repassar tristemente na memória os vinte estios que aí folgara com o seu amigo Teotónio e com as duas irmãs, que ele, em dias de alegre humor, chamava as duas biscas, como quem diz que só tinham préstimo para a sueca. Maria, a herdeira da quinta, acompanhou-o, resolvida a não tornar para o convento. Ideara um viver muito diverso do monástico. Não podia conventualmente exercitar umas estranhas humanidades que lhe agitavam o coração desde que sua madrinha lhe legara recursos para as realizar.
Assim que chegou a Santa Eulália revelou ao cónego o seu pensamento: era criar meninos enjeitados!
Era bom e caridoso o padre; mas achou tão original e extravagante aquela ideia em uma menina de dezoito anos, que lha desaprovou em termos enérgicos. Sabia o cónego que uma anónima viúva francesa abrira um asilo de expostos perto de Saint- -Landry; não ignorava que uma respeitável matrona, Isabel Lhuiller, auxiliara S. Vicente de Paulo em dar abrigo às crianças abandonadas; mas uma menina solteira a lidar com enjeitados afigurou-se-lhe exercício menos consentâneo com a pureza e candura de anos tanto em flor. Além disso, Maria Moisés, sozinha, sem família, sem auxiliares, e desprovida de recursos bastantes, em que espécie de serviço aos enjeitados empregaria a sua caridade? Indo buscá-los à roda para os criar em sua casa? Assoldadando amas para a criação física e mestres para a criação moral? Mestres para as letras e para os ofícios? Em que veios de imaginário ouro se alimentara esta utopia que poderia ser virtuosa se não fosse indiscreta?
Ela ouviu silenciosa o cónego, depois de muito instada a explicar o seu propósito, e disse singelamente:
– O meu desejo é dar aos enjeitados a caridade que eu recebi.
– Mas tencionas procurá-los?
– Isso não; espero que a divina Providência os leve onde eu estiver.
– És uma virtuosa criança, Maria – replicou o padre – mas vieste tarde à procura dum mundo que passou. Exercita a caridade quanto as tuas forças to permitirem; porém, não vás além do que te rende esta quinta. Oito carros de milho, quatro pipas de vinho e dez almudes de azeite é o teu rendimento. Contam-se milagres de multiplicação que talvez se possam repetir no teu pouco; mas o mais prudente é contares pela aritmética que eu te ensinei. Quem tem seis por ano e gasta sete, ao fim de seis anos tem só um. Gasta os seis, Maria, os seis somente em obras justas de misericórdia, e não dês alento aos costumes depravados tomando a teu cargo os filhos que as mães abandonam.
– Também eu fui abandonada – disse ela.
Ora, passados alguns dias, Maria Moisés tinha em casa dois meninos na primeira infância. O velho Francisco Bragadas, que era agora caseiro da enjeitada que encontrou no rio, contou-lhe que a moleira da Trofa, viúva de um soldado que estava lá para as Ilhas com o irmão do sr. D. Miguel, morrera de cambras deixando dois filhos pequenos, que não tinham migalha de pão.
– Vê, sr. cónego? – disse ela – Já tenho dois!
– Esses dois iria eu buscar-tos, se o reumatismo me deixasse, menina.
– Então vou eu?
– Pois vai, Maria, vai... Assim, acredito eu que a divina Providência tos manda. E olha que são mais dignos de compaixão os órfãos que viram morrer sua mãe do que os enjeitados que a não conheceram.

*

A filha que Isabel, mulher do Bragadas, amamentava, quando o marido lhe levou a enjeitada, era agora uma guapa moça de quem Maria se afeiçoara fraternalmente. Joaquina, posto que pobre, fora pedida por um lavrador abastado de Cavez; deviam casar no S. Miguel, depois das colheitas; mas na noite de 24 de Agosto, quando em Cavez se festeja o S. Bartolomeu, os festeiros do Minho brigaram com os de Trás-os- -Montes, segundo o bárbaro estilo daquela romagem. O tiroteio de ambas as margens do Tâmega principiou às dez da noite. Ao romper da alva, os turbulentos acometeram-se peito a peito de clavinas engatilhadas, e dos dois valentes que caíram mortalmente feridos na ponte, um era o noivo de Joaquina. A rapariga ainda o viu moribundo; quis despenhar-se da ponte, e foi levada sem alento para casa da mãe do morto, que a tratou com o amor que tinha ao filho. Volvidos alguns dias, tornou para casa de seus pais. Maria Moisés deu-lhe uma cama em sua casa, e fez-se a sua enfermeira moral; todavia as angústias da rapariga recresciam, e o propósito do suicídio revia-lhe nas meias confidências à sua benfeitora.
Uma noite, acorçoada pelo amoroso desvelo de Maria, a filha do Bragadas, com mais lágrimas que expressões, revelou que estava perdida, porque o pai de seu filho já não podia remediar a sua desonra.
A enjeitada quedou-se a olhar para Joaquina com muita tristeza e espanto. Do seu próprio nascimento inferia ela uma desgraça semelhante à de Joaquina; mas o pudor, a religião, a repugnância congenial da sua vida pura sofreram uma dor íntima com a inesperada confissão. O coração decerto as tinha, mas não lhe inspirou de pronto palavras confortadoras. Separou-se dela fundamente magoada e pensativa; mas não adormeceu. Alta noite ouviu ringir a porta do quarto de Joaquina. Ergueu-se alvoroçada pelo pressentimento de que a infeliz rapariga ia matar-se. Não a encontrou no quarto; correu à porta da sala de espera que ela nesse momento abrira. Reteve a desvairada, e disse-lhe abraçando-a:
– Onde vais?
Joaquina, com a vista vaga e turva de quem chorou até que a demência lhe secasse as lágrimas, sentindo-se apertada ao seio daquela a quem se confessara mãe desonrada e perdida, balbuciou:
– Não diga a ninguém a causa da minha morte, que meu pai está muito acabado; e, se ele o souber, morre de paixão...
– Fala baixinho, que não ouça o sr. cónego – disse Maria apontando para o quarto do hóspede. – Vem para o meu quarto, Joaquina, e lembra-te que eu sou aquela enjeitada que teu pai pôs no colo de tua mãe quando tu lá estavas. Vem; e, se és minha amiga, não chores, nem me assustes.



*

No começo do inverno, Maria Moisés saiu de Santa Eulália, e pediu aos seus caseiros que deixassem ir com ela a sua filha.
– Para onde vai a senhora então? – perguntou o Bragadas.
– Vou passar o inverno em Braga, onde tenho as minhas amigas do convento. Aqui lhe deixo os meus órfãos, que já podem ir à escola. Trate-os como costuma tratar os filhos que não têm mãe, sim?
– Vá descansada, mas, ó senhora, isto de escola p’ra que monta? Eu também não sei ler, nem nunca me fez minga. Lá se eles tivessem que comer, vá; sabendo ler, não era mau; mas o que eles carecem é de se pegar ao trabalho, guardarem uns cevados enquanto não podem ir para o monte com a rês, e depois é agarrarem-se à enxada e à rabiça do arado.
– Não quero, sr. Francisco. Quero que aprendam, e depois veremos. Talvez os mande para o Brasil.
– Ah! A senhora está a ler! Qué-los fazer brasileiros? Boa vai ela! Se vai nesse modo de vida, queira perdoar-me, mas a minha ama dá conta do que tem. Olhe que os milhos este ano quase que não espigaram, e as oliveiras estão tolhidas da ferrugem. Vinho, então, não se enche a cuba pequena.
– Paciência. Para nós e para os pequenos sempre há-de chegar.
Na primavera seguinte, Maria e Joaquina voltaram à quinta. O caseiro, quando viu apear uma mulher desconhecida com uma criança nos braços, perguntou à filha:
– Aquilo que é, ó moça?
– É uma enjeitada de que tomou conta a senhora. Puseram-na no pátio da nossa casa, e a senhora não a deixou deitar à roda.
– Está bem aviada a senhora! – tornou o Bragadas com bastante rabugice e algum zelo pelas comodidades da sua ama. – E tem de pagar e dar de comer à mulher que o cria?
– Pois ela!...
– Ora adeus, adeus! Isto assim vai tudo pela água abaixo. O melhor é dizer que a quinta dos fidalgos do Arco é agora a roda dos enjeitados. Esta senhora carece de tutor, quando não, daqui a poucos anos, está a tocar ao viático.
– Olhe que ela ouve, meu pai.
– Deixá-la ouvir...
– Ralhe, ralhe, tio Francisco, que eu não me ofendo – disse Maria Moisés, sorrindo. – Que tem que eu morra pobre? Acabarei como comecei. Já nasceu alguém mais pobrezinha que eu? Não se arrependa de ter sido quem deu causa a que eu fosse a dona desta quinta. Se eu ficar sem ela, tio Francisco, é porque a reparti por muitos pobres; mas a melhor porção há-de ser a minha, porque o prazer de dar é muito maior que o de receber.
– Sim, sim... – obtemperou ironicamente o Bragadas, com o seu frio egoísmo de velho. – A senhora lá sabe o que lhe convém. O que eu lhe digo é que, se se espalhar a notícia de que a senhora recolhe os enjeitados, verá que lhe chovem em casa como a praga do Egipto. E olhe que está em terra azada para meter em casa mais garotos do que andam na escola do Farripas, em Santo Aleixo. Isto por aqui é um louvar a Deus de mulheres perdidas... Já não há pais que saibam criar as filhas com pão e pau...
Joaquina afastou-se com os olhos manejados de lágrimas, e Maria Moisés, retirando-se, cortou a diatribe que o pai austero vociferava contra a dissolução dos costumes.

*

O cónego Botelho, no estio de 1835, fez a última visita à quinta de Santa Eulália.
– Venho despedir-me – disse ele –, despedir-me de ti, e destas árvores que eu vi plantar. Este olmo que ainda tem um sinal de letras, fui eu que o plantei há vinte e três anos. Chamava-se a árvore do cónego. Lá pela vida fora, Maria, quando te sentares neste banco de cortiça, lembra-te do teu amigo. E, para que possas mais alguns anos possuir a tua quinta e ser a dona da árvore do cónego, saberás que no meu testamento reparto entre ti e a Misericórdia de Braga os meus poucos haveres. Receberás quatro mil cruzados. É o mesmo que deixá-los a um hospício de infância desvalida. Aplica-os segundo o teu plano caritativo; mas não sacrifiques o passadio da tua velhice. A esmola é boa mas a prodigalidade é má, ainda quando se quer justificar com o título usurpado de caridade. De vez em quando, Maria, vem sentar-te aqui onde agora estamos, quando eu já estiver dormindo o sono eterno, e imagina que me ouves estes conselhos que te deixo.

*


Faleceu o cónego João Correia Botelho em 1836. Maria Moisés, neste ano, transcendia de júbilo, porque a profecia de Francisco Bragadas se realizara; três expostos lhe pusera a Divina Providência no pátio, durante o ano. Como conforto à saudade do seu benfeitor, dera-lhe Deus a alegria dos três enjeitados, pobremente enfaixados em pedaços de lençóis velhos e baetas rapadas. Lavava-os e vestia-os, baptizava-os e alimentava-os com leite de ovelha enquanto não apareciam amas. As amas desciam das terras de Barroso, vermelhaças, grossas, de grandes peitos e quadris. O velho Bragadas dizia que a patifaria era tal que as amas eram as próprias mães dos enjeitados que regateavam o ordenado da criação antes de darem os seios exuberantes aos filhos. E, declamando contra a estragação dos costumes, exceptuava sempre as suas filhas, dando-as como exemplo. Joaquina ouvia com a alma confrangida as exclamações do pai; mas a dor e a vergonha eram bem remuneradas pelo prazer de abraçar um gordo rapaz que lhe chamava tia.
Por toda a corda de Basto e Ribeira de Pena, por todo o Barroso e Cerva, d’aquém e d’além-Tâmega, propalou-se que uma senhora de grande riqueza e caridade aceitava enjeitados em sua casa.
Onde chegou a nova foi também o sobrenome da senhora: chamavam-lhe a santa Moisés, sem respeito a processos de canonização. Da confluência de expostos à quinta de Santa Eulália pode inferir-se que a virtude e a castidade de uma mulher era um afrodisíaco para a fecundidade das outras.
Principiou a inquietar o ânimo de Maria o receio de não poder com tamanho encargo. Assaltavam-na a cada passo as reflexões do cónego Botelho. Quando se assentava à sombra do olmo, ouvia-o com saudade, e pedia a Deus que a ensinasse a responder aos argumentos do padre, e lhe desse meios para ver criados os dez enjeitados que tinha em casa, e os que mandara criar fora.
Os filhos da moleira já tinham ido para o Brasil; outros andavam na escola; as meninas tinham mestras, que eram Joaquina em coisas de costura e Maria no ler e escrita.
A herança do cónego e os rendimentos da quinta, na verdade mal administrados, supriram ainda assim as despesas no transcurso de dez anos. Maria, com a sua fama de santa, era havida em conta de tola pelos velhacos. A falsa piedade explorava-a. Festas de capela, votos de missas pedidas, resplendores para uns santos, capas para outros, esmolas para entrevados de longe, esmolas para aleijados que iam a caldas e ao mar, esmolas para rapazinhos que iam para o Brasil, para cabaneiros a quem o incêndio devorou a choça – com verdade ou impostura – ninguém ia da sua porta com as mãos vazias.
– Eu também sou pobre – dizia ela.
– Tem a graça de Deus que lhe dá tudo – respondiam os pedintes, com a certeza de que ela já havia pedido alguns centos de mil réis sobre a quinta.
As irmandades, que lhe emprestavam o dinheiro a juro, pediam-lhe donativos para reformar paramentos de sacristia, e madeiras para os vigamentos das igrejas.
Como só de per si já não podia cuidar na educação dos enjeitados, Maria Moisés pedia às pessoas abastadas que a auxiliassem, não com dinheiro, mas com a caridade de se encarregarem de alguns. Assim foi que o abade de Pedraça tomou para si aquele pequenino que se chamou Álvaro, e depois legou ao filho natural do visconde de Agilde o farto ouro que parecia trazer consigo o condão de virtude da enjeitada de Santo Aleixo (7).

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Em 1850, trinta e oito anos depois que saíra de Portugal, chegou à sua casa de Cimo-de-Vila em Ribeira de Pena, António de Queirós e Meneses, reformado com a patente de general no império brasileiro. Tinha sessenta anos. Não casara, nem granjeara família de ordem nenhuma. Viera só, mais velho que a sua idade, cheio de condecorações e mais nada. António de Queirós era rico em Portugal. Os vínculos não pôde o pai desviá-los da linha varonil, nem os mordomos por ele encarregados da fiscalização dos grandes bens lhos depreciaram. As irmãs, casadas com pequenas legítimas, assim que chegavam navios brasileiros com a notícia das febres devastadoras, sentiam um vago contentamento na hipótese de ser Deus servido levar-lhes o mano general. Como viviam casadas com uns fidalgotes de meia escudela, fragueiros, brutos e forçados, à míngua de recursos, a matarem coelhos para matarem o tempo, aquelas senhoras mandavam deitar as cartas a uma criada velha para saberem se lhes viria alguma herança. Entretanto, o irmão, de vez em quando, ordenava ao mordomo que lhes desse porção das suas rendas supérfluas.
O general chegou inesperadamente, recolheu-se à casa onde nascera; e tão funda amargura o avassalou que se arrependeu de voltar à terra natal, onde lhe entraram redivivas e pungentes ao âmago da alma as recordações de Josefa de Santo Aleixo, – a sombra plangente que lhe seguira todos os passos da vida.
Perguntou pelos seus amigos da mocidade: todos eram mortos, exceptuado Fernando Gonçalves Penha, da casa da Temporã, aquele que, a seu pedido, enviara a astuta caseira a Santo Aleixo com o recado da fuga. Este mesmo, que seguira a carreira das letras, era juiz em uma das Relações do reino. Escreveu-lhe Queirós, noticiando-lhe a sua chegada. Vem, para que eu não morra sem ver um amigo da juventude – dizia ele.
Gonçalves Penha foi pressurosamente. Os dois velhos abraçaram-se a chorar. Reconheceram-se pela voz. Era tudo o mais uma transformação em que os vermes do sepulcro já pouco teriam que destruir. António de Queirós, o esbelto cadete de cavalaria que o outro conhecera de cintura feminil, e olhos negros docemente ameigados por alma apaixonada, era agora um ancião de grandes barbas brancas, olhos apagados, e faces angulosas, a tiritar de frio, no amplo casacão de baeta.
– Há quantos anos me não escreveste? – dizia Gonçalves Penha.
– Há trinta e sete. Recebi duas cartas tuas, que ainda tenho, datadas de Coimbra.
– Só duas? Escrevi-te mais; porém, depois que teu pai morreu me disseram teus cunhados que entre os papéis dele apareciam cartas que eu te escrevera falando-te daquela rapariga de Santo Aleixo. A omnipotência de teu pai chegou a subornar o fiel do correio de Vila Pouca de Aguiar. Parece-me – prosseguiu o desembargador reparando na comoção de António de Queirós – que ainda te sangra o coração...
– Ainda. Nunca, nunca se fechou a ferida. Está essa infeliz diante dos meus olhos como a vi, tal qual ela era, há trinta e oito anos. Que me dizias tu nessas cartas que eu não li?
– Posso lá lembrar-me agora!... Isso vai tão longe... Só me recordo... deixa-me ver se reúno umas ideias vagas... Sim... eu mandei lá a minha caseira...
– Recordo-me, e Josefa respondeu alegremente que fugiria para o Enxertado na noite do dia seguinte; mas, nesse mesmo dia à noite, 27 de Agosto de 1813, suicidou-se.
– Ah! vou-me lembrando... Esse suicídio é que eu punha em dúvida nas minhas cartas que não recebeste.
– Porquê? Então mataram-na?!
– Já não vive há muitos anos o cirurgião que a tratou; eu saí daqui há trinta e cinco e nunca mais o vi; se ele vivesse, poderia ajudar-me a recordar. Espera lá... Como a velhice nos varre tudo da memória! Ah! uma circunstância... o aparecimento de uma criança no rio...
– O quê?
– Espera, António, não me quebres o fio das recordações.
Gonçalves Penha tapou a cara com as mãos, curvou-se bamboando a cabeça, ergueu-a com ímpeto, e disse:
– Parece que vejo reviver o passado... Olha, Queirós, na mesma noite em que essa rapariga apareceu moribunda no rio, um homem que andava à pesca encontrou uma criança viva num berço levado à tona da água. Falando eu a este respeito com o cirurgião, me disse ele que a Josefa talvez não se suicidasse; mas que morresse quando ia a fugir com a criança para tua casa.
– Não pode ser – atalhou António de Queirós.
– Porque não pode ser?
– Era cedo para ter já nascido o filho.
– Isso mesmo disse eu ao cirurgião, contando-lhe o que sabia da tua carta escrita do Limoeiro, porque tu, se bem me lembro, dizias-me que...
– Faltava um mês.
– Justamente; mas o cirurgião convenceu-me de que bastava a alegria de fugir, quando se julgava abandonada, para lhe produzir um forte abalo. E espera... outra circunstância... a minha caseira foi disfarçada a uma quinta onde estava a criança que apareceu, e soube com certeza que foi achada nesta mesma noite, e que...
– Onde era essa quinta? – interrompeu o general.
– Ó filho! Isso é que te não posso dizer já; mas deixa estar... a caseira deixou filhos que ainda são meus caseiros. É natural que eles a ouvissem muitas vezes falar do caso milagroso da criança que apareceu deitada num berço de junco. Eu te direi o que souber. Ó Queirós! – exclamou o juiz com entusiasmo. – E se tu descobrias agora o teu filho!
– Não me passa pelo espírito esse devaneio, meu amigo. Eu quisera antes que a morte dessa infeliz não fosse um acto de desesperação; mas, pensando bem, Gonçalves, porque havia de suicidar-se ela?...
– Sim, tendo-me dito a caseira que a rapariga chorava de alegria? António... recordo-me eu agora perfeitamente de que, nas minhas cartas, te dizia que o teu filho podia existir... E foi por isso mesmo que teu pai as subtraiu... Não te parece?
– É possível; mas... que novas dores a esperança me está gerando na alma! A esperança! Que posso eu esperar das transformações de trinta e sete anos, meu amigo?
– Tens razão... Ainda mesmo que o pequeno encontrado fosse o teu filho, há que anos terá morrido o homem que o encontrou no Tâmega? Que destino levaria o rapaz? Ainda assim, olha que eu sei de casos de mais dificultosa averiguação que se tiraram a limpo. Os processos por causa de sucessões estão cheios de factos que parecem novelas, e nas genealogias há muitos dessa espécie.


*

Ao outro dia, o general Queirós de Meneses saiu, pela primeira vez, do seu carrancudo solar, e caminhou a pé e sozinho na direcção do Tâmega. Os homens antigos, quando o viam ao longe, descobriam-se e paravam. Ele parava também diante deles, mandava-os cobrir, e perguntava quem eram. Alguns haviam sido seus companheiros na caça, outros brincaram com ele na infância, e lembravam-se das travessuras do fidalguinho. O general recordava-se daqueles nomes, dava esmola generosa aos necessitados, e oferecia a sua amizade aos outros.
Chegando à ourela do Tâmega, parou defronte da Ínsua. Era ali que Josefa esperava o juvenil aspirante embrenhada no choupal. Um conhecido amieiro de tronco esgalhado em ramos recurvos já não existia. Nesse lugar estava uma azenha, com uma barca de passagem amarrada a uma argola de pedra chumbada na parede.
À porta do moinho apareceu a moleira a perguntar-lhe se queria passar para além.
– Quero.
Já dentro da barca, perguntou-lhe se aquela azenha ali estava há muito.
– Há nove anos, meu senhor. Ali mais arriba havia um moinho que a cheia me levou. Fiquei com dois filhos pequenos, sem modo de vida, nem uma choupana; mas a mãe dos pobres acudiu-me. V.ª S.ª há-de conhecer a senhora da quinta de Santa Eulália.
– Não conheço.
– Então, ainda que eu seja confiada, não é de cá.
– Sou; mas tenho estado longe.
– Lá isso sim; que dez léguas em arredor toda a gente conhece a senhora de Santa Eulália. Não há outra assim no mundo. Só de enjeitadinhos tem onze de portas a dentro.
– Onze!
– É o que lhe eu digo, senhor.
– Bom é que haja uma santa onde há tantas mães que abandonam os filhos.
– Não que ele também há muita desavergonhada por esse mundo de Cristo. Mulheres más por aqui é uma casa sim e outra não à ida para cima; mas à vinda para baixo são todas.
O general sorriu-se e disse:
– Bem faz você em viver perto da ilha: quando a corrupção for geral, fuja para lá.
– Pudera! Mas a mim já me não pega o andaço. Tomara eu pão para os meus filhos. Trabalho muito, e o corpo não me pede folia. Tenho esta barca a meter água, e Deus sabe quando terei outra. A mãe dos pobres já me prometeu a madeira; mas eu até já tenho vergonha de lá ir.
– Pois não vá. Amanhã vá você à casa de Cimo-de-Vila, pergunte pelo Queirós, e receberá dinheiro para a sua nova barca.
– Bendito seja Deus! Então V.ª Ex.ª é o sr. general que chegou há dias?
– Adeus, apareça, mulherzinha.
Saltou à margem.
– V.ª Ex.ª quer que eu espere? – perguntou a barqueira.
– Não, que vou passar às poldras de Santo Aleixo.
E caminhou pela orla do Tâmega até saltar o combro que descia para a Cangosta do Estêvão. Como ia fatigado, sentou-se, enxugando o suor, na fraga a que o moleiro encostara o cadáver de Josefa, e lembrou-se que ali mesmo haviam estado sentados ambos em uma tarde de Julho. Em baixo murmurava a corrente agitando as franças dos salgueiros, coaxavam as rãs, e às vezes um escalo de ventre prateado saltava à flor d’água. Ele parecia ver e ouvir; mas via e ouvia no passado o rosto e a voz de Josefa, e embebia no lenço as lágrimas.
Subiu o íngreme barrocal da Cangosta. Entrou na aldeia de Santo Aleixo, e sentou-se no adro. O cansaço ansiava-o. Da casa da residência saiu então um clérigo ancião, apoiado na bengala, e sentou-se à sombra do plátano do adro, com o breviário debaixo do braço. Reparando no desconhecido, cortejou-o e ofereceu-lhe a sua residência.
– É o reitor desta freguesia? – perguntou o general.
– Sim, senhor. V.ª S.ª não é d’aquém-Tâmega?
– Não sou. Está aqui reitor há muitos anos?
– Há vinte e sete.
– Aqui é aldeia de ricos lavradores, ao que parece.
– Há proprietários muito ricos, os Pimentas, o tenente-coronel, o antigo capitão- -mor, etc.
– Se lhe não custa, sr. reitor, pois que é tão atencioso com os forasteiros, iremos dar um passeio por esta aldeia que me parece muito pitoresca.
– Da melhor vontade.
O reitor dizia-lhe os nomes dos possuidores dos melhores edifícios. Chegaram a um recanto onde se viam ruínas de uma casa de lavrador muito espaçosa. O general parecia querer reconhecer o sítio e a casa.
– Aqui – disse o vigário – morou um lavrador que morreu há três anos com mais de oitenta. Chamava-se o João da Laje. Bebia um quartilho de aguardente todos os dias, e chegou a idade tão provecta! Fiem-se lá nos médicos! Desta casa tenho eu uma recordação muito funesta. Há que anos isto vai!... Perto de quarenta... Em 1813, quando eu era minorista, vim aqui assistir com a minha sobrepeliz aos responsos de uma pobre rapariga que se afogou no Tâmega, uns disseram que por vontade própria, e outros disseram que por desastre. Era uma flor a moça. Ainda me recordo que, morrendo ela à noite, foi preciso enterrá-la ao outro dia, porque não se podia sofrer o cheiro do cadáver. Como a morte em poucas horas transformara uma criatura linda como os anjos num charco de podridões!
– Que motivo se deu para o suicídio?
– Não tenho a certeza; tenho a suspeita; porém, perdoai aos mortos, dizem os livros sagrados. O nosso dever é orar por eles, e não os chamar a contas.
O reitor, que assim falava, era aquele padre Bento da Póvoa que já em anos de indiscretas verduras queria que o escrivão respeitasse o cadáver ainda quente da suicida.
O general absteve-se de interrogações; todavia, o padre acrescentou:
– Esta casa vai desaparecer daqui. João da Laje morreu pobre. Devia tudo às irmandades e à fazenda. Gastou trinta mil cruzados, desde que a mulher lhe morreu de paixão lá para Barroso. Um brasileiro comprou esta quinta, que esbeiça lá em baixo com o rio, e está arrasando a casa para fazer um palacete.
Ainda acolá se vê de pé um sobrado onde eu vim para acompanhar a morta à igreja. Ali é que ela dormia. Parece que V.ª S.ª está magoado com a história da pobre moça... – disse o vigário atentando nas lágrimas represas do ancião.
– Todos os velhos são fáceis em chorar... Continuemos o nosso passeio, sr. vigário. Daqui desce-se para as poldras?
– Sim, senhor, por esta viela; depois, lá ao fundo, salta-se ao campo da direita. Eu acompanho-o até lá, porque vou ver uma doente que mora à beira do rio.
Quando chegaram às poldras, perguntou o general:
– O sr. vigário nunca ouviu dizer duma criança que apareceu por aqui num berço ao de cima da corrente?
– Foi muito perto daqui, talvez cem passos, onde o rio faz uma enseada. Essa criança recordo-me eu muito bem que apareceu na mesma noite em que a Josefa da Laje se afogou. Deu muito que pensar e que suspeitar tal coincidência; mas eu reprovei que se fizessem juízos temerários. Esta terra, ainda mal que teve sempre pecadoras das que cuidam esconder-se aos olhos de Deus, quando podem aparecer, sem os filhos que enjeitaram, aos olhos do mundo.
– Ouvi dizer que a criança fora salva.
– Sim, senhor, foi encontrada sã e enxuta num berço de canastra por um homem que andava pescando: era o caseiro dos Valadares de Santa Eulália. Deitaram-se muitas inculcas, mas nunca se soube quem era a mãe.
– O homem que encontrou a criança já é falecido?
– Nada, não é; chama-se o Bragadas, e nasceu nesta freguesia. Ainda há dias vi no livro dos baptizados que ele fez já oitenta anos. Mas há aqui um caso que parece conto de romance. O Bragadas é hoje caseiro da mesma enjeitada que ele achou!
– Como?! – exclamou António de Queirós.
– Tem razão de se espantar, meu senhor; mas a verdade é esta. O enjeitado era uma menina de que tomaram conta os fidalgos, que a baptizaram com o nome de Maria Moisés, por ter sido achada no rio como o santo legislador dos hebreus. Depois, uma das senhoras, que foi madrinha, deixou-lhe a quinta de Santa Eulália. Saiu um anjo a criatura de Deus; chamam-lhe a mãe dos pobres; e recolhe, ensina e dá modo de vida a quantos órfãos e enjeitados a mão da desgraça lhe leva ao seu regaço...
– Parece – atalhou o general – que são muitas as probabilidades a confirmar a hipótese de que essa enjeitada seja filha de Josefa... Não concorda comigo?
– Eu já disse a V.ª S.ª que todos os juízos temerários são venialmente pecaminosos quando redundam em desdouro de vivos, e muito mais de mortos que não podem justificar-se. Não sei... E o que eu não sei para mim é apenas possível. Seja de quem for filha, Maria Moisés é uma mulher que faz lembrar as antigas santas.
– Conhece-a, sr. reitor?
Nunca a vi, mas ouço dizer que tem no rosto a formosura da alma, e que parece ter vinte anos, andando já perto dos quarenta; sim, não há-de ir longe... de 1813 a 1850...
– Trinta e sete...
– É isso, trinta e sete. Pena é que os poucos recursos lhe não permitam ir tão longe como o coração lhe pede. Alargou mais do que podia a área da caridade. Acudia a todas as desgraças com mais liberalidade que prudência. A santa cegueira não a deixava prever os limites das suas medianas posses. Os rendimentos da quinta são escassos e talvez mal pagos pelo caseiro a quem ela não pede contas, ou aceita as que ele quer dar--lhe, porque foi ele quem a salvou. A pouco podiam montar. Verdade é que um cónego de Braga, santo homem que eu conheci, lhe deixou alguns mil cruzados com que ela custeou por bastantes anos as despesas de alimentação e educação de enjeitados e órfãos. Afinal o dinheiro acabou-se, mas a caridade na alma da santa mulher é que não esmoreceu. Não pede nada; mas, se sabe que um fidalgo ou abade rico ou viúvo sem filhos está no caso de poder aceitar-lhe um órfão ou enjeitado, escreve-lhe a pedir pelo amor de Deus que o aceite e sustente com as migalhas da sua mesa. E assim tem conseguido arranjar bastantes; e dalguns se conta que foram para o Brasil e lá estão bem encaminhados.
– Sabe então o sr. reitor que Maria Moisés está pobre agora?
– Pobre de todo não direi, porque a suprema riqueza é a graça de Deus; mas necessitada de recursos para continuar a sua santa dedicação aos infelizes, com certeza está; porque eu sei que ela deve mais de três mil cruzados a várias confrarias; e na porta da minha igreja está um aviso anunciando que quem quiser comprar a quinta de Santa Eulália fale com a dona da mesma. É uma bonita propriedade; mas ninguém lhe dá o que ela vale, porque não há dinheiro, e quem o tem fecha-se com ele, por medo das revoluções que são umas atrás das outras. Os cabralistas querem dinheiro, os patuleias querem dinheiro; agora dizem que os saldanhistas vão sair com a procissão porque querem dinheiro, e quem não for uma das três cousas há-de pagar para todos os três partidos. Eu não sei com quem tenho a honra de falar, mas sou franco; o que eu digo é que Deus traga o sr. D. Miguel I a ver se Portugal se endireita de vez.
O general ouvira apenas a toada confusa das fortes razões por que o inofensivo reitor de Santo Aleixo queria o sr. D. Miguel. Era febril o desassossego de António de Queirós; como que o afligia o sobressalto da esperança; sentia na sua ânsia a alegria desconexa de um sonho feliz, mas com o inverosímil e desatado das felicidades sonhadas. Abraçou o padre, e convidou-o a passar um dia o Tâmega para ir a sua casa.
– Mas eu não sei com quem tenho a honra de falar... – disse o vigário.
– Eu sou António de Queirós e Meneses, da casa de Cimo-de-Vila.
– Santo Deus! – exclamou o reitor. – Com quem eu tenho falado!... V.ª Ex.ª não estava na América?
– Estive: há oito dias que cheguei.
– Eu conheci-o em rapaz, sr. Queirós! Olhe que somos ambos da mesma criação, e ainda fomos condiscípulos alguns meses de 1809 em latim na aula do padre mestre Simão no Vale de Aguiar, quando V.ª Ex.ª estudava para crúzio, antes de sentar praça. Veja se se lembra do Bento Fernandes, da Póvoa.
– Bento Fernandes... – repetiu o general.
– Que V.ª Ex.ª e outros patuscos chamavam Beatus Benedictus, ora pro nobis.
E o bom velho casquinhava a rir; mas, de súbito, reveste o semblante duma gravidade misteriosa, e diz como em segredo:
– Agora é que eu compreendo as suas lágrimas de há pouco, em frente do quarto onde viveu e foi amortalhada Josefa. V.ª Ex.ª procura sua filha?
Suspeita que Maria Moisés seja a sua filha? É, tenha a certeza que é.
– A certeza? A certeza? Veja o que me diz, sr. vigário! – exclamou o general apertando-lhe as duas mãos nas suas com arrebatada alegria.
– Folgo de o ver assim excitado por um sentimento que me demonstra que tem sido infeliz e nunca esqueceu a desgraçada Josefa. Deus me perdoará, se eu nesta hora transgredir o sigilo da confissão; mas, neste caso, seria absurda a observância de um preceito que envolveria um segredo prejudicial à sua felicidade à de sua filha. O senhor Queirós denunciou ao vigário da Santa Marinha a gravidez de Josefa, quando lhe pediu que o casasse clandestinamente...
– É verdade.
– O vigário denunciou a seu pai o bom intento de V.ª Ex.ª. Daí resultou a sua ida para a capital, e depois a prisão. O vigário, pensando que me dava o exemplo de um bom feito, contou-me o que fizera. Fiquei eu sabendo um segredo que nunca revelei, posto que, falecida Josefa, se divulgou por boca do cirurgião e de uma caseira da casa da Temporã. Para mim era ainda duvidoso se Josefa já era mãe quando acaso se afogou ou determinadamente se matou; mas, em 1817, fui eu mandado paroquiar na freguesia de Santa Maria de Covas de Barroso, onde vivia com seus irmãos a mãe de Josefa. Esta mulher tinha intermitências de loucura; mas, nos períodos de lucidez, passava mais amargurada porque chorava sempre pela filha. Em 1818 fui chamado para ouvi-la de confissão, nas vinte e quatro horas que precederam a sua morte. Estava a moribunda então no perfeito uso das suas faculdades; e, coberta de lágrimas, me disse que sua filha, na tarde do dia em que morrera, dera à luz uma criança. Perguntei-lhe se era menino ou menina, lembrando-me do aparecimento de Maria Moisés. Respondeu-me que não sabia, mas que tinha a certeza que ela, quando fugiu de casa, levava uma criança, porque, indo ao quarto da filha depois que a vira morta, achara no sobrado uns embrulhos que estavam dentro de um berço de vime, e, procurando o berço, não o achara. Perguntei-lhe se não ouvira dizer que nessa mesma noite fora encontrada uma menina no rio dentro de um berço de vime; respondeu que, apenas dera pela falta do berço, caíra como morta, e quando voltara a si, fugira para casa dos irmãos, onde não sabia como viveu muitos meses, e passara temporadas de que não lhe restava a menor lembrança. Para mim – concluiu o vigário – está provado que Maria Moisés é filha de Josefa.
O general estreitou ao peito o padre Bento, beijou-lhe as cãs, e exclamou com a alegria de uma criança:
– Havemos de ter uma velhice muito feliz... Eu hei-de viver muitos anos, e o padre Bento, o meu condiscípulo, vai ser o meu capelão, e o director da caridade de minha filha!


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Ao outro dia, António de Queirós e Meneses, acompanhado do desembargador Fernando Gonçalves Penha e dum tabelião do julgado, passaram o Tâmega, em frente da quinta de Santa Eulália. Tiraram pela sineta do portão com força.
Francisco Bragadas, que estava na eira, de barriga ao sol, recozendo os seus oitenta anos, quando ouviu tilintar a sineta, disse a um neto:
– Vai ver quem é. Teremos mais algum enjeitado? Estou a ver quando começa o desaforo de os trazerem mesmo de dia!
Aberta a porta, entraram os três sujeitos. Francisco, para os ver quando subiam por entre a álea de faias e olmos, pôs a mão na testa contra o sol, e disse entre si: «Querem ver que temos penhora na quinta?» E, levantando-se encostado a um forte tanchão de sobro, perguntou:
– Querem alguma coisa?
– É este cavalheiro que quer comprar esta quinta – disse o tabelião.
– Vai dizer isso à senhora, rapaz – mandou Bragadas, com grande tristeza, e acrescentou: – A quinta não se dá menos de dez mil cruzados.
– Dez mil cruzados! – disse o tabelião espantado. – Nas hipotecas está avaliada em seis.
– Não quero saber disso; as hipotecas é isto; são dez mil cruzados, livres para a vendedora – resmoneou o ancião.
– Vossemecê é o sr. Francisco Bragadas? – perguntou o general.
– Para o servir. Não conheço a sua pessoa.
– É o sr. general Queirós, da casa de Cimo-de-Vila.
– Ah! Bem me lembro dele quando era moço, ali como aquele meu neto. Quantas vezes nós conversámos no rio! Eu andava com as redes, e ele pescava à cana na Ínsua. Está muito acabado; e mais V. S.ª não é velho. Velho sou eu que já tenho dois carros e mais um (8). Neste comenos, chegou o rapaz que levara o recado, dizendo que a senhora mandava subir para a sala.
Queirós, subindo as escadas, amparava-se no braço de Gonçalves Penha, e dizia- -lhe ao ouvido:
– Nunca me senti neste abatimento nos combates do Recife e do Lima. As batalhas do coração são as piores. Esta impressão para mim vem tarde.
– Então, coragem! – alentou o desembargador.
Pouco depois que entraram à sala, apareceu Maria Moisés. Ergueram-se todos; mas o general apenas fez um gesto. Não pudera, e sentara-se, balbuciando palavras que não se perceberam.
Maria era alta, refeita, loura e bela como Josefa de Santo Aleixo; mas de uma beleza mais senhoril, menos rica do colorido da saúde e das insolações tépidas, e do ar puro das serras. Tinham passado por ela alguns anos de convento, e uma vida longa de domesticidade, que desmaia a epiderme compensando-a nas graças mórbidas da beleza aristocrática.
Mas, como quer que fosse, era o retrato de sua mãe, favorecido pela palheta de artista caprichoso que desadorasse as fortes e vivas cores das formosuras do campo; era Josefa de Santo Aleixo, depois de respirar em dez invernos o ar do teatro de S. Carlos, e em dez estios o ar latrinário dos Passeios de Lisboa.
E aí está a razão por que o general, colhido de sobressalto quando esperava a filha sem presunção antecipada da sua figura, entreviu a mãe. O desembargador, para encher o vácuo do silêncio que se fez, disse que o seu amigo, o sr. general Queirós de Meneses, desejava comprar a quinta de Santa Eulália.
– São dez mil cruzados – repetiu Francisco Bragadas que já estava encostado à ombreira da porta.
– Visto que aqui está a dona, esta senhora dispensa procurador – observou o tabelião.
– O meu caseiro diz a verdade – confirmou Maria Moisés com tristeza e irresolução. – Eu não dou a quinta por menos de dez mil cruzados.
O tabelião ia replicar com a coarctada das hipotecas, quando o general, fazendo- -lhe um gesto de silêncio, perguntou a D. Maria:
– Aceitando eu a quinta pela quantia que se pede, poderei hoje fechar este contrato? Já trouxe comigo o sr. tabelião para lavrar a escritura.
– Preciso ver os títulos – disse o funcionário.
– Vou buscá-los... Então – perguntou ela ao general com hesitação e visível mágoa – V. Ex.ª quer ocupar a quinta imediatamente?
– Não é forçoso isso. Quero comprá-la simplesmente... Depois...
– É porque eu tenho uma numerosa família de crianças que por aqui se criaram e estão educando.
– Desejo vê-las – disse o general com os olhos cheios de lágrimas.
– Pois não, sr. general! – acudiu Maria alegremente. – Ó tio Bragadas, diga à sua Joaquina que mande cá os pequenos.
– A canalha toda? – perguntou o velho.
– Oh! Que ingranzéu eles aí vão fazer! – tornou o Bragadas, indo cumprir as ordens de má vontade.
– Parece-me que está com saudades da sua quinta, senhora D. Maria – disse António de Queirós.
– Pode-se dizer que nasci aqui, ou pelo menos aqui vi a luz e o amor de uma madrinha que me criou e me deixou esta propriedade por esmola, porque eu nada tinha... Fui enjeitada, e tenho querido dar aos infelizes que não têm mãe nem pai o bem que recebi dos meus benfeitores. Infelizmente os recursos não me chegaram. Empenhei a quinta, e agora sou obrigada a vendê-la porque os juros são grandes e mais tarde ou mais cedo as confrarias hão-de tomar conta disto tudo. Vendendo eu a quinta por 10.000 cruzados, pago cinco e tanto que devo, e poderei com o restante amparar alguns anos mais estes pobrezinhos.
Neste instante, entrou um rancho de treze meninos e meninas. Os rapazes vestiam uniforme de cotim escuro, e as meninas de riscadinho azul. O mais velho tinha onze anos, e era aleijado, encostava-se às muletas, e entrara muito contente, saltando na única perna, com uma alegria de idiota. Cumprimentou os circunstantes com desempeno de grande sociedade, e retirou-se às recuadas para a frente do grupo.
– Este aleijadinho é o que ensina os outros a ler; tem muita habilidade, e ajuda-me muito – disse Maria, e acrescentou: – Eu vou agora buscar os títulos.
– Não é urgente, minha senhora. Os títulos depois – disse o general. – O sr. tabelião lavra a escritura, enquanto eu vou dar uma vista de olhos por estas janelas – e encostando-se ao desembargador, segredou-lhe: – Preciso ar.
– Sr. general – disse Maria Moisés.
– Minha senhora.
– Se V. Ex.ª há-de ter caseiro nesta quinta, peço-lhe que conserve aquele velhinho, que tem muitos filhos e netos.
– Sim, minha senhora – respondeu ele com a voz tremente das lágrimas.
– Devo a vida a este homem... Foi ele quem...
– Está bom, está bom – atalhou Bragadas, limpando as lágrimas com a manga da jaqueta.
– Foi ele quem a encontrou no rio... – acrescentou o general.
– É verdade.
– Num berço de vime – ajuntou António de Queirós.
– Que eu ainda conservo – disse ela sorrindo – porque é a herança de meus pais; pelo menos, é possível que minha mãe tivesse aquela canastrinha na mão...
– Parece incrível que o naviozinho não fosse a pique! – disse o desembargador.
– É muito bem tecido – explicou ela. – Eu já fiz experiências no Tâmega com os meus enjeitados, e não foram ao fundo pondo-os eu à flor da água dentro do meu berço. Se VV. Ex.as querem vê-lo?
– Estimava – disse o general.
– Vai buscá-lo, Joaquina.
– Chegue-se cá, sor Bragadas, – disse o general – você é meu caseiro e há-de dar- -se bem comigo, esteja certo disso.
– Olhe, senhor, o que eu queria era ficar perto da minha ama – disse o velho.
– Já não sou sua ama, tio Francisco; mas sou sempre a sua amiguinha – e abraçou o ancião, que sacudia a cabeça porque o importunavam os soluços.
Chegara o berço. O general parecia examiná-lo atentamente; Maria Moisés sorria--se ao reparo do fidalgo, e dizia:
– Está já muito velho o meu berço; quando olho para ele é que eu conheço que já tenho muitos anos.
– Esteve este berço nas mãos de sua mãe... – disse António de Queirós.
– Talvez – observou ela – mas quem sabe? Pode ser que nem ela me visse... Custa a crer que minha mãe, com suas próprias mãos, me entregasse à corrente de um rio...


*

Estava lavrada a escritura.
O desembargador Gonçalves Penha contou dez mil cruzados em soberanos sobre a mesa onde o tabelião escrevera.
– Aqui está a quantia estipulada – disse Queirós. – A renda desta quinta continua o sr. Francisco Bragadas a pagá-la à mãe carinhosa dos enjeitados.
– À minha ama?! – bradou o ancião.
– À sua ama.
– Mil anjos o acompanhem na vida e na morte, sr. general! – exclamou Maria.
– Mil anjos são muitos – disse ele. – Um anjo só me basta na vida, e esse quero eu que me assista na morte. – E, tomando as mãos de Maria, prosseguiu: – Se eu morrer debaixo da luz dos teus olhos, Deus me chamará a si, não pelos meus merecimentos, mas pelas virtudes de minha filha. Pedirás então a Deus por teu pai, Maria?
– Eu! Jesus! Eu sua filha! – exclamou ela, pondo as mãos convulsas, quando ele a beijava na fronte.
Maria caiu de joelhos, pendente dos braços do pai; e os velhos, e as crianças ajoelharam também, trementes e extáticos, sob a faísca eléctrica daquele sublime lance.


Tomás Ribeiro, com o teu coração, se tens nele uma lágrima, imagina este quadro e descreve-o, se podes, que eu não posso, nem quero, porque o último feitio das novelas é não pintar, com o colorido gótico dos românticos, os quadros comoventes que rutilam na alma a faísca do entusiasmo. Agora somente se pintam as gangrenas com as cores roxas das chagas, e com as cores verdes das podridões modernas. Nos literatos o que predomina é o verde, e nas literaturas é o podre.



Camilo Castelo Branco, Novelas do Minho