23/12/2008

Bom Natal, Pai Natal

Santa in Chimney Art Print by Susan Comish

Não é nada fácil a vida de um Pai Natal. Se não acreditam, prestem atenção àquilo que vos vou contar. As peripécias são muitas e os azares ainda mais. É por isso que as minhas barbas estão cada vez mais brancas. Brancas da neve, que, em flocos, nelas vai pousando, mas também das preocupações que não me dão sossego.
Querem saber como é que se chega a Pai Natal? Então eu vou explicar-vos. Pode ser-se Pai Natal de muitas maneiras. Eu, por exemplo, não escolhi esta profissão. Foi ela que me escolheu, sim porque os ofícios também podem escolher as pessoas e não o contrário.
Durante muitos anos eu fui carteiro numa pequena cidade do Norte, onde a invernia durava mais de seis meses e onde a luz do sol era caprichosa e fazia muitas caretas antes de aparecer.
Toda a gente me conhecia e eu conhecia toda a gente. Nessa altura não me chamava Pai Natal e sim Thor, um nome comum nos países do norte da Europa, que tratam por tu o gelo, o frio e a solidão dos grandes espaços brancos onde só há renas e bonecos de neve com narizes feitos com cenouras geladas como estalactites.
As pessoas costumam gostar dos carteiros, sobretudo nas terras pequenas, porque eles, mesmo quando trazem más notícias, também são capazes de deixar uma palavra amiga e um abraço de consolo.
Vi nascer famílias inteiras. Vi desaparecer os mais velhos. Vi as crianças tornarem-se homens e mulheres e partirem para as cidades grandes em busca de trabalho. Vi coisas boas e más, alegres e tristes e, muito antes de ser Pai Natal, também vi o mal que as guerras podem fazer a quem quer viver em paz.
Como qualquer carteiro que gosta do seu ofício, eu acompanhava a vida das notícias que levava e que trazia. Uma lágrima de tristeza no rosto de quem as recebia dizia-me que podiam ser bem melhores do que eram. Um sorriso largo mostrava-me que elas tinham trazido felicidade a alguém. E eu estava sempre ao lado de quem sofria ou de quem ficava contente, sim porque os amigos são isso mesmo. São aqueles com quem se pode contar tanto nas horas boas como nas más.
— Thor, vê lá que notícias nos trazes hoje! — diziam-me, à passagem, as pessoas que moravam na pequena cidade de província, com casas de madeira, usando um tom que era de brincadeira, mas também de ameaça. Elas sabiam que eu não lia nem podia ler as cartas que lhes entregava, mas, no fundo, acreditavam que eu podia fazer alguma coisa para tornar mais agradáveis as notícias tristes e ainda mais alegres as notícias boas. Acho que é assim que os carteiros são vistos um pouco por toda a parte e eu não me importava que isso acontecesse comigo, até porque me dava a sensação de ter um poder que realmente não tinha. Acreditem que era uma sensação agradável, principalmente para um modesto carteiro cujo único poder era o de ler os endereços nos envelopes e de os entregar às pessoas certas sem demora.
Com a idade, comecei a sentir dores nas pernas e nas costas e o exercício matinal de andar vários quilómetros ao frio deixou de ser agradável e estimulante. Passei a caminhar mais lentamente e algumas pessoas começaram a protestar porque a entrega da correspondência se fazia cada vez mais tarde.
— Desculpem, mas melhor do que isto já não consigo fazer — lamentava-me eu, com pena de que o meu serviço estivesse a perder qualidade.
Houve mesmo pessoas que não eram da cidade, mas que para lá foram entretanto viver, que pediram ao chefe da estação de correios para me substituir, mas ele, que era meu amigo e que sabia como eu era estimado, sorriu e limitou-se a responder:
— Enquanto ele puder andar e quiser continuar a ser carteiro, o lugar é dele. Portanto, a sua substituição está fora de questão.
Fiquei-lhe agradecido por aquele gesto de amizade e de confiança, mas devo confessar que, a partir dessa altura, comecei a pensar em retirar-me para ter um fim de vida mais descansado. Mas retirar-me para fazer o quê? Para essa pergunta eu não encontrava resposta, mas ela acabou por surgir.

*

Ao longo da minha vida como carteiro conheci muita gente. Uma dessas pessoas era um simpático sapateiro chamado Andersen, que tinha ideias arejadas apesar de o seu ofício ser modesto. Era casado com uma senhora mais velha e recordo-me bem da alegria que o casal teve quando, num dia do princípio de Abril, lhes nasceu o único filho. Era uma criança pequena e muito metida consigo mesma. Quando ele nasceu, levei cartas para várias cidades e aldeias a dar a notícia da sua vinda ao mundo. Os pais, de tão felizes que estavam, queriam que familiares e amigos partilhassem a sua alegria. Ao menino foi dado o nome de Hans Christian e quando cresceu passei a contá-lo entre os meus amigos. Eu contava-lhe histórias e ele retribuía com outras que a mãe e o pai lhe contavam, e longe estava eu de imaginar que muitas dessas histórias, uma vez postas em livro, viriam depois a torná-lo famoso em todo o mundo.
— Não chores que ele qualquer dia volta — foram as únicas palavras que consegui dizer-lhe no dia em que o seu pai partiu para muito longe, para participar como soldado nas campanhas de Napoleão Bonaparte, um imperador francês que ele muito admirava.
O pai de Hans Christian nunca mais voltou, nem as histórias que ele contava ao filho ao adormecer. Durante muito tempo ele deixou de querer saber se chegavam ou não cartas de longe com notícias frescas e boas. Ninguém mais lhe poderia dar a notícia pela qual ele ansiava: a do regresso de seu pai. Um dia vi Hans Christian de malas feitas para partir e perguntei-lhe:
— Para onde vais, rapaz? Se tu partires, a quem vou eu contar as minhas histórias de carteiro velho?
— Vou para Copenhaga. Quero ser cantor, bailarino, actor, talvez mesmo escritor. Tu qualquer dia também vais fazer grandes viagens, como as personagens das histórias de que ambos gostamos tanto.
— Mas eu não passo de um pobre carteiro à beira da reforma — respondi-lhe eu.
— Mas nada te obriga a teres este ofício até ao fim dos teus dias. Qualquer dia tens uma grande surpresa — disse-me Hans Christian, enquanto subia para a carruagem que o levaria até à capital, para ser famoso e rico.
Fiquei a pensar na surpresa de que ele me falou com um sorriso matreiro no rosto magro e pálido, mas, mesmo puxando pela imaginação, não consegui descobrir qual poderia ser.
Nas semanas que se seguiram senti saudades de Hans Christian e das histórias que, fora das horas do meu serviço, contávamos um ao outro, dando asas aos sonhos que fazem voar as histórias e as lendas por cima das fronteiras que separam os países e os homens. Ele fez-me muita falta, porque, sem a sua presença, eu sentia-me mais velho, mais cansado e menos capaz de cumprir a minha função de carteiro. As ruas eram agora mais compridas, havia mais casas, rostos novos e eu já não era capaz de conhecer toda a gente, como nos velhos tempos da juventude. Entristecia um pouco mais todos os dias, ansioso por que chegasse a reforma e, ao mesmo tempo, com a esperança de que ela tardasse o mais possível. Afastado do meu trabalho, eu iria sentir-me inútil e abandonado.
Às vezes as crianças, ao verem-me passar, diziam-me:
— Em vez de cartas cheias de gatafunhos, bem podias trazer-nos um presente bonito, mesmo que não seja Natal.
Foi nessa altura que comecei a receber cartas de muito longe. Primeiro de Itália, depois de Espanha e de Portugal. Era Hans Christian quem as mandava e em todas elas me dava conta dos seus êxitos literários. Os seus livros eram agora lidos em muitos países e as suas histórias contadas a crianças de todo o mundo. Nem podia imaginar a alegria que o seu triunfo me dava. Numa dessas dessas cartas ele fazia-me um anúncio estranho e ao mesmo tempo agradável: “Prepara-te, Thor, porque dentro de pouco tempo vais receber a visita de uma grande amiga minha que te levará boas notícias”.
Todos os dias eu ficava à espera dessa visita que tardava a chegar. Mas, como sabia que Hans Christian não era pessoa para mentir, não desisti de a ver chegar à porta da minha pequena casa de madeira, onde as crianças da cidade me vinham pedir que lhes contasse histórias e saber se eu tinha presentes para lhes entregar.
Os grandes frios de Inverno deixavam-me cada vez mais abatido e com menos vontade de distribuir correspondência de rua em rua, de casa em casa. Um dia adoeci com gravidade e os meus amigos disseram-me:
— É tempo de parares. A partir de agora alguém mais jovem se ocupará da tua tarefa. Tens direito a descansar e a passear pelas ruas e pelas praças sem a obrigação de entregares cartas e encomendas. As pessoas vão sentir saudades tuas, mas podem vir visitar-te a casa.
Deitando contas à minha pobre vida, que assim se aproximava do fim, nem me apercebi da presença, junto à minha cabeceira de doente, de uma rapariga de vestido branco e olhos verdes, que parecia ter luz própria, como uma estrela ou uma fogueira nocturna. Quis saber quem era e o que fazia ali.
— Diz-me o teu nome e o que fazes aqui?
— Não te assustes, porque são boas as razões que me trazem à tua casa. Suponho que Hans Christian, nosso amigo comum, te terá falado em mim.
— Ah, então és tu a surpresa de que ele me falava com tanto mistério — exclamei, satisfeito e intrigado.
— Não sei se sou ou não uma surpresa, mas sou, pelo menos, uma amiga que te vem ajudar — disse ela.
— E posso ao menos saber o teu nome, ou será que não o podes dizer a um pobre carteiro que deixou de entregar cartas e que vê a sua vida a aproximar-se do fim?
— Claro que podes saber o meu nome. Eu sou a Fada do Inverno e venho propor-te um outro ofício que, sendo parecido com o que tiveste durante tantos anos, acaba, afinal, por ser muito diferente.
— E será que posso saber qual é esse ofício que agora me propões? — quis eu saber, já cansado de tanto mistério.
— Venho propor-te que te tornes Pai Natal — esclareceu a fada — e, por aquilo que sei de ti e pelo que sei que as crianças sentem a teu respeito, acho que vais gostar muito do teu novo trabalho.
— Mas eu — respondi, balbuciando com a comoção — não sei o que é preciso fazer para se ser Pai Natal e, para além disso, estou com muito poucas forças e a saúde muito fraca. Acho mesmo que estou velho de mais para aquilo que me propões.
— Não deves preocupar-te com nada disso — explicou ela — porque, a partir de hoje, vais ter uma saúde de ferro e a idade vai deixar de contar para ti. Em vez de contares os dias, vais contar os natais e ficarás sempre com a mesma idade, porque um Pai Natal não pode ser mais novo nem mais velho do que tu. Tem que ter sempre a mesma idade e o mesmo aspecto.
Confesso que a ideia me agradou bastante, mas não me atrevi a acreditar que nada daquilo fosse verdade. Eu devia estar a delirar com a febre e a Fada do Inverno não devia passar de uma alucinação.
Foi então que a fada, pegando-me na mão, me levantou da cama e me levou até à janela para ver, cá fora, na rua, a parte mais importante da surpresa.
— Vais fechar os olhos — disse-me — e, quando eu acabar de contar até dez, vais abri-los e ver o que está parado à tua porta.
Fiz exactamente como ela disse e, ao abrir os olhos, deparei com um lindo trenó, puxado por quatro parelhas de renas.
— Gostas? — perguntou ela.
— Claro que gosto — exclamei — mas não acredito que seja para mim e que vá ser eu a viajar nele.
— Pois podes acreditar no que vês. A partir de agora serás tu a conduzir aquele trenó e a levar, em Dezembro, presentes a crianças de muitos países. Claro que vais receber muitas cartas e ter que as ler para saber o que querem, de onde são e em que medida podes ou não satisfazer os seus pedidos. Mas é mesmo essa a função de um Pai Natal, e não é muito diferente daquilo que fazias quando eras carteiro. Apenas terás que viajar mais e não te poderás limitar a entregar encomendas.
Ouvi atentamente todas as palavras da fada e comecei logo a fazer projectos quanto à forma de realizar da melhor maneira o meu novo trabalho.
Dividido entre o sonho e a realidade, senti que ela me tocava na testa com a varinha de condão e que, ao fazê-lo, se desfazia num clarão, desaparecendo do meu quarto sem sequer me dizer adeus. Eu era agora um Pai Natal a sério, com roupa de macia flanela vermelha, gorro da mesma cor com uma borla branca na ponta e com barbas ainda mais compridas do que as que habitualmente usava. Nesse instante deixei também de sentir dores nas pernas e nas costas e a fraqueza que me levara à cama transformara-se num vigor e num bem-estar imensos. Eu nunca me sentira tão bem na minha vida. Tornara-me Pai Natal e não ia ter mãos a medir. Quis agradecer ao meu amigo Hans Christian, mas não sabia a sua morada, nem o seu paradeiro, já que ele andava agora por todo o mundo a visitar cidades, escritores seus amigos e a ver os seus livros traduzidos noutras línguas nas montras das maiores livrarias.
Falando com os meus botões, prometi: “No próximo Natal vou deixar-lhe um presente na chaminé”. Alguém havia de me dar a sua morada.
No começo tudo foi agradável e entusiasmante, até por ser novidade. Eu gostava muito daquilo que fazia e não havia pedido que não satisfizesse, mesmo que não fosse fácil de atender. E muitos não eram.
Ao longo do ano chegavam-me cartas e postais de todo o mundo. Alguns até traziam desenhos bonitos, feitos a várias cores. Outros vinham escritos com uma letra miudinha e cheia de hesitações. Às vezes eu levava horas a tentar decifrar os pedidos que as crianças me faziam. Tive que aprender várias línguas e arranjar óculos com lentes mais fortes. Senti a tentação de satisfazer primeiro os pedidos das crianças da minha cidade, mas não caí nela. Os pedidos eram satisfeitos pela ordem de chegada e primeiro estavam sempre os meninos e as meninas que, ao longo do ano, pouco ou nada tinham recebido. Era uma questão de justiça e eu, se já tinha sido justo como carteiro, agora tinha de o ser ainda mais como Pai Natal.
Vi, cá de cima, o mundo a transformar-se: as cidades a crescerem, as populações a aumentarem e a movimentarem-se de uns países e de uns continentes para os outros, as fábricas a aparecerem e a encherem os céus de fumo espesso e escuro, as pessoas a andarem cada vez mais depressa.
— Isto nunca esteve tão mal — lamentavam-se os velhos.
— Eu gosto de ser criança e tenho vontade de ser feliz — diziam-me os mais pequenos.
Tive que perguntar aos gnomos que me ajudavam e que estavam mais atentos às pequenas e às grandes coisas da terra os nomes de estranhos objectos metálicos que eu observava cá em baixo em movimento, e eles responderam-me: “São os automóveis, os autocarros e os comboios, os aviões e os navios”. Eu nunca percebi verdadeiramente para que servia tudo aquilo, porque os meus problemas de deslocação resolviam-se com um simples e rápido trenó. Mas eu sou um Pai Natal e as pessoas como eu não devem andar de carro ou de comboio, ou, pelo menos, ninguém espera que andem, para que não se estrague a magia das histórias que ajudam a sonhar.
Os meus maiores problemas foram sempre com os objectos voadores, primeiro com os aviões e mais recentemente com as naves espaciais. Já estive em vias de chocar com alguns e só por milagre isso não aconteceu. Há uns anos, depois de ter evitado à justa a colisão com um avião gigantesco que voava para a Austrália, para a terra dos meus amigos cangurus, ainda ouvi um insulto (digo que era um insulto pelo tom e não porque saiba o significado da palavra) que ainda hoje me dá que pensar:
— “Desaparece da minha frente, ovni de uma figa”! — gritou o comandante furibundo, com os olhos a faiscarem de raiva. E eu, como era Natal, nem lhe pude responder, senão ainda lhe teria dito:
— Ovni és tu, meu azelha dos céus. Vai mas é arrumar essa banheira de lata pintada na garagem da tua avó. Ovni é a tua prima!
Mas achei de bom tom ficar calado e seguir viagem. É isso que se espera de um Pai Natal, e foi precisamente isso que eu fiz. Era só o que faltava: eu envolvido numa discussão de trânsito!
O que mais me tem custado em todos estes anos que levo de ofício e que já não têm conta, porque eu, depois da minha conversa com a Fada do Inverno, também perdi a conta aos anos que tenho de idade, é ver os estragos que as guerras provocam às pessoas e às casas. Até me arrepio quando falo nisto, mesmo não vos contando as coisas terríveis que já vi. Um Pai Natal não pode contar tudo aquilo que vê.
Não me chegam os dedos das mãos para contar os natais em que fiquei sem entregar presentes. Levei o meu trenó o mais longe que pude, até perto das casas dos meninos que me tinham escrito cartas e postais, mas, na maior parte das vezes, não os encontrei. Tinham deixado de morar ali, tinham sido levados para campos longínquos onde as pessoas são tratadas como bichos e alguns nunca mais puderam regressar às suas casas. Guardei os seus presentes no meu sótão iluminado, sempre à espera de dias melhores e mais pacíficos. Mas esses dias, quando finalmente chegaram, já estavam fora de tempo. Muitas vezes chorei sobre as cidades destruídas e incendiadas pela guerra e ouvi as minhas renas a perguntarem-me:
— Porque choras, Pai Natal?
— Por nada, é do nevoeiro e do fumo que sai das chaminés das fábricas — respondi eu com pouca convicção, mas elas perceberam que eu não estava a falar verdade.
Ninguém tem tanta sensibilidade como os animais para perceber se estamos ou não a sofrer. As renas conhecem-me há tantos, tantos anos que, mal eu começo a fungar, sabem logo que é uma grande tristeza a tomar conta de mim.
— Quando ele está assim triste, o melhor é deixá-lo ficar em paz com os seus pensamentos — costuma ser este o comentário das renas.
Mas eu não lhes menti inteiramente quando falei no fumo das fábricas. É mesmo verdade. Cada vez mais andam no ar fumos esquisitos e irritantes, dos que fazem chorar, dos que fazem espirrar e dos que nos deixam cheios de comichões na pele. Para dizer a verdade, eu acho que as pessoas cada vez têm menos respeito umas pelas outras, e, quando o respeito falta, tudo se torna possível. Por isso, os meus ouvidos andam cansados de ouvir tantas queixas, das crianças, dos pássaros, dos peixes, das árvores e dos rios. Há meses até recebi uma carta de um colibri a pedir-me uma máscara contra os fumos de uma grande fábrica que construíram perto do seu ninho. Claro que não pude satisfazer o pedido, primeiro porque não costumo dar máscaras anti-poluição e depois porque não existem nenhumas feitas à medida dos pássaros, sobretudo quando são pequeninos como os colibris.
Mas os pedidos estranhos não se ficam por aqui. Antigamente pediam-me ursos de peluche, carros de bombeiros feitos de lata, marionetas e bonecas de pano. Agora pedem-me coisas muito diferentes: jogos de computador, carros telecomandados, leitores de CDs.
Confesso que tenho feito um grande esforço para me manter actualizado. Leio livros, jornais, folhetos explicativos e muita outra papelada. Por aí vejo as voltas que o mundo deu.
No tempo em que eu contava histórias a Hans Christian e ele mas contava a mim, nada disto existia. Era tudo mais simples e menos confuso. Não quero dizer que fosse melhor nem pior.
Acho apenas que era diferente, muito diferente. Eu sei que o mundo não pára e que tudo se transforma. Mas também sei, mesmo sem querer armar-me em filósofo de trazer por casa, que há coisas que as pessoas não podem nunca perder: o gosto de conversar, de estar com as outras pessoas, de ouvir e de contar histórias, de olhar para o céu e para o mar, nem que seja para contar estrelas ou ondas.
Aqui, o velho Thor às vezes interroga-se: “Será que os presentes que eu entreguei ao longo da minha vida fizeram bem aos meninos e às meninas que os receberam? Será que não ficaram mais mesquinhos e gananciosos por terem presentes a mais?”
Ainda não consegui e se calhar nunca conseguirei encontrar respostas para estas perguntas, mas não faz mal. Às vezes, as perguntas são muito mais importantes que as respostas, porque nos fazem pensar e nos ajudam a fazer pensar os outros. Ainda há pouco abri uma carta vinda não sei bem de onde e, lendo o segundo parágrafo, vi que uma menina chamada Bárbara me pedia um telemóvel para poder falar a qualquer hora do dia com os primos que estão emigrados no Canadá. Vou ver se não me esqueço de satisfazer o pedido da Bárbara, porque é para isso que um Pai Natal existe, mas, sinceramente, preferia que ela me tivesse pedido um livro de lendas ou uma boneca. Se calhar, são manias que eu tenho.
— Pai Natal, este ano tens que me trazer uma televisão gigante para eu ver o que se passa no mundo. Quando o ecrã é grande até as guerras são um espectáculo! — disse-me na semana passada, à passagem por uma aldeia de montanha, um miúdo de cabelos negros e olhos muito vivos, e eu respondi-lhe:
— Em vez da televisão, este ano vou oferecer-te um livro muito bonito. Não leves a mal, mas presentes desse tamanho já não cabem no meu trenó.

Eu sei que, às vezes, me torno um desmancha-prazeres, mas prefiro dizer o que penso e o que sinto. Quanto a dar televisões de presente, prefiro fazer outras escolhas. Não tenho nada contra a televisão, mas, como sou do tempo em que ela ainda não tinha sido inventada, tenho saudades das noites e dos dias em que havia paciência para sonhar e para inventar histórias. Pode ser que eu esteja a ver mal as coisas, mas, se aqui estivesse o meu amigo Hans Christian, era bem capaz de me dar razão.

*

Embora todos ou quase todos sonhem com o Pai Natal quando são pequenos, eu gostava de vos dizer que o Pai Natal também tem sonhos e gosta muito de sonhar. De resto, eu não sei mesmo o que seria a vida de um Pai Natal se não fossem os sonhos que o acompanham por toda a parte.
Ainda esta noite tive um sonho. Sonhei que recebia a minha própria visita. Eu estava a dormir, ainda menino, na minha terra fria do Norte, e de repente bateram à porta e era eu que vinha entregar um presente a mim mesmo.
Como vocês sabem, nos sonhos tudo, ou quase tudo, é possível, até sonharmos que recebemos a nossa própria visita. Olhei para aquela cara e confesso que ela não me pareceu nada estranha. Era eu menino a olhar para mim já velho e a sentir simpatia por aquele homem de barbas compridas e brancas que me trazia um presente de muito longe e de um sítio secreto no fundo da noite. Sentei-me na cama e tentei tocar-lhe nas barbas, mas, como sempre acontece nos sonhos, senti que tinha os movimentos presos, que não conseguia sequer mexer um músculo, que estava mais rígido que um pedaço de granito numa montanha. Sentei-me na cama e perguntei-lhe:
— Que presente me trazes?
— Trago-te um trenó pequenino para tu poderes viajar nele quando tiveres a minha idade — respondeu-me o Pai Natal.
— Mas quem foi que te disse que eu ia querer um trenó para usar quando tiver a tua idade? — perguntei eu, em tom de menino esperto e inquiridor.
— Ninguém me disse, fui eu que adivinhei. Eu sei que quando tiveres a minha idade, barbas tão compridas como as minhas e este ar cansado e errante com que hoje me vês, vais precisar de um trenó como aquele que agora te ofereço, só que muito maior e com renas verdadeiras.
— Mas como podes tu saber a meu respeito coisas que eu nem sou capaz de imaginar?
— Se calhar é a vantagem de ser Pai Natal. Mas eu vou tentar satisfazer a tua curiosidade. Esta madrugada, antes de vir bater à tua porta, eu passei pela casa de um outro menino chamado Hans Christian, que me pediu para não me esquecer de ti nesta noite de todos os presentes e de todos os afectos. E foi isso que eu fiz. Vim até à tua casa para te oferecer este pequeno trenó. Sempre que olhares para ele, hás-de lembrar-te de mim e hás-de lembrar-te daquilo que irás ser quando tiveres a minha idade.
Olhei, em sonhos, ainda com a idade de ser um menino, para aquele Pai Natal que era eu com os anos que hoje tenho, e senti uma grande ternura. Não por mim, mas por todos aqueles a quem consigo dar um pouco de alegria com o recheio mágico do meu saco iluminado.
E pronto, tinha chegado o momento de acabar o sonho. Eu ia fechar os olhos, mergulhar numa escuridão profunda e preparar-me para ser apenas aquilo que sou nesta história que hoje vos conto na primeira pessoa: um Pai Natal vindo das terras geladas e brancas do Norte, cheio de coisas para contar e de presentes para entregar.
Agora eu pergunto: será que é real o que vos estou a contar nesta história? Será que há histórias verdadeiras? Será que um Pai Natal, mesmo quando conta a sua própria história, não é sempre uma figura mágica, nascida da imaginação de quem já foi menino e de quem, sendo menino, recebeu, na altura certa, os presentes da alegria e da saudade de ser menino? Podem ter a certeza que não vou dar resposta a nenhuma destas perguntas. Porque não quero e porque não sei. Um Pai Natal é muito mais interessante quando pergunta do que quando responde. E eu gosto muito de ser perguntador. Gosto de perguntar qual é o melhor caminho para chegar mais perto daqueles de quem gosto. Gosto de perguntar qual é a morada das estrelas que me iluminam o caminho. Gosto de perguntar onde começa e acaba o sonho dos meninos que me inventam em cada noite de Consoada.
Agora estou acordado outra vez, e ainda tenho muito para viajar e outro tanto para contar. Sigo o fio de luz deixado por um cometa que atravessa a noite em direcção a lado nenhum. É seguindo estes rastos que eu encontro sempre o caminho que me leva até ao fim das histórias e até à casa de cada um de vós. Porque vocês me inventam e porque eu, ao saber-me inventado, também me sei amado como só os pais, os avós e os grandes amigos podem ser. E, dito isto, só não vos entrego já o presente que trouxe para vos dar, porque isso só pode acontecer no fim da história, e eu ainda tenho um longo caminho a percorrer até lá chegar. Endireito as costas no assento do meu velho trenó e parto para um outro capítulo.
— Vamos fazer-nos outra vez ao caminho, Pai Natal. Estávamos a ver que nunca mais acordavas! — desabafou uma das renas.

*

— Atchim! Atchim! — desculpem lá o mau jeito, mas agora passo os dias a espirrar. Nunca sei se é Verão ou se é Inverno, se é Primavera ou se é Outono. As estações do ano andam todas trocadas. Visto o meu casacão de flanela e faz um calor abrasador. Fico em mangas de camisa e sinto um frio de rachar. Vá lá um Pai Natal orientar-se no meio destas mudanças de temperatura!
A constipação que agora me anda a incomodar apanhei-a há dias quando me saltou um esqui do trenó e passei ao relento mais de duas horas a repará-lo. Quando cheguei a casa os gnomos que me ajudam notaram que eu tinha o nariz a pingar e os olhos muito vermelhos.
— O Pai Natal vai ficar de cama e não pode entregar os presentes — disse-me Adónio, o mais esperto e espevitado de todos eles.
Mas eu não me deixei assustar com a perspectiva de ficar de cama. Fui ao armário dos segredos antigos buscar um xarope feito a partir de uma receita da minha avó e hoje já estou bastante melhor. Não tenho medo de morrer com uma constipação, o que não quero é faltar ao encontro com os meus amigos de todo o mundo na noite de Natal.
O que me está a preocupar é o mau estado em que tenho o trenó. Os esquis estão desengonçados e as renas, coitadas, cada vez têm que fazer mais esforço para o puxar através das longas e sempre engarrafadas avenidas do céu. Eu bem apito, bem sacudo os guizos e os chocalhos, mas ninguém se afasta para me deixar passar. Estão todos muito ocupados a pensar nas suas vidinhas.
Um grupo de amigos meus do País dos Sonhos Azuis decidiu escrever uma longa carta aos governos de vários países, pedindo para me ser dado um trenó novo. Mas as respostas que receberam eram quase todas iguais: “O orçamento deste ano não prevê despesas supérfluas”; “as nossas disponibilidades financeiras estão esgotadas com a compra de dois novos porta-aviões”; “lamentamos informar que a resposta será negativa, mas a verdade é que temos outras prioridades para respeitar”; “porque não tentam uma fundação ou uma empresa de brinquedos? A nossa função não é dar subsídios ao Pai Natal”.
Tudo isto é bem capaz de ser verdade, mas também é verdade que quem escreveu estas cartas de resposta gostou sempre, quando era pequeno, de receber as minhas visitas na noite da Consoada. Ai, meus amigos, quem manda às vezes tem a memória curta e esquece-se de que um dia já foi pequeno.
Por isso eu vos disse, no começo desta minha história, que tenho passado por muitas peripécias e também por muitos azares. O maior de todos os azares aconteceu-me há dias. Ia eu todo satisfeito a sacudir as rédeas do meu trenó, quando senti que o tapete fofo das nuvens me fugia debaixo dos pés. Senti que me afundava e que, a cair daquela maneira, talvez não tivesse salvação. Foi então que, pela primeira vez em tantos anos, pedi a ajuda da Fada do Inverno que não tardou em vir em meu auxílio. Vi-a chegar em voo picado, de varinha de condão em riste, no meio de um enorme clarão, e achei-a tão bonita e tão luminosa como na primeira luz em que nos encontrámos, quando eu dava os primeiros passos no meu novo ofício.
— Pronto — gritou-me ela — ainda não é desta que vais deixar de ser Pai Natal!
— Obrigado, Fada do Inverno, pela tua ajuda, mas será que posso saber o que me aconteceu? — perguntei eu, cheio de curiosidade de saber como tudo aquilo tinha acontecido.
— Meu querido Pai Natal — esclareceu-me ela com a sua voz doce e bonita — o que aconteceu foi que caíste no buraco do ozono, que é uma das últimas maldades que os homens conseguiram fazer a este pobre planeta.
— Mas o que é o buraco do ozono? — quis eu saber, de tão desnorteado que estava com a prolongada queda.
— É o resultado de todos os males que os homens têm feito à atmosfera, usando e abusando de “sprays” e de outros produtos químicos que poluem e estragam. Quanto mais o buraco do ozono se alargar, piores serão os efeitos do sol sobre a pele dos seres humanos, sobre as culturas e no próprio clima.
Esclarecido, mas preocupado, ajeitei a minha amarrotada fatiota e fiquei a saber que existe mais um problema que todos vamos ter que resolver: o do buraco do ozono. Era só o que nos faltava!
Está a aproximar-se a grande noite da distribuição dos presentes e eu, como sempre acontece, encarrego-me pessoalmente de verificar se tudo está em ordem: os endereços, os laços nos embrulhos e as mensagens nos cartões que acompanham cada pacote. Nunca deixei essa tarefa em mãos alheias, porque um Pai Natal tem que ser cuidadoso com todas as etapas por que passa o seu trabalho.
Batem-me à porta e vou abrir. Quem me procura é um senhor de idade, muito pálido e magro, vestindo roupas escuras de um século anterior àquele em que eu nasci. Traz um velho cavalo preso pela rédea e parece estar muito cansado.
— Eu sou aquele que nunca teve Natal — diz-me — e venho aqui pedir-vos um grande favor.
— Faça favor de dizer — respondo-lhe, surpreendido com tão inesperada visita.
— Quero pedir-lhe que, neste Natal, junte a cada um dos presentes que entregar um saquinho de sonhos e de mistérios. É que os homens esqueceram-se de como se sonha e isso tornou-os muito mais tristonhos e carrancudos, tal como eu.
— Com certeza que vou satisfazer o seu pedido, embora não saiba onde posso encontrar esses saquinhos de sonho e mistério.
— Essa é a parte mais fácil de tudo isto — respondeu o homem — porque eu trago nos alforges do meu cavalo centenas de sacos desses. Têm dentro um pó luminoso de magia e algumas sílabas encantadas que só se usam nas palavras das fadas e dos adivinhos.
— Venham os saquinhos — propus eu — e logo me encarregarei de os distribuir.
— Nunca pensei que um homem que nunca tem Natal desse com a minha morada — comentei.
— Não foi difícil, Senhor Pai Natal, porque nós agora pertencemos ao mesmo mundo, que é o do sonho e da fantasia. Dar com a sua casa foi tão simples como sonhar. Fechei os olhos, pensei que tinha esse desejo e, quando os abri, estava aqui a bater à porta. Nada mais simples.
Ainda quis convidá-lo para beber um chazinho de tília, mas ele já estava de partida com a sua montada, a caminho de qualquer lugar que eu nunca serei capaz de encontrar no mapa.
Fechei os olhos e adormeci, exausto de tantas peripécias e visitas inesperadas. Logo à noite vou mais uma vez distribuir presentes de Natal às crianças de todo o mundo, no meu velho e esvoaçante trenó. E só espero que a protecção da Fada do Inverno, a quem devo o ofício que hoje tenho, me impeça de cair de novo no buraco do ozono.
O velho cavaleiro que nunca teve Natal já deve estar muito, muito longe. As minhas renas começam a ficar impacientes com a proximidade da grande viagem através dos céus da noite. “Calma, meninas, que vai ser só mais uma viagem para entregar presentes. Não fiquem nervosas. Vão ter uma boa recompensa de erva fresca, cenouras e açúcar e muito tempo para descansar”, digo-lhes num tom calmo e afectuoso. Toca o telefone e eu atendo. Do outro lado está Hans Christian, que me diz:
— Quero desejar-te um bom Natal e pedir-te que nunca te esqueças desta noite. Ainda vou precisar de ti para entrares em muitas das minhas histórias.
— Obrigado, Hans Christian — respondo. — Desejo que tenhas também uma boa noite de Natal. Quanto às histórias, podes contar comigo. Logo à noite passarei pela tua casa para te deixar uma lembrança. Quando ouvires os guizos das renas, já sabes que sou eu que estou a chegar.


José Jorge Letria
Porto, Edinter, 1996