14/11/2008

O coelho de jade


Contaram-me que, lá muito atrás de todos os séculos conhecidos, houve um tempo de maravilha em que os homens entendiam a fala dos bichos.
Quando e como deixaram de perceber o sussurro das formigas, o apelo do gavião, o quei-xume do caracol ou o pausado discorrer dos tigres, na hora de semicerrar os olhos ao sol do meio-dia, quando e como os homens ensurdeceram às outras vozes da terra não sei. Só sei que foi pena.

Pois, nesse tempo, todos os seres animados se entendiam. E alguns, até, pela abundância das suas virtudes, alcançavam o respeito dos demais.
Era o caso da lebre, desta lebre da nossa história.
Bichinho lesto, acorria com palavras de estímulo e amparo onde fosse preciso. Mas não a julguem lebre pregadora, aos saltos pelo mato, com discursos de fugida e actos de raspão. Não senhor.
Nela não havia fingimento, era uma lebre esmoler e piedosa, só entregue ao socorro alheio.
Como tinha de benefício a rapidez, produzia numa hora mais acções boas do que outros conseguem juntar num ano. Mas isso provinha da velocidade com que nascera para a vida.
Olhem um cágado de carapaça voltada, a espernear de aflição. Vinha a lebre e zumba! - virava-o para a terra.
Olhem uma andorinha implume, caída do ninho. Vinha a lebre e zumba! - repunha-a no conchego da asa materna.
Olhem um cachorro sequioso, de língua encortiçada e pendente. Vinha a lebre e zumba! - carregava com ele até à beira do riacho.
Olhem a abelha trémula, apanhada pelo caminho da noite. Vinha a lebre e zumba! - soprava-a para o cortiço.
Olhem dois carneiros de chifres encavalitados um no outro, cansados de uma luta de que já nem sabiam o porquê. Vinha a lebre e zumba! - despegava-os da contenda e punha-os a balir a mesma canção de amizade.
Que ela tinha muita força. A força do ânimo e do bem-fazer.
Lebre assim, ambulatória, assistente dos fracos, recurso dos aflitos, é raridade. Exemplo semelhante não se encontra em parte alguma, senão, por outras épocas e sítios, nos romances de cavalaria e não em todos.
Como se percebe, os outros animais gratamente lhe davam o título de princesa. Ela, coberta de modéstia, recusava a honra. Bastava-lhe ser lebre sem mais quê.

Buda, o que tudo sabe porque escuta o coração dos seres e interpreta a notícia dos ventos, ouviu o que de bom se contava da lebre. Quis conhecê-la. De uma vez em que andava por perto em visita aos seus discípulos, desceu o declive da colina que a lebre habitava. Sozinho e cansado da jornada, Buda estendeu-se à sombra de um penedo.
As cigarras zuniam ao calor da tarde. Aos pés da colina encurvava-se o rio, que os bichos do sítio supunham o único do mundo ou, pelo menos, o mais belo de todos.
Confortado com o que vira, Buda adormeceu. Acon-tecia-lhe no sono transmutar-se noutro e, depois, acordar ainda com as vestes e as configurações do sonho. Há muitas histórias de Buda que contam destes feitos.
Daquela vez acordou transformado em brâmane, sacerdote mendigo. Descalço e esfarrapado pêlos espinheiros, à beira de muitos caminhos, o brâmane causava pena.
- Piedade. Tenham piedade de mim - suplicou.
Via-se que aquele brâmane há muito que não conhecia abrigo nem pão.
Devagarinho, ora um ora outro, os animais da colina iam-se chegando ao brâmane desolado. Não podiam adivinhar que, sob aquele disfarce, era de Buda que se aproximavam.
- Piedade. Tenham piedade de mim - suplicava o brâmane, erguendo os braços.
- Como veio aqui ter? - perguntou o rato de água aos bichos da vizinhança. - Estava a dormir na minha toca, quando o ouvi. O coitado não dura muito...
Todos achavam o mesmo.
- Piedade. Tenham piedade de mim - suplicava o brâmane, estendendo os braços.
- Se morrer, será de fome - suspeitou a lontra.
- E nós vamos deixar? - perfilou-se a garça.
- Piedade. Tenham piedade de mim - suplicava o brâmane, pendendo os braços.
Confrangia.
Então os bichos correram cada qual para seu lado. A garça pernalta em direcção ao rio. O rato em direcção ao bosque. A lontra em direcção aos seixos da margem.
Esvoaçando sobre as águas, a garça pescou um peixe. Vasculhando pelas ramagens, o rato colheu frutos silvestres. Levantando as pedras molhadas da beira-rio, a lontra filou uma cobra.
Trouxeram tudo de presente ao brâmane, que desfalecia. Ele que escolhesse. Ele que comesse.
Mas, para surpresa deles, o brâmane não tocou em nada.
Sugeriu não sei qual:
- Faça-se um fogo para assar o peixe, para estalar os frutos, para despelar a cobra.
Assim se fez.
Mas nem mesmo depois de cozinhados o brâmane os quis.
- Algum voto o proíbe de comer peixe, fruta... - pensou, em voz alta, um dos bichos.
Estavam desolados. Diante deles o desgraçado definhava. E eles não sabiam como valer-lhe.
Mais eis que, atraída pelo lume da fogueira, ao grupo se juntou a lebre.
- Quem acordou o fogo? - perguntou ela, movida pela preocupação de acudir e abafar os excessos da Natureza.
Explicaram-lhe o sucedido e apontaram-lhe o brâmane moribundo. Compadecida, a lebre debruçou-se sobre o brâmane.
- Está muito fraco. Precisa de comer carne de caça fresca para se salvar - sentenciou.
Os restantes bichos recuaram. A lebre fitou-os. Agora pasmem com o que lhe ocorreu:
- Carne de caça fresca é a da lebre. Quererá ele provar da minha?
Perante o pânico da lontra, da garça e do rato, a lebre ia lançar-se à fogueira. Já as chamas rente a ela a cobiçavam, quando se deteve:
- Não tenho o direito de sacrificar ao meu gesto os parasitas que me povoam o pêlo.
E começou a catar-se.
Os seus companheiros de colina estavam paralisados de espanto. Tanta generosidade nunca se vira.
O brâmane também a fitava com estranha atenção.
Depois de ter limpo de si todos os parasitas, a lebre, sem uma hesitação nos passos, encaminhou-se para a fogueira... E, num impulso, como se as chamas fossem um lago, saltou para o meio delas...
Nesse mesmo instante, o brâmane, magicamente desperto da sua prostração, levantou-se e, retomando as forças de Buda, exclamou, de braços erguidos para o céu:
- Que tudo torne ao que era: o fogo em tronco seco e a bondade ao seu corpo vivo.
Logo ali se aplacou o fogo. Os animais correram para a lebre num alvoroço de alegria...

Conta ainda a lenda que os magos tauístas, recordando o feito da lebre, a imortalizaram numa imagem que ficou conhecida por «O coelho de jade». De curtas patas dianteiras e longuíssimas patas posteriores, a lebre ou o coelho tritura, sabiamente, num almofariz, o «Elixir de jade», remédio miraculoso contra todos os males.
Entretanto, já Buda ordenara que à estóica lebre fosse concedido o panteão lunar.
Quem, por desenfado, em noites luarentas, pesquisar a Lua com olhos indagadores há-de divisar-lhe a silhueta debruçada sobre o almofariz. É ela, a lebre incansável,
que trabalha.
Talvez uns grãos de pó, uns minúsculos grãos de pó se derramem do almofariz e caiam sobre a Terra. Seria bom...


António Torrado