30/11/2008

Histórias com dragões

8



O livro que falava do dragão lá estava devidamente arrumado numa estante da Torre Dourada.
Ao reler o livro, Teresa lembrou-se da lenda sobre Jorge, um jovem soldado do Império Romano que veio a ser chamado santo e que é o padroeiro de muitos países, entre eles Portugal e Inglaterra, precisamente por ser muito corajoso.
Diz a lenda que havia um dragão terrível que assustava os habitantes de uma cidade, saindo das profundezas de um lago e deitando grandes labaredas pelo nariz, como, de resto, os dragões costumavam fazer, o que, diga-se de passagem, não é uma atitude nada civilizada.
Aflitas e muito desgostosas, as famílias daquela terra iam perdendo raparigas que o dragão atacava.

Um dia, foi a vez de a filha do rei decidir ir entregar-se ao dragão para ver se, assim, ele pouparia a vida ao povo, para que mais ninguém fosse vítima daquela criatura tão má.
Então, subitamente, apareceu Jorge, montado num cavalo branco e vestido com um manto e uma armadura onde se via uma cruz de cor vermelha. Numa mão trazia uma lança e, indo enfrentar o dragão, derrotou-o em combate, salvando a jovem e valente princesa.
No fim, Jorge disse a toda a gente da cidade que tinha vindo em nome de Cristo e que gostaria muito que todos os que se sentiam aliviados e felizes por verem que o dragão tinha sido vencido fossem baptizados. A verdade é que, naquela altura, ainda havia pouca gente baptizada e não costumavam sê-lo senão já na idade adulta, provando que acreditavam em Jesus Cristo como Filho de Deus e vencedor de todo o mal do mundo.
Inês ficou a pensar na história de São Jorge e na que a pequena Teresa estava a escrever, da qual ela ainda nada sabia a não ser que também falava de um dragão, de uma menina, e não era uma história divertida...
Sentia que devia fazer qualquer coisa, mas ainda não descobrira o quê. Precisava de saber o que Teresa tinha para lhe contar.

Poucos dias depois, no fim de mais uma sessão de leitura para as crianças, Inês chamou Teresa e perguntou-lhe:
— Como vai a tua história? Tens escrito?
A menina fez que sim com um gesto de cabeça e contou:
— Não posso ainda terminar a minha história, porque quero que ela acabe bem...
Inês compreendeu finalmente que a menina andava a escrever sobre alguma coisa que deveria estar a acontecer na vida dela, alguma coisa que não era boa — talvez um problema difícil que ela não conseguia resolver sozinha. Porque é normal não conseguirmos resolver sozinhos certos problemas.
— Eu gostava de ler a tua história, mesmo sem estar ainda acabada — disse ela a Teresa. — Como conheço muitas histórias, talvez possa ter uma boa ideia para te dar uma ajuda, que dizes?
A menina voltou a dizer que sim com um gesto de cabeça e saiu a correr do castelo, animada com a possibilidade de vir a acabar depressa a sua história, como tanto queria.
Logo no dia seguinte, depois de sair da escola, Teresa dirigiu-se para o castelo, com a mochila às costas, como Inês tantas vezes fizera quando ainda era criança.
No meio dos seus livros escolares, a menina levava o caderno onde andava a escrever a sua história...
Como era bom poder contar no papel o que o seu pensamento lhe ditava! Nos primeiros anos de escola, jamais imaginara como escrever podia ser tão importante.
O coração de Teresa batia cada vez mais depressa. Nunca tinha falado da sua história a ninguém, mas sentia que chegara a altura certa, porque Inês merecia toda a confiança.
É tão raro alguém merecer toda a nossa confiança, não é?
Ao chegar ao castelo, antes de ir bater à porta, a menina foi sentar-se num dos bancos de pedra do jardim e pôs-se a pensar...
Por um lado, tinha muita vontade de mostrar a Inês o que escrevera, mas, por outro lado, tratava-se de uma história muito importante para ela, porque, apesar de ser imaginada, era, de certo modo, parecida com algo que se passava na sua vida real e que muito a entristecia e embaraçava.

E se Inês não percebesse a sua história?
Não, provavelmente perceberia, porque Inês já tinha lido muitos livros e sabia coisas incríveis acerca de pessoas um pouco estranhas, animais e lugares da Terra onde ninguém esteve, excepto alguns cientistas: picos de montanhas geladas, vulcões em actividade, abismos marinhos, grutas misteriosas...
Animada com estes pensamentos, Teresa resolveu levantar-se do banco e ir, então, bater à porta do castelo.
Estava um dia de Maio muito quente, e a menina tinha as bochechas coradas do calor e da vontade de mostrar à sua amiga mais velha o que tinha escrito.
Foi Rudolfo quem veio abrir-lhe a porta. Disse-lhe que Inês se encontrava na oficina, a acabar o trabalho de restauro de um dos livros mais antigos da Torre dos Arrepios, um romance de aventuras passadas no fundo do mar, entre lulas gigantes, baleias, tubarões e outras criaturas marinhas.
Inês tinha acabado por aprender com o marquês aquela arte de recuperar os livros que estavam estragados ou em risco de se estragarem e, por isso, a biblioteca do castelo continuava em perfeito estado de conservação. Isto fazia Inês sentir-se satisfeita, porque não queria que nenhum livro fosse destruído pelos ácaros ou pela humidade.
— Estou a acabar o meu trabalho de hoje, Teresa — disse-lhe Inês, enquanto acabava de colocar um livro já restaurado sobre um tabuleiro. Depois, sugeriu: — E se viesses comigo guardar estes livros na biblioteca?
Um pouco atrapalhada, Teresa mordeu o lábio inferior e contou:
— Hoje, trouxe a minha história... Está aqui dentro da mo¬chila...
Inês sorriu-lhe:
— Tiveste uma excelente ideia! Depois de arrumarmos os livros, vamos sentar-nos lá fora só nós as duas ou, se preferires, vamos para o salão.
— Prefiro o salão — disse a menina, enquanto acompanhava a nova dona do castelo até à Torre dos Arrepios. — E que lá fora está um bocado abafado e cá dentro do castelo está sempre fresco.
Quando acabaram de arrumar os romances de aventuras no lugar que lhes cabia, Inês disse:
— Vamos então sentar-nos no salão, já que preferes assim. Vai andando, enquanto vou preparar um refresco para ambas, queres?
A menina disse que sim com um gesto de cabeça e um sorriso, como fazia muitas vezes. Depois, seguiu para o salão e sentou-se numa das poltronas, com a mochila aos pés.
Retirou o caderno da mochila, colocou-o no colo e ficou à espera.
Aquele era, realmente, um dia importante para si! O dia em que ia mostrar a sua história a alguém em quem ela confiava.
Ainda que não soubesse exactamente porquê, parecia-lhe agora que todas as dúvidas já tinham desaparecido da sua cabeça: Inês iria com certeza compreender a sua história! Não havia razão para receios. Mas então por que seria que as suas mãos estavam a ficar húmidas e não conseguia manter as pernas quietas?...



Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros