30/11/2008

9. Amigas verdadeiras


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Era quase meia-noite. Inês não tinha ainda sono porque ficara a pensar na história que Teresa lhe trouxera. De resto, é isto que costuma acontecer quando ficamos preocupados com alguma coisa real¬mente importante, não é verdade?
Inês sabia que teria de tomar uma atitude, estava só a pensar em qual seria a mais certa, para poder realmente ajudar Teresa a resolver o seu problema, o problema que vinha contado, de certa maneira, no caderno onde a menina escrevia.
Na sua história, ainda por acabar, Teresa falava de uma menina que vivia como escrava de um dragão que não a deixava afastar-se dele e ao qual ela só podia escapar, por pouco tempo, quando ele caía em sono profundo, roncando estrondosamente como um motor. E a menina vivia infeliz, desejando libertar-se daquela vida sem, contudo, conseguir. Então, para escapar à tristeza, punha-se a inventar histórias com que acabava por adormecer o dragão...
Teresa e a sua história não saíam do pensamento de Inês. Provavelmente, jamais sairia...Então, encostada nos almofadões da cama, Inês continuou a lembrar-se da parte mais importante do seu dia, com Teresa. Depois de ter lido a história escrita no caderno, fixara o olhar da autora e perguntara-lhe se havia alguma coisa na vida dela que estava a correr mal.
Ao princípio, a menina ficou calada, desviando o olhar para o tapete. Depois, encheu-se de coragem e começou a contar uma história verdadeira: a sua. E era uma história tão triste como a da menina que vivia com o dragão. Na realidade, havia também na sua vida não um animal gigantesco e verde que deitava labaredas pela boca, mas um familiar que a maltratava desde que ela completara seis anos de idade, obrigando-a a fazer coisas que ela não queria e metendo-lhe medo para que ela não contasse nada fosse a quem fosse.
Ora, como ninguém sabia o que se passava, ninguém tinha podido acabar com aquilo, nem mesmo os pais, que não suspeitavam de nada. Na realidade, Teresa não se queixava e ninguém a via chorar, porque, em vez disso, a menina preferia ir sentar-se no seu quarto a imaginar histórias bonitas para afastar os maus pensamentos. Só que esses pensamentos tristes acabavam sempre por voltar...
Era, portanto, necessário agir depressa para que a vida de Teresa mudasse e ela fosse uma menina alegre, com uma vida bonita como todas as crianças merecem e devem ter.
— Para te ajudar preciso que me digas quem te tem maltratado — pediu Inês com muita suavidade, mais ainda do que quando contava histórias. E acrescentou: — Seja quem for, não vamos ter medo! Lembras-te da lenda que uma vez contei sobre São Jorge?
A menina sorriu, mas o seu olhar continuava triste quando respondeu:
— Lembro, mas São Jorge já morreu e eu não sei se alguém que morreu pode aparecer montado num cavalo com uma lança na mão para me salvar... — E Teresa deu um longo suspiro. Depois, confessou:
— O que eu queria mesmo era que... ele fosse morar para outra cidade e ficasse para sempre muito longe!
— Se me deixares, vou tentar ajudar-te — tornou Inês. — Diz-me só quem é essa pessoa, e eu prometo que farei tudo o que puder para que não volte a tratar-te mal. Acreditas em mim?
Teresa acreditava, sim. Tinha muito medo de que as coisas não corressem bem, mas confiava em Inês. Já que lhe tinha contado a sua história verdadeira, o melhor era deixá-la ajudar, porque ela era sua amiga, bem o sentia. Além disso, era uma pessoa crescida, podia fazer muitas coisas que ela ainda não podia.
Sim, podia dizer toda a verdade à amiga que vivia no castelo, e era isso que ia fazer. Agora, já tinha menos medo. O nó na garganta estava quase a soltar-se. Se conseguisse chorar, o nó soltar-se-ia e ela sentir-se-ia mais leve. Porém, chorar era algo que, de facto, só muito raramente lhe acontecia. Aliás, nem se lembrava já de quando tinha sido a última vez...
Compreendendo o que a menina estava a sentir, Inês levantou-se do sofá, foi ajoelhar-se junto da poltrona onde ela estava sentada, deu-lhe a mão e fez um convite:
— Vamos agora até ao jardim? Eu estou a sentir uma certa vontade de chorar, mas é de alegria, porque sei que vamos resolver o teu problema! Se não te importares de me ver chorar, podes vir comigo.
Teresa levantou-se como se uma mola a tivesse empurrado para fora da poltrona e, sem nada dizer, seguiu a amiga até ao jardim do castelo.
Lá fora, sob os últimos raios de sol da tarde, Teresa disse o nome de quem a maltratava já há muito tempo. Então, as duas choraram baixinho, passeando entre as árvores, em silêncio. Porque, às vezes, é preciso chorar para depois respirar melhor e voltar a sorrir. E as lágrimas choradas na companhia de um amigo têm o poder misterioso de lavar o nosso coração e de o deixar mais leve.
Assim, Teresa e Inês choraram sem pressas. E só os anjos e os esquilos as viram e ouviram, mas não fazia mal, porque os anjos são bons e os esquilos vivem lá no seu mundo de avelãs, saltando aqui e ali sem se importarem com o resto.



Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros