30/11/2008

7. A contadora de histórias

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Como talvez já tenhas adivinhado, o marquês, que já estava muito velhinho e doente, partiu para o Céu. No dia da sua partida deste mundo, foi feliz, porque Inês aceitou ficar a morar no castelo, comprometendo-se a não deixar morrer o seu tesouro: os livros guardados nas suas quatro altas torres — a Torre dos Arrepios, a das Asas, a Torre do Céu e a Dourada, conforme deves lembrar-te.
Mais do que tudo, o marquês queria que os seus livros fossem lidos por muita gente e que, ao ficarem gastos ou danificados pelo uso ou por outra razão (como por exemplo a humidade ou o pó), continuassem a ser restaurados. Assim, poderiam manter-se por longo tempo ao serviço de pessoas de todas as idades. Foi isto que ficou combinado entre o velho dono do castelo e a sua herdeira, que merecia toda a sua confiança.
Na verdade, Inês rapidamente pôs em prática o seu plano com as crianças da cidade — não todas, claro, mas um grupo que aos poucos se foi formando até serem vinte os meninos e meninas que ali vinham todas as semanas.
Nos dias frios, reuniam-se no salão onde havia uma lareira. Nos dias de calor, sentavam-se no jardim do castelo à volta de Inês, que lia para eles ou lhes contava alguma das suas histórias favoritas, que faziam sonhar... que faziam crescer!
E a jovem tornou-se uma perita contadora de histórias. Na verdade, até alguns animais da montanha vinham ouvi-la, ficando meio escondidos atrás das árvores que havia à entrada do jardim. Mesmo as lebres, que costumavam fazer a sua vida a uma altitude mais baixa, subiam até à zona do castelo, atraídas pela voz magnética da contadora de histórias.
Então, muitos meninos que nunca tinham lido um livro começaram a descobrir as grandes e maravilhosas aventuras guardadas na Torre Dourada e passaram a gostar de ler! Na verdade, alguns deles, tornaram-se mesmo grandes leitores, como a própria Inês.
Uma das meninas que ia todas as semanas ao castelo tinha, porém, uma característica diferente dos outros meninos que ali iam. Ela gostava de inventar as suas histórias, sem dizer nada a ninguém! O nome dessa menina era... Teresa, essa mesma em que estás a pensar, a tal que me recebeu no castelo e me contou esta história toda...
Quando Teresa foi ao castelo pela primeira vez, nunca lera um livro. Tinha apenas seis anos e, portanto, ainda nem aprendera a ler. No entanto, Inês cedo percebeu que aquela menina de olhos castanhos, que raramente se ria, ficava longo tempo pensativa depois de ouvir uma história lida ou contada e não gostava muito de falar, embora, de vez em quando, fizesse perguntas curiosas...

Apesar de conversarem pouco, Inês e Teresa começaram a tornar-se amigas, porque descobriram que as histórias favoritas de uma eram também as da outra, como, por exemplo, a história que falava de um pequeno príncipe, vindo de um planeta distante, que estava apaixonado por uma rosa... Era um jovem muito curioso que viera à Terra para descobrir como se faz um amigo, tendo aprendido muitas coisas com uma raposa e ensinado muitas outras a um piloto aviador que estava meio perdido, num deserto.
E havia muitas outras histórias de que ambas gostavam, como aquela acerca de uma princesa que ficara pobre e sem abrigo e era tão incrivelmente sensível que, uma noite, não conseguira adormecer, incomodada por uma ervilha que ficara debaixo do colchão...
Um dia, quando já tinha dez anos, Teresa aproximou-se de Inês no fim de uma sessão de leitura e contou-lhe:
— Eu também ando a escrever...
— A escrever? — perguntou Inês.
— Sim, a escrever uma história — disse Teresa. E continuou: — Já tenho várias páginas e sei como quero que termine, apesar de ainda faltar muito para chegar ao fim...
— Essa novidade é muito interessante — animou-se Inês. — Não sabia que tinhas inventado uma história!
— Bem, para dizer a verdade, eu já inventei várias, mas esta é a primeira que eu decidi escrever.
— E posso saber de que trata a tua história? Não, não digas nada! Deixa-me adivinhar... Ora vejamos, de que é que tu gostas muito?... Já sei! Gostas muito de pensar e... gostas muito... deste castelo! E uma história sobre este castelo?
A menina sorriu, com o seu sorriso um pouco triste:
— Bem, é sobre um castelo, mas não este. E um que eu imaginei, onde vive um dragão e... uma menina de olhos castanhos, mais ou menos como eu.
— Ah... Uma história com um dragão... Parece-me muito empolgante e divertida a tua história.
— Mas não é, não — apressou-se Teresa a dizer, abrindo muito os seus olhos castanhos. Depois, ficou pensativa e afastou-se, porque não estava com vontade de continuar a conversa.
Inês não lhe fez mais perguntas naquele dia. Sabia que como todos nós, em certas ocasiões, Teresa gostava de ficar em silêncio. Talvez um dia ela lhe contasse mais sobre a sua história com um dragão que, provavelmente, era mau. Porque, como se sabe, até agora não se conhece nenhum dragão bom nem sequer simpático. Na realidade, alguns são até um bocado perigosos.
Naquele fim de tarde, Inês voltou para o castelo a pensar na menina que gostava de inventar histórias. O dragão de que ela falara, embora pouco, não lhe saía da cabeça.
Ora, como deves imaginar, pode ser muito desagradável ter um dragão na cabeça, de maneira que Inês resolveu ir à Torre Dourada procurar um livro que tinha lido quando era criança sobre um homem muito generoso e valente que tinha combatido contra um dragão e saíra vencedor desse terrível combate... Aliás, lembrava-se de já ter contado aquela mesma história às crianças, num dia de Inverno, junto da lareira do salão.



Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros