30/11/2008

6. Uma ideia brilhante

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A verdade é que Inês nunca mais deixou de visitar o castelo, onde ia ler quase diariamente.
O marquês, o mordomo, Rudolfo, e a cozinheira, Matilde, passaram a ser os seus melhores amigos, sem contar com os livros, claro, porque esses também contribuíam muito para que a sua vida fosse feliz. Livros que falavam de tudo quanto Deus criou; histórias sobre factos reais e outras sobre coisas imaginadas; aventuras de sereias cantoras, piratas de um só olho, príncipes encantados, princesas encantadoras...
E a menina foi crescendo, transformando-se numa rapariga que cada vez sabia mais sobre o mundo. A pouco e pouco, ia conseguindo compreender melhor as tais coisas que via e ouvia e de que não se falava na escola.
Ora, como ler também ensina a pensar, Inês foi-se tornando uma aluna brilhante, de tal maneira que os seus pais até ficavam admirados não só com os seus resultados escolares mas com os elogios que alguns professores faziam a seu respeito.
A família de Inês achava um pouco excessivo o tempo que ela passava no castelo, lendo e conversando sobre o que lia. Mas, aos poucos, todos foram compreendendo que ela sentia mais necessidade de aprender do que outros jovens da sua idade. O que ninguém ainda sabia, excepto o velho marquês, era que ela estava a tornar-se sábia...
Convém lembrar que um sábio não é apenas alguém que sabe muitas coisas, mas também alguém que consegue realizar algo importante para si e para os outros, de modo a que a vida fique mais bonita de viver!
No princípio da idade adulta, quando Inês já frequentava a universidade, teve uma ideia que lhe pareceu brilhante e, nesse mesmo dia, foi a correr ao castelo para a contar ao seu amigo marquês.
Ao abrir-lhe a porta, Rudolfo apareceu-lhe com olhos tristes.
— O que foi? — perguntou ela.
— O senhor marquês está muito doente. O médico já veio vê-lo e não quer que ele se canse — contou o mordomo, com ar preocupado.
Inês também ficou preocupada e correu ao quarto onde o marquês estava sentado numa cadeira de braços, com uma manta no colo.
— Ainda bem que vieste mais cedo — disse-lhe ele. — O médico aconselha-me a que fique em repouso, de preferência a dormir, mas o que eu quero é ouvir-te!
A rapariga sentou-se no tapete, junto do amigo que estava realmente muito velhinho, embora ela nunca pensasse na idade dele (noventa e nove anos), porque a idade não conta entre os amigos verdadeiros.
— Hum... Lembra-se de uma conversa que tivemos há muito tempo sobre a importância de ter a cabeça organizada, com as ideias mais importantes à frente e as outras atrás? — começou ela.
— Não, não me lembro, mas se estás a querer que eu obedeça ao médico, devo dizer-te que não posso, porque sinto que já não me resta muito tempo e não quero passá-lo a dormir!
Inês riu-se.
— Concordo consigo, desta vez...
— Isso é por eu estar muito velhote?
— Não, é porque eu tenho uma notícia muito importante para lhe dar e, se for dormir, não posso...
— E que notícia é essa? — interessou-se o marquês.
— Ontem à noite estive a pensar que é uma pena haver crianças que não sabem ler e a quem ninguém conta uma história. Por outro lado, também é lamentável que haja outras crianças que já andam na escola mas que ainda não descobriram que ler um livro pode ser muito divertido!
— E então tiveste uma ideia — atalhou o marquês, animado, apesar de se sentir fraco.
— Tive... Pensei que posso vir aqui uma ou duas tardes por semana contar histórias a crianças que queiram vir até ao castelo ter comigo e também ler para elas passagens de alguns dos livros de que mais gostei quando era pequena! Não quero que percam tantas aventuras fantásticas que estão escondidas nas quatro torres! Quando estiver frio, ficamos no salão, onde há lareira e podemos aquecer-nos. Nos dias quentes, ficaremos lá fora, no jardim, que é tão bonito!
— Parece-me uma grande ideia — aplaudiu o marquês. — E quando vais começar?
— Quando estiver melhor, porque não quero que as crianças venham aqui incomodá-lo com algum barulho que possam fazer.
— Nada disso, nada disso! Podes começar amanhã. Não te digo hoje, porque já é tarde e, provavelmente, ainda não falaste com os pais dessas crianças.
— Então quer dizer que posso realizar os meus planos?! — entusiasmou-se a jovem.
— Estás em tua casa, Inês — respondeu suavemente o marquês, saboreando os últimos raios de sol. — E agora, se não te importas, acho que vou seguir o conselho do médico e vou fazer uma sesta...
Inês ficou feliz. Então, ajeitou a manta que tapava o colo do velho amigo e saiu, encostando a porta atrás de si.
Lá fora, no jardim, Inês olhou os bancos de pedra e imaginou-se sentada num deles, rodeada de crianças a ouvirem contar uma história... E gostou muito do que ali viu com os seus olhos tão treina¬dos para imaginar.
Havia mesmo meninos na cidade a quem ninguém tinha tempo de contar histórias, por pequenas que fossem! Esses meninos não faziam ideia de como é bom ouvir uma história divertida e empolgante como as que Inês conhecia!
Mas também havia outras crianças que nunca tinham pegado num livro e não sabiam como um livro se pode tornar num amigo para toda a vida...
Tinha muito que fazer, pensou Inês. Era preciso falar com os pais das crianças para lhes explicar os seus planos. E era justamente disso que ia tratar sem demora!



Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros