30/11/2008

5. Um lugar de sonho


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No dia seguinte, mal saiu da escola, Inês encaminhou-se para o castelo, de mochila às costas. Estava desejosa de acabar de ler o livro que começara na véspera! O que iria acontecer à menina que sabia voar?, perguntava-se.
Que bom seria falar a língua dos pássaros e pedir a uma cegonha das que todos os anos faziam ninho na torre da igreja ou no telhado da câmara municipal que lhe emprestasse as asas ou lhe dissesse como arranjar umas que dessem para voar! Então, poderia viajar pelo céu fora e descobrir muitas coisas sobre as nuvens, a chuva, o arco-íris...
Havia tantas coisas para aprender e tantas aventuras para viver! Talvez os livros lhe ensinas-sem como arranjar essas asas que a fizessem voar ou lhe dessem pistas para desvendar muitos mistérios e compreender algumas coisas que via e ouvia e de que não se falava na escola.
Seria bom vir a ter uma vida longa para poder ler todos aqueles livros da biblioteca do castelo. Bem, todos talvez não, mas pelo menos aqueles que tinham as histórias mais interessantes e os que ensinavam exactamente o que queria saber!
Ao chegar ao castelo, bateu à porta e foi o mordomo quem veio abrir:
— Boa tarde, menina Inês! — cumprimentou-a. — O senhor marquês está à sua espera no salão. Queira seguir-me.
E Inês lá seguiu Rudolfo até ao salão, onde o marquês a aguarda' vá, tendo na mesa ao seu lado o livro que a menina começara a ler na véspera.
Mal viu o livro, Inês pegou nele e, entusiasmada, ia começar imediatamente a lê-lo, mas o mordomo fez um sinal para lhe lembrar que ainda não tinha saudado o dono do castelo.
Vendo que a menina estava desejosa de retomar a sua leitura, o marquês, muito satisfeito por ver nela uma futura leitora, cumprimentou-a com um aperto de mão e disse-lhe:
— Podes sentar-te naquela poltrona e fica à vontade. Eu vou para o meu escritório porque tenho uns trabalhos para fazer. Se precisares de alguma coisa, chama o Rudolfo ou vai à cozinha ter com a Matilde, que ela prepara-te um refresco.
Inês pousou a mochila no tapete, sentou-se imediatamente no lugar que o marquês lhe indicara e começou a ler o livro na página onde tinha ficado no dia anterior, a qual não estava marcada, mas ela lembrava-se exactamente de qual era.
Ao fim da tarde, o marquês veio ao salão.
A jovem visitante do castelo estava precisamente a acabar de ler o livro e era fácil perceber que nada a perturbaria. Toda a sua atenção estava posta na página que estava a ler e a sua expressão era a de quem estava noutro mundo, num lugar de sonho...
E que os livros têm este poder quase mágico de nos transportarem para outros lugares: sítios onde já estivemos e outros que nunca visitámos nem mesmo em sonhos!
Os livros são autênticos comboios a levarem-nos por montes e vales, aldeias e cidades. Outras vezes, são aviões que nos fazem chegar, num instante, a países longínquos. E podem também ser foguetões, que nos transportam para lá das nuvens e nos levam para o meio de cometas, estrelas e meteoritos, no espaço sideral!
Foi enorme a alegria do marquês ao ver aquela menina tão interessada na leitura. Na verdade, nunca tinha visto ninguém tão concentrado a ler senão... ele próprio! Inês fazia-o sentir que tinha valido a pena coleccionar, catalogar e restaurar tantos livros, ao longo da sua já longa vida.
E o rosto enrugado do marquês iluminou-se num sorriso de ternura, porque a menina ainda não dera pela sua presença, tal era a sua concentração!
Quando, finalmente, Inês acabou de ler o livro — e antes de o fechar — deu um longo suspiro de olhos fechados, saboreando as últimas palavras que lera.
Depois, ao ver que não estava só, a menina exclamou:
— Ler é extraordinário! Acho que nunca mais vou parar! Posso ir à biblioteca buscar outro livro?
— Primeiro, vamos colocar esse no lugar de onde saiu — disse o marquês. — Vem, que vou ensinar-te a fórmula mágica para descobrires o lugar exacto onde deves guardar um livro.
E o marquês lá se pôs a ensinar o que significava o código de letras e números que estava na etiqueta colada no livro que Inês tinha estado a ler. A menina compreendeu-o imediatamente e fez questão de ser ela mesma a ir colocar o livro no seu devido lugar, numa das estantes da torre número quatro.
— Como estás a ver — disse o marquês —, é muito importante que cada livro esteja correctamente marcado, porque uma biblioteca onde vivem muitos livros deve ser um lugar sempre organizado, assim como a nossa cabeça, onde vivem muitas ideias, deve estar organiza-da.
— Como? — quis saber Inês. — Como é que se organiza uma cabeça?
— Pois bem, é fácil: por ordem de importância. As coisas mais importantes, aquelas a que damos mais valor, devem estar sempre à frente, em primeiro lugar; as outras são arrumadas atrás. Por exemplo, aquilo que os teus pais te pedem que faças é mais importante do que...
— O que pede outra pessoa qualquer — apressou-se Inês a responder.
— Assim sendo — continuou o marquês —, o que eles pedem para tu fazeres tem de vir antes de todas as outras coisas que te são ditas pelas outras pessoas, para que te lembres bem desses pedidos.
— Estou a perceber — disse a menina, que costumava compreender tudo rapidamente. — Posso agora ir escolher outro livro?
— Claro que sim! Fico muito satisfeito por teres gostado de ler! Um dia, se quiseres, pode-mos falar da tua leitura. Mas vejamos agora o que queres ler a seguir... Se bem me lembro, disseste que gostavas de dançar...
— E de vulcões! E de trovões! E de relâmpagos!
— Hum... Ora bem, nesse caso, posso indicar-te um livro magnífico sobre fenómenos da Natureza, mas teremos de ir à torre número três. Acompanha-me.
E Inês lá seguiu o dono do castelo, ansiosa por ver que livro lhe iria, desta vez, parar às mãos. Certamente seria interessante, porque o marquês parecia saber muitas coisas importantes sobre vários assuntos! O marquês — dava para ver — era um sábio...



Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros