30/11/2008

4. O tesouro

4


Estou novamente no exterior do castelo, num bonito jardim com uma vista magnífica para a cidade, lá em baixo no vale.
Sentei-me num dos bancos de pedra para aqui te contar o resto da história deste castelo, tal como Teresa ma contou. Bem, talvez não exactamente como ela contou, porque, quem conta um conto aumenta um ponto, mas vou tentar dizer-te toda a verdade.
Como eu calculava, a parte mais interessante da história estava mesmo para começar, no momento em que Teresa parou de falar...
Estava o marquês quase sozinho no castelo quando teve uma ideia para acabar com a sua solidão e a monotonia dos seus dias: e se mandasse um convite aos habitantes da cidade lá em baixo, para que viessem conhecer o seu tesouro? Sabia que nunca ninguém ali tinha entrado a não ser os seus familiares, amigos e empregados. Certamente, muitos seriam os curiosos a desejarem vir conhecer o castelo e, sobretudo, o que nele se encontrava.
Contente com a sua ideia, o marquês mandou o mordomo à cidade para que entregasse, no posto do correio, muitos convites para serem distribuídos pelas casas. Naquela altura, ainda não havia Internet, senão tudo teria sido mais rápido...
No primeiro sábado após a entrega dos convites, o castelo começou a receber visitantes logo de manhã. Eram pessoas de várias idades e profissões. Vinham cheias de curiosidade para descobrir o tal «tesouro» de que o convite falava. Provavelmente, tratar-se-ia de barras de ouro, já que o marquês tinha fama de ser um homem rico e o seu pai tinha sido o dono de muitas terras por aquelas bandas. Ou então talvez fossem encontrar jóias extravagantes, expostas em vitrinas: anéis, colares, pulseiras e até, porque não?, coroas enfeitadas com pedras preciosas — diamantes, rubis, safiras, esmeraldas... Além do mais, já que viviam ali tão perto, fazia sentido que fossem conhecer o monumento mais antigo e bonito daquela zona.
Naquele dia, Rudolfo não teve mãos a medir, passando a vida a ir receber os visitantes à porta do castelo e conduzindo-os aos lugares que o marquês queria que eles conhecessem.
Porém, ao serem abertas as portas das quatro torres que constituíam a fabulosa biblioteca, os visitantes mostravam-se decepcionados. Então era aquilo o «tesouro» que vinha anuncia-do no convite que tinham recebido?! Seria, afinal, para verem livros, apenas livros, que se tinham estafado a subir a Montanha Azul num dia de Sol?!
O marquês ficou triste ao perceber que ninguém estava a dar o devido valor à extraordinária biblioteca recheada de tantos livros e todos — sem excepção! — em excelente estado de conservação, graças ao seu interesse e trabalho. Ainda foi colocar-se no meio dos visitantes dizendo-lhes que, a partir daquele dia, poderiam vir ao castelo requisitar gratuitamente os livros que desejassem ler, desde que se comprometessem a devolvê-los. Na realidade, julgava que a sua oferta ia ser recebida com grande entusiasmo pelos habitantes da cidade, mas verificou que apenas três ou quatro esboçaram um sorriso para se mostrarem agradecidos.
— Bem vê, o castelo fica aqui no cimo da montanha, a subida é íngreme — desculpava-se o sapateiro, que coxeava da perna direita.
— E, no Verão, faz um calor dos diabos por aqui — comentava o alfaiate, limpando a testa com um lenço branco.
— Para não falar das vertigens — queixava-se uma senhora idosa. — Sim, que não nos podemos esquecer de que estamos a quase mil metros de altitude e, se uma pessoa olha para baixo, fica com vertigens!
— E há ainda o problema dos mosquitos e das meigas, lá em baixo ao pé do lago, a caminho daqui — lembrava uma senhora com voz de cana rachada.
— Eu cá fartei-me de espirrar enquanto subia a montanha. Deve ter sido alergia àquelas flores azuis! — queixou-se uma jovem, entre dois espirros.
— Por mim, até gostava de vir buscar um ou dois livros — atalhou um técnico que fazia reparações em televisores. — Mas acontece que não tenho tempo para ler...
O marquês estava profundamente desolado com o que ouvira. Calor?! Vertigens?! Meigas?! Mosquitos?! Espirros?! Que desculpas tão esfarrapadas... E como podia alguém não ter tempo para ler, que é uma das coisas mais bonitas e interessantes que há?!
Que pessoas eram, afinal, aquelas que moravam na cidade logo ali no vale, tão perto do castelo?
Seria que não havia ninguém que quisesse aventurar-se a descobrir o mundo tão grande e fantástico que a sua biblioteca guardava em silêncio?, perguntava-se o marquês.

Quando os visitantes saíram, o anfitrião, que foi despedir-se à porta do castelo, voltou para dentro cabisbaixo, perante o olhar igual¬mente desanimado do mordomo. Porém, ao levantar a cabeça, deparou-se-lhe uma visão que lhe iluminou as ideias e aqueceu o seu coração magoado: uma menina de uns oito anos de idade, de cabelo doirado, apanhado em rabo-de-cavalo, vestida com jardineiras e uma camisola cor-de-rosa estava sentada no segundo degrau da escadaria que dava acesso ao primeiro andar e tinha entre as mãos um livro... Tão entretida estava a ler, que nem se apercebeu da presença do marquês, tendo ele que tossir duas vezes para se fazer notar. Então, visivelmente contrariada por ter sido interrompida, ela ergueu o olhar para o dono do castelo que lhe perguntou:
— Tu gostas de ler, menina de olhos verdes?!
— Chamo-me Inês — apressou-se ela a informar. Depois, respondeu à pergunta do marquês: — Ainda não sei se gosto de ler, mas acho que sim... Este é o primeiro livro que estou a ler, quero dizer, sem contar com os da escola. Já ando no terceiro ano!
— Hum... No terceiro ano... E que livro escolheste tu da minha biblioteca?
— Este que tem uma capa bonita e um título de que gosto «A menina que voava». Sabe, eu tenho aulas de ballet e gosto de dançar, mas o que eu queria mesmo era saber voar... Mas agora, se não se importa, gostava de acabar de ler a história — pediu a menina.
O marquês estava encantado. Afinal, alguém se tinha interessado pela sua colecção de livros! E era uma menina que parecia saber bem o que queria!
— Eu vou deixar-te ler, sim — disse ele. — Mas não será melhor ires ter com os teus pais? Se vieram contigo, já se foram embora e devem estar preocupados. Toda a gente já se foi embora...
A menina de olhos verdes consultou então o seu relógio de pulso e compreendeu que era tarde.
— Posso voltar amanhã para acabar esta história? — perguntou ela, levantando-se com o livro na mão.
— É claro, é claro. Mas, se preferires, leva o livro contigo e devolves-mo quando já o tiveres lido — respondeu o marquês. A menina ficou a pensar uns instantes e, depois, concluiu:
— Acho que é melhor vir ler aqui para o castelo. Em minha casa há sempre coisas para fazer e, além disso, ouve-se sempre o barulho que vem da rua e da minha irmã a reclamar ou a pedir qualquer coisa... Ainda por cima, este lugar é tão bonito!...
O marquês ficou contente ao ouvir estas palavras e disse:
— O Rudolfo e eu teremos muito gosto em que venhas cá visitar--nos todos os dias, mas primeiro deverás falar com os teus pais. Se eles estiverem de acordo, passarás a vir quando desejares!
— E posso ler o que eu quiser?
— Evidentemente. Mas, se precisares de algum conselho sobre os livros, fala comigo!
— O senhor... já leu aqueles livros todos?!
O marquês riu-se:
— Para ler os livros todos da minha biblioteca precisaria de ter mais vidas do que os gatos, e diz-se que os gatos têm sete! Não, não li os livros todos, infelizmente, mas li muitos e sei de que tratam os que ainda não li, portanto poderei ajudar-te nas tuas escolhas, visto que tu, mesmo que vivas até aos cem anos, também não vais ter tempo de os ler todos...
— Não?! — entristeceu-se a menina.
— Não, mas o que importa é que vais ter ocasião de ler muitos e mergulhares nas suas aventuras extraordinárias que farão de ti uma pessoa muito mais sábia e melhor!
A menina ficou encantada. Iria ser sábia, que era o seu maior sonho desde que entrara para a escola!
— Eu acho que vou ser uma grande cientista — disse ela, entregando o livro ao mordomo. — Adoro relâmpagos, trovões e vulcões! Quero saber tudo o que há na terra, no mar e no céu! Há tantas perguntas que quero fazer, por exemplo: será que Deus ouve os trovões no lugar do Céu onde Ele vive?
O marquês sorriu.
— Agora, são horas de voltares para tua casa. Se te deixarem, regressarás amanhã, depois da escola.
E, muito feliz, o marquês foi despedir-se de Inês, a menina de olhos verdes, dizendo-lhe adeus da porta do castelo.


Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros