30/11/2008

3. A história do Castelo

3



Já no salão, confortavelmente instalada, começo a ouvir Teresa contar a história deste castelo que vim conhecer.
— Há muitos muitos anos...
— Todas as histórias que conheço começam assim! — reclamo.
— Muito bem, então recomeço de outra forma, mas devo avisar-te de que há uma condição para eu te contar a história...
— Que condição é essa? — pergunto.
— Não poderás interromper-me uma única vez!
— Prometo — apresso-me a dizer, para não perder tempo. E repito: — Prometo! — Mas será que vou mesmo conseguir não interromper? Eu tenho sempre tantas perguntas para fazer...
Depois de ajeitar a almofada do sofá de veludo cor de mel, Teresa recomeçou:
— Era uma vez um marquês... Sim, um marquês. Não era um príncipe, nem um duque, não era um conde nem um visconde... — Teresa olha para mim e percebe que estou a impacientar-me. Creio que está a pôr-me à prova, para ter a certeza de que não vou interrompê-la. Quanto a mim, neste momento, já não tenho tanta certeza...
— Era um marquês biblionário — continua ela, olhando para mim. — As vezes, os escritores inventam palavras, sabias? Esta fui eu que a inventei precisamente para descrever alguém muito rico em... livros! Alguém que possui milhares e milhares de livros. Tal como outros têm milhares e milhares de notas num banco, este marquês tinha milhares e milhares de livros guardados aqui mesmo, no seu castelo. Exactamente! Este castelo foi a casa do marquês durante toda a sua vida. Era um homem invulgar, o Marquês de Genciana. Começou a coleccionar livros ainda muito jovem, com apenas oito anos de idade. E o seu amor pelos livros cresceu depressa, de tal maneira que não podia ver nenhum maltratado, com a capa em mau estado, a lombada descolada ou com algumas páginas descosidas! Por esta razão, uma das primeiras coisas que aprendeu a fazer quando era jovem foi a restaurar livros, isto é, a voltar a pô-los como eles eram no momento em que acabaram de ser feitos. Assim, o jovem marquês mandou construir uma oficina aqui no castelo e foi lá que, até ser muito velhinho, se dedicou ao trabalho de restaurar os livros mais gastos e em mau estado. Sempre que descia a montanha para ir à cidade, ia visitar a livraria e procurava ver todas as novidades. Não trazia tudo, claro, apenas o que lhe parecia interessante, mas, mesmo assim, voltava sempre cheio de livros novos, ou melhor, quem carregava os livros era Rudolfo, o mordomo do castelo, que o acompanhava para todo o lado e, por ser um homem muito forte, conseguia transportar uma pilha de livros debaixo de cada braço! Chegados ao castelo, o marquês e o mordomo iam até à oficina e era lá que o marquês se dedicava à tarefa de catalogar os livros que tinha trazido. O que ele fazia era colar em cada um uma etiqueta com um código, para que o livro fosse correctamente colocado numa das estantes. Por exemplo, se se tratasse de um romance de aventuras, iria para a torre número um, conhecida como a «Torre dos Arrepios». Se fosse um livro de poesia, iria para uma das estantes da torre número dois, que recebeu o nome de «Torre das Asas». Um livro de viagens também deveria ser guardado na torre número dois, mas, claro está, já não nas estantes destinadas à poesia. A Bíblia, que foi o primeiro livro impresso no Mundo, bem como todos os livros sobre a vida de Jesus, dos santos e dos anjos iam para a torre número três, à qual o marquês deu o nome de «Torre do Céu» e, naturalmente, o código de cada um deles indicava que se tratava de livros religiosos. Naquela altura, não havia computadores, portanto este trabalho de catalogar os livros levava muito mais tempo. Também, nessa altura, os escritores escreviam à máquina ou mesmo à mão, portanto, como é fácil de ver, demorava muito mais tempo a ter um livro pronto para ir para as livrarias. Mas, voltando ao nosso marquês, a verdade é que, em cada ano que passava, a sua biblioteca ia ficando mais recheada com livros de todas as espécies e dos mais variados autores do mundo inteiro. E, mesmo já adulto, continuava a coleccionar livros de histórias para crianças, com belíssimas ilustrações, de que muito gostava. Estes eram sempre colocados na torre número quatro, onde ficaram até hoje, e devo dizer-te que nessa torre há apenas livros para crianças e para jovens, mas nem por isso são em número inferior ao das outras torres do castelo. Aliás, à torre número quatro, o marquês chamava a «Torre Dourada». Infelizmente, o único filho do marquês, Edmundo, não se interessava pelos livros nem pela escola. Gostava apenas das aulas de esgrima e tornou-se um atleta nessa modalidade, mas acabou por sofrer um acidente fatal. O marquês e sua mulher ficaram muito tristes, e ele só conseguia animar-se lendo ou relendo um dos seus livros favoritos. E que, como sabes, ler ajuda a afastar a tristeza! Assim foi vivendo até ficar muito velhinho e já lhe custar ler, porque, apesar de usar óculos, ficava cansado. Então, passou a pedir ao mordomo que lesse para ele. O mordomo lia o melhor que sabia, mas, na realidade, o marquês não gostava muito de o ouvir, só o fazendo porque não via alternativa. Não havia mais ninguém a não ser a cozinheira e essa, coitada, nem sabia ler. O castelo foi começando a ficar cada vez mais vazio de pessoas, porque uns tinham viajado para terras distantes e outros, mais velhos, tinham já partido para o Céu, como a mulher do marquês, a Marquesa de Genciana...
Teresa calou-se. Uma nuvem nublou-lhe os olhos. Talvez esteja um pouco cansada ainda por causa do livro que acabou hoje de escrever. Ou talvez se tivesse lembrado de alguém querido que também já tenha partido. Resolvi manter-me em silêncio, aliás, foi isso mesmo que prometi fazer.
Tenho o pressentimento de que a primeira parte da história deste castelo já foi contada. A parte mais interessante está a chegar, sinto-o e estou desejosa de fazer perguntas, mas... vou ouvir com atenção até ao fim e depois conto-te tudo, prometo!



Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros