30/11/2008

2. Visita guiada

2



— Que prazer receber uma visita! Já é raro, nos tempos que correm... Eu sou Teresa, a nova dona deste castelo. Mas senta-te, que vou já sentar-me ao teu lado. Suponho que queres saber a história deste lugar... Na verdade, são muitas as histórias que poderia contar acerca deste castelo, mas acho que vou escolher a que é para mim mais interessante. Espero que a subida da montanha não tenha sido demasiado cansativa, porque, antes de começar a contar a história, tenho de mostrar algo de que ninguém parece estar à espera... Podes seguir-me.
Lá vou atrás dela, parando na enorme portaria onde já estive. Confesso que fiquei um pouco decepcionada por não estar antes a seguir uma rainha, uma duquesa, uma marquesa, uma condessa, uma baronesa, enfim...
— Como vês — começou ela —, lá ao fundo, há uma escadaria. Do nosso lado direito, estão duas portas e, à esquerda, outras duas. Comecemos pela primeira porta da direita. Vem comigo.
Encaminhamo-nos para a porta indicada e, mal ela é aberta, depara-se-nos uma enorme escadaria em caracol, no meio de um espaço quadrangular.
Percebo que estamos dentro de uma das quatro torres do castelo... Mas o que é verdadeiramente extraordinário é que, acompanhando a escadaria mesmo até ao cimo, há estantes repletas de livros!
Provavelmente, muitas centenas de livros. Uns grossos, outros fininhos; alguns de cores escuras, outros de cores claras e outros ainda quase sem cor...
— Devem estar aqui mais de mil livros! — digo eu, sem conter a minha admiração.
A anfitriã sorriu.
— Oh, sim, muito mais de mil...
— Não sabia que era costume haver tantos livros num castelo. — E acrescento, sem parar de observar aquelas estantes que sobem do chão até ao cimo da altíssima torre cheia de livros: — Não fazia ideia de que poderia haver mais de mil livros numa só casa...
Teresa voltou a sorrir.
— Mas os que estamos a ver não são os únicos livros que há neste castelo!
— Não?!
Estou cada vez mais surpreendida.
Teresa explica-me:
— Em cada uma das três torres restantes, há um número idêntico de exemplares...
— Todos diferentes?!
— Sim, todos diferentes...
— Espantoso! Vamos agora ver as outras torres?
A actual dona do castelo concorda com um gesto de cabeça. Lá vamos então.
Conforme me foi dito, a segunda torre é semelhante em tudo à primeira, excepto, claro, nos livros, que são todos diferentes.
Não sabia que podia haver tantos livros juntos, quero dizer, fora de uma biblioteca daquelas que existem nas grandes cidades. Pelos vistos, estava enganada...
A terceira e a quarta torres têm o aspecto das anteriores e também estão a abarrotar de livros até ao cimo.
— Quem comprou estes livros todos? — pergunto, de cabeça voltada para o tecto.
— Ora isso já faz parte da história que quero contar-te — disse Teresa. E sugeriu: — Vamos agora regressar ao salão, porque é onde se encontram os sofás mais confortáveis.
— Estou a ver que a história é longa — ponho-me a adivinhar.
— Enfim, digamos que é uma história que requer que nos sentemos confortavelmente.
Por mim, acho óptimo! Gosto de me sentar confortavelmente num sofá bem fofo e macio, daqueles onde podemos afundar-nos e ficar a magicar ou... a ouvir uma história.
Estou desejosa de ouvir Teresa. Não é uma rainha, nem uma duquesa, nem sequer uma baronesa, mas certamente saberá contar histórias, porque é esse o seu trabalho, a forma como vive, aqui neste castelo a abarrotar de livros.


Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros