30/11/2008

10. Uma escritora no Castelo

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Por causa dos laços de confiança e ternura que as uniam, Inês e Teresa tornaram-se inseparáveis.
Decidida a cumprir o que prometera, Inês foi ter uma longa conversa com os pais da sua nova amiga que logo foram tomar as medidas necessárias para que a filha não voltasse a ser maltratada. Deste modo, Inês começou a ajudar Teresa a libertar-se de quem não sabia respeitá-la e que, por essa razão, a fazia ter medo — tanto medo que, ao pensar nessa pessoa, a menina imaginava um dragão e chegava a ficar agoniada, como quando se está doente.
Na verdade, os dragões que deitam labaredas pela boca e fumaça pelo nariz não existem (a não ser na imaginação que o medo faz surgir e então parecem mesmo reais). Há, no entanto, quem seja parecido com eles, precisamente por usar a vantagem de ter um corpo de pessoa crescida para fazer mal a quem é ainda pequeno em idade e tamanho.


Assim, Teresa passou a viver com alegria, indo quase todos os dias ao castelo, lugar que passou a escolher também para estudar e escrever as suas histórias — agora já sem um dragão a aprisionar meninas ou meninos.
E a menina foi crescendo, cada vez mais encantada com o mundo de histórias guardadas na sua alma, que ia escrevendo para que outros pudessem lê-las e passar umas horas na companhia daquelas personagens tão diferentes umas das outras: havia-as divertidas e sisudas; de espírito prático e sonhadoras; medrosas e aventureiras; terrestres e extraterrestres...

Um dia, quando Inês já era velhinha, chamou Teresa ao salão e disse-lhe muito calmamente:
— Sinto-me cansada. Sabes, já vivi muito tempo aqui... Talvez seja altura de pensar em mudar de casa...
— Vais deixar o castelo?! — inquietou-se a amiga. — Mas porquê?
— Porque há outro castelo à minha espera, no Céu... — respondeu Inês, com um sorriso daqueles que ela fazia quando estava completamente em paz.
Teresa ficou preocupada. Não se sentia preparada para ficar sem a companhia da sua amiga de sempre.
— E o que é que eu farei sem ti? — perguntou-lhe, muito triste.
— Ora! Sabes que, se quiseres, vais continuar a escrever, aqui no castelo. Tomarás conta da biblioteca para que nenhum livro se perca e mandarás restaurar os que se forem estragando. E, claro, poderás, de vez em quando, receber as crianças que quiserem vir ouvir uma história! Há tantas crianças que nunca ouviram uma história!
— Não sei contar histórias como tu...
— Mas é claro que sabes! — E Inês voltou a sorrir antes de acrescentar muito baixinho: — Estou a ficar ensonada. E este calor de Verão... Acho que vou adormecer aqui no salão. Abre um pouco a janela, que sempre gostei de adormecer a ouvir os pássaros...
Teresa fez o que a amiga lhe pedira.
Depois de abrir uma das janelas e de afastar a cortina, voltou para junto da amiga que, entretanto fechara os seus olhos verdes e doces como o canto dos pássaros do jardim.
Então, olhando para ela, percebeu que deveria estar a sonhar porque continuava a sorrir...

Na sua viagem rumo ao novo castelo que iria habitar, no Céu, Inês não foi sozinha. Um companheiro de asas grandes, que era certamente o seu anjo-da-guarda, veio ao seu encontro e trazia duas enormes folhas de papel em ambas as mãos. Numa delas estavam escritos os títulos de todos os livros que Inês lera desde a infância... Inês lembrou-se imediatamente das palavras que o velho marquês lhe dissera pouco antes de ir para o Céu: «Mesmo que vivas até aos cem anos, também não vais ter tempo de os ler todos...» O marquês tinha razão, mas ela acabou por conseguir ler muitos mais livros do que supunha. E que bem lhe tinham feito essas leituras! Sim, quase se sentia uma sábia!
— Que nomes são esses que aparecem na outra folha? — perguntou ela ao anjo, enquanto subiam pelo azul que se tornava cada vez mais clarinho à medida que subiam e se chegavam a uma fonte de luz muito branca.
— Não adivinhas? Estes são os nomes de todas as crianças que, ao longo da tua vida na Terra, ajudaste a crescer e a ser mais felizes... Foi essa missão que te tornou mais sábia. E isso agradou a Deus, que tudo vê e quer que todos sejam felizes!
Inês não entendeu logo as palavras do anjo. Lembrava-se dos rostos de algumas das crianças e dos jovens que tinham visitado o castelo para a ouvirem contar ou ler histórias que fala-vam de muitas coisas — umas alegres, outras nem tanto, mas todas muito interessantes. Porém, Inês não se tinha apercebido do quanto tinha sido útil a essas mesmas crianças cujos nomes já nem recordava, a não ser alguns, evidente¬mente: o da menina sardenta filha de um marinheiro, que só queria histórias de piratas; o do menino gorducho que não parava de fazer perguntas e falava com uma pronúncia engraçada; o nome da menina de pele da cor da canela que dissera que nunca haveria de gostar de ler e que, afinal, tinha passado a gostar de tal maneira que veio a ser professora de Literatura... E, como não podia deixar de ser, lá estava na lista, em letras maiores do que os outros, o nome de Teresa, a menina que um dia resolveu escrever para contar a sua história triste e que se transformou numa contadora de histórias alegre e sem medo de nada (bem, de quase nada).
Foi assim que Teresa passou a habitar o Castelo dos Livros, a maior biblioteca do mundo (pelo menos do mundo conhecido pelos humanos).
Tal como a amiga lhe sugerira, de vez em quando recebia crianças e jovens que vinham ouvir as suas histórias. E todos regressavam a casa com um sorriso e muitas imagens fantásticas a fervilharem na sua imaginação, transformada numa espécie de vulcão capaz de produzir excelentes ideias para grandes aventuras. Alguns tinham até perdido o receio de falar e de escrever sobre tudo o que imaginavam e sentiam!
Por outro lado, as quatro torres da biblioteca foram ficando cada vez mais recheadas de livros, alguns escritos pela nova habitante do castelo, que nunca mais parou de escrever.
E pronto, aqui tens a história que aprendi na minha visita ao Castelo dos Livros, contada por Teresa.


Agora, talvez possas tu também contá-la, sobretudo àqueles que ainda não sabem como é bom ler e ouvir uma história! Porque quem conta histórias, falando ou escrevendo, acaba por fazer amigos (se calhar, ainda não tinhas pensado nisto...)!


Maria Teresa Maia Gonzalez in O Castelo dos Livros