02/10/2008

A Vindima

Ao cabo de quatro dias de vindima na Arrueda, o cheiro do mosto embebedava os sentidos. E à noite, na cardenha, o Vitorino, com a namorada ali quase à mão de semear, não parava sobre a palha centeia, o colchão de todos. Era um rolar sem tino para um lado e para o outro, que metia aflição.

- Tu que tens? - perguntava-lhe o Rasga, farto de conhecer a causa do formigueiro.
- Nada... - e continuava a mexer-se, cada vez mais insofrido.
Como troncos derrubados, os restantes homens da roga jaziam estendidos e adormecidos no chão. Apenas os dois amigos velavam, a vigiar-se mutuamente.
- Vou até lá fora - disse por fim o Vitorino, sem poder mais. - Não me apetece dormir...
E saiu.
Pé ante pé, o Rasga foi-lhe no encalço. E o que havia de ver?... Um noivado ao luar, com a terra empapada de doçura a servir de lençol.
Passou a mão pelo restolho da barba, numa melancolia de faminto sem pão, e deixou os felizardos na paz do Senhor. Quando de madrugada o outro voltou à cama, só lhe disse:
- Valha-te Deus, homem! E agora?
- Agora caso com ela, pois então! Isto nem tira nem põe. O que se há-de fazer ao tarde...
Pela manhã a vindima continuou. Orvalhados, os bardos de moscatel eram polipeiros de olhos irónicos e coniventes. E a Lúcia, sumida no entrançado de vides e de folhas, enquanto cegava aquelas pupilas abelhudas, parecia um rouxinol:

Eu já vi a Tiraninha 
A beber numa cabaça, 
Olha a raça da Tirana 
Que até no beber tem graça.

Ninguém lhe levava a palma. Desde a saída de Lamares que não se calara mais. À frente da estúrdia, de xaile à cabeça e cesta no braço, atirava com a voz bonita pelos montes a cabo, que nem o pai, no maio, a semear milhão.
O harmónio repenicava-se todo em redor dela. Os ferrinhos a dizerem que sim, que sim. E o bombo, apesar da tristeza a que a pele de cabra o condenava, a fazer quanto podia para dar também um ar da sua graça.
A lama de cinco meses de inverno, que a primavera apenas endurecera, era agora uma camada de poeira fofa pelo caminho além, a escaldar. O sol, depois de empassar as uvas, queria empassar a terra. Invulnerável, porém, o raio da rapariga rompia por ali adiante, com asas nos pés. E, mal o Doiro apareceu lá em baixo, ao fundo, como uma veia aberta a escoar-se morosamente do corpo ciclópico dos montes, atirou logo:

Foi no Pinhão... 
Ia a vindimar um cacho, 
Vindimei-te o coração.

Tinham findado de todo os horizontes largos do planalto, onde a alma corre de fraga em fraga, sempre à vista do céu. Encostas negras, em escada, cobertas de estevas ou eriçadas de zimbro, faziam tudo para entristecer quem lhes passava ao pé. À esquerda, um despenhadeiro de meter medo; à direita, uma penedia por ali acima, que só de vê-la faltava a respiração; ao longe, mortórios escalvados e desiludidos. Mas o grande rio doirado, que a luz da tarde transformara numa barra cintilante, chamava a si toda a atenção dos olhos, e a paisagem emergia do abismo engrandecida e transfigurada.
Ou porque trazia dentro o fogo da paixão a aquecê-la, ou inspirada pela beleza do cenário., a Lúcia punha o coração a voar:

A oliveira da serra
O vento leva a flor...

Só mesmo por alturas de S. Cristóvão é que esmoreceu. Ao passar diante do cemitério aproado como uma galera de morte no mar verde dos vinhedos, uma tristeza súbita calou-a. Obra dum suspiro, apenas. Daí a nada arrebitou outra vez, e, ao chegar à Arrueda, levava tudo adiante.

Rita, arredonda a saia, 
Rita, arredonda-a bem...

Nem a cara seca e vermelha do Sr. Berkeley, o patrão, lhe meteu medo. Enquanto os mais, num respeito de escravos, se descobriam ou cumprimentavam aquele símbolo do trabalho e dos ganhos na Ribeira, continuou a cantar como se nada fosse, e à noite, ao deitar, ainda trauteava uma moda.
Foi a Guilhermina, já enfastiada, que a mandou calar.
- Não estás farta, mulher?! Riu-se e continuou na dela. E agora, ao cabo de quatro dias de azáfama, tinha ainda a voz fresca como uma alface. E com segundas...

Eu hei-de te amar, Tirana, 
Eu hei-de te amar, eu hei... 
Eu hei-de te amar, Tirana, 
Duma maneira que eu sei...

Os dois rapazes riram-se, num mútuo entendimento da significação oculta da cantiga. Depois, maldoso, o Rasga comentou:
- O que vale é que a Tirana tem as costas largas...
Ergueu o vindimeiro, ajeitou-o na troika e foi juntar-se aos outros companheiros, enquanto o Vitorino ficou a olhar com ternura a rapariga, bem feita, desembaraçada, certamente fecundada já pelo seu amor.
Dispersa pela encosta, a roga mais parecia festejar um deus generoso e pagão do que trabalhar. Os geios eram degraus do Olimpo, onde crescia e se colhia o espirito celeste. Cada canção - um hino de louvor. E os cestos acogulados, que desciam a escadaria de xisto aos ombros dos fiéis devotos, numa fila indiana, sonora e ritual - a dádiva desse amantíssimo Senhor, que só pedia contentamento em troca dos seus frutos.
Dir-se-ia que tudo naquele paraíso suspenso se movimentava lúdica e religiosamente. Nenhuma mágoa, nenhum ódio, nenhuma desconfiança do futuro. Alegre, a alma de cada romeiro entregava-se pressurosamente ao esquecimento colectivo que alijara do mundo as misérias e os desenganos. O tear mágico urdia desumanização. E só quando um dos fios da meada emperrava, e havia - um solavanco no ritmo do cerimonial, é que se via que uma vontade prática subjazia ali, vigilante e profana. Ainda o Vitorino não acabara de sair da sua contemplação, já o Seara, o feitor, lhe berrava aos ouvidos:
- Tu andas parvo ou quê? Mexe-te! Ergue e espera-me no armazém, que tens que preparar uma vasilha.

Chora videira, ó videirinha; 
Chora videira, ó vida minha...

Cantavam todos. E o bombo, com a sua voz pesada, como que dava forma à incorpórea harmonia que, descuidada, descia em cascata pelos socalcos.

Chora videira, ó videirão; 
Chora videira, ó meu coração.

Não havia tristeza que entrasse naquelas almas. Principalmente na de Lúcia, cada vez mais agradecida ao céu pela sua redenção terrena.
Entretanto, porque o deus da abundância não se cansava de multiplicar o mosto no lagar, para arranjar onde o meter, o Vitorino deslizava submisso pela portinhola dum tonel, tal as vítimas dos sacrifícios antigos pela boca do dragão.
Lá fora continuava o coro. E o Seara, por causa daquele barulho e do ouvido duro do Sr. Berkeley, quando daí a bocado chegou congestionado à vinha e deu a notícia do desastre, quase teve de berrar.
Foi então que a voz da Lúcia estacou de vez.
Garroteada como a do namorado, a garganta fechou-se-lhe num espasmo de perpétua agonia.
Transida e comandada por tão grave silêncio, a roga emudeceu também.
Só a Casimira velha, desgarrada numa valeira solitária, que não ouvira nada da morte do Vitorino, asfixiado dentro do bojo da cuba, continuou a agoirar a tarde com o seu lamento fanhoso:

A mulher é desgraçada
Até no despir da saia; 
Não há desgraça na vida 
Que aos pés da mulher não caia...

Miguel Torga, Contos da Montanha