25/10/2008

A Sombra

A um dia assim como o de hoje costumo chamar, no meu calão, de poeta em férias, dia «incoincidente».
O céu desde manhã que se conserva azul com gradações cruas de quadro mau; as árvores escorrem verde e chilreios de pássaros; as ruas riscam-se da rapidez das sombras. Uma serenidade tépida cinge toda esta paisagem de trapeiras e de ceroulas a secarem ao sol numa sinfonia natural de cores, pombas, luz e árvores com flores azuis no Largo do Rato.
Pois foi precisamente hoje – dia de sol, de andorinhas, de árvores azuis, etc. – que os homens resolveram não coincidir com a natureza. Foi precisamente hoje que todos vieram para a rua com tempestades por dentro, num estoirar de trovoada interior a rasar as almas de lés a lés, como relâmpagos negros nos olhos sorumbáticos e trovões no furor justo daquela mulher, de giga à cabeça, aos berros para uma senhorita encostada ao parapeito da janela do seu terceiro andar com os braços papudos de nada fazer:
– Se quiser, venha cá a baixo, sua gulosa!
Mal deitei o nariz fora da porta, logo pressenti o desconcerto do dia, bem visível nesta não-coincidência do azul do céu com as carantonhas de palmo e meio das pessoas que me acotovelavam na rua.
«A minha também deve estar de meter medo» – pensei. E disfarçadamente mirei-me no espelho lateral duma montra.
Mas não cheguei a qualquer conclusão. Limitei-me a verificar mais uma vez o espanto de trazer por fora um ser tão completamente diferente de mim e pus-me de novo a caminho. Agora, porém, já não ia só.
Colada ao meu silêncio, com pinchos de tonta, saltitava uma velhota de farripas e chinelos rotos, com uma criança de mama ao colo, enrolada num xaile com rendas de miséria. Não me conhecia, mas falava-me com esse à-vontade dos velhos que já não perdem tempo a fazer cerimónias com a vida:
– Veja o que a minha filhinha me deixou nos braços, nesta idade... Coitadinha! Está no hospital toda podre. Até cheira mal!... Tudo por causa da parteira que lhe carregou na barriga e...
Ah, não! Hoje não me comoves, velha dos diabos! Hoje faz sol, há céu azul, a alegria canta nas águas das mangueiras dos regadores das ruas e não quero passar todo o dia com o peso do teu menino ao colo dentro de mim. Tenho muita pena, minha rica, lastimo muito o teu pequenino drama (para ti, talvez, o desabar de mil universos num quarto sem janelas), mas basta.
Não consinto que venhas, pé ante pé, sub-repticiamente, esmagar-me o coração com essa mão encarquilhada de pobre velha que nunca teve céu azul. E tu vale-me também, Anjo da Fleuma. Salva-me! Pinta-me de frio; avulta mais os vincos desta bendita cara de pau que repele os homens, e tapa-me bem os ouvidos para não voltar a escutar mais confidências lastimosas nem carpires de dramas à guitarra.
Mas qual! O queixume persegue-me como um rasto... Até no eléctrico. Logo hoje, em que me apetecia apenas existir como uma coisa qualquer a vegetar ao sol, é que encontrei o 26. Quem é o 26? Sei lá!
– Sou o 26 da 4.ª B do Liceu de Camões... Não te lembras de mim, pá?
Lembro-me lá agora. Não me faltava mais nada senão gastar cérebro a recordar-me do passado, com um futuro tão perto. Mas ele em compensação conhece-me bem. Até sabe a minha alcunha desses bons tempos de calções, de jogo da barra e de azedumes no Parque Eduardo VII:
– Eras o «Cabeça», pá!... Pois eu sou o 26 da 4.a B. Não te lembras, pá?
Não me lembro, mas digo-lhe que sim para não o desiludir. E, abro, com esforço enorme, um sorriso que mal cobre o frio da caveira. Mas ele repara lá no sorriso! O que quer é falar, falar, falar... Desde que deixou o liceu, nada mais de importante (de aristocrático ia eu a escrever) lhe sucedeu na vida, para sempre amarrada àquele passado da 4.a B. Aliás nem chegou a acabar o curso. «O meu pai morreu e...»
(Lá vem história – pensei eu. Lá vem história!) E veio. Uma história análoga a milhões de histórias banais, sofridas por milhões de homens também banais, que não têm culpa de que a Dor na vida não possua a fantasia fidalga dos poetas.
– Fiquei com toda a família às costas: mãe e três irmãos. Não fazes ideia do que tenho passado, pá! Infelizmente, despediram-me do emprego e...
Tudo isso é muito bonito, ó 26, mas hoje não quero afligir-me, percebeste? Escusas de perder o teu latim de queixas comigo. Conta-me partidas do liceu, se quiseres, naquela cerca do passado tão cheia de gritaria, de sol e de joelhos feridos...
Mas lá nénias não. Não estragues o céu azul dos outros, 26. Adeus, ó 26! Tenho muito que fazer, ó 26! Desculpa, ó 26!
E saltei do eléctrico.
Em vão, porém. Hoje acordei com cara de muro das lamentações e não consegui intrujar o Destino.
Estava escrito que, durante todo o dia, amigos, inimigos e indiferentes me chorassem no seio amores não correspondidos, tentativas de suicídio, filhos com sarampelo, doenças nervosas, desgraças, carestia da vida, pieguices, «V. Ex.ª quer ter a bondade de me emprestar dez tostões para uma sopa?», destroços, cantochão... E, principalmente, a Lamúria, o lacrimejar, o faduncho da impotência que parece ter substituído de vez o protesto viril, o soco na mesa, o silêncio firme do desespero calcado no coração ou as gargalhadas heróicas daquele meu amigo que certo dia me confidenciou, a rejubilar com os olhos tristes:
– Estou contentíssimo. Imagina que me aconteceu um drama à Dostoievski...
Não tenho cheta, perdi o emprego e hoje o senhorio deu-me ordem de despejo. Enfim: o coro da choradeira tornou-se tão insistente, tão forte que – confesso – me contagiou também. Pouco a pouco, senti galgar-me o desejo chorincas de desafogar, com a primeira pessoa que encontrasse, a primeira amargura amarela que me viesse à boca.
Mas resisti. Alonguei ainda mais esta bendita cara de pau (não me abandones, Anjo da Fleuma!) e no meio da tarde, já febril, decidi regressar a penates, lívido de angústias alheias. Porém, ainda me restava atravessar a prova suprema.
Ao dobrar a esquina de certa rua deserta, quando seguia distraído o deslizar da minha sombra no chão, eis que me surgiu de súbito na frente uma mulher alta, gorda, de pele oleosa e formas abundantes mal contidas por um vestido preto a luzir de sebo.
Deitou-me um olhar rápido de análise e, de imprevisto, com agilidade de acrobata, agarrou-me nos pulsos, encostou-me à parede, entornou-se-me toda em cima do peito até me tirar a respiração e, apontando-me uma pistola, chorosa na voz implorativa, intimidou-me:
– A minha mãezinha está a morrer! preciso absolutamente de 20 escudos. Dê-mos!
Zaranza, esmagado por aquela inundação de formas, sufocado com o cheiro a suor da flibusteira, não tive forças para resistir e entreguei-lhe a tremura duma nota de 20 escudos.
Contente do êxito, tão fácil, a megera, lobrigando outras notas na carteira, resolveu voltar à carga.
Meteu mais alguns cartuchos de lágrimas na pistola, fincou-me outra vez as mãos aos pulsos, entornou de novo todas as suas abundâncias em cima de mim e intimou-me numa voz sem tergiversações:
– A minha mãezinha está moribunda. Preciso absolutamente de 42 escudos e 50 centavos para remédios. Dê-me mais 20 escudos.
Mas desta vez não me verguei. Cheio duma cólera negra de vergonha que vinha do frio dos ossos, sacudi-a aos urros: não, não e NÃO!
E fugi.
Fugi vexado, espezinhado, torvo, condoído de mim mesmo, e com vontade trémula de começar também a lamurinhar, em objurgatórias de raiva e cinza nos cabelos:
– Ai que desgraçado eu sou! Ai que triste vida a minha!
Calei-me porque me aconteceu então uma coisa extraordinária...
(O que vão ler, a seguir, é mentira evidentemente; mas façam de conta que acreditam, para esta reportagem poética fi car com um desfecho digno, sim?)
Como ia dizendo, calei-me porque me aconteceu qualquer coisa de extraordinário.
De repente, a minha sombra no chão levou um dedo à boca e impôs-me silêncio:
– Psiu! Caludinha! Se queres lamentar-te, vai para casa e fecha-te num quarto às escuras para não maçares os outros. Mas caludinha, ouviste?
E como ainda lhe parecesse ver nos meus olhos atónitos um lampejo de desobediência, a Sombra não esteve com meias medidas: ergueu-se e esbofeteou-me. E depois, tranquilamente, voltou a deitar-se ao sol no chão, a olhar para o céu azul...

O Mundo dos Outros, 1950