15/10/2008

Os Três Reinos


Era uma vez um rei – é claro, que tinha um reino: o reino do rei. Além disso, o rei tinha dois fi lhos gémeos. A mãe-rainha morrera para os dar à luz. Importa saber que esse era o reino do rei, e que os dois filhos do rei eram gémeos. Desde já, porém, convém acrescentar que o rei tinha ainda um filho adoptivo, ou coisa que o valha. Também a mãe deste morrera, já viúva, deixando fama de um pouco ligeira de costumes (não demais) e muito formosa. O marido fora um dos cortesãos favoritos do rei. Toda a gente, pois, achou bonito que o pequeno se criasse no palácio, brincando familiarmente com os príncipes, e recebendo educação quase igual à sua. Toda a gente, sim, achou bonito! quase toda a gente. Mas, associando vários factos, muito à boca pequena murmuravam os maledicentes que não era só bonito como compreensível, natural... Adiante se esclarecerá este caso. Evidentemente se torna que, dos dois príncipes gémeos, um havia de ser considerado mais velho, – coisa que pertencia aos físicos determinar – ou, como quer que fosse, com mais direitos. Claro que seria esse o herdeiro do trono da coroa, do ceptro, do título de Majestade.
O tempo foi passando, e os dois irmãos crescendo. Vieram os melhores sábios indígenas, e até estrangeiros, para os educar. Do mesmo passo educavam o filho adoptivo, que, como é natural, também ia crescendo.
Ao herdeiro do trono eram dispensados cuidados especiais, porque reinar não é coisa fácil; nem de fácil ensinamento ou aprendizagem. Felizmente, o jovem príncipe revelava aptidões de excepção. Todos os Mestres contavam ao rei a sua paixão pelos livros e a sofreguidão da sua curiosidade. Mesmo nas horas de recreio o príncipe se recreava folheando os cartapácios de pergaminho; e a sua cabeça loira dobrava sobre os alfarrábios – tão amorosamente como sobre um seio. Quando tal não sucedia, caía o príncipe numa espécie de alheamento, ou parecia mergulhar em abstracções, meditações, cogitações talvez não muito próprias dos seus verdes anos. Todos os Mestres? Mas não: O Mestre de esgrima, o de equitação e o de dança eram mais reservados nos seus louvores.
Por esse tempo, o velho rei decidiu firmar um tratado de amizade com o rei do reino vizinho. Longos anos se haviam guerreado. Agora, estavam ambos velhos. A proximidade da sepultura restringe as ambições e faz embotar os impulsos bélicos. Nesse tratado ficou assente que a princesa real do tal reino vizinho casaria com o sábio príncipe. Ora a princesa noiva era feia, triste, cega dum olho, e até já falara em se meter freira. Todos lamentaram a sorte do jovem príncipe – assim sacrificado a razões de Estado. O próprio pai algoz o lamentava. Por fim, todos sorriram maliciosamente. Na corte da noiva feia, triste, cega dum olho e mística, havia donzelas e donas muito belas, de que falavam com entusiasmo os embaixadores. Homem experimentado, El-Rei sorriu também e deixou de lamentar o filho.
Só o jovem príncipe parecia indiferente ao que se passava: Era como se nada daquilo houvesse de ser com ele. A sua cabeça loira pendia sobre os alfarrábios – tão amorosamente como sobre um seio. Quando se levantava dos alfarrábios, era para olhar não as estrelas da terra, mas as que cintilam demasiado longe.
Finalmente, deu em fechar-se na sua câmara. Dizia-se que andava a escrever um grande livro. E saía de lá com olhos de cego, um ar quase de estátua, um sorriso alheio, feliz, idiota.
A pedido do rei, um dos seus Mestres ousou, um dia, aconselhá-lo: Sua Alteza não devia abusar do seu grande amor pelos livros. Decerto muito ensinam os livros; mas o trato dos homens também; também as experiências pessoais e vivas.
Aliás, quase perigava a saúde de Sua Alteza nessa vida sem ar que Sua Alteza levava. Convinha que Sua Alteza se prendesse mais aos costumes da corte, aos jogos e folguedos próprios da sua idade, aos acontecimentos do reino que havia de governar. Nisso tomasse exemplo em seu irmão; até naquele que, não sendo seu irmão, mais ou menos fora educado como tal, e tão ladino se mostrava na curiosidade por tudo que à sua volta decorria... O moço príncipe ouvia-o como se o não ouvisse, fitando-o, sem o ver, com os seus esplêndidos olhos de cego.
Nesse mesmo dia, ao fim da tarde, estava-se à mesa, era na rica sala de jantar. O Mestre caiu na imprudência de uma breve alusão ao que de manhã, dissera ao seu educando. Então, o príncipe herdeiro levantou-se e respondeu: «O meu reino não é deste mundo.» Lera isto, num livro que fora de sua mãe. Todos ficaram primeiro atónitos, depois constrangidos. O rei nem repetiu os seus pratos favoritos. Tentou-se falar doutras coisas. E, no dia seguinte, o jovem príncipe herdeiro apareceu morto. Envenenara-se com flores perigosas que havia na estufa.
Estava nu, morria virgem, e tinha sobre o peito o livro que terminara essa noite. Mais tarde se viu que era um grande livro. Claro que houve gritos, espantos, choros, exéquias magníficas, exposição de grandes veludos negros e galões de oiro. A noiva do morto sempre se meteu monja. «Era o que tinha a fazer!» comentou o seu ex-futuro cunhado «Com aquele
olho vesgo...» E começou ele, o irmão gémeo do morto, a ser preparado para o difícil ofício de reinar. Não, não empalidecia este sobre alfarrábios de pergaminho!
Aos catorze anos, já comprometera uma nobre donzela da corte. As formosas donas um pouco ligeiras de costumes (não demais), só as não comprometia por já estarem comprometidas: pelo menos, com os respectivos maridos; pelo menos.
Morrer virgem – não era com este. Como para a sua pessoa se haviam transferido, agora, aquelas particulares atenções que sempre se fixam sobre o herdeiro dum trono, até certos pormenores da sua infância eram agora recordados, repetidos com sorridente complacência: Que, por exemplo, fugia para os jardins nos dias de chuva; e lá davam com ele descalço, patinhando nas poças, ou estendido na relva, a apanhar a água do céu. Ou que se misturava com os rapazes da rua para ir aos ninhos, ou jogar à pedrada. Agora, perdia-se por caçadas. Bailava tão bem que nem parecia um príncipe. Conversava familiarmente com os pajens, os
criados, os vilões. Certas noites, escapulia-se disfarçado para ir correr aventuras.
Às vezes, fazia-se jardineiro: podava roseiras cantando canções da arraia miúda (nem sempre muito decentes) e até chegava a cavar com uma sachola! Dava esmola aos mendigos por sua própria mão. Duma vez, trouxera às costas um miserável que achara desfalecido no caminho. Era moreno, ágil, tinha bons músculos, um esplêndido apetite. E ninguém como ele para divertir as damas com histórias, anedotas, intrigas, mentiras, fantasias, e beliscões à socapa.
Os seus Mestres resolveram limá-lo, podá-lo como fazia ele às roseiras.
Compenetrado do seu papel de futuro rei, deixar-se-ia fazer um rei como se quer. Todos diziam: «Desta vez, temos homem!» Pelo contraste, um certo dó humilhante recaía sobre a memória do irmão suicida...
O príncipe começou a apurar a sua educação intelectual; e, felizmente, o novo herdeiro revelava também aptidões de excepção. Todos os Mestres contavam ao rei a sua paixão pelas coisas e a viveza dos seus pontos de vista. Todos os Mestres?
Mas não: O Mestre de línguas mortas, o de matemáticas e o de protocolo eram mais reservados nos seus louvores.
Por esse tempo, o velho rei decidiu fazer jurar seu filho herdeiro do trono. Estava cansado, e sentia que a vida se lhe ia apagando. Mas, durante as cerimónias, o príncipe herdeiro teve excentricidades, liberdades insólitas, saídas de humor que chegaram a provocar o riso na ilustre assembleia, – pouco dignas da solenidade do acto. De modo que, a pedido do rei, um dos seus Mestres se atreveu a aconselhá-lo: Sua Alteza não devia abusar da originalidade de seus espíritos.
Atitudes há do entendimento, como formas de conduta, porventura apreciáveis em um qualquer; mas nem sempre convenientes num príncipe real. Urgia que Sua Alteza renunciasse a dadas particularidades do seu temperamento, em atenção ao alto papel que fora Deus servido distribuir-lhe... O príncipe ouvia-o sem nada dizer. A expressão do seu rosto é que era ambígua, como respirando uma ironia que nenhum dos seus traços acusava. Nesse mesmo dia, ao fim da tarde, estava-se à mesa, era na rica sala de jantar. O mesmo Mestre falava; embora subtil e indirectamente, continuava a morigerar seu ilustre aluno. Então, o príncipe real
ergueu-se e respondeu: «O meu reino é deste mundo». Não lera isto em parte alguma. Todos ficaram sem compreender, e pouco à vontade. Tratou-se de coisas várias, com uma naturalidade fingida. O rei ergueu-se pouco depois. E, no dia seguinte, o jovem príncipe herdeiro tinha desaparecido do palácio. Em vão se fizeram as mais diligentes e minuciosas inculcas por todo o reino. Correu mais tarde que fugira numa carroça de saltimbancos nómadas.
Claro que houve consternação geral. O rei caiu de cama; já todos temiam que não resistisse a este novo grande golpe. Ele que, durante tantos anos, habilissimamente retivera nas mãos a governação do seu reino tão policiado, tão submetido, tão dirigido, agora se via sem herdeiro natural que lhe sucedesse, e lhe continuasse a obra. Dois filhos legítimos tivera: gémeos e tão diferentes, senhores de extraordinários dons. Ambos como que o haviam renegado, renunciando à herança para que os preparara. E agora já no seu reino tão disciplinado fermentavam pequenos focos de anarquia, ainda pequenos mas que poderiam alastrar. Já as massas pressentiam a senilidade do pulso que tão energicamente as havia refreado.
Neste desconsolo, perdidos os seus dois filhos legítimos, ainda foi o tal adoptivo que principiou a fazer-lhe companhia. Já quase o não podia dispensar o rei. Também o moço parecia não se poder afastar do seu leito. Sempre que lhe era permitido falar, El-Rei conversava com ele. Coisa interessante!, – nessas práticas achava grande prazer. Como se disse, recebera o moço instrução idêntica à dos príncipes, tendo sido educados quase no mesmo pé. Em certos assuntos, porém, que muito eram da especialidade do rei, mostrava uma curiosidade que nenhum dos príncipes mostrara. Na história política do reino, por exemplo; na sua geografia humana; nas suas actuais relações com o estrangeiro; na discussão das suas Leis, etc. E a inteligência que no tratamento destas questões manifestava – áridas, como geralmente são, para jovens – por atrevimento que seja afirmá-lo, não ficava atrás da que noutras haviam manifestado os príncipes. Ora, desaparecidos os dois herdeiros naturais do trono, chegado El-Rei ao último quartel da vida, vários pretendentes ao mesmo disputavam entre si seus direitos. Já, no palácio, fervia a intriga na sombra. Já os pretendentes e partidários rivais se falavam com o sorriso amarelo nos lábios, o verdete do ódio nos corações.
Um ponto único havia, em que todos se entendiam: a malquerença àquele moço que tão visivelmente seduzia o velho rei. Pelos meios de que dispunha cada um, cada um procurava desacreditar no espírito do velho rei o seu jovem amigo. Decerto não passava isto despercebido do jovem. E o resultado foi não ser este, mas eles, que eram pessoas da família real, quem o rei afastou da sua câmara, até do seu paço. Por maquinações do jovem? Sustentavam os escorraçados que sim! e espumavam de raiva e juravam tremendas vinganças futuras, – atribuindo àquele moço uma tão diabólica intuição na intriga que suplantava toda e qualquer experiência.
A ser isto verdade, poderiam quaisquer manejos do moço passar incompreendidos do seu protector? O diabo sabe muito porque é velho; e a debilidade física do rei não se manifestava mentalmente. Dado o que depois se passou, poder-se-á admitir que «a velha raposa astuta» (como depois, lhe chamavam os seus parentes escorraçados) até apreciara o engenho com que o moço ia tentando exautorar, junto do seu real amigo, aqueles grandes senhores que, por seu turno, o procuravam desprestigiar a ele.
Ora o que depois se passou, foi o seguinte: Uma tarde, ao fim da tarde, estavam reunidos na câmara real os importantes da corte. O rei para aí os convocara, pois há algum tempo dava grandes sinais de melhoras. («Ainda não é desta!» lamentavam os seus parentes tornados seus inimigos). E diante de todos, que estavam sumamente intrigados, se dirigiu o rei ao seu jovem protegido, dizendo:
«Tive dois filhos legítimos, que um após outro sonhei me sucedessem. O reino dum não era deste mundo. O do outro era-o por demais. Tu, qual é o teu reino?»
Um silêncio pânico se fez, pois todos achavam estranhíssima esta cena. Talvez o moço hesitasse um momento; não mais que um momento. Logo respondeu: «Que reino pode ser o meu senão o vosso?» Então o rei chamou-o a si, apertou a sua cabeça contra o peito. Como já não podia fugir à sensibilidade dos velhos, teve de fazer um grande esforço para não soluçar. Mais tarde declarou que sempre esse fora, secretamente, o mais amado dos seus filhos, embora filho natural; que esse ia ser perfilhado, jurado herdeiro do trono; e que sem demora ele, rei, resignaria no filho o poder real, pois não só estava cansado, como temia ver-se constrangido a fazer por força o que desde já faria de vontade...
Isto disse ele sorrindo. Olhava complacentemente o filho. Impossível, porém destrinçar até que ponto no seu espírito de velha raposa astuta, esse conhecedor dos homens brincava ou não. E assim se disse, assim se fez. De nada valeram as conspirações dos pretendentes despeitados. Com a satisfação de ter um digno sucessor para o seu reino, o velho rei restabeleceu-se, e ainda pôde viver alguns anos. Morreu de muito avançada idade. Laus Deo.


Há mais Mundos, 1962