26/10/2008

Os parâmetros da vida

A linha da rotina diária necessária à sobrevivência instala-se, passando, por certos eixos e fortificações. Para uns essa linha parece longínqua, quase perdida no horizonte dum grande espaço cheio de liberdade e de caprichosos ricos, os saudáveis, os descuidados -outros sentem-se apertados dentro de muralhas asfixiantes. Sim, poderemos figurar esta questão como uma linha militar de defesas contra o inimigo - a morte. Uma Linha Maginot, que tão factual e foneticamente se revelou imaginária.
Sim, as nossas linhas de sobrevivência são, em boa parte, imaginárias. Deixando a imaginação -por agora, porque ela nunca nos deixa a nós e voltando ao tema que me propus, eu, velho contador de histórias e que disso fiz profissão, quero hoje contar-vos a história dum rapaz cuja linha de sobrevivência era estrita e rigorosa. Assim pensava ele e era, por isso, um rapaz triste. Ou vice-versa. Antes de me adiantar, esclareço ainda uma outra coisa: parecerá estranha, esta história, situada no presente, mas com um sabor antigo nos seus pormenores. Acontece que ela não se passou neste mundo, pelo menos tal como o conhecem, ela teve sua plena realidade e acontecer num mundo ligeiramente lateral àquele que conheceis: um mundo que faz com este, a que chamais vosso, um ângulo de alguns graus inflectido. Ele não está separado deste agora em que vos falo, muito pelo contrário. É um mundo onde uma certa -mas não total -coexistência de passado, presente e até futuro, é possível; um mundo que contém este, que considerais vosso, tão querido e tão absolutamente limitado.
Pois conheci esse rapaz num dia igual a muitos outros. Eu sentara-me na praça, junto à fonte. Era dia de mercado, muita gente passava, muita gente se atardava, bebendo água, refrescando-se no intervalo ou no fim das compras, planeando, contando o dinheiro. Eu estendera o pano preto à minha frente, como sempre faço, um rectângulo nem muito pequeno nem muito grande, que chame a atenção para não ser pisado, mas que não crie também a interrogação hostil dum espaço grande que obrigue ao desvio dos itinerários naturais. Sabedorias que aprendi, com os mestres e com a vida, com o olhar das pessoas. Estas julgam geralmente que o pano preto apenas se destina a recolher as moedas e assim fixam o seu olhar naquele rectângulo, julgando responder inteiramente ao seu apelo com essa esmola para a voz que ouvem com mais ou menos atenção.
Sim, o rectângulo destinava-se à recolha de moedas. Mas, mais do que isso, era um adereço. Tudo necessita duma infra-estrutura. O pano negro era o espaço que separava quem falava e quem escutava. Poderia ser branco, também; vazio intermédio, absorção de todos os possíveis. Para não ser demasiado pomposo direi que o pano rectangular era o necessário ritual.
Eu começara a contar a história dum salteador de estradas que um dia sofrera um grande desastre. Caiu do cavalo, dizia eu, quando uma noite fugia, perseguido por homens indignados. Mais do que indignados, desesperados: o ladrão roubara-os vezes sem conta, empestando os caminhos daquela região; perseguindo o ladrão, eles fugiam da miséria, por isso tinham superado o medo e estavam dispostos à morte, sua ou do ladrão. Este, que conhecia bem todos os caminhos e sítios desertos, embrenhou-se por um córrego na encosta dum fundo precipício. Em baixo corriam águas negras e apenas alguns penhascos e árvores raquíticas separavam o galope do cavalo daquelas águas furiosas. Qualquer coisa espantou o animal. Uma víbora, foi dito depois, mas ninguém viu tal víbora ou seu rasto. Há muitas causas misteriosas neste mundo e não vale a pena determo-nos sobre elas, a não ser quando elas nos chamam e se revelam. O cavalo empinou-se, o ladrão caíu e resvalou quase até ao fundo do precipício. Apenas o susteve um penhasco agudo. A queda salvou-o da morte. Os perseguidores perscrutaram as sombras dos fundos. Decidiram que era impossível procurar o ladrão naquela ravina quase a pique, decidiram que certamente ele tinha morrido; pelo menos não sairia dali com vida, por muito longa que fosse a agonia.
A queda quebrou a perna direita do ladrão, que conseguiu rastejar penosamente ao longo da ravina, alimentando-se de bagas, raízes e até de caules lenhosos, dias e dias, bebendo das águas furiosas do fundo. A perna soldou, torta, irremediavelmente coxa e dolorosa. O ladrão saiu do desfiladeiro, prisão improvisada, magro, sem cavalo, sem aptidão para saltear nas estradas. Caminhou para longe, coxeando.
Chegou a uma aldeia distante e as pessoas juntavam-se à sua volta, com gritos de boas-vindas e hossanas. Admirado, perguntou o que se passava. Reconhecemos-te, responderam-lhe; diz uma velha profecia que um dia chegarias. Pai dos arrependidos, ajudando todos os que querem fugir do mal, coxeando. Ainda perplexo, o ladrão coxo foi acolhido por um alfaiate, que o tornou seu ajudante, considerando uma honra albergar aquele que fora anunciado. O ladrão aceitou tudo isto, pensando nas vantagens imediatas: cama e comida garantidas. Mas com o andar do tempo foi acreditando no significado da sua própria presença ali, foi acreditando na profecia. Como poderia ele, sozinho, pretender desmentir o que fora predito e acontecera? Como várias outras pessoas de similar experiência, o coxo ladrão aceitou os acontecimentos, sua evidência, seu significado, desistindo de opiniões próprias, e foi feliz. Casou com a filha do alfaiate que era feia e dedicada. Teve filhos, herdou o negócio do sogro. Morreu, muitos anos depois, em paz. E antes de morrer, disse aos filhos: aceitem os vossos destinos. O que parece uma desgraça, pode não ser.
Algumas pessoas revoltavam-se com a história, sempre assim aconteceu com as minhas histórias. Achavam injusto que um ladrão morresse feliz e em paz. Outras comoviam-se e diziam que Deus é bom e tudo depende de nós aceitarmos as suas oportunidades. Foi então que se aproximou o rapaz triste. Com um sorriso amargo perguntou-me: achas então que o sofrimento torna as pessoas boas? E eu disse-lhe que não. Nada torna as pessoas boas a não ser elas próprias. A vida dum coxo não é igual à de quem tem duas pernas sãs. Não necessariamente pior, não necessariamente melhor.
Eu chamei-lhe velho idiota e afastei-me. Tinha nascido de pais que, não sendo ricos, viviam desafogadamente, era saudável, tive uma infância feliz. Ainda adolescente, os meus pais morreram. Fui viver com um tio, homem nem bom nem mau, apenas com sentido do dever. O meu tio insistia em contar-me quanto lhe custava alimentar-me, vestir-me, pagar-me alguns estudos. Não sou rico, dizia-me, e tenho dois filhos. Todo o dinheiro que vou conseguindo arranjar reparto entre vocês os três, igualmente. Nada mais acrescentava, e eu sentia aquilo que ele queria que eu sentisse: a injustiça daquela igualdade, à qual ele se sentia obrigado, prejudicando os próprios filhos; a necessidade de que tal injustiça fosse reparada por mim. Mas que poderia eu fazer? A minha existência era, só por si, causa de um desequilíbrio. Resolvi desaparecer, pois que parecia essa a única solução. Fiz planos, sem nada dizer a meu tio ou aos meus primos. Se falasse, eles sentir-se-iam na obrigação de me forçar a ficar. Achariam mesmo que O meu propósito não era ir-me embora, mas obrigá-los a insistir para que ficasse junto deles. A vida tem situações destas, em que as linhas se cruzam e dão situações invertidas, como os raios de luz se cruzam e invertem as imagens. A única solução era eu partir sem nada dizer e deixá-los a lamentar a minha ingratidão na minha ausência: estaria então cumprido o dever deles.
Fiz planos. Mas era muito novo, não tinha experiência de vida nem certeza quanto à forma de ganhar dinheiro. A minha ansiedade tornou-se muito grande e eu adoeci gravemente. O meu tio e os meus primos trataram-me o melhor possível, com grandes sacrifícios económicos. Eu pensava: talvez morra, e achava que seria uma boa solução. Uma forma de cumprir o meu desejo de desaparecer. Em médicos e remédios se gastaram todas as poucas economias do meu tio, e eu não morri. Mas fiquei com uma doença incurável: para sobreviver em condições satisfatórias teria que fazer uma dieta rigorosa e cara. Tenho poucas forças para trabalhar.
Mais algum tempo fiquei com o meu tio e os meus primos, assistindo aos seus óbvios sacrifícios. Sempre rectos, sempre falando dos esforços redobrados a que eram obrigados por minha causa. Até que um dia saí de casa. Deixei-lhes uma carta agradecendo tudo o que haviam feito por mim. Desde aí tenho andado à deriva. Poucos trabalhos sei fazer, poucos trabalhos posso fazer. Como o que calha, durmo onde calha: o meu mal agrava-se de dia para dia. Acho que em breve morrerei. Não sei se é isso que quero, mas também não vejo outra solução. Foi tudo isto o que eu não contei ao velho idiota que contava histórias sobre os benefícios da adversidade.
Fiquei muito impressionado. O medo, ou a infelicidade do rapaz era tal que ele nem se atrevia a dizer o nome da sua doença. Isto acontece com muita frequência entre as pessoas: julgam que, dizendo o nome da doença, esta se julgará chamada e avançará com mais rapidez; ignorando-a, julgam desencorajá-la.
Quando o rapaz se afastou, eu chamei-o, mas ele não me ouviu, ou fingiu que não. À noite encontrei-o na estalagem, e convidei-o para jantar comigo. Reparte comigo o produto das minhas histórias, que tanto te desagradaram, disse-lhe. O rapaz encolheu os ombros e disse que comia pouco, muito pouco. Talvez seja uma vantagem, respondi-lhe. Não é vantagem, é necessidade. Resumindo o nosso estranho diálogo, ele contou-me que comia pouco para que não se agravasse o mal que lhe atacava as entranhas. E que comendo pouco, ficava fraco, e não conseguia trabalhar para ganhar o suficiente para comer os alimentos de que realmente necessitava. Entre o comer pouco para sobreviver e não sobreviver por comer mal, o seu desejo de sobrevivência oscilava. O que quer você afinal? Perguntei-lhe.
Não interessa o que eu quero, mas o que eu posso, respondi-lhe. Aí é que tu te enganas, disse-me o velho, misteriosamente. Podemos sempre tornar pior a sorte, má ou boa, que temos. Sobretudo se insistirmos em nos sentirmos desgraçados. E a nossa conversa acabou aí.
Insisti para que nessa noite o rapaz comesse aquilo de que necessitava. Ele dizia-me não vale a pena, um dia, um jantar, não adianta, e eu insistia que a questão não era essa. Consegui que aceitasse o jantar adequado à sua dieta. No fim, agradeceu-me e eu respondi-lhe que não me devia agradecimentos, nem a mim nem a ninguém, porque as pessoas fazem o que querem. Ele disse que não valia a pena discutir comigo e despediu-se.
Vários meses se passaram sem que eu o visse. De novo eu estava na praça do mercado, desta vez contando a história da mulher que queimara as mãos ao tentar salvar das chamas uma vizinha maldosa que lançara fogo à própria casa --ao tentar fazer um bruxedo contra alguém, diziam; poderia ter sido outra espécie de desespero? A mulher má foi salva e continuou má, ficando mesmo com ódio especial em relação àquela que a salvara. Esta curou-se, ao fim de longo sofrimento: ficou com as mãos feias, mas úteis. Aparentemente tudo ficou na mesma, concluí eu, excepto pelo ódio e pelas mãos feias. Que história tão estúpida, disse uma mulher da assistência. O que quer dizer? Que as boas acções não dão bons resultados?
Quer dizer que os resultados das acções permanecem secretos, disse uma voz no meio da multidão. Era o rapaz, aproximou-se de mim. Eu soube que ele estava curado. Por isso pôde contar-me tudo o que lhe acontecera.
Recordei muitas vezes o que me disseste, e tive medo de piorar ainda a minha sorte. Passei um mau período, até que compreendi que o medo não ajuda a sorte de ninguém. Para fugir do medo comecei a contar histórias: a mim próprio, aos outros.
Contava, por exemplo, a história do menino infeliz, órfão e abandonado que um dia encontra uma benfeitora que o ama perdidamente, que é perdidamente generosa. E depois? Perguntava quem o escutava. Depois viveram felizes para sempre. Depois a benfeitora adoeceu e o rapaz tratou-a com desvelo incomparável. O jovem inventava vários finais para a história, justos e edificantes, mas os seus ouvintes maçavam-se. Percebeu que a reacção dos ouvintes eram o sinal da verdade da história -da falta de verdade; não encontrava final satisfatório. Contou então que o menino cresceu rico e descuidado. Tão descuidado que achava longínquo o perigo, longínqua a necessidade. Comprou um carro de corrida, desenfreadamente o guiava, e matou-se num desastre. Chegou a contar esta história em verso, com acompanhamento musical. As pessoas ficavam então junto dele discutindo o final, indignando-se. O que queres provar, diziam. Que a felicidade não dura, que a riqueza é um mal? Davam-lhe também dinheiro ou comida. Mas como ele comia frugalmente e ficava sentado, quieto e calado, tentando escutar as queixas ou alegrias do seu corpo, atento também às reacções dos outros, tomaram-no por um sábio. Ajustou-se mais ao seu corpo.
Colocava o rectângulo preto à sua frente porque isso lhe recordava o velho -agora grata memória -e lhe facilitava a concentração. Fitando o negro, as palavras surgiam.
Fui visitar meu tio, e beijei-o. Ele comoveu-se muito e chorou abraçado a mim. Entraram então meus primos, que ficaram igualmente contentes por me verem. Que grande alegria deste a nosso pai, diziam. E eu olhava aquelas três criaturas, a quem detestara por me contarem o que faziam por mim, e compreendia quanto eram tímidos e inseguros: apenas haviam temido que eu não os notasse, que eu não notasse a sua dedicação. Queixavam-se porque tinham medo. Medo de não cumprir o que consideravam um dever. Medo da vida. E eu não compreendia como fora possível a minha cegueira. Perdi o medo: se não cuidamos do nosso património de felicidade, certamente que o perderemos, repeti com alegria. A minha doença foi um aviso, e eu reinterpretei toda a minha história.
Resolvi então vir ter contigo. Estava curado: quero dizer, a minha doença já não é uma limitação terrível, é uma coisa que me obriga a uma rotina diária, nem mais nem menos penosa do que comer como todos fazem, ou tomar banho, ou lavar os dentes. Bem vistas as coisas, temos todos uma doença incurável: aproximamo-nos da morte todos os dias, e todos os dias temos de tentar prolongar um pouco mais o nosso trajecto.
O rapaz aprendeu a contar histórias. Tornou-se meu ajudante. Encontrou assim um trabalho de que gostava; naturalmente que esse trabalho estava também dentro das suas forças. Tal como a sua dieta, que lhe parecera tão terrível; tudo passou a ser condição natural da sua existência; as histórias também. Foi a partir daí que as pessoas passaram a acreditar que o rectângulo de pano preto não servia apenas para recolher esmolas, mas que tinha qualidades mágicas. Quando as pessoas tocavam esse rectângulo, deixando uma esmola, esperando um milagre, o rapaz sorria.
É possível que sim: que tenha havido uma cura, e miraculosa. Não é todo o crescimento uma miraculosa cura, do não ser ao ser? É neste mundo de onde vos falo que se situa a fonte dos milagres. Um mundo onde os narradores se misturam, onde todos os espaços, mesmo os mais subjectivos, podem ser visitados, onde o tempo não tem sentido único.
Esta é a minha própria história. Como eu me tornei um contador de histórias, depois de uma infância triste e de uma juventude doentia, juntando-me a um velho sonho.


Maria Isabel Barreno, In O Enviado