05/10/2008

Mau Agoiro

A Canada do Búzio era uma bocarra, um deserto. Não se via vivalma. Só as faias da terra e as do norte vingavam ali entre silvas... – suor de sangue! Escorralho do Rei dos Reis coroado por mangação! O lugarejo molhava as suas abas naquele mar podre e morto, a matutar como um tolo nos penedos da Ponta do Cavalo vigiada dos garajaus – ou então, bravo e alto, fora de suas estribeiras, atirando a espuma às poças.
Era daí que uns pinheiritos – poucos mas bons e baixos como uma quadrilha de ladrões – se atreviam a subir com os braços cheios de pinhas: uns, cornudos e torcidos; outros, esbracejando direitos no meio da lava e dos faiais. Pareciam talhados nos lombos verdes do mar e atirados vivos à costa. O vento carpinteiro levava-lhes a agulha e o cheiro delicado da resina. Vento excomungado, que parecia falar-lhes ao ouvido: «Abriguem-se vocês! Vá... Abaixem-se aí!»
A casa da Cacena ficava plantada neste inferno. A Canada do Búzio parecia uma goela aberta à noite. Vizinhança – nenhuma. Só de verão havia um pouco de alegria e de cor nalguma maçã madura. O mês de Abril começava a consolar quem no via carregado de flores brancas e de botões cor-de-rosa. O pêssego amadurecia tarde, corado duma banda só. A faia do Norte, de casca sardenta, cobria-se de bagas meladas que era um louvar a Deus! Em Setembro as uvas tingiam as pernas dos homens enterrados nos lagares e o vinho esguichava nas dornas, enquanto as cisternas vazias mostravam os fundos cor de telha, e o grilo, nas gretas, era um saudoso namorado. De noite, a lua subia a terraço. De dia, o sol era um rei em seu balcão...
Ah! Mas, dobrado o cabo de Todos-los-Santos e dos Fiéis Defuntos, a casa da Cacena era uma barca à flor do mar das vinhas. Turvava-se tudo. O cebolinho de ao pé do forno ficava de cabelo ceifado: Aqueles casebres mais pareciam fojos de bruxas do que tectos de gente baptizada. Se não fosse algum molho de palha que o Menino Jesus sempre acende, o Inverno era frio como a neve e negro como um tição.
Ora, seriam umas três da manhã (água, se Deus a dava!) quando João se ergueu do quente da enxerga e disse para a velha:
– São horas, minha Mãe! Aqueça-me uma pinga de leite...
A Cacena era uma triste mulher, sozinha neste mundo. O Rei, ou lá quem quer que é que bebe o sangue dos pobres, tirara-lhe o bordão da velhice mandando-lhe o filho às sortes e levando-o para o Castelo. De nada serviram os pedidos ao Doutor, a este e àquele: os cambos de ofertas; os presentes; uma ave ou duas debaixo do lenço, algravitadas, bravas nos corredores. Tempo perdido! O rapaz ficou apurado para caçanha. E então veio a recruta, com madrugadas, frios, muito poucas dispensas... As correias da mochila levaram-lhe uma tira do lombo; as botas do Casão fizeram-lhe um calo de sangue. Enfim, já praça pronta, houve a
peste numónica em Santa Bárbara e ele foi destacado lá para os quintos...
Entretanto a triste Necessidade (a feiticeira!) fazia o seu pé de alferes à porta da casa sem homem. Primeiro, a coivinha atempou; passante disso, morreu a leitoa empachada. E um belo dia, de manhã, um tição de lume queimou as faias da cozedura, o fogo passou-se à copeira, e, emmentes o diabo esfrega um olho (cruzes!), o forro do sótio ardia todo. Acudiu-lhe a vizinhança em peso (ninguém está livre de trabalhos!) e à força de água e de machado salvaram o resto da poisada – seja pelo santo amor-Deus!.
Quando João soube disto, no Castelo, chorou malaguetas curtidas e quase se pôs de joelhos:
– Só uns dias meu promeiro! Foi a casinha que me ardeu... A prove da minha mãe stá pràli sozinha, sem ter quem no ganhe...
Então o Capitão, com pena dele, fez «cantar à Ordem» aqueles três diazinhos «a benefício dos fundos do caldeiro», como se dizia na Peluda. João andou a tirar umas esmolas para ajuda da casa, com dois amigalhaços, como quem pede para toiros. Um deu vinte tábuas de forro; outro, uma mancheia de telha; outro, os barrotes, de amor-Deus. O Niquinha tirou dois dias de obras, e lá levantaram ambos a cozinha, com frechais e asnas novas.
– Que mais quer, minha Mãe? – disse ele, cobrindo a velhota de beijos. – Nem que vossemecê se tornasse agora a casar... Nã l’há-de chover pinga dentro, se Dês quiser!...
E, com efeito, não choveu. Mas vem o caim dum pé de vento, uma noite, e leva de guinda o postigo envidraçado para cima duma riça de silvas.
– Mais fizera a Nosso Senhor Jasu-Cristo! – cramou a Cacena resignada, de mãos postas. E pôs um rolho de trapos no buraco do seu postigo.
Mas desde esse dia reparou que, muito madrugada, mal luzia o buraco, vinha um biquinho esfregar-se melgueiramente no chumaço, e logo, pela calada, três unhinhas de nada riscavam. Aquilo era no batente – ora, se não! O certo era que se não ouvia mais nada senão dali a um pedaço: Umas asinhas miúdas vinham espenujar-se no trapo; uns pios de aflição pareciam picar-nos o juízo como pontinhas de alfinetes.
Era ao azular da hora de alva. No quarto da pobre Cacena, por cima da cama, a telha de vidro ia-se enchendo de flor de anil e azulão, a todo o comprimento; e, assim abaulada, cismava-se no caixão de um pagãozinho que um anjo levava para o céu.
Três dias e três noites a fio a Cacena malucou naquilo. Afinal... – labandeiras!
Eram as labandeiras! São passarinhos brandos de asa, de rabo de forquilha, que às vezes malucam nos caminhos em riba de burgalhaus, e que, ao ouvirem o passo mais à toa, tremem da passarinha, dão duas guinadas de espreita e põem-se ao fresco, todas repatanadas, até encontrarem solidão.
Desde menina que a Cacena com elas vivia e labutava, mas benzendo-se:
– não porque levem bruxedo, mas porque a triste sina se apega adonde elas apontam os biquinhos. A coderniz é pior. Quando Herodes mandou botar o bando e degolar os Inocentes, que José prantou a Senhora mai-lo Menino na burra e abalou para o Egipto, as codernizes, amassadas nos restolhos, davam fé daqueles santos pelingrinos e, voando baixo, toca a chocalheirar:
– «Cá vão eles! Cá vão eles!»
Mas as labandeiras vinham e, com a rabadilha em forquilha, lá iam apagando as passadas do santo carpinteiro e os sinais dos cascos da jumenta. Por isso o Senhor disse à paqueta da coderniz:
– Deixa tu estar, corsaira, que não hás-de pôr pé em ramo verde! E Nossa Senhora apartou as labandeiras para suas galinhas. Mas lá que têm pitafe, têm. Donde lhe vem, não sei. Têm-no co elas…
Agora, de mais a mais viúva e apartada do fi lho, à Cacena pareciam de propósito aquelas andadas dos bicos peneirando-se, salpicando o telhado com as asinhas de rasto, de ponta a ponta do cume.
Uma tarde, estando a cardar lã de ovelha, à porta, deu fé de que uma delas aporfiava na dança. Era um gorgulho de ave, de olho vivo. Bateu-lhe as palmas, de cá; pegou numa pedrinha, uma coisa de nada, e varejou-lha rente. Mas o bicho fez a modo um pouco caso e veio tombando duma asa até lha passar rente à boca.
– Jasus!
Disse isto e, em menos dum amén, o Trigueiro que passa da cidade:
– Boa noite, tia Cacena! O sê João lá deu baixa ò espital.
– Que me dizes?! Ai, s’o mê fi lho me morre!...
– Não se afl ija, serva de Deus! Aquilho não há-de ser nada... Veja mãis é se lhe manda coisa duma quarta de açucre.
Essa noite desceu como um fugido à justiça; as cancelas do céu fecharam-se de repente. A terra fi cou como uma furna negra, sem o mais leve clarão; a escuridão das canadas parecia tinta de escrever. Às vezes, dentro em casa, um vento parecia dançar de porta a porta, que batia, a moda do Pirolito que bate, que bate... Pirolito que já bateu...
Como se lhe tivessem dado com um barrote nos peitos, a Cacena meteu-se para dentro de casa e afundou no xailinho a sua triste cisma. A panela da ceia cantava com água choca e feijões. Em baixo, na pedra do lar, a cinza e a sombra do lume jogavam à Pata-Cega.
Passaram-se quase oito dias – e o Trigueiro sem trazer notícia de alívios do doente. Às vezes, para não ouvir a velha, furtava-lhe a volta e seguia pelo Rebalde até à Praia. A tia Cacena passava as manhãs no trabanaco, sentada a remendar; à tarde engaroupava-se no xailinho e esperava o carteiro à sua porta. Fazia para a ceia coives espernegadas. Daquela boca para baixo não lhe passava oitra coisa.
Enfim, o Natal chegou. Chega sempre. Umas vezes é frio, outras chuva...
Há anos sem uma coisa nem outra – e sempre pobreza! sempre desconsolos e lágrimas em casa de quem nas chora! Também há casas sem vagar nem água para vertê-las; outras são tão alegres ou tão tristes, que nem cara têm de coisíssima nenhuma!
É na maior parte dessas casas que o Menino Jesus reina entre trigos sem terra, e é aí que se come bolo-rei, figo passado, cabaço, canja de galinha...
– Dá Deus nozes a quem nã tem dentes! Ter uma pessoa a mão incarangada a pontos de le custar a apanhar a ponta do xaile se Pele cai, e havê-las senhoronas, que é só chomar a aia que as venha vestir e calçar! Mum grande é o mundo, graces a Deus! E maior ainda a Mezricórdia Devina!
«Quem fosse à Missa do Galo!... Galo? «Qu’é dele os esporães? Caldo de frango nunca fez mal a doente, nem a velha. Mãis o poleiro, deu-le o rato... foi-se toda a ninhada da pedrês. João, que é que tens? João, tu oives! A manta de fi ampua está ali na caixa; queres-ia-a? Nã te dou lençóis de linho, que os nã tenho, meu home! Mãis stá calado, fi lho! Stá caladinho, qu’a mãe vai ò mato e já vem, meu amor! Vamos cozer de tarde, pois... ! Nã te dou pão de milho azedo, discansa! O milho amarelo secou no tirante e na burra estes dois meses, filho! Faço-te um esfregalho... Faço-te um esfregalho...
«E, vai daí, há casas ricas e casas proves. Deus dá o frio cunforme a roipa. Nosso Senhor Jesu-Cristo nasceu em Belém para nos remir e salvar e, vai, Herodes Antipas manda botar o bando: «Que toda a criença nacida por li seja degolada imcuntinente»... Por isso José pegou no bordão, escanchou a Senhora na burra co anjo de Deus ò colo e se largou prò Egito. Dá-me dali o bordãozinho, não oives? João stá pior... Burra na na tenho, mãis tenho pernas. O Egito será no Castelo? Quem tem boca vai a Roma. Só eu incaranguei .
Na Canada do Búzio o Natal desse ano não podia ser mais festejado. As estrelas próprias dum céu limpo e frio brilharam por cima da casinha consertada depois do fogo. Um soldado magro como um cão e de barba de dias deitava a mãe velha e tonta na cama e aquecia-lhe o caldo da panela.


O Mistério do Paço do Milhafre, 1949