27/09/2008

Os sapatos da irmã


O portão da cerca fecha cedo. Enquanto corre os pesados ferrolhos, o guarda do hospital diz à velha que passa o dia no passeio, acocorada atrás do cesto:
- Eh! Parece que pode fechar a porta por hoje...
- Sim -diz a velha. Já não dá mais nada.
Diz isto, tapa os amendoins, as cavacas, os pacotes de queijadas de Sintra, com uma toalha branca, agarra no cesto, no banco («boas noites»), e desaparece vagarosamente pela rua abaixo.
É a hora de maior sossego. As árvores ficam a ramalhar na sombra e no silêncio. O guarda senta-se à porta da sua casa de madeira, do lado de dentro do portão, com o boné de pala de oleado atirado para a nuca, enrolando cigarros muito finos e fumando-os. Pelos varões do gradeamento, vê-se a rua estreita, sem movimento nenhum a esta hora, e, em frente, o carvoeiro onde se pode beber um copo e petiscar qualquer coisa, quando aparecem caras conhecidas.
O guarda volta a cabeça a sondar a escuridão. No grande edifício, nesta e naquela janela, já luzem, frouxamente, as lâmpadas azuis que ficam acesas nas enfermarias durante toda a noite. Quem andará por ali depois de o portão fechar? Pois quem havia de ser?, pensa o guarda, ao reconhecer o filho do enfermeiro Serafim. Apesar da escuridão, vê o jeito tímido do garoto que se aproxima, de cabeça inclinada para o lado e de mãos apertadas.
- Olá, menino Fernando. Então que temos?
Fernando fica parado: a alguns passos, enrolando as mãos uma na outra.
-Senhor Albino, deixa vir a Angelina brincar um bocadinho?
-Diabo -diz o guarda com desagrado, como sempre. Vocês não sabem que não se pode fazer barulho a esta hora?
Fernando estremece. No meio da noite, a voz do velho parece ainda mais grossa e mais seca. Teme estes enormes bigodes, estas mãos de veias salientes, esta grande boca que nunca ri.
-A gente não fazia barulho, senhor Albino.
E, como vê Angelina aparecer à porta de casa, por detrás do pai, arranja coragem para repetir:
-A gente não fazia barulho...
O velho tosse. Olha para o lado. Dá um pouco de saliva no cigarro, que está em perigo de desenrolar-se. Acende um fósforo.
-A gente não fazia barulho, a gente não fazia barulho. Então que é que vossemecês faziam?
Angelina pousa a mão no ombro dele.
- A gente podia brincar sem fazer barulho, pai...
-Cale-se -diz o guarda, sem olhar para ela. Quem lhe pediu conselho? No meu tempo, os filhos, para falarem, pediam licença primeiro, sua bruta.
E depois dum pedaço:
-O seu pai sabe que o menino veio brincar?
-Sabe, sim senhor.
-Rum... -resmunga o guarda. Aí está uma coisa que custa a acreditar.
Fernando encolhe os ombros, resolvido a ir-se embora. Maldito velho! Começa a voltar-se lentamente. O melhor é ir-se embora. Mas ouve o homem dizer, ríspido, a Angelina:
-Eh! Não ouviu que o menino quer brincar?
Então Angelina salta da porta, passa pela frente do pai, agarra a mão de Fernando e desaparecem os dois a correr, nos bicos dos pés, por entre as árvores da cerca.
A esta hora, a cerca são vultos negros que esbracejam brandamente e raros pedaços de claridade que alastram frouxamente pelo chão. Mas Angelina conhece bem estas ruas, estas árvores, estas sombras. Anda por aqui como em casa. E Fernando também. Mas é bom sentir-se protegido pela mão dela. E, mesmo assim, estremece quando uma porta bate do lado do hospital ou uma folha cai. «És um cagarolas», disse-lhe um dia o Bitá. Protestou. Disse que não. Mas lá por dentro concordava: pois sou, tenho medo, não consigo dominar o medo.
-Menino Fernando, a que é que quer brincar?
Já não correm. Um vento suave sacode-lhes os cabelos e entra agradavelmente pelos calções de Fernando e pela saia enfunada de Angelina. Fernando encolhe os ombros:
-Tanto faz.
Mas ela insiste:
-O menino é que diz, a mim tanto se me dá. Então Fernando lembra-se de ver os rapazes do liceu jogarem ao eixo-ribaldeixo-caramelo-ao-pau-do-eixo e diz:
-Quero jogar ao eixo.
Angelina larga-lhe a mão, entusiasmada:
-Ao eixo? Valeu?
-Tu sabes?
-Então não havia de saber?
Mas Fernando emudece. Já não lhe interessa o eixo. Queria qualquer coisa que Angelina ignorasse, qualquer coisa em que pudesse orientar, mandar. Está farto de ser posto à margem no liceu, farto de ser um garoto que nunca sabe nada que os outros não saibam já um medroso, um menino. Aquele ar triunfante com que o Bitá aparece com uma nova brincadeira e a impõe aos outros, aquele ar des-preocupado com que os colegas desfecham na cara dum novo conhecido: «Não chegas para mim, pá, queres experimentar?», nunca ele o teve. Nunca. Fernando tem medo. Não consegue dominar o medo. O Bitá, então, tem a mania de o atirar para a frente dos outros: «Tens medo dele, pá?» Momento angustiante para Fernando. Cora e diz que não, de garganta seca, que não tem medo, não senhor. Mas os outros voltam-lhe as costas com desprezo: «Estás a cortá-las.» Por isso, Fernando espera sempre com ansiedade este pedaço de noite logo a seguir ao jantar. Nem com a Angelina sairá da mó de baixo? Nem com ela poderá tomar, por momentos, a sua desforra?
Caminham pela cerca, no meio das altas árvores, cujos ramos balouçam com um surdo restolhar de folhas.
-Então não vamos ao eixo?
Não. Fernando já não quer ouvir falar no eixo. Para quê procurar por suas mãos uma nova humilhação? Angelina é mais ágil do que ele. É capaz de saltar mais alto e mais longe. Além de que quer falar-lhe daquilo e há-de ser hoje mesmo que há-de falar-lhe daquilo. Estão junto ao muro que dá para a calçada, donde se abrange grande parte da cidade. Do lado de fora, o muro tem quatro ou cinco metros de alto. Mas, do lado de dentro, terá um metro, quando muito. Fernando senta-se e encolhe os ombros.
-Deixa, ficamos aqui a ver isto.
Angelina senta-se a seu lado e diz que está bem, que também ela gosta de ver aquilo. E ali ficam. Calados.
Fernando olha-a de viés. É mais velha do que ele. De dia para ri ia, o seu corpo avoluma sob o vestido curto e remendado. Ainda não há sinais de peito. Mas as ancas apontam airosas e as pernas morenas, embora rijas, são já bem diferentes das dele e dos outros rapazes. Este é o melhor bocado do dia para Fernando. Nesta altura, esquece Bitá, a sua timidez nas aulas, o pai e a irmã, a voz grossa e as mãos de veias salientes do guarda Albino, esquece até que é menos ágil do que a rapariga que tem ao lado, esquece, esquece. Cresce por dentro. E agora tem um segredo. Tem aquilo a dizer.
Olha os joelhos escalavrados de Angelina, sem saber como entrar no assunto. Nos joelhos de Angelina há uma grande ferida já com a crosta mesmo boa de arrancar. Fará um rodeio? Puxará a conversa disfarçadamente? É melhor assim, disfarçadamente, a pouco e pouco. Mas, com medo de se deixar dominar mais uma vez, pergunta precipitadamente:
-Angelina, és capaz de me fazer o que fizeste ao velho?
Angelina, apanhada de surpresa, foge com os olhos para longe. E, como é preciso uma resposta, faz-se desentendida, a ganhar tempo:
-Qual velho?
-O velho da carroça.
-Ah! -exclama Angelina, nada senhora de si. Como é que sabe?
Fernando respira fundo, feliz. Desta vez, apanhou-a. Ri-se da aflição em que a vê.
-Não interessa. Sei.
E aproveitando este momento de triunfo:
-Fazes ou não fazes?
Angelina não responde logo, hesita, com os olhos nas luzes mais distantes da cidade.
- Mas... para que queira o menino?...
Tem-na na mão. Pela primeira vez na vida, tem alguém na mão.
-Ora! -diz ele. Não gostaste?
-Não.
Espanto do rapaz:
-Não?! Então porque é que fizeste?
E agora é Angelina que ri da parvoíce do rapaz.
-Então não vê que foi por via do chocolate?
Fernando apoia-se nas mãos, arrasta o corpo pelo muro, aproxima-se. Está sentado muito perto dela. Diz-lhe quase no ouvido:
-Porque é que foges quando o vês?
A rapariga encolhe os ombros. Que perguntas!
-Tens medo que ele diga ao teu pai
Será possível que ela não saiba nada disto? Será possível que ela não perceba a razão por que o pai não deve saber que fez aquilo e recebeu o chocolate? Pega na mão de Angelina, coloca-a no seu joelho, um joelho de rapaz, magro e ossudo, que infelizmente não tem nenhuma ferida, nem mesmo um arranhão. Há qualquer coisa que pode ensinar-lhe, qualquer coisa em que poderá ser orientador, mandar. Para lá do muro, a cidade estende-se a seus pés, com milhões de pontos luminosos. Como brilham! Será possível que ela não saiba de nada? Fernando cresce e transfigura-se. Aperta a mão de Angelina.
-Escuta, eu vou-te ensinar.
Mas a rapariga tem um risinho trocista.
-Ensinar o quê? Na escola é que se aprende.
E estende o braço:
-Olhe.
Fernando olha as casas lá em baixo, do outro lado do muro. Há telhados enegrecidos pelas chuvas. Aqui e além, uma mancha menos escura de telhas novas. Janelas, janelas, janelas. E, no peitoril dum último andar, entre vasos e roupa estendida, uma mulher gorda com O braço por cima do pescoço dum homem.
-Sabe quem é aquela?
Fernando tenta ver, apesar da distância e da noite. Certifica-se.
-Sei, é a mulher do Cardoso.
-Pois é -diz Angelina, divertida. E ele, é o Cardoso?
-Não.
-Pois não, é o António da loja, que dorme com ela.
-Mentirosa. Quem te disse?
-Ouvi ao meu pai que tinham dito no carvoeiro.
Fernando morde os lábios.
-E onde está o Cardoso?
-Sei lá -diz ela, encolhendo os ombros. Só sei é que ele dorme com ela.
Os milhões de luzes da cidade perdem o brilho de repente. Fernando olha para a rua que fica ao fundo do muro, mesmo por baixo deles, onde um candeeiro aceso é coisa rara e os vultos passam sem se perceber quem são. Um bêbado sobe a calçada aos tombos, para grande satisfação de Angelina: «Ena pai, Que grande perua!»
Nas costas de Fernando, as árvores balouçam. Árvores soturnas. Árvores que fazem medo. Afinal, ela sabe. Nem isto poderá ensinar-lhe. Nem com ela poderá ter a alegria de ensinar qualquer coisa, mesmo que se trate da coisa mais proibida que até hoje conheceu. Todos sabem tudo. Todos podem tudo. Os colegas desprezam-no. O pai bate-lhe. A irmã mete-o a ridículo de manhã à noite. O guarda do portão intimida-o. Angelina é mais ágil do que ele, sabe mais do que ele, sabe tudo. Uma raiva surda, moinhenta, nasce, cresce, invade-o todo. Nesses momentos, falta-lhe apenas a coragem: fugiria para sempre. Angelina olha o bêbado que não consegue chegar ao topo da calçada.
-Que grande perua que o tipo leva.
E depois:
-Então, menino, quer ou não quer brincar?
Mas Fernando encolhe os ombros:
-Daqui a bocado a gente tem de se ir embora.
-Inda é cedo.
-Pois é...
-Que é? Está com cagaço do seu pai?
Silêncio..
-Está com cagaço, bem?
-Estou.
-Ah! -exclama Angelina. Que cagarola!
Então Fernando volta a cabeça bruscamente.
-Se me chamas isso, eu bato-te.
-O menino?!
Fernando olha-a de lado, enquanto ecoa dentro dele aquele espanto, aquela: ofensa, aquela verdadeira bofetada: «O menino?!» Aperta as mãos uma na outra, uma na outra, cheio de raiva por saber que, de facto, não teria força para lhe bater, nem sequer para experimentar. Cerra os dentes e diz-lhe no ouvido, com ódio e lágrimas na voz:
-Se me chamas cagarola, conto ao teu pai que fizeste aquilo ao velho da carroça.
Angelina arregala os olhos. É um golpe inesperado. Cede:
-Isso não, menino Fernando
-Vais ver.
-Isso não, menino Fernando.
É o seu momento. As luzes voltam a brilhar em toda a cidade. É o seu momento. É talvez o seu único momento. Batendo com os punhos no muro, repete, com maldade:
-Vais ver.
Neste momento é um Bitá. Com o ar dominador e inabalável dum Bitá, insiste na ameaça:
-Vais ver, vais ver.

Então Angelina morde os lábios, tem medo também, procura uma saída:
-Escute, menino Fernando...
E ele, batendo no muro:
-Vais ver, vais ver.
-Escute, menino Fernando, se me der uma tablette das de coroa...
Mas, de súbito, põem-se os dois em pé, a olhar um para o outro. É como se todas as luzes e casas da cidade desaparecessem e os ramos das altas árvores crescessem e se imobilizassem, prontas a cair sobre eles. Um grito perfura o silêncio da cerca: «Fernando!» Uma voz grossa, imperiosa, omnipotente: «Fernando!»
-É o senhor Serafim -murmura Angelina, aterrada, como se toda aquela conversa pudesse ter sido ouvida e ela receasse ainda mais o enfermeiro do que o próprio pai.
Pensa nos dois, perante o inimigo comum. Que irão fazer!
Mas, para Fernando, a Angelina já não existe. Já nada existe senão aquele grito. Baixa a cabeça e, sem dizer adeus, vai direito a casa, ouvindo estalar o saibro das áleas sob os sapatos, que lhe pesam como chumbo. Outra vez: «Fernando!» Quanto mais se demorar, pior. Sabe muito bem o que vai acontecer. Encontraram o caderno, com certeza. Não vê as árvores, as luzes azuis do hospital, a casa logo ali. Ah, se ele tivesse coragem, meu Deus, se ele tivesse a força e o desassombro dum Bitá, seria agora mesmo que desapareceria para sempre. Outra vez: «Fernando!»
Então corre e grita, julga que grita:
-Senhor!
Está à porta de casa. Barrando a entrada. com qualquer coisa na mão, o enfermeiro espera-o. O caderno, pensa Fernando. Sabe que é o caderno e sabe muito bem o que vai acontecer.
-Onde andas tu, malandro?
E, com uma bofetada de mão pesada e certeira, aquele vulto imenso e negro, recortado na luz que vem de dentro, fá-lo entrar em casa duma vez. No escuro, mordendo os dedos, Angelina ouve a porta fechar-se e um grito agudo que galga paredes e janelas e vem morrer no silêncio da cerca.
-Bem -disse Serafim, pousando o cinto em cima da mesa. Sabes agora o que fizeste?
Fernando fita o chão, as tábuas esfregadas de fresco, os muitos sinais de pregos em que nunca tinha reparado.
-Sabes agora o que fizeste?
Fernando deixou de perceber o que se passa. Tem dores por todo o corpo, as pálpebras pesam-lhe, a cabeça também. E, apesar disso, continua a fixar as tábuas esfregadas de fresco. Há três grupos de pregos numa tábua ligeiramente mais larga do que as outras. Três ilhas, um pequeno arquipélago. A seguir, dois pregos isolados. Mais adiante, outro grupo de pregos, outra ilha. Mas tábuas e pregos giram lentamente. Lentamente. Vai cair?
-Falas, ou não? -grita o pai, estendendo a mão para a mesa, onde está o cinto. Um dia rebento contigo, estás a ouvir?
A mão parou antes de tocar no cinto. Voltou atrás. Desistiu. Amélia anda em volta deles, colocando pratos no guarda-louça. Arruma os pratos, em cima, na primeira prateleira, e deseja que tudo acabe depressa. A última vez que o pai lhe bateu com o cinto, Fernando perdeu os sentidos e um médico do hospital disse-lhe que um dia podia matar o rapaz e ser chamado à responsabilidade. «Ora essa?», protestou o pai, mal-humorado, «eu ser chamado à responsabilidade?, por educar um filho?» Mas o médico limitou-se a olhá-lo nos olhos: «Sim, senhor, à responsabilidade.» Amélia nunca mais se esqueceu disso. Fecha a porta do armário e aproxima-se.
-Deixe-o, pai, deixe-o já.
-Deixá-lo? -grita o pai. Então quem é que manda aqui?
-Sim -diz Amélia -, está bem, mas lembre-se de que o pai depois é que pode sofrer. Deixe-o, deite-lhe a rédea em cima, lembre-se de que o pai é que ainda pode sofrer.
Então Serafim deixa-se cair numa cadeira, pega no cinto, volta a pô-lo na mesa, cruza os braços, vencido.
-Bonitos tempos estes. Um homem já não pode nem educar um filho.
O ramalhar das árvores da cerca. Os passos de Amélia na cozinha. Os olhos de Fernando desviam-se das tábuas do soalho, dos seus grupos de pregos, arquipélagos, ilhas, procuram, a medo, os do pai. Terá tudo acabado? Está com medo de rebentar comigo, pensa Fernando, quase feliz. Ele também tem medo... E ouve a voz do pai, contrariada:
-Eu a querer fazer dele um homem, eu a querer metê-lo na ordem, eu a gastar o meu dinheiro...
Ele também tem medo... Terá tudo acabado? Mas Serafim irrita-se de novo, a própria voz o excita, brande o caderno no ar.
-Há quantos dias fizeste este exercício?
-Há quinze.
-Há quinze quê?
-Há quinze dias.
-Há quinze dias quê?
-Há quinze dias, senhor.
Ainda levou poucas, pensa Serafim, enervado. Devia ter levado o dobro. Já um homem não pode educar um filho.
-Bem, hoje não te bato mais, mas isto não fica por aqui, estás a ouvir? Não fica por aqui, entendes?
Serafim está de novo em pé. De novo, grita:
-Quantos valores tiveste no exercício, meu velhaco?
Fernando volta a fixar os três grupos de pregos na tábua ligeiramente mais larga do que as outras, os dois pregos isolados a seguir, os outros grupos de pregos, ilhas, pequenos arquipélagos, mais adiante. Conhece bem o pai. Não tarda que a mão grossa e certeira se estenda de novo para o cinto.
-Não ouves? Mas tu não ouves?! Quantos valores tiveste?
-Quatro.
-Quatro quê?
-Quatro valores.
-Quatro valores quê?
-Quatro valores, senhor.
-Mana -diz Fernando humildemente, sentado na beira da cama, a calçar as peúgas. Mana, eu não posso levar estes sapatos.
Amélia abre e fecha as portas do guarda-fato, pendura o tapete à janela, não fala, não responde. O sol vem lá de fora, do mundo livre e imenso, desce por entre as altas árvores da cerca e estende-se por ali dentro até ao pé descalço de Fernando. Os sapatos de Amélia, de presilhas partidas e saltos cambados, uns sapatos que ela deixou de usar há muito tempo, estão mesmo no meio da doce faixa de luz.
-Eu não posso levar estes sapatos, mana. A mana não vê que eu não posso ir assim para o liceu?
Por fim, Amélia volta-se e diz sem o olhar:
-O pai não disse que os levasse para castigo? Então que quer? Quer que eu faça o contrário do que o pai diz que se faça?
-Ó mana! Mas não vê que é impossível? Não vê que não posso ir com estes sapatos?
E começa a chorar.
-São oito e meia - diz Amélia. Se falta à aula, já sabe o que lhe acontece.
Mas Fernando não pára de chorar e de dizer que não pode. Não pode ir com aqueles sapatos. Não pode e não há-de ir.
- Não há-de?...
Então Amélia abana-o todo, por um ombro, para acabar com aquilo depressa.
-Ai, ai, ai, ou vai a bem ou vai a mal.
E, sem perceber como, Fernando sente-se calçado e empurrado, ouve a porta bater, está já no meio da cerca, empoleirado nos sapatos e com a pasta na mão.
Que bela é a cerca àquela hora! Como as folhas são verdes! Das árvores escoa a frescura saborosa dum novo dia que começa. Cabeças de doentes, com gorros brancos, aparecem às janelas do hospital. Espreitam a vida, que continua para cá das vidraças, recordam, esperam. No outro lado da cerca, um homem que empurra uma maca vazia, cujas rodas chiam contra a areia do chão, diz duas palavras preguiçosas a uma mulher de bata azul e touca muito branca que sai duma porta de serviço com um balde.
Deve estar a fazer-se muito tarde. Fernando tenta equilibrar-se nos sapatos, tropeça, aperta a pasta de encontro ao peito. A primeira grande dificuldade está vencida: saiu o portão sem ser visto por ninguém. Desce toda a calçada sem levantar os olhos. Não ver, ao menos, se o vêem. Mas no fim da calçada, na esquina onde há a barraca do agulheiro dos eléctricos, aparece Angelina, que foi ao pão e ao vinho. Que irá ela pensar? Se Angelina o ajudasse, se ela pudesse protegê-lo! Mas a garota dá com os olhos nele e desata a rir como uma louca.
-Que reinadio que o menino vai...parece uma coruja!
-Angelina -diz Fernando com as lágrimas nos olhos -, não faças pouco...
-Foi de castigo?
-Foi, não faças pouco...
-E o menino vai assim para o liceu? -pergunta ela, sem conseguir conter o riso.
-Vou. E tu... vai para o diabo.
E põe-se a andar, tão depressa quanto pode. Desequilibra-se, pára, endireita o sapato, recomeça. Não se volta. Não lhe interessa nada, inteiramente nada, o que Angelina pense. O que lhe interessa é desaparecer depressa daquela rua, evitar as pessoas conhecidas, passar despercebido. Vê nos vidros das montras a sua figura grotesca, de cabelos caídos para os olhos, curvada ao peso da pasta, equilibrando-se com dificuldade: nos saltos dos sapatos. Mas continua. Leva os olhos no chão. Aqui o movimento é muito grande e ele, ninguém. Automóveis, eléctricos, outros pés, outros sapatos, gente livre. Abrem-se as primeiras lojas. Ao barulho das pessoas apressadas e dos carros junta-se o estardalhaço das portas onduladas que correm e o raspar das vassouras dos marçanos nos passeios. Fernando volta uma esquina. E outra. Ainda outra. E, ao atravessar uma ruazinha estreita, mais ou menos solitária, que conduz ao largo do liceu, sente uns dedos no braço.
-Bom dia, pá.
É o Gabriel, seu companheiro de carteira. Que irá acontecer? Mas Gabriel dá-lhe o braço e fala com amizade:
-Foi castigo do teu pai, pá?
Fernando faz que sim com a cabeça.
-Não há direito, pá, é indecente.
Caminham, lado a lado, silenciosos. Ao chegarem ao largo do liceu, Fernando pára, agarrado ao bra-ço do outro.
-Gabriel.
-Anda, pá, não te rales.
-Eles vão fazer troça, Gabriel.
Está lívido. É o momento mais infeliz da sua vida. Antes o pai tivesse continuado a bater-lhe. Antes lhe tivesse dado até matá-lo. Tudo era preferível a aparecer no liceu com sapatos de mulher.
-Vais ver que não - diz o outro, hesitante. Não tenhas medo. Talvez não.
Palavras novas para Fernando. Com que prazer as ouve! Nunca ninguém lhe falou assim. Talvez Gabriel esteja disposto a bater-se por ele. Talvez, juntos, possam fazer frente ao Bitá e aos outros. Os músculos das pernas doem-lhe muito. Afasta em vão os cabelos da testa. E entretanto, chegam. Atravessam a rua, com os olhos nos grupos de rapazes que, encostados ao gradeamento, debaixo das amoreiras e dos plátanos, conversam, riem. Têm sempre conversa. Riem sempre.
-Vais ver que não fazem nada -diz Gabriel.
Mas Bitá, aquele malvado do Bitá, já os viu. Sai do grupo em que estava, aproxima-se com o desembaraço do costume, os livros apertados numa correia, de blusa de malha de seda azul e belas calças à golf, que estão na moda. Pára a alguns metros, a olhar. Depois é o Carlos do terceiro ano que o vê. Depois o António. Depois o Raul. E, a pouco e pouco, todos se viram para Fernando, descobrem com espanto os velhos sapatos de Amélia e ficam-se a olhá-lo, silenciosos. Será possível? Será possível que eles compreendam tudo e não se metam comigo?
Mas é um momento só. Os olhos dos rapazes cruzam-se uns com os outros, indecisos ainda. Que história é aquela? Cotoveladas. Alguém diz: «Que giro que o puto vem.» E começam. Um riso manso, primeiro. Depois o riso sobe, alastra, levando tudo à sua frente. É já uma surriada monstruosa à porta do liceu. Gabriel quer fazê-los parar, levanta os braços. Mas ninguém lhe dá atenção, ninguém o vê, ele próprio sorri contra vontade e acaba por rir, às gargalhadas, do ar grotesco do companheiro de carteira.
Fernando queria fugir, desaparecer dali, voar. Mas, ao contrário, sem saber como, avança um passo. E isto é tão extraordinário que ele mesmo se espanta. Onde estará o Gabriel? Procura-o desespera-damente com os olhos. Gabriel. Gabriel. E, num relance, vê-o no meio dos outros, a rir também, a rir tanto como eles.
-Que bem gozado!
-Eh, maricas!
-Eh, coruja!
Fernando dá outro passo. Tem o Bitá diante de si, com a sua blusa de malha de seda e as suas cal-ças de golf, vermelho de tanto rir. Blusa de seda, pensa Fernando com desprezo. Todo ele é raiva, desespero, vontade de bater, de morder, de vingar-se. Ajeita a pasta na mão, toma balanço e atira-a à cabeça do primeiro. Mas erra o alvo e a pasta cai no chão, a pouca distância dele, levantando terra. A surriada aumenta. Bitá, excitadíssimo, põe-se a gritar:
-Ena, pá, o tipo está teso.
E outras vozes:
-Está, pá, a Fernandinha está com genica.
Fernando olha em volta, procurando. É uma pedra que ele quer, uma pedra pesada e bem esquinada. Abrir a cabeça ao Bitá. Ou, então, ao Gabriel. Àquele bandido do Gabriel. Mas das portas do liceu irrompe o som estridente duma campainha. Um som alegre e prolongado que domina tudo. Os rapazes desinteressam-se de Fernando, pegam nas pastas, enfiam pelas portas. E ele fica a vê-los desaparecer, a ouvir os passos dos últimos que atravessam o pátio. Até que a campainha cessa, se vê completamente só debaixo dos plátanos e resolve sentar-se na beira do passeio, de costas para o edifício, com a pasta nos joelhos.
-Não vens para a aula. Fernando?
A voz de Gabriel. Fernando continua sentado, com os olhos na faixa de rodagem. E como o outro insiste -«Não vens, pá? Olha que apanhas falta» -, responde, sem se voltar:
-Vá para o raio que o parta, seu maricas.
Agora sim, está completamente só. Nenhum ruído atrás dele. Lá dentro, o Dr. Silveira deve ver neste momento quem falta e vai escrever o seu número no livro do ponto. E o Bitá, o Gabriel, os outros todos, devem rir-se ainda dos seus malditos sapatos e da figura ridícula que fez. Que tenho eu a ver com eles? Fatos bonitos, na última moda, pastas novas. São fortes, saudáveis, entendem-se às mil maravilhas uns com os outros. Que tenho eu a ver com eles?
No passeio, a seu lado, estende-se uma sombra longa de mais para ser dum colega. É um contínuo, o Antunes. A sua voz é grave, compreensiva, paternal:
-Ande lá. Já sabe que não pode estar aqui durante as aulas. Venha para dentro.
Mas Fernando já tomou a sua resolução, diz que não vai à aula, que não quer saber da aula para nada.
-Ande lá, eu peço ao professor que lhe tire a falta.
Fernando não responde. Levanta-se, agarrado à sua pasta. Começa a andar.
-Venha cá - insiste o contínuo. Onde é que vai?
Fernando continua, não se volta, dobra a esquina do liceu, atravessa a rua. E outra. E outra. Até Angelina fez troça. E o Gabriel, que bandido!
Quantas ruas já atravessou? A que distância está do liceu? E de casa? Agora chega ao fim duma tra-vessa muito estreita, muito íngreme. E, logo a seguir, enorme e cheio de luz, tem o rio na sua frente. Entre ele e o rio, uma avenida larga. Camiões barulhentos seguem por ali fora, para um lado, para o outro, carregados de fardos, de ferros, de caixotes. Fernando espera que passe esta carroça sonolenta e atravessa também a avenida. Depois, a linha do comboio. Depois, duas ou três ruelas, entre longos barracões que cheiram a peixe e alcatrão. Ágora está mesmo na orla da muralha, junto ao rio. Barcaças ancoradas. Mastros. Velas. E um pensamento diverte-o. O pai é capaz de pôr-lhe o retrato no jornal: DESAPARECIDO -Desapareceu de casa de seu pai o menino Fernando... O nome e o retrato nos jornais. O Bitá há-de vê-lo, o Gabriel, os professores o guarda do hospital, a Angelina. E, ao lembrar-se do pai, vê na sua frente um homem de bata branca, aos gritos, zurzindo-o com o cinto. Ao pensar na irmã, vê aquela cara rancorosa: «Ai, ai, ai, ou vai a bem ou vai a mal.» Ao dizer Angelina, vê uma rapariguinha de expressão trocista: «Que cagarola!» Bitá, um inimigo. Gabriel, um traidor. Que tenho eu a ver com eles?
Rio enorme! Rio imenso e livre! Que profusão de luz! Que milhões de espelhos! Será já meio-dia? Onze e meia? Que lhe interessa? Encostado à muralha, há um grande barco de casco negro. E, na muralha, um guindaste gigante gira sobre si mesmo lentamente, carregando-o de caixotes do tama-nho de casas, com grandes letras negras. New-York. Havre. Liverpool. Outras terras, outra gente, encontrar um amigo, ir num desses caixotes, ir, ir, desaparecer. Entre o barco e o guindaste gigante, camiões rolam e roncam. Apitos. A sereia dum rebocador.
Fernando sente o cheiro da maresia, aspira-o profundamente, vê homens que passam em fila, carre-gando fardos, um guarda fiscal ao longe, vigiando. Só foi pena não ter agarrado a tempo uma pedra pesada e bem esquinada. A brisa afasta-lhe os cabelos da testa. É bom estar aqui, tão perto da água, ouvindo-a bater lá em baixo, contra a muralha, olhando, descobrindo. Um homem e um garoto da sua idade aproximam-se. O homem traz alparcatas. O garoto vem descalço, aos pulinhos para poder acompanhá-lo.
-Estás maluco. Não vês que para isso tínhamos também de comprar pão?
-Então porque não compra sardinhas, pai? Passam por ele sem o verem.
-Sardinhas também não, estão muito magras, não se podem comer sem azeite.
Fernando vê-os agora de costas e já não percebe o que dizem. Depressa os perde de vista, na con-fusão de carroças e camiões que atravancam o cais. Um pai e um filho.
Na pedra da muralha ficaram os sinais dos pés molhados do garoto, que o sol faz desaparecer em poucos minutos. Outro rapaz, também descalço, vem do lado contrário, com duas latas de gasolina na mão, assobiando. E deixa também na pedra as marcas dos pés molhados que o sol depressa apaga.
Fernando senta-se, então, e descalça os sapatos cambadas da irmã. Depois, as meias. Esconde a pasta cuidadosamente atrás duma barrica de cal e põe as meias e os sapatos sobre a pasta. Certifi-ca-se de que ninguém deu por isso e recomeça a andar pela muralha fora. Os pés estranham a dure-za da pedra quentíssima do sol. É bom sentir essa dureza, esse calor. Desapareceu de casa de seu pai...
Na sua frente, cada vez mais perto, cada vez maiores, estão outros barracões, outros cascos enor-mes, outros guindastes, outros garotos descalços. Uns tijolos dos barracões são mais vermelhos do que outros e o sol bate de chapa nas grandes vidraças partidas.


Mário Dionísio, in Dia Cinzento e Outros Contos