13/09/2008

Os meninos dos cabelos de ouro


Este conto de encantar turco fala de duas crianças de cabelos de ouro, filhas do paxá e de uma pobre jovem, a mais nova de três irmãs. As duas irmãs mais velhas tinham sido também levadas para o palácio, depois de os seus desejos serem escutados, mas a sua boa fortuna estragou-as e voltaram para a pobre cabana. A mais nova continuou humilde e boa, mesmo no palácio, e foi ela que deu à luz os meninos dos cabelos de ouro. Tão belos eram os pequeninos, que as duas irmãs mais velhas, invejosas, subornaram uma velha megera para os roubar e se desfazer deles. Mas um velho e bondoso casal encontrou-os e criou-os com a ajuda de uma cabrinha. O que sucedeu às crianças e a maneira como, no fim, o paxá as reencontrou, depois de muitos acontecimentos estranhos e interessantes, proporciona uma boa história de encantar.



Era uma vez uma grande cidade na qual viviam três jovens donzelas, filhas de um pobre lenhador. Do romper ao pôr do Sol e pela noite fora, não faziam outra coisa senão coser e bordar. Quando acabavam os bordados, uma delas ia ao mercado e vendia-os, comprando com o produto obtido o essencial para viverem pobremente.
Ora sucedeu que, um dia, o paxá da cidade se zangou tanto com o povo que, na sua cólera, ordenou que durante três dias e três noites ninguém acendesse uma vela na cidade. Que seria das três pobres irmãs? Não podiam trabalhar às escuras, mas precisavam de trabalhar. Depois de muito pensarem, cobriram a janela com uma grande e espessa cortina, acenderam uma velazinha e sentaram-se a trabalhar, para ganharem o pão de cada dia.
Na terceira noite do castigo, o paxá resolveu percorrer pessoalmente a cidade, para se certificar de que todos obedeciam à sua ordem.
Quis o acaso que parasse defronte da casa das três donzelas e, como a cortina não chegasse bem até ao fundo da janela, visse brilhar luz no intenor. As raparigas, sem suspeitarem do perigo que corriam, contiuaram a coser e a bordar, enquanto conversavam da sua pobre vida.
- Se ao menos o paxá me casasse com o seu cozinheiro-mor, que pratos deliciosos comeria todos os dias! - dizia a mais velha. - Bordaria, para o paxá, uma carpete tão grande que caberiam nela, ao mesmo tempo, todos os seus homens e todos os seus cavalos.
Pois eu - dizia a do meio - gostaria de casar com o encarregado do seu guarda-roupa. Que belos vestidos teria! E faria ao paxá uma tenda tão grande que abrigaria todos os seus cavalos e todos os seus homens.
Eu - declarou a mais nova - só me contentaria com o próprio paxá! Se me tomasse por esposa, dar-lhe-ia dois filhos de cabelos de ouro, um menino e uma menina. Na testa do menino brilharia uma meia-lua e na da menina uma estrela!
O paxá ouviu as palavras das três donzelas e, mal a primeira luz matinal enrubesceu o céu, mandou chamar as três ao palácio, entregou a primogénita ao encarregado da sua copa, a do meio ao seu camareiro-mor e guardou a mais nova para si.
Ao princípio tudo correu bem com as três irmãs, mas depois... A mais velha empanturrou-se com tão bons e suculentos pratos que, chegada a altura de fazer a prometida carpete, a gordura quase não lhe deixava manejar a agulha e o paxá recambiou-a para a cabana do lenhador. Quanto à segunda, depois de ataviada e vestida de ouro e de prata, não se dignou sujar os dedos a fazer tendas e foi fazer companhia à primeira.
E a mais nova? Passados nove messes e dez dias as duas irmãs mais velhas foram ao palácio, para verem se a pobre rapariga cumpria a sua palavra e presenteava o paxá com os dois maravilhosos rebentos. Junto do portão encontraram uma velha e persuadiram-na, com prendas e Prornessas, a interferir, no caso de a irmã cumprir a promessa feita. A velha era a própria filha do demónio e a maldade e a velhacaria eram a sua carne e o seu vinho. Muniu-se de dois cachorrinhos e levou-os para o quarto da jovem futura mãe.
A mulher do paxá deu à luz duas crianças lindas como as estrelas, menino e uma menina. O menino tinha uma meia-lua na testa e a menina uma estrela, de maneira que as trevas transformavam em luz na sua presença. Mas a velha trocou-os pelos cãezinhos e disse ao paxá que a mulher os tivera. O soberano ficou tão furioso que quase teve um ataque, enterrou a pobre mulher no chão, até à cintura, e mandou apregoar na cidade a notícia de que quem passasse por ela lhe devia bater com uma pedra na cabeça.
Quanto à bruxa, levou os dois meninos para muito longe da cidade, colocou-os na margem relvosa de um rio caudaloso e regressou ao palácio muito feliz por se ter saído tão bem do seu terrível trabalho.
Numa cabana perto do local onde as crianças foram abandonadas morava um casal idoso. O marido tinha uma cabra que saía de manhã para pastar e regressava à tarde, para ser mungida, permitindo assim aos velhotes irem vivendo. Um dia, contudo, a velha surpreendeu-se ao verificar que a cabrinha não trazia uma gota de leite. Contou o facto ao marido e disse-lhe que seguisse o animal, para ver se alguém lhes roubava o leite.
No dia seguinte, o velho seguiu a cabra, viu-a ir direita à margem do rio e depois desaparecer atrás de uma árvore. Seguiu-a outra vez, e que imaginam que viu? Na relva jaziam duas crianças de cabelos de ouro, a quem a cabra amamentava! Depois de lhes dar o seu leite balia-lhes docemente e ia pastar. O velho ficou louco de contentamento ao ver as maravilhosas crianças, pois Alá não o abençoara com filhos seus. Pegou-lhes, levou-os para a cabana e entregou-os à mulher. Esta ficou ainda mais alegre que o marido, tomou conta das crianças e criou-as como se fossem suas. A cabrinha amamentava-as todos os dias e depois ia para o pasto.
As duas surpreendentes crianças chegaram à idade de correr montes e vales, de devassar as escuras florestas com a luminosidade dos seus cabelos de ouro. Caçavam animais selvagens, tratavam do gado e ajudavam os velhotes por palavras e obras. O tempo passou, as crianças cresceram ainda mais e o bondoso casal tornou-se muito, muito velho. Enquanto os dos cabelos de ouro se tornavam mais fortes, os dos cabelos de prata enfraqueciam, até que uma manhã não acordaram e o irmão e a irmã se encontraram sós. Choraram e carpiram, mas depressa compreenderam que as lágrimas nada remediavam. Enterraram os velhos pais e a rapariga ficou em casa com a cabrinha, enquanto o irmão ia caçar para arranjar comida.
Um dia, quando caçava animais selvagens na floresta, encontrou o paxá mas nem o filho sabia que ele era seu pai, nem o pai reconheceu o filho. No entanto, no momento em que os seus olhos fitaram o jovem tão maravilhosamente belo, o paxá desejou ardentemente apertá-lo ao peito e ordenou aos que o acompanhavam que lhe perguntassem de onde era.
Um dos cortesãos aproximou-se do rapaz e disse-lhe:
- Abateste aqui muita caça, senhor.
- Alá também criou muita e há bastante para ti e para mim - respondeu-lhe o moço, e deixou-o.
O paxá regressou ao palácio cheio de saudades do rapaz, e, quando os cortesãos lhe perguntaram o que o entristecia, respondeu que vira na floresta um jovem maravilhoso e que o amava tanto que nunca mais teria descanso. O jovem tinha o mesmo cabelo de ouro e a mesma fronte radiosa que sua mulher lhe prometera, acrescentou.
A notícia chegou aos ouvidos da velha bruxa, que ficou cheia de medo. Correu ao rio, viu a casa, espreitou e deparou com uma encantadora menina, linda como a Lua. A jovem perguntou-lhe delicadamente o que queria e a velha não esperou que repetisse a pergunta; mal transpôs o limiar indagou, com palavras doces como o mel, se vivia sozinha.
- Não, avozinha; tenho um irmão. Anda a caçar, de dia, e regressa à tarde a casa.
- Não te aborreces de passar o dia inteiro sem companhia? - perguntou ainda a bruxa.
Mesmo que aborrecesse, que poderia fazer? Tenho de ocupar o tempo o melhor possível.
Diz-me, meu diamantezinho, gostas muito do teu irmão?
- Claro que gosto!
- E ele gosta de ti? Sim, muito.
-Então, minha pequenina, vou dizer-te uma coisa, mas não a revelas a ninguém. Esta tarde, quando o teu irmão regressar a casa, começa a chorar e a lamuriar com todas as tuas forças. Perguntar-te-á o qu tens e não lhe responderás, perguntar-te-á segunda vez e continuas calada, mas quando te perguntar terceira vez dir-lhe-ás queres ficar em casa sozinha e que, se gosta de ti, vá ao jardim da rainha dos peris e te traga um ramo encantador, como nunca viste outro igual.
A rapariga prometeu que assim faria e a velha foi-se embora. À tardinha, a donzela começou a chorar e a lamentar-se até ter os olhos vermelhos. Ao chegar a casa, o irmão ficou surpreendido com o estado de desespero em que a encontrou e prometeu-lhe toda a relva dos campos e todas as árvores das florestas se lhe dissesse o que tinha. Depois de a ouvir, o jovem dos cabelos de ouro prometeu satisfazer o desejo do seu coração e, de manhãzinha, pôs-se a caminho do jardim da rainha das fadas. Andou, andou, à procura das fronteiras do reino encantado, atravessou desertos por onde caravana alguma jamais passara, escalou montanhas que ave alguma jamais sobrevoaria, percorreu vales pelos quais serpente alguma jamais rastejaria, mas tinha confiança em Alá e continuou a andar sempre, até que chegou a um imenso deserto que olhos humanos nunca tinham visto nem pés humanos pisado. No meio dele erguia-se um belo palácio e na berma da estrada sentava-se a mãe dos demónios, à volta da qual o ar estava impregnado de enxofre.
O jovem foi direito a ela, abraçou-a, beijou-lhe a mão e saudou-a:
- Bons-dias, mãezinha.
- Bons-dias, filhinho! - respondeu-lhe a mãe dos demónios. Se não me tivesses chamado mãezinha e não me houvesses beijado a mão, ter-te-ia devorado imediatamente. Mas dize-me, filhinho, aonde vais?
O rapaz respondeu-lhe desejar um ramo do jardim da rainha dos peris.
- Quem te pôs essas palavras na boca, filhinho? - perguntou-lhe a mulher, cheia de espanto. - Centenas e centenas de talismãs guardam esse jardim e centenas de almas já lá pereceram.
Mas o jovem não hesitou:
- Só poderei morrer uma vez.
- Se teimares nesse desejo não tardarás ajuntar-te à tua mãe, inocentemente enterrada - replicou-lhe a velha, que o mandou sentar ao seu lado, lhe contou o destino da sua mãe e lhe ensinou o caminho para o jardim encantado: - Parte ao nascer do dia e não pares enquanto não vires na tua frente um poço e uma floresta. Dispara as tuas setas para essa floresta e apanha de cinco a dez pássaros, mas apanha-os vivos. Leva-os ao poço e, depois de recitares duas vezes uma ece mergulha-os no poço e pede, a gritar, uma chave. Do poço lançar-te-ão imediatamente uma chave, apanha-a e segue o teu caminho, p uco depois encontrarás uma grande caverna cuja porta abrirás com tua chave e, assim que entrares, estende o braço direito para as trevas interiores, agarra aquilo em que a tua mão tocar, puxa-o depressa para fora e atira outra vez a chave. Mas tem cuidado, nunca olhes para trás, pois se o fizeres Alá não terá piedade da tua alma.
No dia seguinte, quando a aurora enrubescia o céu, o jovem pôs-se a caminho, apanhou os pássaros na floresta, apoderou-se da chave, abriu a porta da caverna e - ó Alá! - estendeu a mão direita, agarrou qualquer coisa e, sem olhar uma única vez para trás, arrastou-a todo o caminho até à cabana da irmã, parando apenas quando lá chegou. Só então os seus olhos viram o que trouxera: um ramo do jardim da rainha dos peris. E que ramo! Estava cheio de rebentozinhos, os rebentozinhos cheios de folhinhas, em cada folhinha havia um passarinho e cada passarinho trinava a sua melodia. Que música maravilhosa! Toda a cabana se encheu de alegria.
No dia seguinte o jovem foi caçar, como de costume, e enquanto perseguia as feras da floresta o paxá voltou a vê-lo. Trocou umas palavras com o jovem e regressou ao palácio, mais doente que nunca de saudades do filho.
Entretanto, a velha bruxa voltou à cabana e encontrou a donzela com o ramo mágico na mão.
- Que te disse eu, minha filha? - declarou. - Mas isso ainda não é nada. Se o teu irmão te trouxesse o espelho da rainha dos peris, Alá sabe que deitarias fora esse ramo. Não deixes de o atormentar enquanto não to for buscar.
Mal a bruxa saíra, a donzela começou a chorar e a lamentar-se, deixando o irmão sem saber que fazer para a consolar. A rapariga acabou por lhe falar no espelho e o jovem procurou imediatamente a mãe dos demónios e suplicou-lhe com tanto desespero que o ajudasse que ela não teve coragem de lhe recusar o que queria.
Estás decidido a ir para debaixo da terra, fazer companhia à tua mãe, inocentemente sepultada - declarou -, pois não foram centenas, mas milhares de almas humanas que pereceram ao tentar obter o que pretendes.
Ensinou-lhe depois que caminho devia seguir e o que devia fazer, e o jovem partiu. Muniu-se de um bordão de ferro, calçou sandálias de ferro e andou, andou, até chegar a duas portas, tal qual como a mãe dos demónios lhe dissera. Uma das portas estava aberta e a outra fechada. O jovem fechou a aberta e abriu a fechada, e encontrou à sua frente outra porta. Junto desta encontravam-se um leão e um carneiro, e o leão tinha erva à sua frente e o carneiro tinha carne. O moço pegou na carne e pô-la diante do leão e pegou na erva e pô-la diante do carneiro, e os animais deixaram-no entrar sem lhe fazerem mal. Encontrou ainda outra porta e junto dela dois fornos, um com lume aceso e outro com cinzas amodorradas. Apagou o primeiro e espevitou as cinzas do outro, até arderem de novo, e em seguida transpôs a porta e entrou no jardim dos peris e, daí, no palácio. Apoderou-se do espelho encantado e apressou-se a fugir com ele, mas ao chegar aos fornos uma voz estentórea gritou de tal maneira que fez tremer a terra e o céu.
- Forno aceso, apanha-o, apanha-o! - ordenou a voz.
- Não posso - respondeu o primeiro forno -, pois ele apagou-me!
O outro forno estava agradecido ao rapaz por o ter espertado e, por isso, deixou-o passar.
- Leão, leão, esfrangalha-o! - gritou a voz poderosa das profundezas do palácio, quando o moço chegou junto dos dois animais.
- Não o apanho, pois serviu-me uma boa refeição - respondeu o leão.
E o carneiro também não lhe fez mal, pois ele dera-lhe erva.
- Porta aberta, não o deixes passar! - gritou a voz do interior do palácio.
- Isso é que deixo, pois se ele não me tivesse aberto ainda estaria fechada! - respondeu a porta.
Assim, o rapaz dos cabelos de ouro não tardou a chegar a casa, para grande alegria da irmã. Esta agarrou no espelho, olhou-o e - louvado seja Alá! - viu nele o mundo inteiro. A jovem não pensou mais no ramo encantado, pois os seus olhos estavam presos ao espelho.
De novo o irmão foi caçar e de novo avistou o paxá, mas este terceiro encontro comoveu tanto o soberano que tiveram de o levar, meio inconsciente, para o palácio.
A velha bruxa compreendeu muito bem o que se passava, procurou a donzela e encheu-lhe a cabecinha tonta com tantas histórias, que convenceu a não dar descanso ao irmão, nem de noite nem de dia, enquanto não lhe levasse a própria rainha dos peris.
«Isso perdê-lo-á!», pensou a velha, mas a jovem ficou tão entusiasmada com a ideia de possuir também a rainha dos peris que, na sua impaciência, mal pôde esperar pelo regresso do irmão.
Quando este chegou, chorou tanto que mais parecia uma nuvem a verter chuva. Em vão o moço tentou demonstrar-lhe como era longo e perigoso o caminho que o pretendia obrigar a percorrer; ela respondia-lhe sempre:
- Quero a rainha dos peris e hei-de tê-la!
Mais uma vez o jovem se pôs a caminho e mais uma vez procurou a mãe dos demónios.
- Oh, minha mãe! - exclamou. - Ajuda-me nesta terrível provação!
A mãe dos demónios ficou surpreendida com a sua coragem e tentou tudo para o dissuadir do seu propósito, pois todas as almas humanas que empreendiam tal aventura tinham por força de morrer.
- Morrerei se assim tiver de ser, mãezinha, mas não voltarei sem ela! - afirmou o rapaz.
Que podia a mãe dos demónios fazer senão ensinar-lhe o caminho?
- Segue pela mesma estrada que te conduziu ao ramo - disse-lhe
- e depois continua até onde encontraste o espelho. Chegarás por fim a um grande deserto e, a seguir ao deserto, verás duas estradas. Não olhes nem para a direita nem para a esquerda, segue a direito pelas trevas que ficam entre elas. Quando começar a clarear um pouco verás um grande bosque de ciprestes e, nele, um grande túmulo. Nesse túmulo encontram-se, transformados em pedra, todos aqueles que alguma vez desejaram a rainha dos peris. Não pares, continua a andar até encontrares o palácio da rainha e chama-a com toda a força dos teus pulmões. O que te acontecerá depois disso nem eu própria sei.
No dia seguinte o moço dos cabelos de ouro iniciou a viagem. Orou junto do poço, abriu todas as portas que encontrou e, sem olhar para a direita nem para a esquerda, seguiu a direito, nas trevas. Pouco depois começou a clarear e encontrou o grande bosque de ciprestes. As copas das árvores eram de um verde escaldante e as suas copas pendentes ocultavam túmulos de uma brancura de neve... Não, não eram túmulos, mas pedras do tamanho de homens... Não, não eram pedras, mas homens que se haviam transformado em pedra. Não se via homem nem espírito e não havia ruído nem sopro de brisa, e o jovem sei lou de terror até à medula dos ossos. No entanto, encheu-se de coral gem e seguiu o seu caminho, sempre a olhar em frente, com os olhos, quase cegos por uma luz ofuscante. Seria o Sol?
Não se tratava do Sol, mas do palácio da rainha dos peris! O jovem reuniu toda a força que lhe restava e gritou o seu nome, e ainda as palavras não lhe haviam morrido nos lábios quando o seu corpo se transformou em pedra até aos joelhos. Gritou de novo com todas as suas forças e transformou-se em pedra até ao ventre. Gritou pela última vez e tornou-se pedra primeiro até à garganta e depois até à cabeça, e acabou por se transformar numa pedra tumular, como os outros.
A rainha dos peris desceu então ao jardim. Tinha sandálias de prata nos pés e um prato de ouro na mão, tirou água de uma fonte de diamantes e espargiu com ela o jovem transformado em pedra, devolvendo-lhe vida e movimento.
- Não te chegou levares-me o meu ramo e o meu espelho encantado, tiveste de te arriscar uma terceira vez? - perguntou-lhe. - Partilharás o destino da tua mãe inocentemente sepultada, em pedra te tornarás e pedra continuarás. Porque vieste? Fala!
- Vim buscar-te - respondeu-lhe o jovem, corajosamente.
- Bem, como o teu amor por mim é tão extraordinário, nenhum mal te acontecerá e partiremos juntos.
O jovem suplicou-lhe então que se compadecesse de todos os homens que transformara em pedra e os devolvesse à vida. A rainha regressou ao palácio, reuniu a bagagem, que era pequena em peso, mas de valor incalculável, encheu o prato de ouro de água, salpicou com ela todas as pedras e todas se transformaram em homens. Montaram por fim a cavalo e quando partiram do reino encantado a terra e o céu tremeram, como se sete mundos e sete céus se fundissem, e o jovem teria morrido de medo se a rainha não estivesse a seu lado. Sem olharem uma única vez para trás, galoparam até chegarem a casa da irmã do moço dos cabelos de ouro, e foi tão grande a alegria do reencontro que mal tiveram tempo de pensar na rainha dos peris. Mas agora o jovem não tinha muito desejo de sair de casa para caçar, pois dera o coração à encantadora rainha dos peris e ela era sua e ele seu.
Uma manhã, depois de ouvir a história dos irmãos e dos seus pais doptivos e o destino da sua inocente mãe, a rainha das fadas disse ao rapaz:
- Vai caçar na floresta, onde encontrarás o paxá. A pnmeira coisa que ele fará será convidar-te para o palácio, mas não aceites o convite.
E assim aconteceu, de facto. Mal chegara à floresta, o paxá apareceu-lhe na frente e, palavra puxa palavra, convidou o jovem a visitar o seu palácio, mas ele recusou.
Na manhã seguinte, muito cedo, a rainha dos peris acordou e pediu aos irmãos que chamassem o seu conselheiro. Os jovens bateram palmas e imediatamente surgiu na sua frente um enorme génio, tão grande que um dos seus lábios tocava no céu e o outro na terra.
- Que desejas de mim, minha sultana? - gritou o génio.
- Traz-me aqui o cavalo de meu pai - ordenou-lhe a fada.
O génio desapareceu como um furacão e, pouco depois, surgiu um cavalo como não podia haver no mundo outro igual. O jovem saltou-lhe para a garupa e encontrou a esplêndida comitiva do paxá a esperá-lo na estrada. Antes de partir, a rainha dos peris dissera-lhe que prestasse atenção enquanto estivesse no palácio do paxá e se apressasse a regressar assim que ouvisse o cavalo relinchar.
O jovem foi, pois, visitar o paxá no seu corcel com rédeas de diamantes, seguido de alegre e luzido séquito. Saudou o povo para a direita e para a esquerda, durante todo o caminho, e, no palácio receberam-no com uma pompa nunca vista. Comeram, beberam e divertiram-se tanto que o paxá não cabia em si de feliz, mas de súbito o cavalo relinchou e o jovem levantou-se e nada o convenceu a não partir imediatamente. Montou, convidou o paxá a visitá-lo no dia seguinte e regressou para junto da fada e da irmã.
Entretanto, a rainha dos peris desenterrou a mãe dos jovens e, graÇas às suas artes mágicas, devolveu-a à vida, tal como era na sua juventude. Mas a rainha dos peris não disse à mãe uma palavra acerca dos filhos nem aos filhos uma palavra acerca da mãe.
Na manhã em que receberiam o paxá, levantou-se cedo e ordenou que no lugar da cabana se erguesse um palácio como nunca se vira outro assim e no qual se amontoariam tantas pedras preciosas como as existentes em todo o reino. E o jardim que cercava o palácio? Oh, maravilha! Havia inúmeras flores, todas maravilhosamente belas, e em cada flor uma ave canora cujas penas refulgiam de luz, de tão grande beleza que todos a admiravam de boca aberta e suspiravam. Quanto ao palácio, estava cheio de gente para tudo o que era preciso: escravas do harém, jovens cativos, bailarinas, cantoras e tocadoras de instrumentos de corda - enfim, um nunca mais acabar. Não há palavras que exprimam o esplendor do séquito que foi receber o paxá.
«Estes jovens não são de nascimento mortal!», pensou o soberano quando viu tantas maravilhas. «Ou, se são, uma fada os deve ter ajudado.»
O paxá foi conduzido ao melhor aposento do palácio, as criadas serviram-lhe café e sumos de frutas e depois falou-lhe a voz da música e o canto das aves, um canto tão maravilhoso que apeteceria ficar a ouvi-lo a vida inteira. Serviram-lhe a seguir ricas carnes em pratos preciosos e raros, e bailarinas, e ilusionistas divertiram-no até cair a noite.
Depois surgiram servos que se curvaram diante do paxá e lhe disseram:
- A paz seja contigo, meu senhor! Esperam-te no harém.
O paxá entrou no harém e viu o jovem dos cabelos de ouro e bela meia-lua a brilhar-lhe na fronte, com a sua noiva, a rainha dos peris, assim como a sua própria esposa, a sultana, que estivera enterrada todos aqueles anos, e a seu lado uma donzela de cabelos de ouro, com uma estrela a brilhar na testa. O paxá ficou petrificado, mas a esposa correu para ele e beijou-lhe a fímbria do manto, e a rainha dos peris começou a contar-lhe como tudo acontecera.
O monarca julgou morrer de alegria, quase incapaz de acreditar nos seus sentidos ao apertar a mulher ao peito e ao abraçar os seus dois belos filhos e a rainha dos peris. Perdoou às irmãs da sultana, mas a velha bruxa foi impiedosamente destruída.
O paxá, a sultana, o filho, a filha e a rainha dos peris sentaram-se à mesa de um grande banquete e divertiram-se muito. Festejaram durante quarenta dias e quarenta noites e a bênção de Alá caiu sobre eles.


Pearl Buck, Histórias Maravilhosas do Oriente